Algumas semanas atrás, a Priscila estava em uma padaria quando viu chegar uma menina numa bicicleta com alforges, com aquele jeito de quem adotou a bicicleta como estilo de vida. Puxou assunto e a conversa fluiu naturalmente, como sempre acontece com quem usa a bicicleta.
Marici é bibliotecária e usa a bicicleta para tudo, principalmente para ir ao trabalho. Há algum tempo, ela registrou em um blog sua experiência em usar a bicicleta para se deslocar de sua casa, na Aclimação, a bibliotecas de diversos bairros.
O mais interessante desse registro são as fotos, que mostram uma cidade que o paulistano “médio” não repara. Visões de quem tem tempo para parar, admirar, fotografar, conversar. Enfim, coisas que motorista não vê.
Não, isso não é na Europa. É a Igreja do Pari, em São Paulo Foto: Marici Slavec
Cicloviagem
Marici está agora fazendo uma cicloviagem pela Europa, ao longo do Rio Danúbio. A viagem está sendo publicada neste blog.
Sim, isso é na Europa. É um castelo em Sigmaringen, na Alemanha. Foto: Marici Slavec
No texto anterior, comentei que ainda voltaria ao “Pão de Açúcar Verde”, a loja da V. Clementino, em São Paulo, em busca do bicicletário perdido, já que na visita anterior não havia conseguido encontrar a plaquinha bonita que o site deles mostra, tampouco a área do estacionamento reservada para bicicletas.
Pois bem, achei o bicicletário. Ou melhor: não achei não. Nem o bicicletário nem a plaquinha bonita, que pelo jeito colocaram no site só para vender a imagem verde da loja.
O que encontrei foram esses paraciclos, quase escondidos atrás de um cavalete publicitário, do lado de fora da loja, sem segurança alguma. E com uma placa pequena, mas bastante antipática, que diz que a segurança da bicicleta ali estacionada é “de única e exclusiva responsabilidade do usuário”. Usuário, porque cliente é quem chega de carro.
O Pão de Açúcar diz no site que o bicicletário é “para incentivar as atitudes ecologicamente corretas”. Mas por que eu iria de bicicleta num lugar que me diz isso aí que eu li na placa? É um desincentivo! Se a pessoa está cogitando deixar o carro em casa para ir ao mercado de bicicleta, quando ler essa placa vai resolver continuar indo de carro mesmo, porque a bicicleta fica ali desprotegida e alguém pode roubar… O carro fica protegidinho ali na garagem. E, se por uma infelicidade improvável for roubado, o estacionamento tem seguro. Pra quê ir de bicicleta?
Paraciclos assim largados, do lado de fora, com uma placa “se roubarem o problema é teu”, oferecem praticamente a mesma segurança do poste em frente à loja. Um bicicletário precisa ser um estacionamento de bicicletas com algum nível de restrição de acesso, com alguma garantia mínima de segurança. Do modo como estão esses paraciclos, é fácil alguém passando na rua “se interessar” por uma das bicicletas e ir até lá tentar a sorte com a tranca.
Para os automóveis que estacionam no subsolo, há seguro, um ticket para liberar a cancela e um segurança na porta do estacionamento, garantindo a tranquilidade dos clientes durante as compras. Já os usuários, que se virem se o seu veículo for roubado. Veículo? Não, ‘magina, é só uma bicicleta mesmo…
Lei nº 14.266, de 6 de fevereiro de 2007
Art. 8º Os terminais e estações de transferência do SITP, os edifícios públicos, as indústrias, escolas, centros de compras, condomínios, parques e outros locais de grande afluxo de pessoas deverão possuir locais para estacionamento de bicicletas, bicicletários e paraciclos como parte da infra-estrutura de apoio a esse modal de transporte.
Outa coisa que chama bastante atenção nesse cartaz é a frase “gentileza Pão de Açúcar a seus clientes”. Mas como assim, gentileza? Disponibilizar um bicicletário não é nenhuma gentileza, é lei!
E não encontrei mesmo a placa bonitinha e verde que vi no site. Também não encontrei um mercado com ação tão ecológica quanto a do discurso, no que diz respeito ao incentivo ao uso de veículos não poluentes. Até aí não seria nenhuma surpresa, se não anunciassem isso no site como um dos pontos fortes da “loja verde”, dando a impressão de ter uma infraestrutura diferenciada para quem chega à loja de bicicleta.
É bonito uma empresa dizer que apóia a bicicleta. Fica bem na imprensa, melhora a imagem, gera comentários positivos de quem acha bicicleta bonitinho mas não se aventura a utilizá-la. Mas a prática tem que bater com o discurso: ciclista não é idiota e sabe quando está sendo levado a sério e quando está só sendo usado para agregar valor à imagem da marca.
Sugestão ao Pão de Açúcar
Façam um bicicletário como o do Extra Itaim, hipermercado do mesmo grupo, que possui uma área separada para bicicletas dentro do estacionamento, com um vigia que entrega/recolhe um ticket de estacionamento. Conheçam o bicicletário do Shopping Ibirapuera, que pede RG e dá uma senha. Vejam como é simples o processo para estacionar nos bicicletários do Use Bike.
Não deixem que a concorrência passe a frente de vocês, tratando o ciclista como cliente e não como usuário de paraciclo. Eu vou no mercado fazer compras, não vou para usar um paraciclo! E se o lugar não quer me receber, eu procuro outro lugar e pronto. Nem que seja um que pelo menos não tente me iludir.
Entendam melhor o que é um bicicletário antes de sairem dizendo que têm um e vendendo isso como um diferencial verde da loja. O diferencial pode acabar se mostrando negativo se não for implementado de verdade. Se querem dizer que incentivam o uso de um meio de transporte não poluente e sustentável, que o façam de verdade. Senão pega mal.
Ponto a favor
Para não dizerem que eu só reclamo, uma coisa tenho que reconhecer: o modelo do paraciclo é ótimo. Não é aquele que oferece risco de entortar roda e câmbio. Nesse, você apóia a bicicleta e tranca da maneira que achar mais adequada. E com esse modelo dá para colocar seis bicicletas num espaço bem pequeno. Prendendo várias juntas com a mesma tranca, cabem bem mais. Tudo usando um espaço equivalente a uma única vaga de automóvel.
Podia estar no subsolo, com a mesma segurança oferecida aos automóveis. E não ocuparia muito espaço.
Como continuidade ao assunto anterior aqui do Vá de Bike, que tratava do roubo de uma bicicleta dentro do estacionamento de um supermercado e da falta de tato (para dizer o mínimo) com que a cliente foi tratada pelos funcionários, publico a resposta que recebi do grupo Pão de Açúcar:
O Pão de Açúcar se desculpa pelo ocorrido e informa que já está aprovada a instalação de um bicicletário. Em contato com a cliente, a gerencia da loja se desculpou e irá atendê-la em sua solicitação.
31/05/2010
Apesar da resposta curta e sem detalhamento algum, soube através da Luciana, a cliente, que na sexta-feira mesmo uma funcionária da Casa do Cliente – uma espécie de departamento de ombudsman do Grupo Pão de Açúcar – entrou em contato prometendo resolver o problema o mais rápido possível. A funcionária disse que conversou com a gerência da loja, falando inclusive sobre o comportamento dos funcionários frente ao caso. A empresa vai repor a perda da Luciana, dando a ela uma bicicleta igualzinha à que foi furtada.
Espero sobretudo que tenham esclarecido aos funcionários que um cliente que chega de bicicleta tem o mesmo valor que quem chega de carro. Da maneira que Luciana foi tratada, ela poderia muito bem processar a empresa por danos morais.
Bicicletário
Prometeram instalar um bicicletário na loja onde ocorreu o problema. Só espero que esse bicicletário seja de verdade.
Foto: Divulgação
Quando tratei do assunto no post anterior, ilustrei a matéria com a foto de uma placa indicativa de bicicletário, que você pode ver novamente ao lado. Essa foto está no site “Pão de Açúcar Verde”. Pois bem: passei hoje na tal “loja verde” da Vila Clementino e procurei por essa placa.
Não encontrei nenhum bicicletário nos dois andares de garagem. Perguntei a um funcionário do estacionamento que, muito simpático, me disse que o lugar para parar bicicletas seria junto com as motos, no estacionamento de baixo.
Sem nenhuma indicação e sem motos estacionadas naquele momento, demorei um pouco para encontrar o lugar. Quando encontrei, vi que não havia nenhum suporte para apoiar ou prender uma bicicleta, só uma parede nua e as faixas estreitas no chão demarcando as vagas das motos.
Perguntei ao segurança que estava junto à cancela de saída se não havia um local apropriado para estacionar a bicicleta. Também muito solícito, ele respondeu havia um local lá fora, mas que eu poderia deixar a bicicleta por ali mesmo que ele daria uma olhada para mim. Ao sair, não vi nenhum bicicletário do lado de fora. E, mesmo que houvesse, o lado de fora da loja ofereceria a mesma segurança que prender a bicicleta num poste.
Me recuso a acreditar que tenham publicado no site uma foto de algo que não existe. Não é possível que tenham tamanha cara de pau, que o falso apoio à bicicleta para demonstrar “sintonia com os novos tempos” ou seja lá o que for possa chegar nesse nível. Por isso, pretendo voltar lá em algum momento, em busca do bicicletário perdido.
Sim, sou um otimista incorrigível. E se alguém resolver passar por lá nesse meio tempo, conte aqui como foi.
Uma das grandes dificuldades para o uso da bicicleta em uma cidade como São Paulo, que privilegia o uso do automóvel em detrimento de todas as outras formas de locomoção, é ter um lugar seguro para estacionar a bicicleta. Quando muito, conseguimos um cantinho escondido, onde não ocupe em hipótese alguma o espaço de quem chega de carro, muitas vezes atrapalhando quem passa a pé. E temos que torcer para a bicicleta estar ali quando voltarmos.
Luciana estava tão habituada a ir de bicicleta a uma mesma loja do supermercado Pão de Açúcar que já nem se preocupava. Por prender sua bicicleta sempre ao lado da guarita dos seguranças, ficava tranquila, acreditando que ela estaria segura ali. Cliente assídua da loja, fez isso diariamente por dois anos, até que um dia sua bicicleta novinha foi levada. Simplesmente evaporou. Ninguém sabe, ninguém viu e ainda tentaram convencê-la de que ela estaria “confusa” e não teria ido de bicicleta naquele dia.
Cadê o bicicletário?
Bicicletário no Pão de Açúcar da V. Clementino, em São Paulo. Infelizmente, ainda uma exceção.
Foto: Divulgação
O supermercado que diz ter “responsabilidade socioambiental” e “respeito e entendimento ao próximo” não se esforça muito em entender os clientes que usam a bicicleta para ir ao supermercado. Apesar do discurso verde e social, raras são as lojas que disponibilizam local adequado para estacionar e prender uma bicicleta. A impressão que nós ciclistas temos é que a rede tem interesse apenas em receber cilentes que cheguem de carro.
A Lei Municipal 14.266 da cidade de São Paulo diz, em seu artigo 8o, que “centros de compras e outros locais de grande afluxo de pessoas deverão possuir locais para estacionamento de bicicletas, bicicletários e paraciclos”. Essa lei, dificilmente cumprida nessa cidade, também é ignorada pela rede de supermercados Pão de Açúcar, mesmo com seu posicionamento “socioambiental”.
Seguro
Como agravante, a lei que obriga seguro em estacionamentos contempla apenas veículos de passeio. Bicicletas, motos e até mesmo utilitários ficam de fora. Com isso, um furto de algum desses veículos se torna um transtorno enorme para o proprietário, que é obrigado a entrar na justiça para conseguir seu direito de ressarcimento do bem. E se o bem é uma bicicleta, relativamente barata, as custas do processo e o aconselhamento de um advogado podem custar mais do que o prejuízo causado pelo ladrão.
Mas cabe aqui um parênteses para uma boa notícia, que merecia até uma matéria à parte mas vou contar aqui mesmo: foi aprovado na Câmara Municipal de São Paulo um Projeto de Lei que prevê a ampliação da cobertura de seguro contra roubos em estacionamentos, cobrindo também as bicicletas. Falta apenas a sanção da Prefeitura.
Disso derivam dois resultados positivos: casos como o da Luciana passam a ter solução mais rápida e, ao menos em tese, estacionamentos comuns passarão a se interessar em receber bicicletas, pois o maior impedimento alegado pelos proprietários de estacionamentos seria a falta de cobertura do seguro, implicando para o proprietário o risco de arcar integralmente com o prejuízo de um furto.
Desdobramentos
Durante a produção desta matéria, procurei a empresa para obter um posicionamento quanto ao caso. Encaminhei a eles o depoimento da Luciana, que depois disso certamente circulou dentro da empresa. No final da tarde de hoje me pediram um contato da cliente, para conversar diretamente com ela sobre o assunto. Quando consegui receber um e-mail da Luciana, soube através dela mesma que nesse meio tempo a empresa já havia entrado em contato para negociar uma solução.
Luciana, que usa a bicicleta para levar o filho na escola, fazer compras, atender clientes de suas aulas de inglês e se deslocar para onde mais for preciso, estava bastante indignada e frustrada com a maneira como a empresa vinha tratando o caso, como vocês podem acompanhar no depoimento dela em seu blog. Depois do contato de hoje, está mais otimista.
Diferentemente da mídia tradicional, o Vá de Bike vai acompanhar essa história e contar a vocês como ela termina. Esperamos que acabe bem, para que a ciclista tenha de volta a parte de sua vida que lhe foi subtraída e para que a empresa consiga reverter essa situação constrangedora para sua imagem de marca. Este site mantém aberto o espaço para a resposta da empresa, entendendo que a melhor resposta até o momento foi a ação de contato com a cliente.
E que o Grupo Pão de Açúcar finalmente perceba que ciclistas também são clientes, consomem, gastam seu dinheiro nas lojas da rede e merecem o mesmo respeito do cidadão que chega com sua SUV importada, ocupando sozinho uma área de estacionamento onde caberiam dez outros que usem a bicicleta.
Numa cidade onde ainda poucas empresas recebem bem quem chega de bicicleta, esse pode ser um belo diferencial para a empresa, fidelizando clientes que seriam conquistados pela emoção ao serem bem recebidos. Mas é preciso se aproveitar o timing. Fica a dica.
Ghost Bikes são bicicletas brancas instaladas em locais de acidentes fatais com ciclistas, como um memorial em homenagem a quem perdeu a vida para a pressa de alguém. Também têm o objetivo de lembrar o que aconteceu ali para que a morte não caia no esquecimento e não seja considerada apenas um inconveniente temporário ao trânsito de uma tarde qualquer.
As Ghost Bikes servem como um alerta aos donos de veículos automotores, para que tomem mais cuidado com as vidas que pedalam bicicletas pelas ruas. A ação é realizada em várias cidades de todo o mundo e também no Brasil. Aqui em São Paulo, já foram instaladas quatro Ghost Bikes (veja quadro no final da página). Pude participar da instalação de três delas, uma das quais em homenagem a uma amiga, a Márcia Prado.
Com esse mesmo espírito, uma equipe de Nova Iorque está preparando um documentário sobre as Bicicletas Brancas ao redor do mundo, para sensibilizar sobre a consequência da falta de infraestrutura e de apoio ao uso da bicicleta nas grandes cidades. A equipe já passou esse ano por São Paulo e pedalou com a Bicicletada daqui. Também coletarão imagens de San Francisco, Chicago, Seattle, Portland e Londres. Assista ao trailer.
Apoio
Produções independentes como essa, feitas com a cara e a coragem de quem tem um ideal de mundo melhor, costumam ter dificuldade em captar recursos. Por isso, os autores criaram uma página na internet para arrecadar fundos para pagar os custos com equipamento, equipe e gastos de viagem.
Qualquer pessoa pode colaborar, com um valor mínimo de UM DÓLAR. Basta ter um cartão de crédito internacional. A transação é segura, garantida pela Amazon. Claro que se você doar mais de um dólar eles não vão reclamar. Pelo contrário: doando US$ 5 você tem acesso a uma área restrita do site para acompanhar a produção de perto e ver trechos dos vídeos que serão editados. Com US$15 você recebe uma cópia do documentário por download quando estiver pronto, com US$25 um DVD e, dependendo do valor da doação, pode até aparecer nos créditos do filme. Mas a maior recompensa é, sem dúvida, ter ajudado a divulgar essa mensagem pelo mundo afora.
Atualizado em 16/08/2010: A equipe conseguiu arrecadar até mais fundos do que precisava para completar a produção, graças a pessoas comuns no mundo inteiro que colaboraram com pequenas quantias. Logo ouviremos falar desse filme. A quem colaborou, muito obrigado.
As Ghost Bikes de São Paulo
A primeira Ghost Bike foi instalada no final de 2007, na Av. Luis Carlos Berrini, um dos principais eixos comerciais e de negócios da cidade. Foi retirada em poucos dias (acredito que tenha sido retirada até no dia seguinte). Ficava em um bairro nobre, em frente a um banco de luxo e não foi bem compreendida. Era feia, ruim para os negócios. Sumiu rapidamente.
A segunda Ghost Bike foi instalada em homenagem à nossa amiga Márcia Prado, assassinada por um motorista de ônibus em janeiro de 2009. A bicicleta branca encontra-se até hoje na Av. Paulista, no que se tornou um memorial onde ciclistas frequentemente ainda prestam suas homenagens. Márcia era muito querida na Bicicletada e é sempre lembrada por todos nós.
Márcia Prado foi homenageada com a criação de uma Rota Cicloturística com seu nome, ligando São Paulo e o litoral. Essa rota teve uma abertura experimental no início desse ano e está em vias de ser tornar oficial, aberta permanentemente. Hoje os ciclistas não têm nenhuma opção para chegar ao litoral, são totalmente proibidos, uma violação de direitos flagrante e impune. A Ecovias, concessionária que se acha dona das rodovias que levam à baixada santista, não permite o tráfego de bicicletas, impedindo a passagem de ciclistas com apoio da Polícia Rodoviária e até, pasmem, da Artesp, justificando que “não é seguro”. Não é, mas deveria ser. E a Ecovias não faz nada para torná-lo seguro. Afinal, ciclista não paga pedágio, que se danem seus direitos.
A terceira Ghost Bike foi instalada em novembro de 2009, em homenagem ao ciclista Fernando Martins Couto e ao gari Antônio Ribeiro. Para incluir o gari na homenagem, foi afixada uma vassoura de varrição de rua junto à bicicleta. Ambos estavam conversando na calçada, aguardando para realizar a travessia, quando foram “colhidos” por um ônibus em alta velocidade. Na instalação dessa Ghost Bike / Ghost Broom, estavam presentes ciclistas, garis, familiares da vítima e bastante gente que passava pelo local. Essa bicicleta branca também continua lá até hoje.
A quarta Ghost Bike, em homenagem a Manoel Pereira Torres, foi instalada em março de 2010. Seu Manoel, um senhor de 53 anos que usava a bicicleta para ir ao trabalho, atravessava na faixa, com o sinal aberto para os pedestres. Um motociclista vindo em alta velocidade pela pista do ônibus, com o sinal fechado para ele, atingiu Seu Manoel e o arremessou contra o semáforo, a três metros de altura. Sua bicicleta foi lançada contra o poste de aço e dobrou ao meio, tal a força da colisão. Os familiares não foram encontrados a tempo para a homenagem, que foi realizada por vários ciclistas. Um deles carregou a bicicleta branca nas costas por todo o percurso da Praça do Ciclista até a Av. Vereador José Diniz, onde ela foi instalada e ainda permanece, em local alto e visível.
Ônibus com suporte para
bicicletas em São Paulo
Foto: Luis F. Gallo,
via Flickr do CBNSP
Em Bagé, serviço já entrou em operação
Na cidade de Bagé (RS), um ônibus com um rack dianteiro para carregar duas bicicletas por vez já está em operação desde o início dessa semana. A reportagem diz que leva apenas 15 segundos para prender a bicicleta no rack.
O gerente da empresa acha que o ciclista vai embarcar nesse ônibus para ir passear na ciclovia: “de repente, as pessoas querem ir pedalar na ciclovia e pegam o ônibus para chegar até lá”. Afinal, é pra isso que serve ciclovia, né? E é pra isso que as pessoas usam bicicleta: pra passear na ciclovia… Apesar de bem intencionado, ele ainda vê a questão por detrás do parabrisa do carro.
Já o trabalhador que usa a bicicleta foi mais realista: “O pneu da minha bicicleta fura muito. Agora, é só botar no suporte do ônibus, não preciso ir empurrando até em casa.”
Em São Paulo, testes no próximo fim de semana
Na capital paulista, sistema semelhante começará a ser testado no dia 17. Segundo a SPTrans, prender a bicicleta no rack é uma operação que deve levar cerca de um minuto. Ela será então travada pelo motorista, para evitar roubos.
As linhas que participarão do teste não foram divulgadas. O serviço funcionará “apenas aos finais de semana e em poucas linhas que passem por parques”. Claro, afinal é para isso que serve bicicleta: para pedalar dentro de parque no final de semana…
Uso maior da bicicleta é para trabalho
Segundo dados da Abraciclo, cerca de 77% das bicicletas utilizadas por adultos são usadas como meio de transporte. Sem contar que as que são utilizadas para lazer muitas vezes passam meses encostadas sem circular.
E a pesquisa Origem/Destino realizada pelo Metrô-SP em 2007 mostrou que 70% das 304 mil viagens diárias de bicicleta eram para ir ao trabalho. O uso para lazer foi declarado em apenas 4% das respostas.
Por isso é mais do que pertinente a frase do André Pasqualini, do Instituto CicloBR, na matéria do Estadão: “os testes deveriam ser feitos com quem utiliza as bicicletas para trabalhar, que é a maioria dos deslocamentos”.
Hoje foi instalada mais uma Ghost Bike na cidade de São Paulo.
A Ghost Bike foi carregada bravamente nas costas, da Praça do Ciclista até a Av. Vereador José Diniz, pelo nosso amigo “Bike Urbanity”.
Quando chegamos ao local, vi essa pixação em um muro bem perto de onde seria colocada a Ghost Bike. Ela parece já estar ali faz algum tempo, mas é extremamente pertinente: um dos questionamentos propostos com esse tipo de ação é o conformismo e a indiferença em relação à vida humana, que se tornou bem menos importante que fazer o tráfego dessa cidade fluir.
A faixa de pedestres onde foi morto o “seu” Manoel agora também é um conjunto de velas em sua memória. Ao fundo, vê-se a Ghost Bike pendurada no poste.
Depois de pendurada a Ghost Bike, teve início a sinalização de solo. Tudo foi feito rapidamente, de forma segura. Houve até a preocupação de não impactar muito a sagrada fluidez da manhã do sábado. Os motoristas nem chamaram a polícia, vejam só…
Ao término da pintura em uma faixa de rolamento, o fluxo de automotores era liberado por vários minutos para que tudo fluísse normalmente. Depois que a maré de carros baixava, os trabalhos eram reiniciados, já na faixa seguinte.
“Devagar, Vidas” – ou “Vidas, Devagar”, como queiram. Ao fundo, a Ghost Bike pendurada bem no alto, bem visível. Espero que a subprefeitura de Santo Amaro tenha a decência de permitir que ela continue ali.
E assim foi colocada mais uma Ghost Bike nessa cidade, em memória do Sr. Manoel Pereira Torres. Bem visível, flutuando aos céus, essa Ghost Bike vai estimular a curiosidade de quem não sabe o que aconteceu e a memória de quem soube do ocorrido.
O motociclista que causou a morte (porque chamar de acidente seria muito eufemismo), passou em alta velocidade pela pista do ônibus, com o sinal fechado para ele, em uma travessia de pedestres. Seu Manoel, que atravessava na faixa com sua bicicleta, com o sinal aberto para os pedestres, foi arremessado contra o semáforo, a três metros de altura. Sua bicicleta foi lançada contra o poste de aço e dobrou ao meio, tal a força da colisão.
Segundo o relato de uma testemunha com quem pude conversar hoje, seu Manoel teve óbito imediato. Já o motociclista foi relativamente protegido pelo peso e velocidade de sua motocicleta. Ficou desorientado, sentado no chão por um bom tempo. O veículo do resgate chegou, mas só pôde levar o motociclista: seu Manoel foi levado pelo rabecão, que chegou bem mais tarde, depois do trabalho da perícia.
Mesmo com o local parcialmente interditado por horas, não encontrei uma única notícia nos jornais, muito menos na tevê. Afinal, seu Manoel era apenas um porteiro, que ia para o trabalho de bicicleta e morava em uma favela. Ninguém com quem a classe média se preocupe. Ninguém com quem a CET se preocupe.
Quando levado pelo resgate, o motociclista foi acompanhado pela Polícia Militar. De acordo com uma segunda fonte, ele será indiciado por homicídio culposo, ou seja, sem intenção de matar. Para mim, alguém que passa em alta velocidade em um sinal fechado com pedestres atravessando tem (ou deveria ter) consciência do risco que está assumindo; portanto o homicídio deveria ser considerado doloso.
A travessia de pedestres no local
Depois de vários minutos para os automóveis passarem, o sinal de pedestres abre e fecha rapidamente. Isso não acontece apenas nesse local, mas em praticamente todas as travessias de pedestre semaforizadas da cidade de São Paulo. Para piorar, em algumas avenidas o pedestre é obrigado a fazer TRÊS travessias, cada qual com uma longa espera até nova abertura de semáforo. Em casos extremos, o tempo para atravessar uma avenida pode chegar a 10 minutos.
Uma pessoa com restrição de mobilidade terá que fazer a travessia dessa avenida em duas etapas. E ainda corre o risco de ser atropelada por um veículo furando o sinal vermelho e em alta velocidade.
As outras Ghost Bikes de São Paulo
A primeira Ghost Bike foi instalada no final de 2007, na Av. Luis Carlos Berrini, um dos principais eixos comerciais e de negócios da cidade. Foi retirada em poucos dias (acredito que tenha sido retirada até no dia seguinte). Ficava em um bairro nobre, em frente a um banco de luxo e não foi bem compreendida. Era feia, ruim para os negócios. Sumiu rapidamente.
A segunda Ghost Bike foi instalada em homenagem à nossa amiga Márcia Prado, assassinada por um motorista de ônibus em janeiro de 2009. A bicicleta branca encontra-se até hoje na Av. Paulista, no que se tornou um memorial onde ciclistas frequentemente ainda prestam suas homenagens. Márcia era muito querida na Bicicletada e é sempre lembrada por todos nós.
Márcia Prado foi homenageada com a criação de uma Rota Cicloturística com seu nome, ligando São Paulo e o litoral. Essa rota teve uma abertura experimental no início desse ano e está em vias de ser tornar oficial, aberta permanentemente. Hoje os ciclistas não têm nenhuma opção para chegar ao litoral, são totalmente proibidos, uma violação de direitos flagrante e impune. A Ecovias, concessionária que se acha dona das rodovias que levam à baixada santista, não permite o tráfego de bicicletas, impedindo a passagem de ciclistas com apoio da Polícia Rodoviária e até, pasmem, da Artesp, justificando que “não é seguro”. Não é, mas deveria ser. E a Ecovias não faz nada para torná-lo seguro. Afinal, ciclista não paga pedágio, que se danem seus direitos.
A terceira Ghost Bike foi instalada em novembro de 2009, em homenagem ao ciclista Fernando Martins Couto e ao gari Antônio Ribeiro. Para incluir o gari na homenagem, foi afixada uma vassoura de varrição de rua junto à bicicleta. Ambos estavam conversando na calçada, aguardando para realizar a travessia, quando foram “colhidos” por um ônibus em alta velocidade. Na instalação dessa Ghost Bike / Ghost Broom, estavam presentes ciclistas, garis, familiares da vítima e bastante gente que passava pelo local. Essa bicicleta branca também continua lá até hoje.
Que não sejam necessárias mais Ghost Bikes! Mas, enquanto forem, faremos o possível para que essas mortes lamentáveis não sejam em vão. É necessária uma conscientização urgente do poder público, especialmente da CET, da SIURB, da Secretaria de Transportes do Município. Não adianta fazer vista grossa: o ciclista existe, faz parte do trânsito, trafega por todas as regiões da cidade o dia todo, tem o mesmo direito de se deslocar que os donos de automóveis e motocicletas. E o mesmo direito de chegar vivo em casa no final do dia.
Era pra ter uma ciclovia!
Na Av. Vereador José Diniz circulam muitos ciclistas. Como as avenidas Águas Espraiadas Roberto Marinho e Vicente Rao ficam em vales profundos, a José Diniz torna-se a melhor opção. Principalmente no trecho onde ocorreu o acidente, pois atravessar a avenida que passa ali por baixo usando ruas alternativas resulta em uma volta enorme. Enquanto estávamos lá hoje pudemos ver vários ciclistas passando, de todos os tipos: adolescentes passeando, gente simples com roupa de trabalho, bicicletas cargueiras e até esportistas com suas bicicletas caras.
Quando a avenida foi reformada, o projeto da “Nova Avenida Vereador José Diniz” contemplava uma ciclovia. Segundo Cleber Ricci Anderson, ciclista e cicloativista que possui uma loja na região, a ciclovia foi simplesmente “esquecida” pelas autoridades da época. Quando cobrados, garantiram a construção de outra, como “compensação”, em uma rua paralela à avenida nova.
Agora pergunto: onde está a ciclovia de “compensação”. E, como bem colocou o Cleber, quem vai “compensar” a morte do Sr. Manoel? E o risco que outros ciclistas correm sem a ciclovia prometida?
Ignorar a presença do ciclista nas ruas é condenar muitos deles à morte
Matar indiretamente, sem ter que olhar nos olhos da vítima, não pesa na consciência e permite dormir à noite. A política de priorizar o fluxo de veículos motorizados em relação à vida, relegando a segurança de pedestres e ciclistas a um segundo plano (talvez terceiro, quarto, décimo) resulta em mortes. Um ciclista por semana e um pedestre por dia são mortos por máquinas em movimento, que têm sua sagrada fluidez como prioridade total nessa cidade.
A mensagem abaixo foi enviada essa semana pelo Cleber Anderson e explica a situação por mim:
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Infelizmente, ontem, sábado – 20 de março de 2010, por volta das 15h, Manoel Pereira Torres, um senhor ciclista de 53 anos que usava todos os dias sua bicicleta para sair da Favela da Paz em Interlagos até o Itaim onde trabalhava como porteiro na R. Joaquim Floriano, atravessava a rua na faixa de pedestres depois que o farol abriu para ele, quando foi atingido violentamente por uma moto que vinha a toda velocidade pela faixa dos ônibus na Avenida Vereador José Diniz, sentido centro bairro um pouco antes do início do Clube Banespa. A velocidade que a moto passava foi tanta que arremessou o corpo do Sr. Manoel contra o semáforo a uma altura de 3 metros. Sua bicicleta, arremessada contra o poste de aço, dobrou ao meio.
A ironia é que no projeto da Nova Avenida Vereador José Diniz deveria constar uma ciclovia, que simplesmente foi “esquecida” pelas autoridades da época. Depois de cobrados, ficaram de construir outra de “compensação”, paralela à avenida nova. Nela circulam muitos ciclistas que, devido à aclividade da região, encontram ali uma boa forma de atravessar as avenidas Água Espraiada e Vicente Rao, que ficam em vales profundos.
Quem vai “compensar” a morte do Sr. Manoel e o risco que outros ciclistas correm sem a ciclovia prometida?
Cleber Ricci Anderson
pessoalmente presenciou o corpo do Sr. Manoel
e sua bike dobrada ao meio
A notícia não saiu nos jornais. Afinal, “seu” Manoel era só um porteiro, morava numa favela. Fosse alguém de classe média alta, teríamos sabido pela imprensa e não por uma testemunha. Fosse um participante do Big Brother, um ator de novela, um empresário ou um jogador de futebol conhecido, haveria comoção nacional. Mas seu Manoel, ora… era só um Manoel qualquer, não é mesmo? Mais um que entra para as estatísticas de pelo menos um ciclista morto por semana, por assassinos que trafegam em alta velocidade, ou por outros que acreditam poder adestrar os ciclistas a pedalar na calçada colocando em risco suas vidas com uma “fina” que pode ser fatal.
Ciclistas se unirão amanhã, sábado 27, para instalar no local do acidente assassinato uma bicicleta branca, conhecida como Ghost Bike. Para que a morte do seu Manoel não seja só um incômodo ao trânsito, para que o poder público acorde e veja que a política de omissão tem seu preço em vidas, para que a CET pare de aceitar trocar vidas por fluidez, para que todos vejam que a vida de qualquer cidadão tem o mesmo valor.
A massa se reunirá na Praça do Ciclista, às 9 da manhã, para se dirigir até Av. Vereador José Diniz, altura do número 1750, para realizar a instalação. Será uma manifestação pacífica, democrática, cidadã e importante para conscientizar as pessoas – e principalmente o poder público – sobre a importância de uma cidade mais humana, que valorize mais a vida das pessoas do que a velocidade com que as máquinas podem trafegar. A homenagem será feita por volta das 11h, caso você queira se dirigir diretamente até o local.
Compareça ao ato, com ou sem bicicleta. Mesmo de carro você será bem vindo. Esperamos que com isso a Subprefeitura de Santo Amaro se sensibilize para a necessidade de uma ciclofaixa ou ciclovia no local, de sinalização protegendo o ciclista na região. Não adianta fazer vista grossa: o ciclista existe, faz parte do trânsito, trafega por todas as regiões da cidade o dia todo, tem o mesmo direito de se deslocar do que os donos de automóveis e motocicletas e o mesmo direito de chegar vivo em casa no final do dia.
Fazer vista grossa para a existência do ciclista nas vias da cidade é condenar muitos deles à morte. Vamos acordar, prefeitura. Vamos acordar, CET. Matar indiretamente, sem ter que olhar nos olhos da vítima, não pesa na consciência e permite dormir à noite. Decisões que priorizam o fluxo de veículos motorizados em detrimento da segurança de pedestres e ciclistas resultam em mortes, pensem nisso.
Saiba Mais
Veja no mapa onde será a instalação da Ghost Bike nesse sábado
A Ciclovia Rio Pinheiros tem um potencial enorme como alternativa de mobilidade na cidade. O deslocamento de bicicleta se dá ainda mais rápido que o usual, pela topografia totalmente plana e pela ausência de cruzamentos e semáforos. E protegendo o ciclista dos automóveis, a viagem se torna bastante segura, mesmo para quem está começando. Se tivéssemos ciclovias nas duas marginais então, teríamos acesso fácil, rápido e seguro a boa parte da cidade.
Entretanto, o que temos por enquanto é apenas uma ciclovia de lazer, que não ajudará praticamente nada nos deslocamentos do tipo commuting, como ir ao trabalho, à escola, à casa da namorada: ela funciona das 6 às 18h, devido à falta de iluminação, e com apenas dois acessos, distantes 14km um do outro e sem nenhuma saída no caminho. Se você não mora próximo a um acesso e não trabalha perto do outro, dificilmente conseguirá colocar a ciclovia na sua rota. E, ainda que consiga, ela estará fechada quando você precisar voltar para casa depois do trabalho.
O mais óbvio, barato, eficiente e correto seria termos acessos às pontes que cruzam o rio. Os ciclistas geralmente chegam à Marginal por alguma avenida que acaba cruzando o rio por uma ponte; havendo nessa ponte um acesso para descer à ciclovia, problema resolvido, tanto para quem está do lado “de cá” do rio quanto para quem está do outro lado.
Acessos distantes das pontes fariam o ciclista pedalar por um trecho de Marginal até encontrar um acesso, sendo mal recebidos pelos motoristas. Além disso, os acessos nas pontes integrariam a ciclovia ao viário, permitindo captar e distribuir os ciclistas ao longo de sua extensão.
A CPTM está estudando a questão e já está sensibilizada quanto a essa carência. Mas enquanto isso, a ciclovia nem ajuda a proteger os ciclistas que já utilizam a marginal diariamente e nem incentiva as pessoas a trocarem o carro pela bicicleta. Poucos poderão utilizá-la em seus deslocamentos cotidianos e ela servirá mesmo ao lazer nesse primeiro momento.
Não dá para colocar a ciclovia ali e esperar que as pessoas se teleportem magicamente para dentro dela. E mesmo quando novos acessos forem feitos, os ciclistas não vão pedalar quilômetros a mais a caminho do trabalho, aumentando o esforço e o tempo da viagem, só para acessar a ciclovia. Por mais que sejamos simpáticos ao projeto, não dá para negar isso.
Mas é ruim ter uma ciclovia de lazer?
Depende. Se a pergunta for acrescida de um “em vez de uma ciclovia para desocamentos diários”, a resposta é sim. Não se pode vender a nova ciclovia como uma alternativa de deslocamento, porque isso ela ainda não é. O objetivo final pode até ser esse, mas não se deve vender os ovos que ainda estão dentro da galinha. Por outro lado, se a pergunta é sobre a importância de uma ciclovia de lazer para a cidade, sobretudo no lugar onde ela está localizada, a coisa muda de figura.
Considero importante a implantação da ciclovia, mesmo incompleta. Pela alternativa de lazer, pela demarcação do espaço que poderia ser perdido se o momento não fosse aproveitado, mas principalmente pela retomada de contato com o rio. Essa proximidade é importantíssima para conscientizar os paulistanos de que o rio é uma dáviva, não um peso morto. Ele deve ser recuperado e conservado, não coberto por pistas como já propuseram alguns. Quem aceitar dar um passeio na nova ciclovia esperando ver uma paisagem desolada, apenas com lixo e mau cheiro, vai se surpreender: o cheiro não é sempre ruim e, apesar de poluído e sujo, o rio é muito bonito. Em volta, muitas árvores, flores, pássaros e capivaras. Dali temos uma visão diferente da cidade.
O rio
Entre a ciclovia e os trilhos do trem há um canteiro largo com árvores e plantas de vários tipos, parte do Projeto Pomar. É possível ver e ouvir muitos pássaros pelo caminho: garças, quero-queros e até patos que nadam no rio Pinheiros, acredite. Já vi até um pica-pau com a cabeça alaranjada por lá. Embora o congestionamento da Marginal entoe ao fundo motores e as costumeiras buzinadinhas dos motociclistas, o som dos pássaros se faz ouvir em várias ocasiões.
O rio, largo e de águas tranquilas, com margens verdes e garças voando, dá uma visão bonita, embora estragada eventualmente por alguns montes de plástico que nele flutuam. Conforme avançamos em direção à represa, é possível ver cada vez mais lixo boiando no rio e o paisagismo ainda não está concluído, embora mudas estejam sendo plantadas (aliás, com esse espaço sendo frequentado pelo cidadão, há agora um novo estímulo para expandir o Projeto Pomar).
A maior parte do lixo é composta de plástico: garrafas PET, sacolinhas de supermercado, embalagem de amaciante, de margarina, de biscoito. Até aquele papelzinho amassado que muita gente joga pela janela do carro ou “deixa cair” disfarçadamente ao andar na rua periga estar ali, boiando ao lado de infinitas bitucas de cigarro. Na área próxima à estação Vila Olímpia, geralmente se sente o cheiro do rio, mas de forma suportável. Mais adiante, o cheiro some por completo.
Se for possível limpar o Pinheiros a ponto de eliminar o lixo visível e o esgoto invisível (mas perceptível), as margens do rio seriam ótimas para lazer e até para passeios turísticos. Seria possível estimular passeios de bicicleta para turistas, alugando as magrelas para que os visitantes de outras cidades e países possam conhecer a cidade por outro ângulo. Em alguns pontos, poderia haver restaurantes ou cafés, atraindo frequentadores para as margens durante os finais de semana e talvez até durante a semana. As margens já estão muito bonitas e podem ficar ainda mais se o rio for despoluído.
Quando se comenta sobre o uso do Pinheiros para lazer, é comum questionarem sobre as enchentes. Se os trabalhos de limpeza do rio e desassoreamento forem intensificados o problema diminuirá muito, pois o leito tem se tornado cada vez mais alto com o acúmulo de lixo e sedimentos, que não são retirados na mesma proporção em que chegam ao rio. As enchentes causadas pelo extravasamento da água além das margens serão exceções.
A experiência de pedalar nesse lugar e se sentir perto do rio que a cidade esqueceu já vale a obra da ciclovia.
O Ônus
Toda ciclovia e ciclofaixa tem seus ônus. Como ônus, temos sempre a segregação e o aumento do “apartheid veicular” que rege a cidade: quanto mais ciclovias, mais aumenta a idéia preconceituosa e anticidadã de que as ruas foram feitas apenas para os carros e que lugar de bicicleta é na ciclovia e no parque.
Eu mesmo já levei uma “fina” assassina de um taxista que se justificou dizendo que “a ciclofaixa é só de domingo”, como se isso, mesmo que fosse um argumento válido, servisse de motivo para ameaçar minha vida apenas para me “educar”. E não foi a única vez que ouvi esse tipo de coisa. Imagine então como serão tratados dentro de pouquíssimo tempo os ciclistas que se utilizam da pista local da Marginal Pinheiros: maus motoristas se sentirão no direito de ameaçá-los com seus carros, pois afinal há uma ciclovia ali do lado e nada mais justo que jogar o carro em cima para demonstrar que o ciclista deveria estar nela.
Pelo perigo do ônus que essa ciclovia pode trazer e pela urgência de caminhos seguros para o ciclista na cidade, a população precisa exigir a construção dos tais acessos o quanto antes. Espero sinceramente que essa primeira fase seja apenas um tímido começo. Que as demais fases cheguem antes que o ônus da ciclovia se consolide como seu único legado.
Acessos
Na Vila Olímpia, o acesso é feito por uma passarela ao lado da estação. Essa passarela é composta de lances de escada, mas foi adaptada com uma canaleta em sua lateral que permite empurrar a bicicleta sem precisar carregá-la. A princípio pode parecer algo estranho, mas ao usar você vai perceber que funciona muito bem: é como empurrar a bicicleta numa subidinha curta. Para descer, mantenha a bicicleta freada e vá soltando aos poucos. Cruzando a passarela, há uma área com banheiros e um posto de serviços.
Na outra ponta, que fica depois da estação Jurubatuba, também há banheiros e posto de serviços, além de um estacionamento para cerca 50 carros. A ligação com a rua é feita por um simples portão, sem a necessidade de uma passarela. Há outro posto de atendimento, com banheiros químicos, ao lado da estação Santo Amaro, além de mais uns dois banheiros desse tipo que vi ao longo do trajeto.
No dia da inauguração, o secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, anunciou que “passaremos a quatro acessos rapidamente”. José Serra complementou que esses acessos seriam providenciados por empresas privadas. Não resolve, mas já ajuda. Espero que não demore.
Expansão
Já há planos de expandir a ciclovia até o Parque Villa Lobos. Para isso, a pista precisa ser recapeada, pois está bem esburacada nesse trecho. Na altura do Parque Vila Lobos, o acesso será através da passarela que levará à estação Jaguaré da CPTM, que terá uma “perna” ligada à ciclovia.
A ciclovia será dividida ao meio: metade será exclusiva para bicicletas, metade compartilhada com os veículos de serviço da EMAE.
No dia 11 de fevereiro, o Vá de Bike foi convidado, junto com outros cicloativistas e entidades, para uma reunião na Secretaria de Esportes do município de São Paulo em que foram apresentadas as ciclovias do Autódromo de Interlagos e do Rio Pinheiros. Quem nos acompanha pelo Twitter teve informações em tempo real sobre a apresentação.
Nessa reunião foram apresentadas várias informações sobre a Ciclovia Rio Pinheiros, inclusive a de que ela seria aberta ao público ainda esse mês. Nessa semana, chegou através do Instituto CicloBR a notícia de que a data prevista é dia 27, próximo sábado.
Faltam acessos
Como todos já perceberam, a Ciclovia Rio Pinheiros tem como principal (e grave) problema a falta de acessos para que o ciclista possa utilizá-la. Só há acessos nas duas pontas da ciclovia, distantes 14km uma da outra. Se você não estiver próximo de uma das pontas e se dirigindo a algum lugar perto da ponta oposta, a ciclovia não servirá para NADA em seu deslocamento e você continuará tendo que pedalar na Marginal, ou fazendo caminhos bem mais longos e cheios de desvios e subidas para evitar a via “expressa” e assassina.
Veja o mapa que o +Vá de Bike!+ preparou, com o percurso total da ciclovia
Já em setembro, quando percorremos o percurso completo da ciclovia a convite da CPTM, chamamos atenção para a falta de acessos, apontando a adaptação das pontes como possível solução. Em 5 de outubro, ao listar sugestões para a nova ciclovia, alertamos que “se só tiver um [acesso] em cada ponta, ou se mesmo tendo vários eles não forem fáceis de usar, a ciclovia não terá muita utilização, os ciclistas vão preferir ir por fora, mesmo correndo risco”. E no dia seguinte, ao comentar a uma reunião de apresentação do projeto da ciclovia (em que se notou a ausência da Secretaria de Transportes e da CET, que DEVERIAM estar presentes já que se trata de mobilidade), dissemos textualmente que “sem acessos, não funciona para o transporte, só para passear“, reforçando que por mais que sejamos simpáticos ao projeto, não há como negar isso.
O ideal seria fazer acessos em TODAS as pontes do percurso, integrando a ciclovia ao fluxo viário. Mas, por mais que a CPTM e a Secretaria de Esportes se esforcem, por questões POLÍTICAS e POR PURA MÁ VONTADE outros órgãos do município dão a desculpa de que não podem incentivar a presença de ciclistas na rua porque haveria mais acidentes (CET), ou de que isso seria uma descaracterização das pontes (SIURB), não permitindo que se faça isso.
Alexandre de Moraes, que tem em suas mãos Secretaria de Transportes, CET, SPTrans e Secretaria de Obras, é um dos homens que poderia resolver o problema da mobilidade por bicicleta na cidade, mas parece não se preocupar muito com o assunto.
A má vontade, o preconceito e a falta de visão do todo de algumas pessoas em cargos medianos na administração municipal não seria empecilho para um projeto desse porte e importância, se tivéssemos um prefeito firme e bem intencionado em relação à mobilidade, ou um Secretário de Transportes que levasse a sério seus próprios e raros discursos pró-bicicleta e sua posição como coordenador do grupo Pró-Ciclista. Mas eles preferem fazer vista grossa e se ausentar das discussões sobre o assunto (que não foram poucas), restando à Secretaria de Esportes e à CPTM tentar convencer empresas particulares a patrocinar a construção de acessos, ou solicitar projetos mirabolantes de pontes exclusivas para bicicletas a um custo unitário em torno de R$ 1 milhão, quando poderiam resolver de forma rápida e barata com rampas feitas com estruturas tubulares ligando a ciclovia a cada ponte. Essa situação chega a ser ridícula, para não dizer ofensiva, e mostra a falta de seriedade com que a bicicleta é vista pelo prefeito Kassab e, principalmente, pelo uber secretário Alexandre de Moraes.
A verdade é que a Secretaria de Transportes e seu órgão que deveria tratar de mobilidade, a CET, não querem oficializar apoio ao uso da bicicleta nas ruas da cidade de São Paulo e tentam restringi-la a ciclovias, ciclofaixas de lazer e parques. Provavelmente a opinião pessoal do secretário é que as bicicletas atrapalhariam os carros. Como se 50 bicicletas na faixa direita de uma avenida de três pistas, por exemplo, causassem o mesmo congestionamento de 50 carros espalhados por todas as faixas dessa mesma avenida. Não é preciso ser especialista em trânsito para perceber que não (teoricamente, o secretário é – ou já deveria ter se tornado – um especialista no assunto). Os carros JÁ atrapalham uns aos outros e a todo mundo e dificultar o uso da bicicleta, o pedestrianismo e o uso de transporte público é trabalhar para colocar mais carros na rua, complicando cada vez mais a situação.
Omissão
Outra restrição que fica cada vez clara para nós cicloativistas é que esses mesmos órgãos não querem adotar postura oficial de apoio ao uso da bicicleta nas ruas porque temem se tornar responsáveis pela segurança dos ciclistas. Sem apoiar esse tipo de uso, podem fechar os olhos e virar as costas à atual situação, dando a entender que o ciclista sabe o risco que está correndo ao usar uma avenida. Mas os órgãos de trânsito JÁ SÃO responsáveis pela segurança dos ciclistas, conforme o Art. 21 do Código de Trânsito. A LEI já diz isso. Esses órgãos têm sido omissos com a maior parte da população, como se sua obrigação fosse trabalhar apenas para a fluidez do tráfego de automóveis, tirando de seu caminho caminhões, ônibus fretados e de linha, pedestres e ciclistas.
Hoje, muita gente já utiliza a Marginal Pinheiros, assim como a Tietê, para seus deslocamentos diários de bicicleta. São caminhos retos e planos, geograficamente ideais para os ciclistas. E sem acessos em todas as pontes dessa nova ciclovia, esses ciclistas continuarão circulando na pista local, pois precisam e tem esse direito – inclusive nas Marginais, que também se enquadram no art. 58 do Código de Trânsito. Acessos em todas as pontes economizariam tempo e dinheiro da administração pública, mas principalmente vidas de ciclistas. Porém, algum assassino indireto acredita que as ruas são para os automóveis, o ciclista que compre um carro se quiser utilizar a via.
Vantagem ou desvantagem?
Apesar da ciclovia só atender à demanda de mobilidade de alguns poucos sortudos como nosso leitor Roberto, que tem no traçado da ciclovia exatamente a rota que precisa percorrer para chegar ao trabalho, ela é importante por ocupar um espaço que poderia ser perdido para outros fins e que merece ser usado para deslocamentos por bicicleta. Melhor reservar esse espaço agora, implementar como for possível nesse início e melhorar depois.
Se desconsiderarmos todo o blá blá blá teórico e pouco prático sobre mobilidade que sempre acompanha os comentários e anúncios sobre essa obra, o que nos resta é o uso para lazer. Apesar da urgência que a cidade tem de iniciativas a favor do uso da bicicleta como meio de transporte, a criação de espaços de lazer continua importante. Essa seria, portanto, outra vantagem dessa ciclovia.
Ônus e bônus
Toda ciclovia e ciclofaixa tem seus ônus e seus bônus. Como ônus, temos a segregação e o aumento do “apartheid veicular” que rege a cidade: quanto mais ciclovias, mais aumenta a idéia preconceituosa e anticidadã de que as ruas foram feitas para os carros e lugar de bicicleta é na ciclovia e no parque. Eu mesmo já levei uma “fina” assassina de um taxista que se justificou dizendo que “a ciclofaixa é só de domingo”, como se isso, mesmo que fosse um argumento válido, servisse de motivo para ameaçar minha vida apenas para me “educar”. Agora imagine como serão tratados dentro de pouquíssimo tempo os ciclistas que se utilizam da pista local da Marginal Pinheiros: maus motoristas se sentirão no direito de ameaçá-los com seus carros, pois afinal há uma ciclovia ali do lado e nada mais justo que jogar o carro em cima deles para demonstrar que deveriam estar nela.
Como bônus, essa ciclovia deveria ser um caminho que, além de seguro, fosse realmente útil, trazendo praticidade, rapidez e encurtando os deslocamentos dos ciclistas. Isso a Ciclovia Rio Pinheiros não traz e, se for deixada como está, terá sido um desperdício de dinheiro público e uma tentativa vã de mostrar serviço, que surtirá efeito contrário e pesará negativamente na época eleitoral.
Espero sinceramente que essa primeira fase seja apenas o tímido começo, e que as demais fases cheguem antes que o ônus da ciclovia se consolide como seu único legado.
Reclame, exija, seja cidadão
Pelo perigo do ônus que essa ciclovia pode trazer e para que ela não sirva apenas como cenário de propaganda eleitoral, torna-se IMPORTANTÍSSIMO que exerçamos constante pressão para que ela não seja largada do jeito que está, uma mera ciclovia de lazer. Envie cartas aos jornais, reclame aos vereadores através de e-mail, telefone ou presencialmente, entre em contato com a prefeitura, com a CET, com a Secretaria de Transportes. Se todo mundo abaixar a cabeça e ficar quieto, continuarão tratando ciclistas como marginais, como um povinho chato que insiste em atrapalhar os carros, como se não tivéssemos direitos nessa cidade.
Quem não usa o automóvel também é cidadão e merece respeito. A atual administração trata quem não utiliza o automóvel como cidadãos de segunda classe, deixando na mão quem utiliza transporte público, bicicleta ou os próprios pés como meio de deslocamento. Aos automóveis, projetos faraônicos de túneis, pontes e alargamento de avenidas. Às bicicletas, uma ciclovia de lazer que sai a fórceps. Aos usuários de ônibus, a lenta e silenciosa substituição de faixas exclusivas por faixas “preferenciais”. Aos pedestres, faixas de travessia sem pintura por meses e tempo semafórico de 12 segundos para travessia (quando há).
Saiba mais
Veja o relato do reconhecimento da pista e conheça pequenas ações de baixo custo e rápida implementação que protegeriam muito mais o ciclista do que algumas poucas e isoladas ciclovias feitas pela metade, como essa do Rio Pinheiros e mesmo a da Radial Leste, que não está terminada até hoje apesar de inúmeras e recorrentes promessas de conclusão.
E veja no vídeo abaixo o potencial de mobilidade, lazer e até turismo que existe na Ciclovia do Rio Pinheiros. É só fazer direito.