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O deputado estadual Samuel Moreira, líder do PSDB na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, escreveu um artigo para o Jornal Destak com o título “o rio Tietê está, sim, cada vez melhor”. O objetivo do artigo é defender a obra de ampliação da Marginal Tietê, chamada de “Nova Marginal”. Faço abaixo alguns comentários sobre o texto, que é um absurdo do começo ao fim.
A questão ambiental
Boa parte do texto dedica-se a enfatizar que a obra não prejudicará o rio. E, para provar seu ponto de vista, ele argumenta utilizando o tal Parque Linear, que será construído bem longe da obra, além de “canalizações, limpezas e desassoreamentos (…) de córregos, ribeirões e rios de todo o Estado”, que seriam realizadas com ou sem Nova Marginal.
Cita também obras de tratamento de esgoto e obras de combate a enchentes que estão sendo feitas desde 2007. Ou seja, para tentar convencer que a obra de ampliação não prejudica o rio, agora estão começando a cavar supostas compensações ambientais em obras que não têm nada a ver com essa e que seriam realizadas do mesmo modo. Em outras palavras, a gente vai estragar aqui, porque ali do outro lado a gente já consertou outra coisa então fica tudo por isso mesmo…
Veja um outro lado dessa história aqui e leia sobre a investigação do Ministério Público. Ou pesquise você mesmo nas matérias publicadas pela imprensa. Mas claro, o governo diz que as críticas à obra não passam de intriga da oposição.
Cidade mais humana e arejada
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“A cidade ficará mais humana e arejada”. Que absurdo dizer uma coisa dessas! Infraestrutura gera demanda. Quando se amplia o espaço para o automóvel particular, esse espaço é rapidamente preenchido com mais carros – como aconteceu com a Ponte Estaiada. Gente que hoje opta por outros caminhos, passará a tentar a “nova” Marginal. Gente que antes não tinha carro e agora comprou um (afinal são mil novos carros por dia nessa cidade), também vai optar pela “nova” Marginal, porque ouviu dizer que é rápida. E como uma cidade com cada vez mais carros pode ser “mais humana e arejada”? Por causa da ampliação de uma avenida, que atrairá ainda mais carros para ela? Ah, me poupe… Não faz o menor sentido!
Tempo das viagens
Essa história de diminuir o tempo das viagens em 35% todo mundo sabe (ou deveria saber) que é conversa para boi dormir. Mesmo considerando que NÃO vá haver aumento da quantidade de veículos trafegando na Marginal Tietê (o que é impossível), todos esses carros terão que sair de lá para outro lugar em algum momento. Terão que entrar em vias que já se encontram saturadas. E em muitos casos, vão chegar mais cedo nessas vias saturadas, em vez de chegar meia hora depois, quando o congestionamento já estaria diminuindo um pouco. Aí sim é que vai travar tudo.
Ampliar avenidas só piora os congestionamentos. É exatamente o oposto do conceito de traffic-calming, que diz, entre outras coisas, que se você fizer os carros trafegarem mais devagar, levando mais tempo para chegar às grandes avenidas, dará tempo de quem já está nelas sair para outro lugar e liberar espaço para quem vem chegando. Assim, a viagem tem velocidades máximas menores, mas leva-se o mesmo tempo ou até menos para chegar ao destino final.
Grande esforço!
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Faz parte desse esforço também o túnel para ligar o Morumbi ao Guarujá (R$2,2 Bi), a aberração que já chamaram de “avenida-parque” (o que é isso? ou é avenida, ou é parque!) e a ampliação de outras avenidas. Melhorar para quem, cara pálida? Não vai melhorar nem para quem usa o carro, quanto mais para os outros 70% da população que usam transporte público, bicicleta ou os pés.
Se o objetivo fosse MESMO melhorar o trânsito, haveria uma pista exclusiva para ônibus, para que a miríade de carros que entope a Marginal não os atrapalhem tanto. Haveria uma ciclovia no canteiro central, com acessos em cada ponte. Se houvesse mesmo interesse em melhorar o trânsito, investiria-se mais em transporte público do que se investe em infraestrutura para uso do transporte particular, mas o que se faz hoje é o contrário.
Qualidade de vida
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O nobre deputado afirma que “melhora do fluxo de veículos significa mais qualidade de vida”, devido a uma suposta redução das emissões de gases. Isso supondo que a mesma quantidade de carros passaria por ali e que o restante da viagem também teria a mesma duração de hoje, né, deputado? Vai ter mais gente optando pela Nova Marginal, sem contar com o aumento contínuo da frota de automóveis na cidade, que já citei lá no começo desse artigo. E mesmo que, hipoteticamente, fantasiosamente falando, houvesse essa redução de emissão de gases, ela seria pífia! Quer dizer que em vez de poluir por uma hora, vou poluir por 40 minutos? Puxa, que alento! É como fumar cigarro light, morre-se do mesmo jeito.
Excesso de automóveis
Se realmente for de seu interesse melhorar a qualidade de vida na região metropolitana, pense nisso tudo, deputado. E pense também que a maior causa dos congestionamentos é o excesso de automóveis. Tem carro demais na rua, deputado! E isso não se resolve construindo avenida, é tapar o sol com a peneira, é colocar esparadrapo em corte profundo. Tem-se que desincentivar o uso do automóvel, ao mesmo tempo em que se aumenta a oferta e a qualidade das alternativas a ele. É como distribuir cachaça de graça e ao mesmo tempo pedir para as pessoas pararem de beber: não funciona! E, além de tudo, fica parecendo hipocrisia…
Construir túneis, avenidas e pontes de uso exclusivo dos carros não melhora o trânsito, muito menos a qualidade de vida dos habitantes da cidade. Isso sim é “faltar com a verdade”, como o senhor diz no seu texto. Ou então é muita falta de visão e desconhecimento do assunto mesmo – fica por conta do leitor.
O tempo mostrará o quanto essa iniciativa é equivocada. A perspectiva prometida continua linda. Também quero viver na cidade que o senhor sonha, uma cidade mais humana, ágil e arejada, mas precisamos caminhar em direção a ela.
Boa sorte e divirta-se ao dirigir na Nova Marginal no ano que vem, deputado. Nós continuaremos respirando a fumaça que sai do seu escapamento todos os dias.




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