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28/05/2010 - 22:04

Furto de bicicleta, a lei e o supermercado sustentável

Bicicleta presa a poste no centro de São Paulo. Foto: Apocalipse Motorizado
Aos ciclistas, os postes.
Foto: Apocalipse Motorizado

Uma das grandes dificuldades para o uso da bicicleta em uma cidade como São Paulo, que privilegia o uso do automóvel em detrimento de todas as outras formas de locomoção, é ter um lugar seguro para estacionar a bicicleta. Quando muito, conseguimos um cantinho escondido, onde não ocupe em hipótese alguma o espaço de quem chega de carro, muitas vezes atrapalhando quem passa a pé. E temos que torcer para a bicicleta estar ali quando voltarmos.

Luciana estava tão habituada a ir de bicicleta a uma mesma loja do supermercado Pão de Açúcar que já nem se preocupava. Por prender sua bicicleta sempre ao lado da guarita dos seguranças, ficava tranquila, acreditando que ela estaria segura ali. Cliente assídua da loja, fez isso diariamente por dois anos, até que um dia sua bicicleta novinha foi levada. Simplesmente evaporou. Ninguém sabe, ninguém viu e ainda tentaram convencê-la de que ela estaria “confusa” e não teria ido de bicicleta naquele dia.

Cadê o bicicletário?

Bicicletário no Pão de Açúcar da Vila Clementino, em São Paulo. Infelizmente, ainda uma exceção.
Bicicletário no Pão de Açúcar da V. Clementino, em São Paulo. Infelizmente, ainda uma exceção.
Foto: Divulgação

O supermercado que diz ter “responsabilidade socioambiental” e “respeito e entendimento ao próximo” não se esforça muito em entender os clientes que usam a bicicleta para ir ao supermercado. Apesar do discurso verde e social, raras são as lojas que disponibilizam local adequado para estacionar e prender uma bicicleta. A impressão que nós ciclistas temos é que a rede tem interesse apenas em receber cilentes que cheguem de carro.

A Lei Municipal 14.266 da cidade de São Paulo diz, em seu artigo 8o, que “centros de compras e outros locais de grande afluxo de pessoas deverão possuir locais para estacionamento de bicicletas, bicicletários e paraciclos”. Essa lei, dificilmente cumprida nessa cidade, também é ignorada pela rede de supermercados Pão de Açúcar, mesmo com seu posicionamento “socioambiental”.

Seguro

Como agravante, a lei que obriga seguro em estacionamentos contempla apenas veículos de passeio. Bicicletas, motos e até mesmo utilitários ficam de fora. Com isso, um furto de algum desses veículos se torna um transtorno enorme para o proprietário, que é obrigado a entrar na justiça para conseguir seu direito de ressarcimento do bem. E se o bem é uma bicicleta, relativamente barata, as custas do processo e o aconselhamento de um advogado podem custar mais do que o prejuízo causado pelo ladrão.

Mas cabe aqui um parênteses para uma boa notícia, que merecia até uma matéria à parte mas vou contar aqui mesmo: foi aprovado na Câmara Municipal de São Paulo um Projeto de Lei que prevê a ampliação da cobertura de seguro contra roubos em estacionamentos, cobrindo também as bicicletas. Falta apenas a sanção da Prefeitura.

Disso derivam dois resultados positivos: casos como o da Luciana passam a ter solução mais rápida e, ao menos em tese, estacionamentos comuns passarão a se interessar em receber bicicletas, pois o maior impedimento alegado pelos proprietários de estacionamentos seria a falta de cobertura do seguro, implicando para o proprietário o risco de arcar integralmente com o prejuízo de um furto.

Desdobramentos

Durante a produção desta matéria, procurei a empresa para obter um posicionamento quanto ao caso. Encaminhei a eles o depoimento da Luciana, que depois disso certamente circulou dentro da empresa. No final da tarde de hoje me pediram um contato da cliente, para conversar diretamente com ela sobre o assunto. Quando consegui receber um e-mail da Luciana, soube através dela mesma que nesse meio tempo a empresa já havia entrado em contato para negociar uma solução.

Luciana, que usa a bicicleta para levar o filho na escola, fazer compras, atender clientes de suas aulas de inglês e se deslocar para onde mais for preciso, estava bastante indignada e frustrada com a maneira como a empresa vinha tratando o caso, como vocês podem acompanhar no depoimento dela em seu blog. Depois do contato de hoje, está mais otimista.

Diferentemente da mídia tradicional, o Vá de Bike vai acompanhar essa história e contar a vocês como ela termina. Esperamos que acabe bem, para que a ciclista tenha de volta a parte de sua vida que lhe foi subtraída e para que a empresa consiga reverter essa situação constrangedora para sua imagem de marca. Este site mantém aberto o espaço para a resposta da empresa, entendendo que a melhor resposta até o momento foi a ação de contato com a cliente.

E que o Grupo Pão de Açúcar finalmente perceba que ciclistas também são clientes, consomem, gastam seu dinheiro nas lojas da rede e merecem o mesmo respeito do cidadão que chega com sua SUV importada, ocupando sozinho uma área de estacionamento onde caberiam dez outros que usem a bicicleta.

Numa cidade onde ainda poucas empresas recebem bem quem chega de bicicleta, esse pode ser um belo diferencial para a empresa, fidelizando clientes que seriam conquistados pela emoção ao serem bem recebidos. Mas é preciso se aproveitar o timing. Fica a dica.

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . A Bicicleta em São Paulo . Tags: , , , ,


11 comentários para “Furto de bicicleta, a lei e o supermercado sustentável”

  1. Luciana Almeida disse:

    Nossa !!!!! Que incrível !!!! Tive que ler e reler para ter certeza do que estou vendo =D

    Muito, muito, mas muito obrigada mesmo pela sua matéria. Se eles realmente cumprirem com o que me foi dito esta tarde, minha vitória será graças a todos que fizeram meu relato ser repassado hoje, e principalmente graças ao seu interesse pela matéria, o que o fez entrar em contato com a empresa.

    Eu havia acabado de passar os dados do furto para uma advogada que me escreveu após ler meu relato quando recebi o telefonema da impresa falando do meu texto e querendo resolver o meu problema. Até me pediram desculpa pela forma como fui tratada.

    Fiquei muito angustiada, frustrada e até depressiva neste 2 meses que se passaram. Agora estou com esperança de voltar a ter aquela bike novinha !!!!!!! ^v^

    Um grande abraço,

    Lu.

  2. Ju disse:

    O Pão-de-Açúcar da Pç. Panamericana é uma piada. Sempre fui desrespeitada quando fui de bike nessa loja e, depois de aguentar tanta palhaçada não me dou o trabalho de ir mais lá. Mudei de supermercado.

  3. Francisco disse:

    Mas acho muito importante não ficar apenas no ressarcimento da bike, é importante entrar com uma ação contra danos Moraes pelo que passou e pelos transtornos provocados.
    Lógico que a empresa agora vai tratar a Luciana com a maior educação possível para ficar por isso mesmo, mas o problema não vai ser resolvido, e pode acontecer com outras pessoas, os funcionários tem que ser orientados e se for ocaso até substituídos, só assim as coisas vão melhorando.

  4. Luiz disse:

    Estou curioso para saber qual será o posicionamento da empresa! É absolutamente lamentável que não se destine um espaço para o estacionamento de bicicletas – sabemos que onde cabe um único carro cabem várias bicicletas, principalmente se houver um paraciclo adequado. O Pão de Açucar está diante de uma oportunidade de conquistar clientes realmente conscientes sobre a questão da sustentabilidade.

  5. Ricardo Nunes disse:

    Existem estabelecimentos que que colocam normas contraditórias. No shopping Interlagos existem bicicletários, porém o ciclista não pode circular no estacionamento do shopping montado. Tem de empurrar a bike para entrar e sair. Muito ruim pois o shopping tem um estacionamento muito grande. calculo que a última vez que estacionei lá, tive que empurrar a bicicleta por pelo menos 600 metros.

  6. Rangel disse:

    Outro local que não parece ser amigo do ciclista é o Instituto Tomie Ohtake. Pensou-se tanto no projeto arquitetônico do prédio e mesmo assim “esqueceram” de algo essencial: o paraciclo.

  7. [...] continuidade ao assunto anterior aqui do Vá de Bike, que tratava do roubo de uma bicicleta dentro do estacionamento de um [...]

  8. Rodrigo disse:

    Fala Willian, parabéns pela iniciativa de acompanhar o caso e ajudar a Luciana. Mantenha a gente informado.

  9. [...] + Vá de Bike + fez dois posts nesta semana nos lembrando sobre a legislação referente ao estacionamento e seguro de bikes, em [...]

  10. Eberson disse:

    Eu sinceramente não entendo a demagogia destas empresas.

    No meu caso como trabalho na faria lima e moro no centro de SP, em minhas férias da faculdade perguntei se poderia deixar minha bicicleta no estacionamento do predio onde trabalho, fui informado que não ha espaço…
    Nem quer falar muito pois achei um absurdo a resposta do zelador deste predio!!

  11. Marly disse:

    Nossa batalha hoje, por bicicletários decentes dentro de locais que vamos diariamente, fazer compras e aumentar lucros, vão de norte a sul! Aqui no RS, muitas cidadezinhas de interior têm bicicletários em frente ao comércio, porém redes maiores desrespeitam essa regra, inclusive observei que, mercados de uma mesma rede têm um comportamento diferente uns dos outros, no que tange ao estacionamento de bikes! Também já notei que nos prédios do governo, igualmente nos ignoram por completo! exigem preenchimentos de papéis para solicitar um bicicletário, e depois nunca mais!

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