Ciclovia Rio Pinheiros – um bom resumo
A Ciclovia Rio Pinheiros tem um potencial enorme como alternativa de mobilidade na cidade. O deslocamento de bicicleta se dá ainda mais rápido que o usual, pela topografia totalmente plana e pela ausência de cruzamentos e semáforos. E protegendo o ciclista dos automóveis, a viagem se torna bastante segura, mesmo para quem está começando. Se tivéssemos ciclovias nas duas marginais então, teríamos acesso fácil, rápido e seguro a boa parte da cidade.
Entretanto, o que temos por enquanto é apenas uma ciclovia de lazer, que não ajudará praticamente nada nos deslocamentos do tipo commuting, como ir ao trabalho, à escola, à casa da namorada: ela funciona das 6 às 18h, devido à falta de iluminação, e com apenas dois acessos, distantes 14km um do outro e sem nenhuma saída no caminho. Se você não mora próximo a um acesso e não trabalha perto do outro, dificilmente conseguirá colocar a ciclovia na sua rota. E, ainda que consiga, ela estará fechada quando você precisar voltar para casa depois do trabalho.
O mais óbvio, barato, eficiente e correto seria termos acessos às pontes que cruzam o rio. Os ciclistas geralmente chegam à Marginal por alguma avenida que acaba cruzando o rio por uma ponte; havendo nessa ponte um acesso para descer à ciclovia, problema resolvido, tanto para quem está do lado “de cá” do rio quanto para quem está do outro lado.
Acessos distantes das pontes fariam o ciclista pedalar por um trecho de Marginal até encontrar um acesso, sendo mal recebidos pelos motoristas. Além disso, os acessos nas pontes integrariam a ciclovia ao viário, permitindo captar e distribuir os ciclistas ao longo de sua extensão.
A CPTM está estudando a questão e já está sensibilizada quanto a essa carência. Mas enquanto isso, a ciclovia nem ajuda a proteger os ciclistas que já utilizam a marginal diariamente e nem incentiva as pessoas a trocarem o carro pela bicicleta. Poucos poderão utilizá-la em seus deslocamentos cotidianos e ela servirá mesmo ao lazer nesse primeiro momento.
Não dá para colocar a ciclovia ali e esperar que as pessoas se teleportem magicamente para dentro dela. E mesmo quando novos acessos forem feitos, os ciclistas não vão pedalar quilômetros a mais a caminho do trabalho, aumentando o esforço e o tempo da viagem, só para acessar a ciclovia. Por mais que sejamos simpáticos ao projeto, não dá para negar isso.
Mas é ruim ter uma ciclovia de lazer?
Depende. Se a pergunta for acrescida de um “em vez de uma ciclovia para desocamentos diários”, a resposta é sim. Não se pode vender a nova ciclovia como uma alternativa de deslocamento, porque isso ela ainda não é. O objetivo final pode até ser esse, mas não se deve vender os ovos que ainda estão dentro da galinha. Por outro lado, se a pergunta é sobre a importância de uma ciclovia de lazer para a cidade, sobretudo no lugar onde ela está localizada, a coisa muda de figura.
Considero importante a implantação da ciclovia, mesmo incompleta. Pela alternativa de lazer, pela demarcação do espaço que poderia ser perdido se o momento não fosse aproveitado, mas principalmente pela retomada de contato com o rio. Essa proximidade é importantíssima para conscientizar os paulistanos de que o rio é uma dáviva, não um peso morto. Ele deve ser recuperado e conservado, não coberto por pistas como já propuseram alguns. Quem aceitar dar um passeio na nova ciclovia esperando ver uma paisagem desolada, apenas com lixo e mau cheiro, vai se surpreender: o cheiro não é sempre ruim e, apesar de poluído e sujo, o rio é muito bonito. Em volta, muitas árvores, flores, pássaros e capivaras. Dali temos uma visão diferente da cidade.
O rio
Entre a ciclovia e os trilhos do trem há um canteiro largo com árvores e plantas de vários tipos, parte do Projeto Pomar. É possível ver e ouvir muitos pássaros pelo caminho: garças, quero-queros e até patos que nadam no rio Pinheiros, acredite. Já vi até um pica-pau com a cabeça alaranjada por lá. Embora o congestionamento da Marginal entoe ao fundo motores e as costumeiras buzinadinhas dos motociclistas, o som dos pássaros se faz ouvir em várias ocasiões.
O rio, largo e de águas tranquilas, com margens verdes e garças voando, dá uma visão bonita, embora estragada eventualmente por alguns montes de plástico que nele flutuam. Conforme avançamos em direção à represa, é possível ver cada vez mais lixo boiando no rio e o paisagismo ainda não está concluído, embora mudas estejam sendo plantadas (aliás, com esse espaço sendo frequentado pelo cidadão, há agora um novo estímulo para expandir o Projeto Pomar).
A maior parte do lixo é composta de plástico: garrafas PET, sacolinhas de supermercado, embalagem de amaciante, de margarina, de biscoito. Até aquele papelzinho amassado que muita gente joga pela janela do carro ou “deixa cair” disfarçadamente ao andar na rua periga estar ali, boiando ao lado de infinitas bitucas de cigarro. Na área próxima à estação Vila Olímpia, geralmente se sente o cheiro do rio, mas de forma suportável. Mais adiante, o cheiro some por completo.
Se for possível limpar o Pinheiros a ponto de eliminar o lixo visível e o esgoto invisível (mas perceptível), as margens do rio seriam ótimas para lazer e até para passeios turísticos. Seria possível estimular passeios de bicicleta para turistas, alugando as magrelas para que os visitantes de outras cidades e países possam conhecer a cidade por outro ângulo. Em alguns pontos, poderia haver restaurantes ou cafés, atraindo frequentadores para as margens durante os finais de semana e talvez até durante a semana. As margens já estão muito bonitas e podem ficar ainda mais se o rio for despoluído.
Quando se comenta sobre o uso do Pinheiros para lazer, é comum questionarem sobre as enchentes. Se os trabalhos de limpeza do rio e desassoreamento forem intensificados o problema diminuirá muito, pois o leito tem se tornado cada vez mais alto com o acúmulo de lixo e sedimentos, que não são retirados na mesma proporção em que chegam ao rio. As enchentes causadas pelo extravasamento da água além das margens serão exceções.
A experiência de pedalar nesse lugar e se sentir perto do rio que a cidade esqueceu já vale a obra da ciclovia.
O Ônus
Toda ciclovia e ciclofaixa tem seus ônus. Como ônus, temos sempre a segregação e o aumento do “apartheid veicular” que rege a cidade: quanto mais ciclovias, mais aumenta a idéia preconceituosa e anticidadã de que as ruas foram feitas apenas para os carros e que lugar de bicicleta é na ciclovia e no parque.
Eu mesmo já levei uma “fina” assassina de um taxista que se justificou dizendo que “a ciclofaixa é só de domingo”, como se isso, mesmo que fosse um argumento válido, servisse de motivo para ameaçar minha vida apenas para me “educar”. E não foi a única vez que ouvi esse tipo de coisa. Imagine então como serão tratados dentro de pouquíssimo tempo os ciclistas que se utilizam da pista local da Marginal Pinheiros: maus motoristas se sentirão no direito de ameaçá-los com seus carros, pois afinal há uma ciclovia ali do lado e nada mais justo que jogar o carro em cima para demonstrar que o ciclista deveria estar nela.
Pelo perigo do ônus que essa ciclovia pode trazer e pela urgência de caminhos seguros para o ciclista na cidade, a população precisa exigir a construção dos tais acessos o quanto antes. Espero sinceramente que essa primeira fase seja apenas um tímido começo. Que as demais fases cheguem antes que o ônus da ciclovia se consolide como seu único legado.
Acessos
Na Vila Olímpia, o acesso é feito por uma passarela ao lado da estação. Essa passarela é composta de lances de escada, mas foi adaptada com uma canaleta em sua lateral que permite empurrar a bicicleta sem precisar carregá-la. A princípio pode parecer algo estranho, mas ao usar você vai perceber que funciona muito bem: é como empurrar a bicicleta numa subidinha curta. Para descer, mantenha a bicicleta freada e vá soltando aos poucos. Cruzando a passarela, há uma área com banheiros e um posto de serviços.
Na outra ponta, que fica depois da estação Jurubatuba, também há banheiros e posto de serviços, além de um estacionamento para cerca 50 carros. A ligação com a rua é feita por um simples portão, sem a necessidade de uma passarela. Há outro posto de atendimento, com banheiros químicos, ao lado da estação Santo Amaro, além de mais uns dois banheiros desse tipo que vi ao longo do trajeto.
No dia da inauguração, o secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, anunciou que “passaremos a quatro acessos rapidamente”. José Serra complementou que esses acessos seriam providenciados por empresas privadas. Não resolve, mas já ajuda. Espero que não demore.
Expansão
Já há planos de expandir a ciclovia até o Parque Villa Lobos. Para isso, a pista precisa ser recapeada, pois está bem esburacada nesse trecho. Na altura do Parque Vila Lobos, o acesso será através da passarela que levará à estação Jaguaré da CPTM, que terá uma “perna” ligada à ciclovia.
Veja Mais
Fotos da Inauguração – Fotos fevereiro 2010 – Fotos vistoria (set/2009)
Vídeo da Inauguração 1 – Vídeo da Inauguração 2 – Vídeo da vistoria (set/2009)
Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . A Bicicleta em São Paulo . Tags: ciclovia, outra política, passeios, vista grossa
Ótimo resumo, Willian, muito legal. Eu tive um dialogo com um funcionario graduado da CPTM no domingo lá na ciclovia sobre os acessos, etc. Muito simpatico o sujeito e muito informativo. Ele estava me dizendo todo orgulhoso do trabalho bacana que fizeram em Jurubatuba e como o estacionamento tinha ficado bonito e como voce podia ir de carro lá com a familia e levar a bicicleta. Aí, eu timidamente respondi que “seria melhor nao ter que usar o carro de jeito nenhum, né?”. E ele me respondeu “É, mas quem tem folego para isso?”. A luta, na verdade, é contra essa idéia…
olá Willian, fazia tempo que nao visitava teu site, somente lia o rss, ficou muito bonito!!! parabens!!! fiquei com vontade de ir pra sampa experimentar a ciclovia da marginal. o caminho é esse mesmo, devagar vamos conquistando o nosso espaço.
um abraço
acho boa a iniciativa da ciclovia, mas junto com a conscientização das bikes nas ruas também.
o outro lado seria o comportamento de ciclistas com os pedestres que caminham sobre a ciclovia do parque do Ibirapuera.
Bom texto Willian. Segue minha contribuição para a discussão.
Abraços,
http://gancheiraremovivel.spaces.live.com/
Eu sou estudante do intercambio do a USP. Eu quero comprar uma bicicleta usada para usar este ano.
Voce sabe onde posso comprar uma bicicleta usada em Sao Paulo?
Muito Obrigado!
Realmente… devagar vamos conquistando mais espaço. Acho tb muito válida a idéia de colocar empresas privadas participando da iniciativa…. quem não gostaria de associar sua marca a uma iniciativa super bacana como essa?
Willian,
Parabéns pelo seu blog, suas ideias e a forma como você escreve: de forma crítica e com embasamento. É bom saber que não estamos sós nesta batalha. Aqui em curitiba também lutamos por ciclofaxias e maior respeito aos ciclistas.
Willian, gostaria de pedir sua ajuda. Por favor, comecei recentemente o meu blog e, se possível, gostaria de te pedir pra me ajudar a divuga-lo. Ele é simples mas é o que consegui fazer até agora. Espero poder contar com seu apoio.
Um abraço e boas pedaladas,
oscar
http://www.bicicleteiros.com.br
Fiz ontem a tal ciclovia,
como tudo no Brasil a coisa tem que ser feita e bem mal feita.
como sempre existe a frase “um bom começo”
apos eu ficar em fila indiana uma hora para
passar minha bile por uma torre mal construida, em
que as bicicletas batiam nas paredes enquanto passavam
nas canaleta, vi mulheres “perdendo o pé” e despencando
com suas bikes pela tal canaleta,
não acredito em ciclovia no Brasil, porque tudo é um
bom começo desde 1500. o Brasil é o pais do futuro e
sempre será.
o Brasileiro se contenta com muito pouco e muito pouco
ele sempre tera, assim como uma ciclovia chimfrim que
não leva nada a coisa nenhuma e que dentro de 2 anos
estara semi abandonada para dar ideia a mais alguma
coisa brilhante que tambem sera um bom começo.
Oi, Willian. Sou Dayse, jornalista. Trabalho num programa de TV na Bahia e estou fazendo uma matéria sobre Ciclismo Urbano. Queria conversar melhor com você para marcarmos uma entrevista por Skype. Seria possível?
A matéria é para o programa de cultura Soteropolis, da TVE Bahia http://www.tve.ba.gov.br
Aguardo contato!
Dayse Porto
dayseporto@yahoo.com.br
Olá Willian tudo bem?
Adorei o seu blog! Gostaria de saber da possibilidade de fazer uma pequena entrevista com você, saber mais sobre a bicicleta como alternativa no transporte em São Paulo.
Aguardo retorno!
Obrigada!
Abs
Juliana Lima
Acho que a ciclovia da marginal é muito legal, mas ficamos restritos ao lazer, uma vez que as entradas são muito distantes…
É necessário que se faça URGENTEMENTE uma entrada em Sto.Amaro, Estaçâo Morumbi, pois muitos ciclistas como eu, usamos a marginal para ir ao trabalho.
Porque de manhã, a condução é horrível prá quem mora depois da ponte!
A alternativa que encontrei é ir de bike…mas há que se torná-la acessível!
Quando fui pra Viena tive a oportunidade de passar um dia tomando sol numa praia de rio no meio da cidade, entre duas avenidas!
O rio era limpinho e dava até pra nadar…. austriacas fazendo topless ajudavam a compor a cena! ahuauhauh
Moro no jaguaré e trabalho no shopping morumbi. Queria ir para o trabalho de bike. Enquanto não sai a extensão da ciclovia, estou tentando pensar em um bom caminho para ir ao trabalho. Se eu pegar o trêm e saltar na estação Vila Olímpia, teria ciclovia até o meu trabalho. Mas há algum acesso da ciclovia para o Shopping ou estação Morumbi de trêm?
Ana, não há acessos à ciclovia nesse ponto. Um grande problema dessa ciclovia é exatamente esse, a falta de acessos. Quem acredita que um ciclista vai aumentar vários quilômetros em seu trajeto para conseguir entrar na ciclovia não entende pra que elas são feitas e muito menos como são utilizadas. Vou traçar uma rota para você, do Jaguaré ao Shopping Morumbi, e publico aqui no site. De qual ponto do Jaguaré você sai? Perto da Editora Globo? Ou é do lado “de cá” do rio, perto do parque Villa Lobos?