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27/01/2010 - 23:47

Abordagem positiva

Gaiola com rodasPedalando hoje na Av. Estados Unidos, aqui em São Paulo, vi uma pickup importada soltando a maior fumaceira. Ela estava um pouco mais à frente e fui obrigado a aspirar toda aquela fumaça azulada.

Quando o trânsito parou, emparelhei e abordei o motorista com um sorriso, dizendo uma frase que achei que surtiria efeito, já que ele provavelmente tinha orgulho de ter uma pickup importada:

- Um carro bonito desse, soltando essa fumaça toda fica feio, hein? – disse sorrindo, em tom de brincadeira.

A conversa seguiu bem, com sorrisos dos dois lados durante todo o tempo. A receptividade foi muito melhor do que eu esperava (na verdade estava pronto para sair “fugido”, achando que o motorista poderia querer partir para a ignorância).

- É, fica, né… – respondeu ele, também sorrindo, meio envergonhado. – Preciso arrumar. É que a bomba de combustível bla bla bla [argumentação técnica irrelevante]. Mas preciso arrumar mesmo. Mas tenho que trabalhar pra pagar, né…

Eu ia dizer alguma coisa, mas ele já emendou:

- Certo tá você de ir de bicicleta! Não polui, faz exercício… bem que podia ter menos carro na rua pra gente poder andar de bicicleta.

- É verdade, mas se passarem meio longe na hora de ultrapassar já ajuda pra caramba!

Nisso o trânsito andou, a gente se despediu sorrindo e ainda ganhei um “Deus te acompanhe”. Desabafei, fiz gentilmente o cara se envergonhar da fumaceira que o carro dele estava soltando, deixei uma boa imagem do ciclista e ainda passei a mensagem de ultrapassar com uma distância razoável. Valeu a pena ter usado uma abordagem amistosa. Se eu tivesse xingado (olha que dava vontade), não teria conseguido nada disso.

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Semana passada eu estava voltando à noite pela Pedroso de Moraes, quase chegando na Faria Lima, quando um carro passa tirando uma fina de mim. Parou uns 5 metros depois. Passei para o corredor, parei do lado do motorista, sorri (é, não sei como eu consegui) e falei, calmamente, para o rapaz que estava dirigindo e levava um amigo como passageiro:

- Boa noite, tudo bem? Não passa tão perto assim, que se for um ciclista menos experiente o cara cai só de susto…

- É mesmo, foi mal. Passei muito perto, desculpa.

- Às vezes a gente tem que desviar de algum buraco, dá uma desviadinha com o guidão e numa dessas o carro derruba.

Aí trocamos mais umas duas ou três frases sobre os buracos e consegui um sorriso dele. Esse certamente vai tomar mais cuidado quando vir o próximo ciclista pela rua.

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Não sou um exemplo de virtude, já mandei motorista tomar no c., gritando isso na janela dele depois de uma tentativa de assassinato claramente proposital. Mas minha meta é fazer das histórias acima o “default”, o meu padrão de conduta. Melhor para mim e para todos os ciclistas que o motorista verá dali em diante.

Quando o cara encosta atrás e buzina, eu costumo olhar para trás com aquela expressão de “pô, mas vc quer que eu faça o quê?”, com o braço aberto, dando de ombros. Geralmente ele se toca e muda de pista. Às vezes xingando, às vezes tirando fina, mas pelo menos passei um pouco do recado, evitei um stress e talvez até uma briga.

bansky flower chuckerTenho tentado ser assim. E olha que pra mim isso é difícil, quem me conhecesse aos 20 anos nunca diria que um dia eu seria assim paciente, conversando sorrindo em vez de quebrar o cara na porrada ou de arrebentar o parabrisa com um pedregulho certeiro.

Mas violência gera violência – e isso não é só retórica ou filosofia oriental. Mesmo que eu espanque um motorista que tentou me matar, ele não vai aprender nada com isso, não vai servir de lição. Só vai servir para aumentar sua raiva de ciclistas. Provavelmente ele colocará em risco o próximo que tiver o azar de estar na frente dele. Se for possível conversar de maneira agradável, com um sorriso, tratando o imbecil motorista como amigo, o resultado será bem mais positivo.

Mas que às vezes dá vontade de bater, ô se dá…

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): - mais dicas - Tags: , , ,


24 comentários para “Abordagem positiva”

  1. excelente! enquanto da pra ser gentil vale a pena.. conversar com pessoas educadas é sempre produtivo.. coisa é quando ao inves de humanos temos animais ao volante!!

  2. Hahah é verdade Aline, já viu aquele video do pateta?

    Willian, gostei do post, é assim mesmo, dê para as pessoas sempre o inesperado.
    Fazer um elogio pra esposa ou garota quando ela estiver subindo a escadinha do ônibus. Ser feliz quando todos estiverem chorando pela perda de alguma coisa.

    Willian, arrumei uma caixa de plástico legal, tá aqui em casa, se quiser levo na bicicletada, me dá um toque, ou pega aqui em casa.

  3. [...] This post was mentioned on Twitter by Stanley Calderelli, Guilherme Caldas, Ricardo S Yasuda, camila doubek, menosumcarro and others. menosumcarro said: Um excelente exemplo de uma boa abordagem de um utilizador de bicicleta a um automobilista (via @cadoubek) http://ow.ly/11rLe [...]

  4. Interessante, por coincidência, estava lembrando hoje da participação do Zé Lobo, da Transporte Ativo, no encontro sobre Planejamento Cicloviário em Sorocaba no ano passado e, o que me chamou a atenção na ocasião, foi justamente a maneira tranquila e lúcida que ele tem de abordar a questão da bicicleta no meio urbano. Acredito que, qualquer que seja a escala da intervenção, é uma abordagem mais produtiva.

    Abraço.

  5. OPa! Copiei no blog do MTB-BH: http://mountainbikebh.com.br/site/index.php/abordagem-positiva

    O espirito é esse mesmo, Willian. Eu vou tentar mudar de humor e passar pra esta via mais civilizada e educada.

  6. Fernando Norte disse:

    Parabéns pelo texto, William. Realmente tem horas que não dá, seja pq a adrenalina fala mais alto, seja pq a eminência de ser morto não me deixa de ter essa calma. Mas com certeza de todas as vezes que consegui engoli o orgulho e tentar uma abordagem mais calma a conversa flui melhor do que a troca de insultos.
    Se “a violência gera violência”, saiba que a calma e as boas maneiras geram a mesma resposta.

  7. [...] bons argumentos do Willian Cruz, do + Vá de bike! + uma excelente fonte para quem quer aprender a conviver no trânsito das grandes [...]

  8. renatalo disse:

    é isso aí! eu já xinguei mto motorista tbm, mas não ajuda. o lance é se impor sim pra não morrer, mas com o sorrisão na cara e ir conscientizando um por um dos amiguinhos carros. abs!

  9. É dificil, mas é preciso!
    Ótima mensagem a todos os ciclistas. Pedalar em São Paulo é uma guerra, que precisa ser vencida com palavras, atitudes positivas e principalmente respeito mútuo!
    Abraços.

  10. Parabéns Willian e já q ninguem comentou, o desenho do cara atirando flores em vez de pedra, ficou perfeito! Vou postar no Inverde tbm.

  11. Uirá Lourenço disse:

    Muito boa a conduta. Parabéns!
    Eu tenho tentado ser bastante cordial, mesmo com os motoristas de picapes e outros carrões imponentes.
    Tem dado certo. Moro em Brasília, cidade das vias expressas, e nem sempre consigo encontrar um carro parado e dialogar com o motorista. Mas procuro sempre acenar, sorrir e agradecer quando me é dada preferência ou quando vejo algum motorista se afastar ao ultrapasasar.
    Em meio a tanta violência, nada melhor que ser um mensageiro da paz.
    Saudações ciclísticas.

  12. Marcelo Mig disse:

    Wiliian, como sempre, dando um Norte para o dia-a-dia. Parabéns!

  13. Rubens de Oliveira Braga disse:

    Ano passado autoridades de trânsito de Santos apreenderam 248 bicicletas, conforme matéria jornalística local, mas não sabemos se alguma (s) vez motorizados foram penalizados por desconhecerem ou não cumprirem os Artigos 201 e 220 do CET, ao ultrapassar bicicletas. Algumas apreensões foram porque o ciclista pedalava pela pista motorizada onde tem ciclovia. Desconheço a Lei que proíbe esta atitude. Quando vou a praia de Santos de bicicleta, prefiro usar ruas secundárias, porque nossas estatísticas vem mostrando que, em média 70% dos acidentes com bicicletas ocorrem nas avenidas e resido numa delas, em direção a praia. Acontece que quando chego na pista desta, preciso pedalar por ela até o próximo semáforo, para atravessar as duas pistas (dois sentidos) para atingir a ciclovia da praia com segurança. Acontece que neste pequeno trajeto da via motorizada me arrisco em fininhas e fechadas nas conversões e nas paradas e saídas de ônibus. Em 2004, dos 17 óbitos de ciclistas, 58% em conversões, sendo que 82% destas foram por envolvimentos com ônibus e caminhões.
    Estes dados foram fornecidos raríssimas vezes entre 1998 a 2008, mas no 3º trimestre de 2009, segundo dados do órgão gestor de trânsito, houve queda, mas não sabemos se por campanhas e/ou penalizações aos motorizados.

  14. Willian Cruz disse:

    Lourdes, a imagem é do inglês Bansky, clique nela para visitar o site e ver outras artes ótimas que o cara faz.

    Rubens, esse é o problema da adoção apenas de ciclovias – e, pior, punição somente a ciclistas – como “estratégia” cicloviária. A consequência é o agravamento do apartheid veicular em que vivemos, com as autoridades de trânsito endossando esse comportamento.

  15. Alessandro disse:

    Willian, seu blog é um show, com muitas dicas que vêm sendo bem úteis para mim. Voltei a pedalar depois de muito tempo longe da bike, criei o blog: http://pedalandoemsp.blogspot.com/ para registrar as experiências deste retorno, e citei ontem este seu post lá.
    Abraços!

  16. Gunnar disse:

    Também procuro o caminho da paz, mas nem sempre é o melhor a se fazer. Lembre-se da máxima maquiavélica que dizia que, não se podendo ser amado e temido ao mesmo tempo, que se seja ao menos temido. Impor um pouco de respeito “marcando presença”, com uma postura firme, de quem mostra que está pronto para levar a situação à outras instâncias surte um efeito muito bom em algumas ocasiões. Motorista tem que entender que não é porque nosso veículo é menor que nossos culhões também o sejam.

  17. Willian Cruz disse:

    Concordo, Gunnar. É preciso se impor no trânsito e mostrar-se seguro do que está fazendo e de seus direitos. Só não precisamos transformar isso em uma briga. Na hora da abordagem, devemos evitar o confronto; enquanto circulamos, temos que ocupar nosso espaço e nos impormos.

  18. Luiz G disse:

    Olá William. Primeira vez que venho aqui e seu post ganhou meu respeito. Também só ando de bike.
    Virei aqui mais vezes.
    Abraços.

  19. Luiz G disse:

    Só pra partilhar com um comentário: Certa vez, um motorista tirou “aquela fina de mim” e parou mais a frente.

    Eu o alcancei e falei.
    “Olha amigo, se você me matar, será preso, entendeu? Não pense que por ser acidente não é assassinato!”…..O sujeito, claro, ficou fulo e saiu falando um monte enquanto eu me afastava.

    Fiquei feliz por não ter xingado-o de nada, mas gostaria de ter sua presença de espírito e dizer algo melhor….mas como pensar nisso com o coração na boca?

    Aí está um desafio pra vida.

    Abraços!

  20. Denny Sach disse:

    Total de acordo com o Willi!

    Busca levar a essência deste espirito entre os amigos da bici, mas nem sempre o pessoal leva a sério. Acontece que qualquer motivo é uma lembrança para um motorista pensar duas vezes ao passar por um ciclista e respeita-lo. Muitas vezes nem noção do perigo esses caras têm, acostumado a “tirar fina” (como diz o paulista hehe) dos próprios carros nem se dão conta do perigo para nós ciclistas.
    Nosso dever é trazer segurança para nós ciclistas e para o trânsito, irritar um motorista não vai ajudar nesta tarefa.

    Vi por acaso um programa na tv sesc esta semana sobre os problemas no triansito entre carro vs bici. Para minha surpresa falava-se mais em ódio que paz, relatos de ciclistas dando porrada na cara de taxistas com capacete e por ai vai. Como trazer respeito com toda essa ignorância?

    Certa vez quando trabalhava em londres com um dos caras mais respeitados por lá no setor de transportes alternativos (Andrea Casalloti) trocamos muitas idéias sobre esses pequenos gestos de educação (tão raros no mundo e especialmente aqui, no Brasil) que levam um motorista qualquer pensar duas vezes antes de “tirar fina” do próximo ciclista.

    Vamos gerar educação e respeito, se é isso que buscamos =D

  21. DuHdu disse:

    Muito boa a sua abordadem!
    Tambem sou ciclista i vc tem toda a razão!
    Vou ser mais amigável
    rsrsrsrsrs

  22. Luiz Paulo disse:

    Aqui no RJ a pouco tempo uma empresa de táxi passou a fazer uns táxis especiais que levam o cadeirante em sua própria cadeira, são umas Doblos adaptadas, coisa legal mesmo… mas voltando ao caso, levei uma fechada sinistra de um destes táxis, se não fosse minha experiência em MTB teria caído feio sem duvida, fui obrigado a entrar na rua junto com o táxi apoiado com o ombro na lateral do carro…
    Parei ao lado do cara que sequer tinha me visto e perguntei se ele tinha muitos clientes e tal… E já sai falando antes dele responder:
    Não deve ter muitos clientes não, vc anda por ai tentando colocar mas pessoas na cadeira de rodas… na mesma hora ele “lembrou” do que tinha feito comigo na ultima esquina e pediu mil desculpas… sorte dele não ter feito isso a uns 5 anos… é tão caro um espelho de Doblo….
    Abc
    LP

  23. Joe bernado disse:

    É isso ae amigão!!!
    Temos que gerar gentileza pra ela voltar, sou responsavel por uma bicicletaria no Itaim Bibi ( k9 sports) fico feliz por sua conduta e isso reflete muito a maneira de como gostariamos de ser tratados melhor no transito..vamos fazer a diferença sempre!!!
    Sucesso

  24. Sebastiana Martins Azevedo disse:

    tenho 55 anos e a minha grande frustração é não saber andar de bicicleta, mas admiro quem sabe andar, e oro por vocês, porque sei das grandes dificuldades encontradas nas ruas por vocês. um abraço a todos.

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