Essa semana comentou-se em toda a mídia televisiva sobre a alta concentração de ozônio no ar “em andares altos”. Na internet, encontrei apenas esta matéria da Folha, se alguém tiver link para alguma matéria da TV me passe que eu coloco aqui.

Pois bem, descobriram que um dos poluentes que os carros soltam, o dióxido de nitrogênio (NO2), reage com o oxigênio do ar, ou com o gás carbônico (não me recordo agora) e gera ozônio (O3). O ozônio é bastante importante lá na estratosfera, onde nos protege dos raios ultra-violeta e tal, mas aqui embaixo, para a gente respirar, não é um bom negócio. E o ozônio gerado aqui fica por aqui mesmo, não sobe até lá para recompor a camada. Ou seja, é mais uma porcaria que sai dos carros, dessas que ferram a vida da gente e levam criança pro hospital.

Até aí, as matérias cumpriram bem seu papel, o de informar. O problema é a desinformação no meio da informação.

A cada 100 consultas no PS do Incor, 12 estão associadas a problemas causados pela poluição do ar
Imagem que ilustra artigo da revista Scientific American Brasil, com a informação de que 12 a cada 100 consultas no Pronto Socorro do Incor estão associadas a problemas causados pela poluição do ar. Na imagem, crianças fazem inalação em hospital.

Em algumas matérias que assisti, disseram, que o ozônio se forma “nos andares altos” porque o NO2 reage mais nessa altitude. Isso é um absurdo, mesmo que ele se formasse melhor em altas altitudes, 100m de altura não fariam a menor diferença. Ele acaba se formando mais ali porque há mais luz – não por estar “mais perto” dela, mas porque na rua mesmo, lá embaixo, tem menos luz incidindo, por causa da sombra dos próprios prédios.

Mas ok, vamos considerar isso um detalhe técnico que não muda nada para o telespectador médio, desapegado a detalhes desse tipo.

O maior problema é a recomendação que vi, invariavelmente, em todas as matérias que assisti na TV: fechar as janelas.

Vejam só: temos um problema urgente: a concentração de ozônio no ar está atingindo níveis preocupantes, sobretudo “nos andares mais altos”, onde mora a classe média mais abonada. Precisamos fazer alguma coisa! O que faremos?

Em vez de recomendarem às pessoas que deixem o carro em casa, sensibilizando-as para a qualidade péssima do ar que o hábito de dirigir compulsivamente traz, falam para fecharem as janelas. “O ar lá fora é venenoso, pare de envenená-lo feche as janelas!”

Deveriam, sim, dizer às pessoas para aproveitarem o dia de rodízio para deixar o carro em casa e ir de ônibus; deviam incentivar o uso do fretado por quem mora em outra cidade; deviam pedir que as pessoas dirijam, pelo menos, só até chegar numa estação de metrô e de lá sigam seu trajeto sem poluir; deviam pedir que utilizem menos motos, que poluem muito mais que os carros e mais até que os ônibus, sugerindo que as entregas sejam feitas por bicicletas.

Mas não: que eu mesmo e os outros fechemos todos as janelas em pleno verão, porque no meu direito sagrado de dirigir ninguém toca.

 

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