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16/01/2009 - 18:26

Sobre a ciclista assassinada na Av. Paulista

Muita gente me pergunta se não vou escrever nada aqui sobre a Márcia Regina de Andrade Prado, já que eu a conhecia. Não estava a fim de escrever sobre isso, mas já que pedem então escrevo. Andei dando algumas entrevistas, escrevendo comentários em matérias, reclamando de títulos tendenciosos como o de uma matéria da Folha que não convém nem citar o link, então não me custa nada escrever para cá também. Vamos lá.

A mulher debaixo do capacete

Conheci a Márcia na cicloviagem que os integrantes da Bicicletada fizeram até Ubatuba, em novembro do ano passado. Até então, só tinha lido algumas mensagens dela na lista de discussão da Bicicletada e não a conhecia pessoalmente, até porque, por uma indisponibilidade frequente nas noites de sexta, participo pouco dos encontros mensais na Praça do Ciclista, o que acabou me rendendo a alcunha de “lenda”…

Durante a viagem, não conversamos muito. Foi chegando lá que realmente a conheci. Eu, ela e a minha mulher, a Priscila, fomos tomar um café ótimo num lugar agradável e tranquilo. Ficamos ali por um bom tempo, conversando sobre a vida e sobre nossas histórias pessoais, enfim, assuntos que não tinham a ver com a bicicleta, mas com as nossas vidas.

E ali conhecemos um pouco da pessoa por trás dos e-mails e do capacete, alguém tranquila, ponderada, compreensiva e que amava e respeitava a vida.

A cicloativista

Márcia era ativa na Bicicletada. Encontrava informações pela internet, pesquisava as leis, entrava em contato com órgãos públicos. Participava dos encontros na praça, das ações, das viagens. Era muito mais presente fisicamente na bicicletada do que eu.

Era uma cicloativista muito tranquila, que apesar de ficar revoltada com a batalha inglória, não desanimava e nem desistia, tampouco perdia a paciência.

Como os demais participantes da Bicicletada, ela fazia isso porque acreditava em uma cidade melhor para todos. Acreditava que a bicicleta humaniza a cidade, direta e indiretamente, como já se provou em muitos lugares do mundo. Menos carros e mais pessoas, menos fumaça e mais pássaros, menos roncos de motor e mais risos de crianças. Era nisso que ela acreditava.

Era uma pessoa muito querida no movimento, principalmente entre as meninas, que já choraram bastante pela sua falta e sei que ainda chorarão mais algumas vezes. E não foram (e não serão) só elas a chorar.

O Manifesto dos Invisíveis

Ao contrário do que alguns jornalistas desinformados andam divulgando após consultar o Google e não ler a página que encontraram, o Manifesto dos Invisíveis, assinado também pela Márcia, não é um texto pedindo ciclovias. Muito pelo contrário! Antes de escrever sobre ele, seria interessante lê-lo.

O “acidente”

Passar com um veículo de 8 toneladas por cima de alguém que NÃO se jogou na sua frente de repente não é um acidente. Acidente é quando acontece algo inesperado, em que nada poderia ter sido feito para evitar.

A morte que ocorreu ali não foi inesperada: ao mover 8 toneladas para cima de 80 quilos, deveria-se esperar o pior. Também não foi inevitável: se o motorista respeitasse a LEI (art. 201 do CTB), teria passado a 1,5m da ciclista ao ultrapassá-la e não a teria derrubado da bicicleta.

O automóvel desgasta a sociedade, torna as cidades menos humanas e as pessoas mais frias. A ponto do “acidente” que mais mata crianças ser o carro e isso não ser considerado um problema de saúde pública, resultando apenas em campanhas que colocam a responsabilidade nas crianças e não nos carros e até em propagandas que as mostram como inimigas dos veículos. A ponto de dizerem que a rua é só dos carros e as bicicletas não devem fazer uso dela, de dizerem que a ciclista é que estava errada de circular ali. A ponto de fazer com que um motorista acelere para “assustar” o pedestre que não deveria atravessar a rua ou tire uma fina do ciclista para também “assustá-lo” e mostrar que ele não deveria estar ali.

A repercussão

É revoltante ver comentários, desde as pessoas que lêem algumas das notícias na internet até “especialistas” no rádio e TV, justificando que a ciclista morreu porque não deveria estar na rua, que bicicleta é perigoso e que a Avenida Paulista “não é lugar de bicicletas”. Isso é um absurdo!

Em primeiro lugar, o art. 58 do código de trânsito diz que a bicicleta tem direito sim à rua e que deve usar os bordos da pista.

Em segundo lugar, a bicicleta não é perigosa. A bicicleta não mata ninguém. O perigo está nos carros de uma tonelada ou mais que não respeitam seu espaço. Como algo que corre perigo pode ser o elemento perigoso? Como algo que subtrai vidas e coloca os outros em risco, em oposição a um veículo leve que mantinha sua trajetória sem interceptar a de ninguém, pode ser transformado em vítima nessa retórica absurda?

Em terceiro, em cidades como Londres há pistas de ônibus compartilhadas com bicicletas, os acidentes diminuíram e tudo funciona muito bem (inclusive os horários dos ônibus, conceito inexistente em São Paulo). Até Nova Iorque, principal cidade do país do automóvel, está sendo remodelada para se tornar mais humana através do uso da bicicleta e da retomada dos espaços públicos pelas pessoas, em contraponto ao modelo tradicional da prioridade do motor.

Em quarto lugar, o motorista ERROU ao passar tão perto da ciclista. O art. 220 do código de trânsito diz que a distância deve ser de 1,5m e isso tem seu motivo: uma encostada na ponta do guidão o vira de um jeito que derruba o ciclista em direção ao carro/ônibus/etc, podendo jogá-lo debaixo da roda. Ele não deveria ter feito isso nunca e não há pressa, descaso ou preconceito contra ciclista que justifique isso.

Em quinto, ciclista não “atrapalha” o trânsito, ciclista é parte do trânsito. Eu troquei meu carro pela bicicleta e tenho certeza que “atrapalho” muito menos com a minha bicicleta do que com o carro que eu usava, que ocupava oito metros quadrados de asfalto quando parado e pelo menos uns 20 em movimento. A rua não é exclusiva dos carros, o ciclista tem a velocidade dele e os carros que o ultrapassem ou que o esperem, como teriam que fazer com um carro mais lento ou um caminhão carregado.

E, por último, o motorista sabia que ia espremer a ciclista e muito provavelmente fez isso de propósito, para “puni-la” pelo que ele considerou errado da parte dela: estar com a bicicleta na rua. Muitos motoristas fazem isso todos os dias: ao achar que o ciclista não deveria estar ali, jogam o carro em cima para puni-lo por isso. E, claro, fogem. Se derrubar, derrubou, que se dane, é só ir embora rápido que “não pega nada”. Depois reclamam de alguns motoboys! Com que moral? Ninguém espreme um caminhão contra a calçada, pois não coloca a própria vida em risco. Não deveriam fazê-lo com o ciclista também, porque colocar deliberadamente em risco a vida de outra pessoa é muito egoísmo e, ainda por cima, crime.

Essas pessoas deveriam pensar melhor antes de sair divulgando na televisão uma opinião infundada, incoerente, egoísta, limitada e preconceituosa, principalmente porque essa opinião vai ser absorvida por muita gente que não quer se esforçar para entender o que aconteceu e engole uma opinião qualquer, sem mastigar. Por mais que a ciclista estivesse errada, puni-la com a morte é um pouquinho demais, não é? Por mais que o motorista do ônibus a odiasse por um motivo qualquer, por mais que ela tivesse feito uma maldade para ele algum dia no passado, nada justificaria o que ele fez. Muito menos estar simplesmente ali, andando de bicicleta.

A Bicicletada

É para termos uma cidade onde isso não é algo que “acontece, fazer o quê”, que a Bicicletada luta. Para termos uma cidade mais humana, com mais amor e menos motor.

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . A Bicicleta em São Paulo . Tags: , , ,


18 comentários para “Sobre a ciclista assassinada na Av. Paulista”

  1. Fabio N disse:

    Não a conheci. Mas é dificil não se

    emocionar com a foto do tchauzinho.

    “…a ciclista morreu porque não deveria

    estar na rua…”
    Inacreditavel. Tem certeza que voce ouviu

    isso ?!?

    Manifesto dos Invisíveis.
    Concordo com o conteúdo.
    Não ando de bicicleta. Uso transporte

    coletivo.
    Também me considero um invisível. Mesmo

    andando na calçada ou atravessando na

    faixa, muitas vezes os motoristas não me

    enxergam.
    Pedestre, assim como ciclista e

    motorista, faz parte do transito. Sendo o

    mais indefeso.

    1)Não faz sentido juntar-se aos pedestres?

    A causa é a mesma. Os dois s
    ão maltratados e indefesos. Acho que não

    se perderia o foco.
    Há muito tempo conversei com uma ONG no

    meu bairro que da cursos para cegos. Via

    o perigo que corriam(e ainda correm) indo

    e vindo para este lugar. Me disseram que

    “é assim mesmo, não dá para fazer

    nada…”
    Depois conversei com um cadeirante que

    trabalhava em uma ONG cujo o foco era

    cadeirantes. O pensamento deles era o

    mesmo: “ó vida, ó ceus”.
    Além disso temos, escolas, asilos, e etc.

    São muitos os lugares em que se encontram

    cidadãos que não usam carro.

    2) Supondo que o “”Manifesto dos

    Invisíveis” tenha o apoio de 3 milhões de

    pessoas. E agora, o que fazer com esse

    calhamaço de assinaturas? Francamente não

    estou entendendo qual é o

    plano/estrategia dos ciclistas. Juntar o

    pessoal as sextas para pedalar é bacana

    mas não traz resultados.
    Considerando os objetivos citados em

    http://www.bicicletada.org/O+que+e , na prática

    as ações de vocês são fracas ou talvez

    inexistentes.

    Em (2) não tenho intenção de atacar ninguem.

  2. Cássio disse:

    Um belo de um tapa na cara dos pedalantes esse episódio. O mínimo que temos que fazer é cuidar para que este assassino nunca mais coloque as mãos num volante.

  3. Fourier disse:

    Como sempre escreveu muito bem!

    Estava aguardando sua opinião sobre o triste acontecimento!

    Um dos melhores relatos que li!

    Abraços, lenda!

  4. Renan Sucupira disse:

    Willian,
    Bela postagem!

  5. Veridiana disse:

    Estou inteiramente de acordo com o post.
    O argumento de que ciclistas atrapalham me deixa transtornada. OS CARROS É QUE ATRAPALHAM O TRÂNSITO! Atrapalham ciclistas, atrapalham pedestres, atrapalham os ônibus. Nos dois primeiros casos, pode-se ainda trocar “atrapalham” por “matam”.

  6. André Pasqualini disse:

    Belo texto da “Lenda”, só que corrija os artigos do CTB, o que fala do 1,5 é o 201. O 220 manda o motorista reduzir a velocidade ao avistar o ciclista, ou seja, o motorista do ônibus desrespeitou dois artigos.

    Abraços

    André

  7. Newton Granado disse:

    Belo texto e muito boas dicas pra quem pedala em SP.
    Só para ilustrar, ontem (19/01), eu estava de bike pela Av. Ricardo Jafet, diversas vezes fui fechado pelos carros que insistiam em ultrapassar os outros carros pela direita e tiravam “finas” de mim e da minha bike.. tudo isso pra que? Para chegar primeiro no farol e ficar parado!!!! Discuti, como sempre faço,e pedi a distância mínima.. Mas ninguém conhece a legislação e dá pouca importância ao que falo…alguns, num momento de barbárie, mostram seus dedos médios e me xingam… tudo isso é realmente lamentável…
    Abraços ciclísticos a todos

  8. +crux+ disse:

    Valeu André, corrigido!

  9. Neto Goulart disse:

    Começei esta semana a usar a Bike como meio de transporte aki em Curitiba, Parabéns pelo blog.
    E infelizmente a raça humana (deveria ser desumana) é assim, as pessoas não pensam no bem dos outros, querem saber apenas de si, mas quem sabe um dia muda, eu ainda acredito. E a Marcia deverá estar olhando por todos os ciclistas em um lugar muito bom.
    Abraços
    Neto

  10. Alex Possato disse:

    Acabei de montar uma bike, e recomeçar a praticar o que, desde os 15, eu fazia: andar de bike. E agora, em busca de blogs sobre o assunto, encontrei este, ótimo por sinal. Fiquei consternado, mas não surpreso, com o assunto da morte da ciclista. Existe um lado na nossa cidade que não gosto e é meio animalesco. Mas não é por isso que vou sair de bike por aí, e largar o meu carro mais tempo parado. Eu sou livre! Não são ônibus, assaltantes ou neuróticos que me impedirão de sentir o vento na cara, as pernas tensas do esforço e a liberdade que a magrela proporcionam. Deixei de fazer muita coisa por causa dos “outros”, que nem sei quem são. Não deixo mais! Estou nessa!

    Deixei um link para o blog de vocês no meu Blog, e irei divulgar a idéia, no meu blog, site, trabalho…

  11. laricasdog disse:

    assassino FDP!

    ainda teve coragem de declarar: “estou com a consciencia limpa”; vai ter que prestar conta pra satanás! isso se eu não quebrar ele antes.

    o veículo maior tem obrigação de zelar pelo veículo menor.

    márcia uma bela mulher! descanse em paz.

  12. Rogério Vieira disse:

    Pois bem sou ciclista a cinco anos e sei bem o que é passar por isso, já fui atropelado por um caminhão basculante porem graças a Deus não quebrei um osso se quer. Minha sugestão é que o Osama Bin Laden acerte os alvos certos como Wolksvagen, Toyota, Chevrolet, GM, Krysler e outras montadoras de veiculos, é eu acho que assim diminuiria um pouco mais o numero de veiculos nesta cidade ridicula em questão de transporte que é São Paulo.

  13. [...] ônibus que terminou com a vida da Márcia Prado levantou a polêmica sobre o desrespeito dos motoristas de ônibus. Todo ciclista tem uma história [...]

  14. [...] precisa para perceber o que estão fazendo com as vidas das pessoas? A CET não aprendeu nada com a morte da Márcia Prado, em plena Avenida Paulista? Nem com as mais de 60 mortes de ciclistas no ano passado, [...]

  15. [...] Praça do Ciclista e na ghost bike que foi instalada em homenagem à Márcia Prado, cicloativista assassinada por um ônibus na Av. Paulista, no início desse [...]

  16. [...] uma “fina” de um veículo grande, sabe bem o que deve ter acontecido nessa situação: o mesmo que aconteceu com a Márcia Prado, em janeiro desse ano. O caminhão ultrapassou o ciclista sem respeitar a distância de 1,5m (art. [...]

  17. [...] (Bicicuba) e (Galeria do Artista) Marcelo Império Grillo (MIG) Márcia Regina de Andrade Prado (†† 14.1.2009) Márcio Campos Marcos Miranda Toledo (Belo Horizonte, MG) Mariana Cavalcante (Gira-me) Mariana [...]

  18. [...] Bike em homenagem a Márcia Prado – Foto: [...]

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