Muita gente me pergunta se não vou escrever nada aqui sobre a Márcia Regina de Andrade Prado, já que eu a conhecia. Não estava a fim de escrever sobre isso, mas já que pedem então escrevo. Andei dando algumas entrevistas, escrevendo comentários em matérias, reclamando de títulos tendenciosos como o de uma matéria da Folha que não convém nem citar o link, então não me custa nada escrever para cá também. Vamos lá.
A mulher debaixo do capacete
Conheci a Márcia na cicloviagem que os integrantes da Bicicletada fizeram até Ubatuba, em novembro do ano passado. Até então, só tinha lido algumas mensagens dela na lista de discussão da Bicicletada e não a conhecia pessoalmente, até porque, por uma indisponibilidade frequente nas noites de sexta, participo pouco dos encontros mensais na Praça do Ciclista, o que acabou me rendendo a alcunha de “lenda”…
Durante a viagem, não conversamos muito. Foi chegando lá que realmente a conheci. Eu, ela e a minha mulher, a Priscila, fomos tomar um café ótimo num lugar agradável e tranquilo. Ficamos ali por um bom tempo, conversando sobre a vida e sobre nossas histórias pessoais, enfim, assuntos que não tinham a ver com a bicicleta, mas com as nossas vidas.
E ali conhecemos um pouco da pessoa por trás dos e-mails e do capacete, alguém tranquila, ponderada, compreensiva e que amava e respeitava a vida.
A cicloativista
Márcia era ativa na Bicicletada. Encontrava informações pela internet, pesquisava as leis, entrava em contato com órgãos públicos. Participava dos encontros na praça, das ações, das viagens. Era muito mais presente fisicamente na bicicletada do que eu.
Era uma cicloativista muito tranquila, que apesar de ficar revoltada com a batalha inglória, não desanimava e nem desistia, tampouco perdia a paciência.
Como os demais participantes da Bicicletada, ela fazia isso porque acreditava em uma cidade melhor para todos. Acreditava que a bicicleta humaniza a cidade, direta e indiretamente, como já se provou em muitos lugares do mundo. Menos carros e mais pessoas, menos fumaça e mais pássaros, menos roncos de motor e mais risos de crianças. Era nisso que ela acreditava.
Era uma pessoa muito querida no movimento, principalmente entre as meninas, que já choraram bastante pela sua falta e sei que ainda chorarão mais algumas vezes. E não foram (e não serão) só elas a chorar.
O Manifesto dos Invisíveis
Ao contrário do que alguns jornalistas desinformados andam divulgando após consultar o Google e não ler a página que encontraram, o Manifesto dos Invisíveis, assinado também pela Márcia, não é um texto pedindo ciclovias. Muito pelo contrário! Antes de escrever sobre ele, seria interessante lê-lo.
O “acidente”
Passar com um veículo de 8 toneladas por cima de alguém que NÃO se jogou na sua frente de repente não é um acidente. Acidente é quando acontece algo inesperado, em que nada poderia ter sido feito para evitar.
A morte que ocorreu ali não foi inesperada: ao mover 8 toneladas para cima de 80 quilos, deveria-se esperar o pior. Também não foi inevitável: se o motorista respeitasse a LEI (art. 201 do CTB), teria passado a 1,5m da ciclista ao ultrapassá-la e não a teria derrubado da bicicleta.
O automóvel desgasta a sociedade, torna as cidades menos humanas e as pessoas mais frias. A ponto do “acidente” que mais mata crianças ser o carro e isso não ser considerado um problema de saúde pública, resultando apenas em campanhas que colocam a responsabilidade nas crianças e não nos carros e até em propagandas que as mostram como inimigas dos veículos. A ponto de dizerem que a rua é só dos carros e as bicicletas não devem fazer uso dela, de dizerem que a ciclista é que estava errada de circular ali. A ponto de fazer com que um motorista acelere para “assustar” o pedestre que não deveria atravessar a rua ou tire uma fina do ciclista para também “assustá-lo” e mostrar que ele não deveria estar ali.
A repercussão
É revoltante ver comentários, desde as pessoas que lêem algumas das notícias na internet até “especialistas” no rádio e TV, justificando que a ciclista morreu porque não deveria estar na rua, que bicicleta é perigoso e que a Avenida Paulista “não é lugar de bicicletas”. Isso é um absurdo!
Em primeiro lugar, o art. 58 do código de trânsito diz que a bicicleta tem direito sim à rua e que deve usar os bordos da pista.
Em segundo lugar, a bicicleta não é perigosa. A bicicleta não mata ninguém. O perigo está nos carros de uma tonelada ou mais que não respeitam seu espaço. Como algo que corre perigo pode ser o elemento perigoso? Como algo que subtrai vidas e coloca os outros em risco, em oposição a um veículo leve que mantinha sua trajetória sem interceptar a de ninguém, pode ser transformado em vítima nessa retórica absurda?
Em terceiro, em cidades como Londres há pistas de ônibus compartilhadas com bicicletas, os acidentes diminuíram e tudo funciona muito bem (inclusive os horários dos ônibus, conceito inexistente em São Paulo). Até Nova Iorque, principal cidade do país do automóvel, está sendo remodelada para se tornar mais humana através do uso da bicicleta e da retomada dos espaços públicos pelas pessoas, em contraponto ao modelo tradicional da prioridade do motor.
Em quarto lugar, o motorista ERROU ao passar tão perto da ciclista. O art. 220 do código de trânsito diz que a distância deve ser de 1,5m e isso tem seu motivo: uma encostada na ponta do guidão o vira de um jeito que derruba o ciclista em direção ao carro/ônibus/etc, podendo jogá-lo debaixo da roda. Ele não deveria ter feito isso nunca e não há pressa, descaso ou preconceito contra ciclista que justifique isso.
Em quinto, ciclista não “atrapalha” o trânsito, ciclista é parte do trânsito. Eu troquei meu carro pela bicicleta e tenho certeza que “atrapalho” muito menos com a minha bicicleta do que com o carro que eu usava, que ocupava oito metros quadrados de asfalto quando parado e pelo menos uns 20 em movimento. A rua não é exclusiva dos carros, o ciclista tem a velocidade dele e os carros que o ultrapassem ou que o esperem, como teriam que fazer com um carro mais lento ou um caminhão carregado.
E, por último, o motorista sabia que ia espremer a ciclista e muito provavelmente fez isso de propósito, para “puni-la” pelo que ele considerou errado da parte dela: estar com a bicicleta na rua. Muitos motoristas fazem isso todos os dias: ao achar que o ciclista não deveria estar ali, jogam o carro em cima para puni-lo por isso. E, claro, fogem. Se derrubar, derrubou, que se dane, é só ir embora rápido que “não pega nada”. Depois reclamam de alguns motoboys! Com que moral? Ninguém espreme um caminhão contra a calçada, pois não coloca a própria vida em risco. Não deveriam fazê-lo com o ciclista também, porque colocar deliberadamente em risco a vida de outra pessoa é muito egoísmo e, ainda por cima, crime.
Essas pessoas deveriam pensar melhor antes de sair divulgando na televisão uma opinião infundada, incoerente, egoísta, limitada e preconceituosa, principalmente porque essa opinião vai ser absorvida por muita gente que não quer se esforçar para entender o que aconteceu e engole uma opinião qualquer, sem mastigar. Por mais que a ciclista estivesse errada, puni-la com a morte é um pouquinho demais, não é? Por mais que o motorista do ônibus a odiasse por um motivo qualquer, por mais que ela tivesse feito uma maldade para ele algum dia no passado, nada justificaria o que ele fez. Muito menos estar simplesmente ali, andando de bicicleta.
A Bicicletada
É para termos uma cidade onde isso não é algo que “acontece, fazer o quê”, que a Bicicletada luta. Para termos uma cidade mais humana, com mais amor e menos motor.