No Brasil, as classes média e alta ainda idolatram os carros grandes. Os SUVs (também chamados de jipões) são aqueles carros altos, largos, compridos, pesados e que geralmente circulam com apenas uma pessoa dentro, apesar de terem espaço para carregar um boi. Símbolo de status e poder, ainda hoje são o sonho de consumo de muita gente. A justificativa de quem gosta de um carro desse tipo é sempre a mesma: mais segurança para o motorista, por ser um carro mais “robusto”, e sensação de status para quem dirige, por estar acima dos demais veículos.
Enquanto um dos motivos é bastante egoísta (melhorar a própria segurança, ao custo da dos outros), a segunda demonstra uma extrema falta de auto-estima – freqüentemente satirizada com referências ao tamanho de certa parte da anatomia masculina.
Eu não gosto de SUVs. Sei que ao ler isso, muita gente vai pensar “não gosta porque não pode ter uma” ou “isso é inveja”. Mas não é isso não. Vou explicar.
Um SUV na rua é uma afronta
Em movimento, um SUV é um perigo, principalmente porque muitos motoristas as utilizam para obter mais “respeito” no trânsito. Mas respeito é pra quem tem, é algo que se conquista… Essas pessoas escolhem esse tipo de carro para não precisar tomar tanto cuidado no trânsito, partindo do princípio de que os outros é que deverão tomar cuidado, já que o carro é grande e numa colisão fará bastante estrago. Esse é o tipo de “respeito” que o carro oferece.
Parado, o SUV ocupa muito espaço. Principalmente parada no trânsito. Mais largo que os outros carros, torna-se um entrave para ciclistas e motociclistas, já que não sobra espaço de nenhum dos lados para ultrapassá-lo. É também um risco maior para os demais veículos, pois a distância entre eles diminui.
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Muita gente que estava em uma minivan passou ao lado de um SUV e viu que não estava tão por cima quanto pensava. É impressionante o número de pessoas que deixa sua minivan para levar um utilitário esportivo. |
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José Martins Filho
gerente comercial de uma
concessionária da Kia
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Sua altura, que isola o motorista do olhar dos outros condutores, é a desculpa ideal para a atitude de “não estou te vendo” ao dirigir. Esse é um dos tipos de “status” que o SUV dá: a falsa ilusão de superioridade (o outro é a pretensa superioridade econômica). Ficar mais alto que os outros motoristas e perder o contato olho-no-olho torna mais fácil ver os outros apenas como carros em vez de pessoas. E como carros menores, mais fracos, que podem ser empurrados pra lá com a simples ameaça de ir em direção a eles. Na hora da raiva, não ter que olhar nos olhos da vítima torna mais fácil se vingar dela.
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Ninguém me fecha. |
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Luciane Sabbag
32 anos, publicitária
e feliz proprietária
de um Kia Sportage
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E é justamente essa altura maior que o normal que faz o carro ser mais suscetível a capotamentos, pois seu centro de gravidade fica mais longe do chão. Essa é a verdadeira “segurança” que o carro oferece.
Com motores que consomem mais combustível (afinal, mover duas toneladas de metal para carregar 100 quilos de ser humano demanda muita energia), os SUVs poluem mais. A situação piora quando o motor é movido a diesel, que libera poluentes como enxofre e chumbo. Aliás, se você vir um SUV por aí soltando fumaça preta pelo escapamento e sujando o ar que você respira, denuncie. O dono de um carro desses não tem nem a desculpa de não ter dinheiro para consertar o carro: se não tiver, que o venda e compre um mais barato e menos poluente.
Vendas caindo nos EUA, rejeição na Europa
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| Não é um “Hot Wheels”, é um Hummer… |
Nos EUA, os carrões de luxo e os SUVs estão em decadência, por gastarem mais em combustível e por seu valor estar em contínuo declínio. Quem tenta vender um carro desses por lá, perde bastante dinheiro, principalmente se fez financiamento para comprar. As pessoas começam a evitar carros desse tipo, o que se percebe no preço de venda.
A General Motors vai fechar 4 fábricas de produção de SUVs e pickups, e considera a hipótese de vender a marca Hummer. O Hummer é aquele carro extremamente largo, grande e pesado, que descende do veículo militar Humvee e que não precisa (sabe-se lá por que) cumprir os padrões americanos de eficiência de combustível. Polui que é uma desgraça, ocupa mais de uma pista de circulação nas ruas e ofende os outros usuários da via com seu egoísmo. Já vi aqui em São Paulo, em mais de uma ocasião, algum motorista patético circulando com um tanque desses na rua. Em uma das ocasiões, vi primeiro uma fumaça preta que imaginei vir de algum incêndio; procurando melhor a origem da fumaça, vi o Hummer virando em uma rua, antes que eu pudesse anotar sua placa (se é que tinha) para denunciá-lo à CETESB.
Na Europa, a rejeição aos SUVs não é de hoje. Há vários anos, ativistas já combatem o uso desses veículos. A Associação de Professores e Mestres da Inglaterra luta contra o uso de automóveis 4×4 para levar as crianças à escola, alegando que “podem matar ou ferir gravemente duas ou quatro vezes mais do que os carros comuns”. O motorista não tem visão de uma criança pequena na frente do carro e uma colisão atinge diretamente o tórax ou a cabeça dessa criança.
Outro argumento de ativistas anti-SUV é a poluição gerada por esses veículos, que por serem mais pesados que os convencionais, precisam de um motor bem mais potente para movê-los.
A Suíça vai fazer um plebiscito com o objetivo de banir o uso dos SUVs, pelo menos da forma que são hoje. Querem estabelecer normas para que sejam produzidos apenas veículos que poluam até certo limite, pesem menos de 2.2 toneladas, tenham uma frente mais segura para quem está do lado de fora e que os motores a diesel venham com filtros de partículas. Carros já existentes que não se enquadrem nesse padrão devem ter um limite de velocidade de 100 km/h. Tudo muito justo. Segundo os ativistas de lá, essa iniciativa “desacelera o aquecimento global, protege os ciclistas, pedestres e crianças, pára a guerra armada nas ruas… reduz a poluição e ainda é razoável”.
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