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08/07/2008 - 19:48

Ciclista só deve usar o lado direito da via?

Em uma boa reportagem sobre a questão das ciclovias na cidade, Danilo May, leitor da Folha e deste blog, encontrou na frase final algo que considerou uma incoerência: a afirmação de que o ciclista deve usar apenas a margem direita da pista.

A primeira impressão, principalmente para alguém que nunca utilizou a bicicleta como meio de transporte, é de que o ciclista deve mesmo usar sempre o lado direito da via, por ser um veículo mais lento. Esse pensamento orientou a justificativa do repórter, ao ser questionado pelo Ombudsman, após e-mail do Danilo:

Em uma leitura estrita, o argumento do leitor aparenta ter alguma pertinência. O Código Brasileiro de Trânsito diz o seguinte:

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

Porém, o inciso IV do artigo 42 diz o seguinte:

IV – quando uma pista de rolamento comportar várias faixas de circulação no mesmo sentido, são as da direita destinadas ao deslocamento dos veículos mais lentos e de maior porte, quando não houver faixa especial a eles destinada, e as da esquerda, destinadas à ultrapassagem e ao deslocamento dos veículos de maior velocidade;

Deste modo, ao informar que “Enquanto as ciclovias não chegam, o ciclista deve respeitar as leis de trânsito: andar pela margem direita, no mesmo sentido da via”, procurei fazer uma interpretação do Código de Trânsito que levasse em consideração o bom senso no uso da via. Deste modo, sinceramente não creio que seja o caso de erro de informação.

Ok, vamos desmitificar esse assunto.

- O Art. 58 diz “nos bordos”. Plural. Ou seja, no bordo esquerdo e no bordo direito.

- O inciso IV do art. 42 diz que as faixas da direita são destinadas aos veículos mais lentos E de maior porte (não OU de maior porte).

Com base nesses dois trechos, conclui-se que o inciso IV do art. 42 determina que veículos LENTOS E DE GRANDE PORTE (ônibus, caminhões, escavadeiras e tanques de guerra) usem a pista da direita. Acrescente-se a isso o argumento citado pelo Zé Lobo, da ONG Transporte Ativo: “O inciso IV do artigo 42 diz que a faixa da direita é dos veículos mais lentos. Mas não por velocidade final e sim por velocidade na via. Em vias engarrafadas, a bicicleta normalmente é o veículo mais rápido. Logo a justificativa não faz sentido.”

E o art. 58 diz ainda que as bicicletas podem usar OS bordos da pista. A pista só tem dois bordos, o esquerdo e o direito, portanto é a eles que a lei se refere.

Concordo com a avaliação do jornalista de que o bordo direito é mais seguro para os ciclistas, afinal na pista da esquerda os veículos transitam com maior velocidade. Entretanto, há situações específicas em que o bordo esquerdo se torna mais seguro. Assim, de pronto, consigo pensar em duas:

1) Quando há uma faixa exclusiva de ônibus na pista da direita. Ao permanecer nessa faixa, o ciclista obriga os ônibus a saírem dela para o ultrapassar, o que não é uma operação simples para os ônibus. A alternativa ao motorista é espremer o ciclista contra a calçada, o que muitas vezes acontece, podendo resultar até mesmo em fatalidade. Nesses casos, ocupar a segunda faixa pode ser mais perigoso do que oculpar a da esquerda, porque haverá veículos passando em alta velocidade de ambos os lados do ciclista, muitas vezes mudando de pista e cruzando à sua frente para entrar em uma rua, por vezes o obrigando a se jogar na frente dos ônibus para escapar de um motorista agressivo.

2) Quando há um desvio ou conversão à esquerda logo adiante. O motorista de um carro que precisa pegar um desvio para a esquerda em uma grande avenida, precisa ir se deslocando paulatinamente até a pista da esquerda. Sair da direita na última hora para cruzar a avenida pode ser desastroso mesmo para um veículo motorizado. Como por questões de segurança no trânsito o ciclista não pode ir mudando aos poucos de pista para chegar à da esquerda no momento ideal, ele DEVE se conservar na esquerda desde quando o puder fazer, preferencialmente no semáforo que anteceder à conversão necessária, de modo que já se encontre na pista correta ao chegar na altura da saída que precisa pegar.

Há detalhes que só são percebidos por quem utiliza a bicicleta como meio de transporte. Opinar com base unicamente na experiência de motorista de veículo motorizado é louvável, mas por vezes pode soar como um pianista dando sugestões a um flautista sobre a força com a qual ele deve apertar os furos da flauta.

O problema em dizer em uma matéria aberta ao grande público que o ciclista DEVE usar o bordo direito é incutir acidentalmente na cabeça dos motoristas que o ciclista que estiver no lado esquerdo da pista está automaticamente errado. E todos sabemos que há certos tipos de motorista que punem com buzinas, movimentos agressivos e ameaças de atropelamento aos ciclistas e pedestres que eles acham que estão fazendo uso incorreto da via, como se essa infração fosse tão grave que merecesse ser punida com a morte ou o mutilamento imediatos.

Saiba mais

Por que ocupar a faixa

Como sobreviver ao trânsito

Por que não pedalar na contramão?

O que o Código de Trânsito diz sobre nós ciclistas

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): - mais dicas - Tags: ,


6 comentários para “Ciclista só deve usar o lado direito da via?”

  1. panoptico disse:

    Pois é, como ciclista novato esta questão tb me surgiu recentemente. Percebi o que muitos motoboys vinham reclamando.

    Quando estreitaram as faixas para caber mais carros, nem moto, nem ninguém passa entre os carros parados (engraçado esse movimento ter sido anterior à atual onda de carros largos em SP).

    Percebi que em alguns trechos de trânsito parado, por exemplo na avenida Europa, eu ficava parado junto no trânsito e com a cara no escapamento do carro a minha frente.

    Deveria ir para a esquerda, sendo que vem carros na direção contrária, ir para a calçada que tem pouco movimento e é larga, tentar ir pelo meio, como as motos?

    Acabei procurando vias alternativas que são mais escuras e perigosas por conta da maior velo dos carros.

    Achava que indo pela direita eu iria tranquilo, mas, em diversas ruas, a bicicleta não cabe à direita qd o trânsito está totalmente parado.

    Ando observando ciclistas mais experientes e lendo sobre estas questões práticas para entender melhor como agir em cada situação.

    abraço,
    panóptico

  2. Fabiano Faga Pacheco disse:

    uhuuuu!
    não podia deixar de escrever aqui!
    \\o/

  3. Stanley Calderelli disse:

    Eu pedalo à direita. Mas à direita relativamente em que eu possa trafegar. Nunca junto da sargeta.

    Há trechos (a maioria deles) onde quem está à direita da avenida (4a. faixa), pode sofrer fechadas de taxistas ou de ônibus, “portadas” ou pedalar com dificuldades por haver tantas falhas no asfalto.

    Prefiro ficar sempre à esquerda da “faixa da direita”. Entre a 4a. e a 3a. Assim há como “fugir” de algum mal-educado que me feche a passagem.

    Ou se eu tenho que virar à próxima esquerda, me apoio ANTES â faixa 1. Pode parecer mais perigoso, mas entendo ser o mais prudente.

    Aliás, é um dos espaços onde sou mais respeitado apesar da velocidade maior dos carros.

    No entanto, numa certa manhã de ida ao trabalho, no último trecho de Avenida antes de sair à esquerda, eu estava na 1a faixa (a da esquerda, adjacente ao canteiro central) quando fui truculentamente obrigado a parar por policiais de dentro de uma viatura (SUV) da Corregedoria da Polícia, que (interromperam o fluxo da avenida) me exigindo que atravessasse até à direita para seguir.

    Assim, tive que virar à esquina à esquerda atravessando pela faixa.

    Se eu “pudesse” continuar onde estava, não interromperia o fluxo de ninguém nem o meu para terminar o trajeto.

    Bom…. mas foi só uma vez.

  4. +crux+ disse:

    Panóptico, o art. 211 do CNT caracteriza como infração o seguinte:


    Art. 211. Ultrapassar veículos em fila, parados em razão de sinal luminoso, cancela, bloqueio viário parcial ou qualquer outro obstáculo, com exceção dos veículos não motorizados.

    Ou seja, veículos não motorizados podem ultrapassar pelo corredor a fileira de veículos que pararam no sinal fechado.

    Mas como você comentou, há vias em que não há espaço entre os carros parados. Perceba que nesses casos, mesmo os motociclistas procuram vias alternativas. Ir pela esquerda na contramão é bastante perigoso, ficar entre as duas pistas geralmente também o é. Ou você espera atrás dos carros (haja paciência) ou vai pela calçada. O certo é desmontar da bicicleta e empurrar na calçada, mas se você pedalar devagar, dando preferência para os pedestres, lembrando que a calçada ali é *deles* e você está só de visita, parando para eles quando for necessário, tomando muito cuidado com as saídas de garagens e desmontando e empurrando se houver muita gente passando a pé, passa a ser viável usar a calçada.

    Não é o certo, mas se a rua só permite o tráfego motorizado e você vai transitar bem devagar e tomando o cuidado necessário com os pedestres, que são os verdadeiros “donos” da calçada, ok. Eu prefiro tentar algum caminho alternativo.

    No caso específico da Av. Europa, tem algumas alternativas extremamente agradáveis nas ruas da região. Dê uma pesquisadinha no Google Maps ou no Bikely.

  5. +crux+ disse:

    Stan, o que você descreve como seu posicionamento na faixa da direita é na linha do que eu recomendo aqui:
    http://tinyurl.com/6ktodm

    Sobre a atitude da viatura da Corregedoria, só posso lamentar… Nessas horas nem adianta tentar citar a legislação. E, sendo a Corregedoria, você vai reclamar pra quem? Who watches the watchmen? Quis custodiet ipsos custodes?

  6. helcio disse:

    ALém dos argumentos usados, acrescento que em muitas vias, notadamente as que contam com muitos ônibus e pontos para eles pararem, mas que nem por isso os carros atingem grande velocidade na pista da esquerda, sinto-me mais seguro pedalando na pista da esquerda. Outro fato a ser levado em consideração são as estatísticas quanto aos acidentes envolvendo ônibus e caminhões. Se o número for proporcionalmente alto, como muitos dizem, por que dar prioridade por andar do lado deles?

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