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Arquivo de maio, 2008

19/05/2008 - 20:37

Presente de dia das mães

A alegria do primeiro passeio de bicicleta
A alegria do primeiro passeio de bicicleta

No último final de semana, eu dei um presente diferente para minha mãe. Nada de presentes caros, perfume, roupas ou coisas legais mas que vão ficar encostadas. Dei a ela uma coisa que poucas mães já ganharam: um par de luvas de ciclismo. Ela estava querendo luvas amarelinhas, de meio dedo. Ela ficou toda feliz, dava até pulinhos de alegria…

Não, minha mãe não é atleta. Não participa de triatlo e nem de corridas de estrada, muito menos competições de mountain-bike. Ela é apenas uma mulher de 65 anos que, acredite, sempre teve medo de andar de bicicleta. E ainda tem! Ela tem medo de cair e quebrar alguma coisa que não conserte direito, por causa da idade. Mas no começo desse ano eu a levei no Ibirapuera, junto com minha mulher e meu filho, para andarmos de bicicleta. Eu e minha mulher fomos pedalando pela rua, ela e meu filho foram de carro.

A bicicleta do meu filho não estava na minha casa, então ele foi sem e lá alugamos um triciclo pequeno. Minha mãe olhava para as bicicletas com uma vontade… Mas ficava com medo. Tentei convencê-la de que eu a ajudaria a se equilibrar e ensinaria como se faz, mas ela não queria se arriscar.

Então sugeri que ela também alugasse um triciclo. Tem uns maiores, que tem aro tamanho 26 na frente e 24 atrás, com uma cestinha entre as duas rodas de trás. Depois de pouca insistência, eu a convenci e lá foi ela pedalando.

Demos duas voltas na ciclovia do parque, o que dá mais ou menos uns 9km. Ela estava feliz da vida, sorria, dizia “isso sim que é liberdade”, “é como eu imaginava nos meus sonhos, quando sonhava que estava andando de bicicleta” e outras frases igualmente inspiradoras. Ela comparou com esportes de água e ar, dizendo que a imagem de liberdade no ar é a asa delta, na água é o esqui-aquático (não sei de onde ela tirou essa, hehe) e na terra (no chão) é a bicicleta.

Ela dava pulos, feliz, quando terminou o passeio, agradeceu bastante e já queria saber quando voltaríamos ao parque. Voltamos mais uma ou duas vezes com ela e depois disso ela me surpreendeu ao me contar no messenger que tinha encontrado uma loja que vendia triciclos como aquele, que já tinha encomendado um amarelinho pra ela e me perguntava se eu achava que cabia no carro dela ou se era melhor mandar entregar.

Na noite que precedia seu primeiro passeio de triciclo pelas ruas do bairro onde mora, em São Bernardo do Campo, ela mal conseguiu dormir. Parecia criança. Até ligou para uma amiga no meio da madrugada, ansiosíssima, para contar que não via a hora do dia amanhecer para sair com a bicicleta.

E lá foi ela, de cabeça erguida e um sorriso de orelha a orelha, se sentindo livre como há tempos não se sentia. Foi à feira, a uma praça, deu voltas por ruas tranqüilas. No começo tentou andar pelas calçadas, até porque ela passa devagar. Mas descobriu que com um triciclo isso é impraticável, porque há muitos buracos, degraus, desníveis e trechos estreitos (quando ela me contou isso, eu comentei: “agora você sabe o que passa quem precisa usar nas calçadas uma cadeira de rodas”). Agora ela só anda pela rua e até já se arrisca na beiradinha de alguma avenida.

Ela deu até nome para o triciclo: Gorducha, já que não é uma bicicleta magrelinha. Agora ela sempre tem alguma história pra contar sobre a Gorducha.

Fala sobre motoristas que incentivam com uma buzinadinha simpática e sobre outros, mais raros, que se estressam porque ela está ocupando a rua que lhes pertence – mas esses não merecem atenção e são ignorados: ela segue em sua pedalada tranqüila, segue em sua alegria, distante do stress que acompanha esse tipo de gente, ao contrário dos primeiros, que ganham um sorriso sincero e um aceno simpático.

Conta sobre as pessoas na feira que se interessam pela bicicleta, que com a cesta atrás pode levar compras e até transportar cargas, e suas tentativas de passar o endereço do site para quem não sabe muito bem o que é internet.

Comenta sobre suas tentativas de convencer outras pessoas a compartilhar a pedalada com ela e sobre a descoberta de que muita gente parece ter medo de se divertir, de inovar, de se sentir jovem de novo.

Conta sobre outros ciclistas e pedestres que cumprimentam e puxam conversa, tornando os passeios ainda mais agradáveis, e sobre a reação simpática das pessoas ao ver uma bicicleta diferente nas ruas, pilotada por uma pessoa de mais idade.

Durante a semana, ela continua usando o carro, porque mora em SBC e trabalha em São Paulo. Mas faz um uso mais racional: vai de carro até a estação do metrô mais próxima e de lá segue de metrô e ônibus. Ela já faz isso há uns bons anos. E agora, nos finais de semana, usa a bicicleta para se divertir e para fazer compras nos locais mais próximos de casa. E acha muito mais divertido do que ir de carro…

Não lhe comprei um capacete, porque ela anda devagar e com um triciclo é mais difícil cair, pelo menos de uma forma a bater a cabeça. Recomendei o uso de luvas. Ela tinha um par usado, que era do meu irmão e estava na casa dela, mas com elas o guidão estava lhe machucando as mãos. Ela adorou as luvas novas.

Minha mãe me enche de orgulho.

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . Bicicleta é muito mais . Tags: , ,
09/05/2008 - 19:03

A ponte estaiada

Foto: Ciclo BR

O Estilingão (vulgo ponte Octávio Frias de Oliveira) será inaugurado nesse sábado de manhã. A ponte tem nome de dono de jornal e liga a avenida com o nome de dono de rede de TV ao maior estacionamento da América Latina, a Marginal Pinheiros. A Globo vende por insistência a idéia de que será o “novo cartão postal da cidade” (exemplos aqui, aqui e aqui, além das constantes chamadas na TV).

Solução para o trânsito?

Embora eu não consiga lhe atribuir o adjetivo bonita, a ponte chama bastante atenção pelo seu tamanho monumental e aparência inusitada. É impossível não reparar em uma obra desse tamanho. Mas o que mais me chama atenção é o investimento absurdo em uma obra que não vai resolve o problema do trânsito na cidade.

Muita gente acredita que sim. Principalmente a Globo, que hoje no SP TV anunciou que “espera-se que a ponte melhore bastante o trânsito na região”. Mas o problema da cidade não é falta de vias, é excesso de veículos. E quanto mais vias você cria, mais incentiva o uso dos carros. O que é preciso por aqui é incentivar o uso de alternativas ao carro, porque o trânsito só melhora se tiver menos carros na rua.

Parece óbvio, mas muita gente não percebe. E acaba acreditando que uma ponte que vai ligar um congestionamento ao outro resolve o problema. No máximo vai transferir o congestionamento para outro ponto…

Exclusão

Um investimento de R$ 230 milhões (e duas vidas de operários) para melhorar o trânsito na cidade deveria ter sido melhor direcionado. Gastaram 230 milhões para atender apenas os 30% da população que tem carro. Com esse valor, seria possível construir 100 quilômetros de corredores de ônibus, 1000 de ciclovias, manter faixas de pedestre pintadas em todas as esquinas da capital durante uma década. Ou fazer um pouquinho de cada. E até mais uma avenida, quem sabe. É muito dinheiro concentrado em uma pretensa solução para o trânsito que não ajudará em nada.

Ao menos poderiam ter feito uma ponte que atendesse a todos. Quem já tentou atravessar a Marginal a pé sabe o quanto isso é difícil: as pontes são muito distantes umas das outras, o acesso de pedestres geralmente é muito ruim e os carros não dão folga para os pedestres passarem. A travessia é bastante perigosa e não recomendo para quem tenha alguma característica especial de mobilidade (idosos, deficientes, crianças, etc). Quem passa por elas de bicicleta, também sabe o risco que representam.

A situação das demais pontes seria mais do que um bom exemplo, com o qual os projetistas, a CET e a prefeitura deveriam ter aprendido a lição e criado uma ponte acessível a todos. Mas não: com a desculpa de que ela leva à pista central da Marginal, ela só atende aos carros. Com um custo adicional muito pequeno em relação ao todo, poderia ter sido feita uma passarela, até mesmo de uso compartilhado entre pedestres e ciclistas, que acompanhasse a ponte até certo ponto e depois seguisse sozinha até a pista local do outro lado. Além de desrespeitar a lei, a ponte é uma injustiça social.

Desrespeito à lei

Há pelo menos dois desrespeitos à lei nesse complexo viário. Um deles é em relação à lei municipal 14.266, que determina em seu artigo 11 que “as novas vias públicas, incluindo pontes, viadutos e túneis, devem prever espaços destinados ao acesso e circulação de bicicletas, em conformidade com os estudos de viabilidade”. Essa determinação já vem desde 1990, em outra lei que foi substituída por esta, então não é nenhuma novidade.

O outro desrespeito é em relação à mudança de nome da Avenida Águas Espraiadas, que foi rebatizada em homenagem ao “Jornalista” Roberto Marinho. O complexo viário todo teria esse nome, mas por alguma questão legal ou política resolveram mudar o nome da ponte. A lei municipal 13.180, de 2001, já determinava que só seria permitida a mudança de nome de ruas em caso de homonimia (ruas com nomes iguais ou muito parecidos) ou por se tratar de nome “suscetível de expor ao ridículo moradores ou domiciliados no entorno”. Obviamente não era esse o caso. A então prefeita Marta Suplicy mudou o nome da rua para fazer um agrado à rede de televisão, que tem amplas instalações em local próximo e anuncia esse nome de boca cheia ao exibi-la nas tomadas feitas por helicóptero.

Piquenique

Por todos esses motivos e talvez até mais alguns, cidadãos inconformados farão um evento paralelo para celebrar o “cartão postal” feito apenas para a parcela da população que usa o carro, o uso inteligente do dinheiro público na solução dos problemas na cidade, o monumento ao individualismo e à sociedade do automóvel.

Para saber mais

- Monumento à sociedade do automóvel – ótimo texto, vale a leitura
- Monumento ao congestionamento e à segregação
- Piquenique na inauguração da ponte estaiada
- Documentário Beyond Citizen Kane, que teve sua exibição proibida no Brasil pela Globo

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . São Paulo parada . Tags: , , , , ,
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