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Arquivo de maio, 2007

21/05/2007 - 21:28

Educar versus punir e os conceitos distorcidos

O Denatran determinou que os radares sejam sempre sinalizados claramente, com placas indicativas e disponibilizados de forma visível. Multas que forem aplicadas por radares escondidos não terão mais validade.

A justificativa para isso é sempre a de que deve-se “educar em vez de punir”. Claro, concordo. Não se deve punir alguém que não foi previamente instruído sobre o que se pode ou não fazer, porque estaria-se castigando um inocente. Mas vejamos:

O que é mais importante, decorar o nome correto da placa ou saber o que se espera do motorista ao avistá-la?

- A primeira educação que um motorista recebeu sobre velocidade no trânsito foi na auto-escola. Ou pelo menos deveria ser, se as pessoas não fizessem as aulas só para conseguir o documento e sim para aprender a dirigir direito. E dirigir não é só apertar os pedais e mover as alavancas com o sincronismo correto e saber encaixotar o carro entre dois pauzinhos, como o exame prático exige de nós. Ou decorar a placa que corresponde a “área de campismo”, uma das questões que podem ser encontradas no exame teórico. Muito mais importante é ensinar a respeitar uma placa de “Passagem sinalizada de escolares”, que hoje em dia serve só de enfeite e é afixada nos postes apenas para se cumprir uma determinação legal na sinalização da via. Que motorista diminui a velocidade ao ver uma placa dessas? Que motorista percebe uma placa dessas? Instruir é educar.

Em iniciativa da ONG Ruaviva, “anjos” lembraram os motoristas sobre os limites de velocidade

- A segunda educação que o motorista recebe é a placa que sinaliza a velocidade máxima permitida na via. Se está escrito 60km/h, vamos andar a 60km/h. Informar é educar.

Depois de devidamente instruído e informado, portanto devidamente educado, o motorista recebe uma multa por excesso de velocidade. Se irrita, exibe o belo discurso de que é necessário educar e não punir, fala em “indústria das multas”, diz que a prefeitura enche os bolsos com as multas aplicadas. Ué, mas ele já não foi educado? Se ele não sabe para que serve aquela placa, não deveria dirigir. E quantas dessas multas são realmente indevidas? Quantas multas foram aplicadas em veículos que não cometiam infração nenhuma? Quem está errado, o radar fotográfico ou o motorista?

Enquanto isso, vemos estatísticas como essa, que diz que os atropelamentos são a maior causa de mortes no trânsito em São Paulo. Ou seja, quase metade dos mortos em acidentes de trânsito não estavam nem dentro dos carros! Quem está errado, o pedestre ou o motorista?

Repare que o vídeo dessa reportagem diz que o motorista de um ônibus “perdeu o controle” e atropelou um grupo de pessoas que estava na calçada. A máquina começa a agir sozinha. Diz o repórter que o veículo “desgovernado” derrubou três postes, invadiu um canteiro e passou por cima de um monte de gente. É simples assim, perde-se o controle: o motorista está dirigindo ali, calmamente, atento e concentrado. De repente ele “perde o controle”, como se ele próprio fosse uma das vítimas da máquina demoníaca. Imagine se um açougueiro “perde o controle” do facão que usa para cortar as carnes, ou se um cabeleireiro “perde o controle” de sua tesoura! Mas perder o controle de um carro é sempre uma boa desculpa. De fato, perde-se o controle muito fácil ao dirigir: em uma fechada, no trânsito parado, até ao ver um pedestre que ainda não terminou de atravessar quando o sinal abriu…

No final, a reportagem tenta justificar os atropelamentos mostrando vários pedestres que se recusam a usar uma passarela da região e atravessam em meio aos carros. Claro que há casos em que os pedestres se arriscam, mas os atropelamentos não acontecem apenas em situações assim. Que o diga a família da moça que morreu atropelada por esse ônibus…

E o pior é que o direito do carro particular sobre o espaço público se tornou parte tão integrante da nossa cultura urbana, que muitas pessoas partem do princípio de que o pedestre é que não deveria estar na rua. Por esses dias estava almoçando com alguns amigos quando ouvimos uma freada seca: um carro, ao fazer a curva para entrar numa rua em alta velocidade, quase atropelou meia dúzia de pedestres que atravessavam na faixa. Uma das pessoas na mesa disse, irritada: “mas também, o cara me atravessa com o farol aberto!”. Eu ri e lembrei ele que não há sinal de pedestres naquele cruzamento, que se o pedestre fosse esperar o sinal abrir para ele, não atravessava. Ele não entendeu! Retrucou que “mesmo assim, tem que passar correndo, não pode atravessar devagar assim”.

Achei melhor não discutir. Ele não compreenderia se eu tentasse explicar que a prioridade é do pedestre (tanto ética como legalmente), que nem todos conseguem atravessar a rua correndo e que portanto o normal é atravessar andando, que o motorista tem que olhar antes de entrar na rua se tem alguém na faixa que está ali na esquina, bem visível para ele, e tudo o mais. Achei melhor não estragar meu almoço. No dia que um carro cantar pneu em cima dele, duvido que ele se considere errado. Pessoas assim nunca estão erradas, no máximo se enganam… ;)

Saiba mais:
Carro mata, use com cuidado
Ao pedestre, com carinho

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . Motorcracia . Tags: , , , ,
10/05/2007 - 20:42

Desvalorizando quem não tem carro

Vejam aqui a propaganda que algum “criativo” resolveu fazer nos pontos de ônibus da cidade. Não vou me alongar descrevendo a campanha aqui, pois já está bem documentada com fotos nessa matéria.

Eu achei o fim da picada. Desvaloriza o usuário de transporte público e o próprio sistema de transporte coletivo da cidade. Pra você ver como pagando você pode até humilhar o usuário do sistema, que a Prefeitura não liga.

É como colocar anúncio de moto no bilhete único, ou na “Bus TV”. A propaganda acaba passando aos usuários a imagem de que o automóvel particular ou a motocicleta são a “evolução natural” para quem usa transporte coletivo. Como diz a propaganda da moto, “só não é pop andar à pé”.

O transporte público precisa ser valorizado, melhorado e utilizado cada vez mais, para ajudar os próprios motoristas dos carros. Afinal, cada usuário de ônibus é potencialmente um carro a menos… Ou vamos incentivar cada vez mais gente a usar carros e entupir mais ainda as ruas? Não tem mais espaço!! Sem contar a poluição, pois uma moto levando no máximo duas pessoas polui mais que um ônibus levando cinqüenta ou cem! (e não venham me dizer “ah, mas o ônibus roda o dia inteiro e a moto só meia hora”, porque nesse dia inteiro ele deve transportar no mínimo umas mil pessoas)

Como dizem nos comentários desse post do Apocalipse Motorizado, seguindo essa linha poderiam começar a colocar anúncios de planos de saúde privados no teto dos corredores de hospitais públicos. Ou qualquer outra coisa que faça o usuário do serviço se sentir mal de estar ali, pagando pode qualquer coisa. Põe no teto acima do leito: “O fulano aqui da foto está curtindo as férias na Bahia. E você, vai ficar aí parado?”

Essa propaganda que põe o transporte público na privada só serve pra mostrar que a empresa de publicidade está “cagando” pra quem usa transporte coletivo. A propaganda é feita pra quem passa de carro, às custas de quem está ali esperando um ônibus. Como se os 70% da população que NÃO TÊM transporte particular, mais os sabe-se lá quantos que só usam o carro no final de semana, não comprassem nada, nem o tal laxante que tentam vender com aquilo ali. Acho que essa “pequena” fatia da população paulistana não interessa para a empresa que fabrica o tal produto. Os 30% que passam de carro devem produzir mais dejetos que os outros 70%, ou pelo menos ficam mais entupidos.

Não sei quem é pior, o publicitário que teve a brilhante idéia, a empresa que aprovou e pagou pra fazerem isso, ou a Prefeitura que permite que se humilhe os usuários do transporte público em nome do dinheiro.

E pra não virem dizer que esse post é off-topic, também tem quem faça propaganda para mostrar que a moto é a “evolução natural” de quem usa a bicicleta como meio de transporte, ou dizendo que andar à pé é coisa de carteiro.

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . Motorcracia . Tags:
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