O automóvel e o desgaste social
O Caderno de Veículos do Correio Braziliense publicou, algum tempo atrás (não pude precisar quanto), um artigo bastante interessante entitulado “Automóvel no banco dos reús“. O texto fala sobre a tese de mestrado de Tatiana Schor, que tem como tema a deterioração das relações entre as pessoas causada pelo automóvel.
Em seu estudo, Tatiana aborda vários aspectos da influência negativa do automóvel na sociedade, entre eles a maneira como a cidade, planejada para o uso de veículos motorizados, tira das pessoas o direito ao uso da rua, impedindo por exemplo que crianças possam brincar nas vias e andar de bicicleta.
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| - Papai, porque a gente não vai pro parque de bicicleta? - Pedalando, meu filho? - É! - Não dá, tem muito carro… - Mas você vai pro trabalho de bicicleta! - Ah, mas é que eu sou adulto, Gabriel. Pra criança é perigoso. - A gente vai devagarzinho… Vamos, vai! Por favor… |
Sábia Tatiana… Queria muito poder andar com meu filho de quatro anos nas ruas sem ter que ficar segurando na mão dele o tempo todo, com medo que ele se empolgue com alguma pomba e corra para o letal asfalto. Ou que um carro saindo de uma garagem, em sua constante urgência de chegar ao leito carroçável, o colha gentilmente. Ou que ao atravessarmos a rua com o sinal fechado, a pressa injustificável de um arroubo de veloz auto-afirmação lhe tolha a vida. Queria que ele tivesse espaço ao ar livre para brincar com outras crianças na porta de casa. Queria poder sair com ele de bicicleta na rua, para irmos pedalando até o parque aproveitar um bom domingo (e ah, como ele me pede isso…). Mas aqui, na cidade feita para os carros, eu seria irresponsável se permitisse a ele esses pequenos grandes prazeres, que há algumas décadas faziam parte das vidas paulistanas. Quem sabe um dia ele os possa permitir ao meu neto, ou este a meu bisneto. Não perderei as esperanças e continuarei fazendo o possível para que isso um dia possa ser verdade, mesmo que daqui a várias gerações.
Outro aspecto que ela aborda é o do uso do carro como demonstração de status, por ser “um bem que é consumido em público” e que é usado para demonstrar uma pretensa superioridade. Esse, inclusive, foi o fato que a fez se decidir por esse tema, ao saber que 90% das pessoas que compram veículos off-road não o utilizam para o fim ao qual ele supostamente se destina.
Em artigo entitulado “O Automóvel e o Desgaste Social” (Revista São Paulo em Perspectiva, vol.13-nº3, 1999), Tatiana escreve algumas frases que me sinto na obrigação de ressaltar:
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O texto é denso, como é comum a toda produção científica que não objetiva o leitor leigo, mas os argumentos são todos justificados com bastante coerência. É difícil ver textos que andem na contramão do consenso, mostrando o que deveria ser óbvio, com tanta propriedade. Em outro texto que encontrei, este bem curto, ela questiona o fato de nenhum candidato ou partido político questionar abertamente o uso do automóvel.
Tatiana Schor teve formação em Economia e em Filosofia, concluiu o mestrado em Geografia Humana com o tema citado acima e doutorou-se com louvor em Ciência Ambiental. Atualmente, leciona na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no departamento de Geografia, coordenando estudos sobre a relação entre as cidades e os rios no Amazonas. Tem uma visão de mundo que eu admiro e considera o fim do automóvel como uma utopia, mas acredita que um dia ela ainda chegue.
Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . Motorcracia . Tags: menos carros, o custo real dos carros
Como compreender essa necessidade de ter um carro cada vez maior para se conseguir estacionar cada vez menos e cada vez mais veloz para se locomover mais devagar? Onde está o sentido?
É um %!@$&@#artigo esse da Tatiana. O Cris (lá de PoA) me incumbiu de ir atrás da tese dela lá na USP. Ele tá afim de digitalizar, porque a autora não o tem mais em meios digitais.
Devo fazer a correria ainda esta semana e depois do trampo realizado compartilho com todos.
Sábia Tatiana, que além de tudo foi pra bem longe da selva de carros…
Luddista, talvez seja interessante tentar entrar em contato com a orientadora da Tatiana para conseguir a dissertação. É a prof. Odette Carvalho de Lima Seabra. Veja nessa página da USP os contatos dela: http://www.geografia.fflch.usp.br/posgraduacao/orientadores.htm
companheiros,
faço geografia na USP e tentarei pegar essa tese lá. A orientadora Odette Seabra trabalhava com Geografia Urbana, mas se aposentou há uns 2 anos. Vou ver se está disponível na biblioteca. Alguém tem um scanner pra fazermos a digitalização? abraços
acabo de verificar no sistema da USP, tem cópia da biblioteca. Se alguém tiver um scanner, por fvr entre em contato para digitalizarmos o documento. abraços,
Zenga
Muito bom William, bons trechos os selecionados também.
abs.
matias
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[...] segundo e mais preocupante motivo é porque o uso carro está enraizado em nossa cultura. Nascemos em famílias que aspiravam ter um carro ou, se o tinham, sempre quiseram trocá-lo por [...]
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