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30/10/2006 - 22:21

O automóvel e o desgaste social

O Caderno de Veículos do Correio Braziliense publicou, algum tempo atrás (não pude precisar quanto), um artigo bastante interessante entitulado “Automóvel no banco dos reús“. O texto fala sobre a tese de mestrado de Tatiana Schor, que tem como tema a deterioração das relações entre as pessoas causada pelo automóvel.

Em seu estudo, Tatiana aborda vários aspectos da influência negativa do automóvel na sociedade, entre eles a maneira como a cidade, planejada para o uso de veículos motorizados, tira das pessoas o direito ao uso da rua, impedindo por exemplo que crianças possam brincar nas vias e andar de bicicleta.

Papai, vamos no parque?
- Papai, porque a gente não vai pro
parque de bicicleta?
- Pedalando, meu filho?
- É!
- Não dá, tem muito carro…
- Mas você vai pro trabalho de bicicleta!
- Ah, mas é que eu sou adulto, Gabriel.
Pra criança é perigoso.
- A gente vai devagarzinho… Vamos, vai!
Por favor…

Sábia Tatiana… Queria muito poder andar com meu filho de quatro anos nas ruas sem ter que ficar segurando na mão dele o tempo todo, com medo que ele se empolgue com alguma pomba e corra para o letal asfalto. Ou que um carro saindo de uma garagem, em sua constante urgência de chegar ao leito carroçável, o colha gentilmente. Ou que ao atravessarmos a rua com o sinal fechado, a pressa injustificável de um arroubo de veloz auto-afirmação lhe tolha a vida. Queria que ele tivesse espaço ao ar livre para brincar com outras crianças na porta de casa. Queria poder sair com ele de bicicleta na rua, para irmos pedalando até o parque aproveitar um bom domingo (e ah, como ele me pede isso…). Mas aqui, na cidade feita para os carros, eu seria irresponsável se permitisse a ele esses pequenos grandes prazeres, que há algumas décadas faziam parte das vidas paulistanas. Quem sabe um dia ele os possa permitir ao meu neto, ou este a meu bisneto. Não perderei as esperanças e continuarei fazendo o possível para que isso um dia possa ser verdade, mesmo que daqui a várias gerações.

Outro aspecto que ela aborda é o do uso do carro como demonstração de status, por ser “um bem que é consumido em público” e que é usado para demonstrar uma pretensa superioridade. Esse, inclusive, foi o fato que a fez se decidir por esse tema, ao saber que 90% das pessoas que compram veículos off-road não o utilizam para o fim ao qual ele supostamente se destina.

Em artigo entitulado “O Automóvel e o Desgaste Social” (Revista São Paulo em Perspectiva, vol.13-nº3, 1999), Tatiana escreve algumas frases que me sinto na obrigação de ressaltar:

Como compreender essa necessidade de ter um carro cada vez maior para se conseguir estacionar cada vez menos e cada vez mais veloz para se locomover mais devagar? Onde está o sentido?
ao mesmo tempo que este meio de transporte possibilita um passo no processo civilizatório, visto que diminui as distâncias no mundo e o integra, é também um processo de-civilizatório, pois é uma das maiores causas de mortes (violentas) deste final de século.
O indivíduo-átomo se vangloria de sua quantidade de dinheiro através das mercadorias que pode comprar e expor. (…) O automóvel, em particular, encaixa-se perfeitamente nesta forma de relação social.
Podemos então falar de uma “cultura” automotiva? Sim, pelo fato das relações derivadas do uso do automóvel impregnarem, de determinada maneira, o jeito de ser do homem modernizado: eles se reconhecem pelo carro que têm e nem imaginam como seriam suas vidas sem “Ele”.
a velocidade transmite uma sensação de liberdade ao homem preso ao sistema
restringir o uso do automóvel implica restringir a única sensação de liberdade para além da liberdade formal; e é esta a dificuldade de superação tanto do automóvel como meio de transporte, quanto da modernização, pois é nos objetos produzidos por esta modernização, as mercadorias a serem consumidas, que se mostram as formas de satisfação, mesmo que ilusórias, do desejo de ser livre.

O texto é denso, como é comum a toda produção científica que não objetiva o leitor leigo, mas os argumentos são todos justificados com bastante coerência. É difícil ver textos que andem na contramão do consenso, mostrando o que deveria ser óbvio, com tanta propriedade. Em outro texto que encontrei, este bem curto, ela questiona o fato de nenhum candidato ou partido político questionar abertamente o uso do automóvel.

Tatiana Schor teve formação em Economia e em Filosofia, concluiu o mestrado em Geografia Humana com o tema citado acima e doutorou-se com louvor em Ciência Ambiental. Atualmente, leciona na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no departamento de Geografia, coordenando estudos sobre a relação entre as cidades e os rios no Amazonas. Tem uma visão de mundo que eu admiro e considera o fim do automóvel como uma utopia, mas acredita que um dia ela ainda chegue.

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): . Motorcracia . Tags: ,


15 comentários para “O automóvel e o desgaste social”

  1. luddista disse:

    É um %!@$&@#artigo esse da Tatiana. O Cris (lá de PoA) me incumbiu de ir atrás da tese dela lá na USP. Ele tá afim de digitalizar, porque a autora não o tem mais em meios digitais.

    Devo fazer a correria ainda esta semana e depois do trampo realizado compartilho com todos.

    Sábia Tatiana, que além de tudo foi pra bem longe da selva de carros…

  2. Sérgio disse:

    Luddista, talvez seja interessante tentar entrar em contato com a orientadora da Tatiana para conseguir a dissertação. É a prof. Odette Carvalho de Lima Seabra. Veja nessa página da USP os contatos dela: http://www.geografia.fflch.usp.br/posgraduacao/orientadores.htm

  3. Zenga disse:

    companheiros,
    faço geografia na USP e tentarei pegar essa tese lá. A orientadora Odette Seabra trabalhava com Geografia Urbana, mas se aposentou há uns 2 anos. Vou ver se está disponível na biblioteca. Alguém tem um scanner pra fazermos a digitalização? abraços

  4. Zenga disse:

    acabo de verificar no sistema da USP, tem cópia da biblioteca. Se alguém tiver um scanner, por fvr entre em contato para digitalizarmos o documento. abraços,
    Zenga

  5. Matias Mignon Micken disse:

    Muito bom William, bons trechos os selecionados também.
    abs.
    matias

  6. [...] outras palavras, o uso de carros e motocicletas causa prejuízos financeiros e sociais ao país. Muitos deles são vísiveis, como o alto custo de manutenção das vias públicas e todo [...]

  7. [...] O automóvel e o desgaste social (Vá de Bike!) [...]

  8. [...] influencie sim, mas apenas em alguns casos. Acho mais que a questão seja cultural. O carro está enraizado em nossa sociedade: faz parte do ritual de passagem para a vida adulta, representa um suposto ideal de liberdade, é [...]

  9. [...] segundo e mais preocupante motivo é porque o uso carro está enraizado em nossa cultura. Nascemos em famílias que aspiravam ter um carro ou, se o tinham, sempre quiseram trocá-lo por [...]

  10. [...] com negócios que deixam de ser fechados, com reuniões adiadas, produtos não entregues, etc.) e sociais (pessoas que passam menos tempo com a família, convivem menos com os amigos, vêem menos os [...]

  11. [...] O automóvel e o desgaste social (Vá de Bike!) [...]

  12. [...] O automóvel e o desgaste social | + Vá de bike! +  blig.ig.com.br/freeride/2006/10/30/o-automo-el-e-o – view page – cached O Caderno de Veículos do Correio Braziliense publicou, algum tempo atrás (não pude precisar quanto), um artigo bastante interessante entitulado Automóvel — From the page [...]

  13. [...] O automóvel e o desgaste social | + Vá de bike! +O Caderno de Veículos do Correio Braziliense publicou, algum tempo atrás (não pude precisar quanto), um artigo bastante interessante entitulado “Automóvel no banco dos reús“. O texto fala sobre a tese de mestrado de Tatiana Schor, que tem como tema a deterioração das relações entre as pessoas causada pelo automóvel. [...]

  14. [...] O automóvel e o desgaste social – Estudo sobre como o automóvel deteriora as relações entre as pessoas [...]

  15. [...] me emocionei. Falei pra ele que quando ele for maior, a gente vai poder fazer isso sim. Já faz alguns anos que ele me pede [...]

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