A imprensa teve boa parte da culpa pelo pânico generalizado ontem em São Paulo – embora nunca os veremos admitir. A maioria dos ataques a ônibus ou a policiais aconteceu na madrugada de segunda para domingo ou no final de semana, mas a imprensa dava as notícias como se o conflito estivesse crescendo àquela hora e como se as ações dos dias anteriores estivessem acontecendo naquele instante. A maior parte das notícias até dizia quando havia ocorrido cada evento, mas no turbilhão de informações, na corrida para ver quem dava a maior quantidade de notícias ou de imagens, a informação se perdia. Havia por parte da imprensa um clima sensacionalista e alarmista que assustou a população. Some-se a isso a divulgação pela própria imprensa de boatos e informações não confirmadas – como o falso toque de recolher, que teria sido divulgado por uma rádio especializada em notícias – e os boatos divulgados por e-mail, messenger e orkut, e você tem a receita da confusão desnecessária desta segunda-feira.
Engraçado foi quando entrevistavam os donos de lojas na televisão:
- Tá fechando por quê?
- Disseram pra fechar as lojas porque senão vai ter arrastão!
- Quem falou? Alguém ligou pra vocês ameaçando?
- Não, os colegas aí das outras lojas que tão dizendo… Um vai avisando o outro, um liga pro outro e todo mundo tá fechando.
No fim não tinha arrastão nenhum! Era tudo boato! Algum lojista resolveu fechar “por via das dúvidas” e a estória foi sendo colorida por cada um que a recontava. Na pior das hipóteses, alguém ameaçou algum lojista (como o rapaz que foi preso – já no final do dia), que com medo iniciou a corrente de desinformação.
As pessoas no trânsito estavam desesperadas para ir pra casa. Pareciam um bando de zebras fugindo dos leões, chegava a ser ridículo. Os motoristas não davam espaço para ninguém e fechavam os cruzamentos sem pensar duas vezes, como se esperando dois minutos a mais pela abertura do sinal fossem morrer primeiro. E no fim não estava acontecendo nada naquele momento! Não teria toque de recolher às 20h e, mesmo que fosse ter, ainda eram 16h30!
Eu levei minha meia hora de sempre pra ir do trabalho até em casa (de bicicleta, claro), mas teve gente que para fazer dois terços desse percurso levou 2h20 (de carro, claro). Na maior parte do caminho, minha velocidade era maior que a dos carros, que estavam parados. Quando se movimentavam, me ultrapassavam e paravam a no máximo 30 metros adiante, para em seguida serem novamente ultrapassados por mim, nos meus astronômicos 15 a 20km/h.
Os pontos de ônibus estavam lotados. Mesmo que todos os ônibus estivessem em circulação, levaria muito mais tempo para o ônibus chegar no ponto do que se as pessoas fossem a pé até algum possível ponto menos congestionado (mesmo que ele se situasse a quilômetros de distância). E hoje (terça, dia seguinte) li relatos de gente inconformada porque teve que fazer a pé algum trecho que faria de ônibus. Era a decisão mais inteligente naquele momento, mas ainda tinha gente que tentava pegar táxi! Pra quê?? Pra ficar pagando corrida parado, no meio do congestionamento monstruoso?
O engraçado é que quando eu fui sair para ir para casa de bicicleta, alguns amigos no trabalho ficaram preocupados. “Cuidado aí de bicicleta, hein? Vão atirar em você!” Na boa, se quisessem atirar em alguém, estava muito mais fácil acertar nos carros parados… Se houvesse arrastão no meio do trânsito, os alvos mais fáceis eram os motoristas, imobilizados em sua falsa segurança. Especialmente no dia de ontem, eu não trocaria a liberdade da minha bicicleta pela suposta segurança de um carro. Minha resposta padrão era: “se eu vir alguma confusão adiante, estando de bicicleta consigo dar meia-volta pela calçada e ir embora… estando dentro do carro, cercado de outros carros parados por todos os lados, eu poderia fazer o quê?”. Isso deixou algumas pessoas pensativas.
O americano Jim Langley tem um 