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20/03/2006 - 23:20

Dicas – Parte 4: Por que ocupar a faixa

Pouco compreendido pelos motoristas e mesmo por muitos ciclistas, essa prática pode evitar muitos acidentes, mesmo com os motoristas mais apressados e irresponsáveis. Nosso instinto de sobrevivência nos faz pedalar mais à direita da via, para liberarmos espaço para os carros e evitar que eles nos pressionem, mas com isso acabamos obtendo o resultado exatamente oposto: liberamos espaço para que eles nos pressionem.

Ao pedalarmos muito à direita da via, quase dentro da sarjeta (e ás vezes até dentro dela), o espaço que sobra na pista não é suficiente para fazer uma ultrapassagem segura. Mas os motoristas não percebem isso, a impressão que lhes dá é que o espaço não é o ideal mas “dá pra passar”. É fato que pouquíssimos dão a distância de um metro e meio necessária para a ultrapassagem segura: muitos vão passar entre você e o carro do lado e entre esses vários vão passar muito rente a você, com o risco de esbarrar no seu guidão ou até de te derrubar só com o susto (sim, acontece!).

Mantendo a extrema direita, os carros forçam passagem e põe o ciclista em risco. Ocupando um espaço maior da pista, eles são obrigados a aguardar o momento certo e ultrapassar com segurança.

E o carro que forçar essa passagem geralmente vai dar mais distância do carro que está à esquerda do que de você à direita, por dois motivos principais:
- Visão: ele tem visão melhor do que está do lado dele, por isso tem uma noção melhor de espaço e consegue evitar melhor uma proximidade com risco de colisão.
- Sensação de perigo: o carro do lado dele desperta alguma sensação de perigo, principalmente se for um carro grande, o que o influencia inconscientemente a manter uma distância maior. Já o ciclista não desperta essa sensação na maioria dos motoristas, por seu tamanho menor.

Se você ocupar uma porção razoável da pista, o motorista vai ter que colocar pelo menos duas rodas na pista do lado (ou contrária) para poder te ultrapassar, o que significa que ele não vai tentar passar entre você e outro carro. Vai fazer uma ultrapassagem mais segura, porque não haverá veículo que limite seu desvio à esquerda e ele se afastará mais.

Além de forçar os carros a ultrapassar com segurança, passando para outra pista, também dá espaço adicional para fugir de fechadas. Ilustro essa vantagem com um exemplo que para nós, ciclistas, infelizmente é corriqueiro: um ônibus te ultrapassa e, em vez de manter a linha reta, vai avançando para a direita conforme aquelas toneladas de metal passam do seu lado, jogando você para a calçada. Se você deixou essa margem de segurança à sua direita, consegue fazer o movimento acompanhando o ônibus para fugir dele; se não deixou espaço, corre o sério risco de se estatelar na calçada ou acabar prensado em um carro estacionado.

Com a bicicleta muito rente à margem direita da pista, não há espaço de fuga. Mantendo a linha do 1/3, você mantém espaço para fugir do homicida.

Há mais uma vantagem em andar ocupando melhor a pista. Em ruas onde há carros estacionados, se em vez de andar rente a eles você se afastar mais, terá uma distância suficiente para não levar portadas dos carros parados. Eu já levei uma portada e, acredite, não é nada agradável. Se eu não mantivesse essa distância, já teria levado várias outras. A quantidade de pessoas que abre a porta sem olhar é assustadora. Muitos olham e procuram um veículo grande ou um farol potente e acabam abrindo a porta sem ver uma frágil bicicleta (um motivo para usar aquela lanterna branca piscando na frente da bicicleta quando sair à noite). O maior risco de bater numa porta abrindo não é nem a colisão e nem a queda: é cair no meio da pista e um carro passar em cima de você. O risco não é pequeno, pois se você bater a ponta do guidão na porta, ele vai virar bruscamente para a direita e você vai voar para a esquerda, por cima do guidão.

Além de não ser prensado contra os carros parados, você evita as portadas.

Andar na linha do 1/3 da faixa é a melhor solução, porque é menos antipático do que andar exatamente no meio da pista. No meio da pista vão pensar “olha que folgado, acha que a rua é dele”, já no 1/3 vão pensar “pô, podia ir mais pra lá, né?”. Andar bem no meio da pista irrita alguns motoristas, que verão você como um folgado que está tirando o “direito” deles. Alguns desses vão te fechar após a ultrapassagem. Andar na linha do 1/3 faz eles pensarem que você está desviando de alguma coisa, que não está mantendo uma linha reta, que não sabe pedalar direito, qualquer coisa, mas não que você está ofendendo o direito deles (alguns até vão, idiota tem em todo lugar principalmente no trânsito, mas serão menos).

Experimente adotar essa técnica no seu próximo trajeto e você verá que os carros podem até se irritar em alguns casos, mas passarão mais longe de você. As “finas” serão bem menos freqüentes. Se alguém buzinar atrás de você, o que é bem menos comum do que você pode imaginar, faça um sinal pedindo para o motorista esperar e continue no seu espaço: ele vai desistir da espera e vai te ultrapassar, dando mais distância do que se tivesse forçado a passagem. Seu risco será bem menor.

Mas seja simpático: quando estiver em uma rua onde há muitos carros estacionados, quando aparecer um respiro maior sem nenhum veículo ou caçamba parados, vá para a direita e deixe os mais estressados te ultrapassarem. Depois mais adiante sinalize e volte, com cuidado para não voltar quando um apressado estiver querendo passar.

E o que o Código de Trânsito diz sobre essa prática? Estou infringindo alguma lei? O CNT diz que devemos utilizar o “bordo”, definindo-o apenas como “margem da pista” sem dizer até onde vai essa margem. Portanto, não estamos infringindo nenhuma lei de trânsito. É importante considerarmos como bordo o espaço suficiente para que tenhamos segurança na condução de nosso veículo.

Autor: Willian Cruz - Categoria(s): - Dicas para o ciclista urbano - Tags:


22 comentários para “Dicas – Parte 4: Por que ocupar a faixa”

  1. Daniel Serafim disse:

    Concordo com este seu pensamento, eu estava pensando em fazer um artigo com estas dicas, e pelo que vi nossas idéias são muito parecidas.

    Pretendo colocar links, ou colocar os textos citando as fontes no meu blog.

    Abraços
    Daniel Serafim
    http://blog.deltamidia.com

  2. Luís Fernando disse:

    Belo texto!
    Dá até para fazer um folheto para distribuir nas bicicletadas.

  3. Wadilson disse:

    é isso aí, Willian..
    a experiência e a prática também me ensinaram isso.
    Valeus!
    []s

  4. eduardo meirelles disse:

    Ola amigos.

    Aqui quem fala é o Edu Meirelles, instrutor e proprietario da escola PAraquedismo Boituva.

    Venho por meio desta sugerir uma pauta no site de vcs, que é a do salto duplo realizado pela modelo Maryeve Oliveira.

    Esta pauta é iteressante e já gerou muito acesso para meu site e para outros tambem, vejam so a matéria em http://www.paraquedismoboituva.com.br.

    http://www.paraquedismoboituva.com.br

    Fico no aguardo de um retorno.

    Atenciosamente

  5. Tânia disse:

    Isso é verdade…
    Parabéns pelas dicas.
    Abraços,
    http://coletania.blogspot.com

  6. Willian Cruz disse:

    Edu, me desculpe mas esse site é sobre ciclismo. Paraquedismo não me interessa, muito menos um salto duplo dessa tal de Maryeve.

  7. Gerson Moraes Meneze disse:

    Estou tirando carta agora, e lí que o ciclista deve manter uma distância de no mínimo um metro da guia, ou da borda, é quase a distância que vc recomenda, eu venho mantendo essa distância de 1 metro já faz um certo tempo e não recebí nem xingamentos e nem fui pressionado, o problema é que nosso medo faz com que diminuamos essa distância as vezes e acabam nos pressionando de novo, eu estava pensando, estas tuas dicas poderiam ser publicadas por exemplo no Jornal do ônibus, como forma de cultuar o respeito ao ciclismo em todos os presentes no ônibus, muitas vezes quem anda de ônibus também dirige… abraço!

  8. eduardo green short disse:

    Willian,

    EXCELENTE texto … faço exatamente o que sugeres, parece que fui em quem escreveu hehehe…

    vou mandar paralista bicicleta OK!

    ah, sobre um comentario seu sobre vidros escuros no apocalipse motorizado, 1 ano atrás… a principal razão pela qual os insul-filme deveriam ser Proibidos é que eles impedem a comunicação visual entre motorista e outras pessoas.. vc não sabe se o cara tá te vendo ou não! Tire o filme do teu carro.. hehehe

    abraço DUDU

  9. Jo disse:

    D+ suas dicas, estou começando agora e já aprendi um monte de coisa. Obrigadu!!!

  10. Marcelo Mig disse:

    Absolutamente essencial este texto (como aliás vários outros de seu blog) para todos os que trafegam na cidade, seja pedalando, como eu, seja dirigindo automóveis. Já comentei sobre ele com vários amigos ciclistas, e alguns inicialmente se espantam com a idéia de se afastar da guia, mas depois de refletir um pouco todos acabam concordando com o óbvio.
    Parabéns!

  11. Paulo disse:

    Parabéns! Duca…!!!
    Acabei de reciclar meus hábitos e estou trocando o carro pela bike para ir ao trabalho. Considerando que sou novo em SP e nunca pedalei no trânsito, essas dicas além de úteis, são um alento para quem zela pela integridade física.

  12. Kiki disse:

    É… vivendo e aprendendo. Há algum tempo eu pensaria o oposto.
    Aconteceu muitas vezes de eu estar dentro do carro e quando um ciclista estava ocupando a pista, eu pensava “ele pensa que é carro, porque não vai pro canto dele?”.
    Puxa, se eu pensava assim, mesmo não sendo motorista de carro, o que pensa os motoristas que dirigem todos os dias?

    Parabéns Willian!

  13. Rambo disse:

    Grande dica William… de grande valia!
    Valeu…

  14. [...] pedestre que atravessa fora da faixa, com a desculpa de mostrar que ele “está errado” (ocupar melhor a faixa ajuda o ciclista a minimizar essa situação de [...]

  15. [...] leva uma portada, nunca mais esquece. Foi lembrando dela que escrevi parte destas dicas, que recomendam ocupar a faixa e manter distância dos carros estacionados. E foi justamente essa [...]

  16. [...] abrir a porta ele não te derrube. Fique a pelo menos um metro dos carros parados. De preferência, ocupe a faixa seguinte. Preste atenção se há pessoas dentro deles, se oc arro acabou de estacionar, se está com as [...]

  17. lewis__ disse:

    Quanta dificuldade um ciclista passa!!!

    Obrigado pelas dicas.

  18. [...] alguns carros vinham pela segunda pista para cruzar na nossa frente e entrar nas ruas à direita. Ocupando a faixa, eu sinalizava a esses motoristas para esperarem e isso surtia [...]

  19. Ada disse:

    Caro, neste dia sem carro, por acaso, encontrei seu blog. Gostei muito. Muito legal! tanto que copiei (você autorizou) um desenho seu e indiquei seu blog para leitura na minha postagem do Dia Mundial sem Carro.
    http://coisasdeada.blogspot.com
    Um abraço de Ada

  20. [...] Atenção, não pedalem muito próximos ao meio-fio. Vejam por que aqui. [...]

  21. Martha Monique disse:

    Olá, William!
    Seu artigo é muito bacana! Por favor, continue esclarecendo ciclistas experts ou novatos como eu. Estou com minha bike há apenas dois meses, mas ficar andando só no parque no fim-de-semana tá um tédio. Seus artigos estão me ajudando a preparar o espírito e a educação para pedalar em sampa na semana, entre facu-casa-work, mas ainda me falta a seguinte fase: como sinalizar para atravessar, reduzir, manobrar?
    Um grande abraço e parabéns pela sua iniciativa!
    Boas pedaladas! :)

  22. Carlos Alkmin disse:

    Esta dica é boa, ainda mais com as condições lamentáveis do meio-fio ou “bordos” de algumas ruas, seja por água de esgoto empoçada junto a bueiros entupidos ou crateras e ondulações provocadas por veículos pesados.

    Um aspecto que merece ser considerado é que tem muito motorista ultrapassando pela direita em alta velocidade. Acontece principalmente quando a via tem 2 faixas e uma conversão permitida à esquerda.

    A gente tem que ter olhos nas costas…

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