Um amigo andou perguntando em uma lista que participo sobre o que turbinou a carreira de cada um de nós.
O que turbinou minha carreira foi um frila. Fiz um frila para a empresa onde trabalhava um amigo meu, uma coisa básica e braçal: montar algumas centenas de páginas html em tempo recorde. Isso nos idos de 97 ou 98. Tudo na mão, claro. Cheguei a fazer uns batches para automatizar uma ou outra coisa na produção dessas páginas e só, o resto foi porrada mesmo. Não ganhei muito com esse job, mas para quem está parado, pouco é muito. Eu saía do trabalho e ia para a outra empresa, fazer mais 4 ou 6 horas comendo pizza de muzzarela no papelão.
Terminado o job, esse amigo me indicou para um conhecido dele, que me cotou para um frila no Estadão. O frila acabou não rolando, mas resultou em umas duas reuniões no Estadão onde ficaram me conhecendo melhor. Algum tempo depois, esse cara do Estadão me indicou para uma pessoa que trabalhava na revista Época, que me descolou um frila lá. Esse frila também era braçal, transformar o conteúdo da revista em html a partir de documentos do word. A primeira edição fiz na mão, a segunda construí uma ferramenta para fazer 80% do trabalho para mim.
Algumas edições depois eu fui contratado para trabalhar lá. Mostrei serviço e tive uma coisa que eu achava que era lenda: um aumento substancial, sem eu ter pedido e com menos de um ano de casa. No ano seguinte minha chefe saiu de lá e me levou para o iG. Fiquei quase um ano e meio no iG e depois de três tentativas ao longo desse tempo, a Globo.com finalmente conseguiu me aliciar (foi uma furada, mas eu ia me arrepender até hoje se não tivesse tentado). A Globo.com me conhecia em parte pelo meu trabalho anterior na Editora Globo e em parte por indicação.
Saí da Globo e fui trabalhar com o Mandic, também por indicação. Mas também não foi o que eu esperava e, depois de 6 meses em que aprendi MUITO, saí da Mandic e fui trabalhar com um cara que tinha sido meu chefe anos antes, na época em que eu fiz aquele primeiro frila lá em cima, o das centenas de páginas html. É nesse emprego que estou agora, é a empresa que faz iG Shopping, iG Ofertas, iG Flores e atende outros clientes além do iG.
Conclusão? Acho que dá pra realçar alguns pontos principais:
- Networking: mesmo quando eu nem sabia o que era isso, eu estava fazendo. Networking não é falar “pô, me apresenta aquele diretor que você conhece”, ou ficar insistindo para almoçar com o fulano da empresa x só para perguntar se tem vaga pra você lá dentro. É fazer amizade com as pessoas sem interesse, sendo sincero, mas sem perder a oportunidade de comentar o que você faz, por que seu trabalho é de qualidade e por que você gosta do que faz. Mas sem se tornar um chato! Sim, é difícil, principalmente se você tem ego grande, como boa parte das pessoas com inteligência acima da média.
- Trabalhar direito: entenda isso como fazer mais do que esperam de você e agir antes que os problemas aconteçam. Se você sabe que quando o site entrar no ar o servidor não vai agüentar a carga, não deixe a bomba estourar só para o pessoal do datacenter se ferrar. Avise. Mesmo que não te dêem ouvidos. Pelo menos você está fazendo sua parte. Às vezes você cria inimizades com esse tipo de coisa, mas na maioria das vezes o efeito é positivo. Esse tipo de atitude ética foi um dos fatores que contribuiu por não ter dado certo meu trabalho na Globo.com, mas acho que devo agradecer por isso.
- Não seja um queima-filme: tem gente que não perde uma oportunidade para falar mal do trabalho dos outros. Quando se sentir tentado a isso, morda sua língua. A não ser que você esteja falando com alguém que sabe por que você diz aquilo, você corre o risco de ser mal interpretado como uma pessoa que tenta subir derrubando os outros. Isso é muito comum na nossa área, onde impera uma filosofia oposta à da área médica. Se um médico esquece um bisturi em outro paciente e ele morre, poucos colegas de profissão dirão que ele foi negligente, a maioria evitará comentar o assunto. Se um programador esquece um ponto-e-vírgula no final de uma linha e o programa dá pau de compilação, o outro programador abre um sorriso de cinqüenta dentes pra falar de boca cheia que o outro é um amador, mesmo que seja o colega da mesa ao lado. Muitas vezes o que parece desleixo ou burrice é uma simples distração, à qual você está tão sujeito quanto ele, por mais capacitado que você seja.
- Não ficar estagnado tecnologicamente: no ano passado fiquei 6 meses trabalhando só com ASP (só com VBScript mesmo!) e já tava me dando desespero. Aí me arrumaram uns lances pra fazer em JSP, um mundo que eu ainda não conhecia.
Agora me arrumaram um sistema que é em Java mesmo. Mais sofrimento e aprendizado pela frente. Eu xingo muito no primeiro mês, mas depois volto ao normal e aprecio a situação. Eu fiz recentemente um frila em Delphi. Nunca tinha nem aberto o Delphi, mas me pareceu a linguagem mais adequada para aquele sistema específico. Levei o dobro de horas que eu tinha estimado, mas valeu a pena porque aprendi bastante e tenho mais uma [boa] linguagem no meu currículo, além de um produto legal no meu portfólio (não, eu não tenho um portfólio que possa mostrar para alguém, isso é coisa de dizáin, meu portfólio é *falado* mesmo).
- Não recuse trabalho: se alguém te pedir um trabalho ridículo, como por exemplo fazer um cartaz no Word para colar no elevador do prédio, não recuse. Se bem que esse não é um exemplo muito bom, isso é de certa forma um trabalho meio comunitário… se você tem tempo, vale a pena fazer sem cobrar nada (desde que o síndico não comece a te “alugar” com isso toda semana). Pelo menos as pessoas vão saber que você não é só o chato que reclamou daquela festa às 3 da manhã no apartamento de cima, é também “o cara do computador”. Amanhã um vizinho precisa instalar o Windows no notebook e te paga 100 paus pra você fazer isso na sua casa, enquanto assiste televisão.
Opa, voltei a falar de networking… Foi mal. Mas esse exemplo do vizinho serve para mostrar por que não recusar trabalho. Você não gosta de ficar instalando Windows em notebook, certo? Mas o cara quer te pagar pra isso! Quanto você acha que vale esse esforço? Uma amiga minha me pediu pra fazer isso para ela. Eu disse que não fazia, porque dava muito trabalho e eu não tinha paciência. Aí ela disse que confiava em mim para fazer isso e falou a frase mágica: “quanto você quer”? Resultado: ganhei duzentinho pra instalar e configurar Windows e Office…
O que eu ia fazer nas horas que gastei pra fazer isso? Ia ficar em casa de graça!
Não há lucro sem sofrimento. Se você acha que essa ou aquela pessoa tem um trabalho fácil, é porque você não experimentou fazer aquilo por anos a fio, como o trabalho que você faz. Talvez aquela pessoa queira trocar de lugar com você também, por achar que seu trabalho é bico. Afinal, “aquele cara passa o dia na internet e ainda ganha pra isso, é mole?” (ah, claro, exclua os parlamentares dessa minha teoria)
Nesse tópico de não recusar trabalho eu acabei descambando pro networking, mas resolvi não corrigir o parágrafo porque eles estão relacionados. Networking gera trabalho, geralmente mais frilas que trabalho fixo. Frilas bem feitos geram mais networking, que geram mais frilas ou um emprego fixo melhor, que geram mais networking… Só recuse trabalho extra se o seu trabalho principal toma todo o seu tempo (incluindo madrugadas e finais de semana), ou se te pagam bem o suficiente para você se dar ao luxo de usar todo seu tempo livre gastando esse dinheiro, em vez de usar um pouco dele para ganhar um pouco mais.
Mas também não vá cair na bobagem de só trabalhar e não ter vida pessoal, para tudo há um limite. Até é válido se esforçar em todo seu tempo livre durante alguns dias, talvez umas duas semanas, mas mais que isso vai te fazer perder amigos, família e uns anos de vida, porque você pode ficar muito, muito estressado. Não tenha medo de dizer “eu posso fazer isso para você, mas leva x dias e só posso começar no dia tal, porque estou em outro projeto agora”, mesmo que você não esteja fazendo nada agora e queira descansar essa semana. Mas não perca o cliente.
Eu sou um cara ruim de marketing pessoal, não sei muito bem fazer isso e também nunca me preocupei muito. Mas minha tática de ser sincero com as pessoas, dar uma força pra um amigo quando ele precisa, não ficar parado em uma só linguagem/tecnologia por muito tempo e topar qualquer trabalho que eu sei que consigo fazer, até agora tem dado certo.
Deixar as outras pessoas saberem o que você faz também ajuda bastante, tanto profissionalmente quanto para o ego.
Podem haver táticas melhores, mais agressivas, com resultados mais rápidos ou mais admiráveis, mas essa aí se adequa à minha personalidade e à minha ambição. Sim, eu quero (e vou) ganhar mais, minha situação financeira decaiu bastante com o estouro da bolha e não está tão boa quanto já foi, mas não vou deixar de ser eu mesmo por causa disso. Vou trabalhar do mesmo jeito e fazer com que ela seja bem melhor no futuro.