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19/10/2009 - 10:21

Cabeça vazia, oficina do Diabo!

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Anda triste, de baixo-astral? Então arrume as gavetas, lave um cesto de roupas, passe um pano no chão, vá dar uma poda nas plantas…

Ao captarem um espírito entediado, preguiçoso, nossas mães e avós viviam tendo idéias para nos ocupar sem saber o santo remédio que estavam prescrevendo contra tristezas e até a depressão.

O jeito antigo e espontâneo de espantar minhocas da cabeça, sem enfiar nela substâncias químicas, foi agora atualizado pela neurociência, noticiou a Folha de S. Paulo. Pesquisas sobre o tema defendem trabalhos ou atividades simples do cotidiano como forma de resistência a desânimos em geral.

O principal dessa história está no nosso sistema de recompensa, um grupo de estruturas cerebrais responsáveis por recompensar atitudes úteis, creio que especialmente aquelas importantes para nossa sobrevivência.

Então temos de “agradar” esse sistema quando ele está meio para baixo. Talvez um elogio, um beijo, abraço, cafuné resolvam. Mas se a ansiedade estiver em alta, é melhor optar por estímulos mais intensos. Por isso é que esfregar roupas no tanque poderá fazer você se sentir muito bem.

A pesquisadora e neurocientista entrevistada no artigo, a americana Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia de uma faculdade na Virgínia e autora de livro sobre o assunto, define a questão como um “circuito de recompensa adquirida pelo esforço”, envolvendo prazer, movimento e solução de um problema.

A explicação: “A sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto, é acompanhada de substâncias que deixam a pessoa mais persistente. Ou menos depressiva…”

Foi outro estudo americano que motivou a atenção da cientista. Apontava que pessoas nascidas até 1940 eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Na ausência de uma mutação biológica importante no funcionamento cerebral, Kelly Lambert credita a mudança de estilo de vida dos dias de hoje ao fenômeno.

As pessoas ficaram menos ativas, com trabalhos mais sedentários, usando muito mais a mente do que o corpo. A mente cansada fica vazia e, como diz a sabedoria popular, cabeça vazia é oficina do Diabo!

Cheia de caraminholas na mente, seu espírito só pode azedar. Siga a recomendação da ciência: adoçá-lo com movimento, prazer e esforço que levem a uma doce e recompensável solução.

É bom lembrar, no entanto, que o cérebro tem também um setor, bem atrás da testa, responsável pela nossa capacidade de prever as consequências de um ato. Em outras palavras, ter juízo. Então você precisa conciliar a avidez por recompensas fortes com seus limites.

Se uma parte do seu cérebro requer aventura para apaziguar o espírito e a outra é incapaz de lhe avisar dos perigos, você pode dançar: corre o risco de se machucar e não concluir a tarefa. Talvez com um pé quebrado porque subiu no banquinho para fazer faxina, vai ficar mais sedentária e acabar deprimida… Daí o Diabo, em vez de você, venceu a parada!

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Você pode saber mais sobre esse assunto
A entrevista da neurocientista Kelly Lambert saiu na edição de domingo da FSP, 11 de outubro, no caderno Mais!

O livro da cientista: “Lifting Depression” (Suspendendo a Depressão, Basic Books, 288 pgs)

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A foto chama-se I’m Starting to Crack que seria algo como “estou começando a ter uma crise”, é de uma australiana, Nina, a 1Happysnapper do Flickr.

Autor: Lélia.A - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , , , , , , , , ,
11/08/2009 - 14:24

Põe, tira, põe…

mona-lisa_Leonardo da Vinci_Museu do Louvre_Paris

Fifties costumam ter com mais freqüência episódios de nostagia. Em geral positivos, eles produzem satisfação ao recuperar fragmentos do passado que ajudaram a constituir a pessoa do presente. E não é preciso de um momento especial para entrar nesse clima. Por vezes basta uma notícia, como a que encontrei num caderno recente do New York Times: “Eliminar sobrancelhas virou nova tendência”.

Uma sem-sobrancelhas entrevistada no artigo dizia: “… é uma coisa unificadora… assexual… nos faz parecer menos humanos, mais cerebrais… é um exercício de modernidade.” 

Nos anos 60, minha irmã adolescente pintava as sobrancelhas com carvão para parecer mais madura e entrar no filme proibido para menores de 18. Um amigo, então criança, raspava as sobrancelhas dele e dos irmãos menores para fazer uma surpresa para a mãe que chegava do trabalho. Hoje, na sociedade do espetáculo em que vivemos, em vez da megabronca recebida poderia ganhar aplausos pela tresloucada vanguardice.
De minha parte, sinto certo conforto. Desta vez estou dentro do último modismo. Minhas sobrancelhas são praticamente invisíveis desde que me conheço por gente. E como adoro as “taturanas” das outras, vivo tentando dar um sombreado com lápis marrom. Dou, olho e tiro. Não reconheço a imagem no espelho, que passa a pedir um bigode e uma cirurgia para mudança de sexo. Agora não vou mais insistir. Em questão de exercício de modernidade, estou na linha de frente!

Põe, tira, põe, e essa dança que entrelaça passado e presente e dispara nostalgias também está num ótimo livro que começo a ler: “O tempo e o cão – a atualidade das depressões”, da psicanalista Maria Rita Kehl, recém-lançado pela Boitempo Editorial. Novamente sinto um certo conforto, embora a história nada tenha de confortável. Mas gostei é de encontrar reconhecimento de um jeito de estar no mundo, um jeito “pé no breque” como define uma amiga.

Rita Kehl fala sobre os “deprimidos” dos dias atuais e seus lamentos, porque vistos como sombras negativas “em uma sociedade que parece essencialmente antidepressiva, tanto no que se refere à promoção de estilos de vida e ideais ligados ao prazer, à alegria e ao cultivo da saúde quanto à oferta de novos medicamentos para o combate das depressões”. 

Os “pé no breque”, apesar da crescente e diversificada oferta de “pílulas de bem-estar”, parecem se ressentir cada vez mais de uma falta de liga com o tempo em que vivem. Há um tremendo abismo entre eles e o contexto social contemporâneo que convida a estar em “um grau ótimo de eficiência existencial”, nas palavras de Rita Kehl.

Os “depressivos” não saem bem na fita da sociedade do espetáculo, simplesmente não estão no ritmo do tempo do mundo que não pode perder tempo. Sentem-se estranhos na festa, mais ou menos como se sentiam, lembra a psicanalista, os classificados de melancólicos uns dois séculos atrás. Naquela época, no entanto, a sociedade não pedia nem oferecia “conforto psíquico a qualquer preço”. Mudanças de humor, de apetite, de desejo sexual, inseguranças, irritabilidades, manias, tédios, dores e outras tantas oscilações do corpo e da mente humana não entravam tão facilmente como hoje na “cesta básica” médica que diagnostica e oferece tratamento às depressões.

Põe, tira, põe, e esse panorama descrito por Maria Rita Kehl produz, em lugar de menos, cada vez mais deprimidos (“No Brasil, são cerca de 17 milhões de depressivos diagnosticados nos primeiros anos do século XXI”). Questão de resistência, sobrevivência ou de uma nostalgia especial, mais profunda e inalcançável? 

O poeta Charles Baudelaire é citado em “O tempo e o cão” como o grande símbolo da melancolia do passado, menção que me fez voltar a um verso aprendido e decorado nos bancos da escola: Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone  (Estes lamentos dos violões lentos do outono enchem minha alma de uma onda calma de sono). Não é Baudelaire, mas Paul Verlaine, em Chanson d’automne, e tem bom sabor de nostalgia para o outono de fifties.

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Sim, é ela na foto, a Mona Lisa, de sorriso imperscrutável e, definitivamente, sem sobrancelhas…

 

Autor: Lélia.A - Categoria(s): Inspiração Tags: , , , , , , , , , , , , ,
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