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27/10/2009 - 09:59

Bistronomie: comida boa e barata

 Le-Comptoir-du-Relais_Meg-Zimbeck

A bistronomie, se você nunca ouviu falar, é uma tendência, a marca da “nova cozinha francesa” : comida de bistrot com requintes de gastronomia, praticada por chefs/donos que vieram de restaurantes estrelados e inventaram fórmulas boas e baratas.

Quem começou a história, há aproximadamente 15 anos, foram Yves Camdeborde e Christian Constant, que então trabalhavam juntos no Les Ambassadeurs, no hotel Crillon. Saíram e abriram suas próprias casas.

O Régalade, de Camdeborde, foi instalado em um bairro não-badalado da cidade, o 14 éme, detalhe importante na concepção da tendência. Constant começou com o Violon d’Ingres, e hoje tem mais 3 casas numa mesma rua , a Saint-Dominique, no 7éme.

Outros seguiram a idéia, muitos formados nas cozinhas desses dois generosos chefs, que criaram ‘escola’. Muitas das indicações que darei por aqui, serão desse tipo de restaurante, porque nesses últimos anos, são as minhas escolhas preferidas. Comida ótima, serviço na medida, vinho perfeito , lugar agradável e preço justo. Quer coisa melhor?

Como tudo começou com ele, também vou começar as dicas desses prazeres pelos restaurantes de Camdeborde: o Régalade e o Le Comptoir du Relais, sua casa atual.

O Régalade foi aberto em 1992, considerado por muitos o melhor custo/benefício de Paris. Desde 2004 ele foi comprado pelo chef Bruno Doucet, mas as sugestões do cardápio seguem sendo receitas tradicionais realizadas de maneira moderna, com ingredientes fresquíssimos. As terrines, marca da casa, continuam a ser levadas à mesa nas suas assadeiras, para que o cliente se sirva à vontade, acompanhadas dos cornichons (pepinos em conserva) e mostarda. Tudo delicioso. A visita continua valendo !

Camdeborde abriu o Le Relais Saint Germain em 2005 no Carrefour de l’Odeon. É um hotel com poucos quartos, montado com uma preocupação de passar um clima agradável e familiar. O Comptoir é o restaurante do hotel, aberto para a rua. Funciona desde às 11h da manhã. Para o almoço , que pode ser espichado até às 16,30h (raridade na cidade), não aceita reservas. . Para o jantar, sim, hora em que o chef serve um menu degustação a preço fixo e razoável (40E). Aí, as filas de espera na reserva podem ser para meses.

No almoço, você chega e espera salivando, vendo passar todos aqueles pratos maravilhosos. Vendo da calçada, enfrentando uma pequena fila no aguardo da sua mesa. É bom porque você já vai planejando quais serão as suas escolhas. E isso não é um jeito de ser otimista, é que escolher, já aviso, que não será fácil!
Numa das últimas vezes em que estive no Comptoir, esperei 20 minutos, meia hora, talvez. A pessoa à minha frente na fila fazia uma monitorização por celular. Quando ganhou sua mesa (ao lado da nossa), deu o ok pelo ‘portable’ e seu companheiro chegou. Infelizmente não o reconheci para colocar aqui seu nome, mas percebi pela conversa que era uma entrevista e o ‘ilustre’ era um roteirista de cinema. Se você não tem ‘secretário’ ou guardador de lugar na fila, não desanime em hipótese alguma! Você vai me agradecer, tenho certeza.

Finda a espera, eu escolhi na ciranda dos pratos um clássico do Comptoir: a brandade de morue gratinée, uma preparação tradicional da cozinha do sul da França, que vem a ser uma mistura de bacalhau bem amassadinha, trabalhada com azeite.

Muitas vezes a brandade leva purê de batata e pode ser servida quente ou fria, geralmente fria. A minha era suavemente gratinada ao forno com uma farinha fininha de pão para fazer uma casquinha deliciosa. Chegou megaquente à mesa, acompanhada da salada de minialface romana crocante com um molho gostoso, também marca da casa. Saboreá-la com uma das taças de vinho sugeridas pela maître e organizadora das filas, asseguro, levou-me ao paraíso! Como sobremesa pedi o creme brulée de café.

Na mesma ocasião, passando pelo Comptoir na hora do almoço, tive a sorte de encontrar um lugarzinho vago.  Esperava por mim, e pensei: Por que não? Olhei o cardápio e resolvi pedir o Croque Monsieur de salmão. Tradicional sanduíche de todos os cafés de Paris, aqui era vestido de festa, com salmão defumado, gratinado de queijo comté, enfeitado com uma colherinha de caviar e acompanhado da saladinha de novo. Estava muito gostoso, mas comecei a ficar com raiva de não ter tido coragem de repetir a morue, que eu tinha amado! Pela segunda vez, por que não? Pedi a brandade de morue novamente. Sobremesa não deu, dispensei. Mas saí de lá feliz, muito feliz! E, o melhor, sem esvaziar a carteira!!

Os restaurantes de Camdeborde

La-Regalade, Paris 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

La Regalade
49, avenue Jean-Moulin 14eme
01 45 45 68 58
fecha sab no almoço, domingo e segunda
Métro: Alessia
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 Le Comptoir de Relais
9, Carrefour de L’Odeon 6 eme
Tel : 01 43 29 12 05
Aberto todos os dias das 11h às 18h na brasserie.
Jantar com reservas das19h30h às 23h.
Métro : Odéon
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No 7eme, os de Christian Constant

Café Constant
139, rue Saint-Dominique
01 47 53 73 34
fecha segunda
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Les-Cocottes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Les Cocottes
135, rue Saint-Dominique
01 45 50 10 31
fecha domingo
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Les Fables de la Fontaine
131, rue Saint-Dominique
01 44 18 37 55
aberto todos os dias
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Le Violon d'Ingres, Paris

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Le Violon d’Ingres
135, rue Saint-Dominique
01 45 50 10 31
fecha domingo
Métro : Ecole Militaire
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 Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

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A foto do Le Comptoir du Relais é de Meg Zimbeck, que também escreve sobre viagens e gastronomia no blog Paris and other adventures  (em inglês) 

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , ,
13/10/2009 - 19:01

Tropicalismos e o Jardin des Plantes

Flamingos-chilenos_Tanya-Volpe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jorge Ben já lembrava décadas atrás do país tropical abençoado em que moramos. Estamos tão acostumados às flores, às paisagens floridas mesmo urbanas, que elas quase não nos surpreendem. Parecem que estão sempre lá onde sempre estiveram.

Como fifties, passamos a reparar mais e melhor nelas. Contamos os ipês amarelos floridos que encontramos em nosso caminho. Nos alegramos com as flores roxas dos jacarandás-mimosos que, feito nuvens diáfanas de cor, embaralham a vista  projetadas no céu azul profundo do início da primavera.

Os blocos multicores de azaléia e as maria-sem-vergonha espalhadas em qualquer cantinho são de tamanha ‘corriqueirice’ que às vezes nem os olhamos. Mas não nos escapam as flores cor de rosa das paineiras que resolveram colorir a cena da cidade mais cedo este ano. E quando encontramos um ipê branco? É puro deslumbramento! Minha amiga paisagista Thea diz que as flores desse ipê duram só uns 2 ou 3 dias e é uma sorte imensa se deparar com um florido. Se vir, você deve parar e sentar para admirá-lo. Vai valer a pena!

Santo território tropical que nunca nos deixa, como os europeus, naqueles momentos ‘sem flor’, só de cinzas e cinzentos. Época de flores por aquelas bandas vira passeio de prazeres. Como o Jardin des Plantes, no 5éme, em Paris.

Já fui lá muitas vezes. O local foi criado como Jardin de Roy em 1626, como herbário de plantas medicinais pelo médico do Luiz XIII. Aberto ao público em 1640, foi reestruturado e renovado após a revolução francesa. Passou a se chamar Jardin de Plantes e a abrigar o Museu de História Natural.

Lindos canteiros, plantados ‘certinhos’ à maneira francesa, florescem na primavera e no verão decorando o espaço. Em parte dele está o Rosarium, com variedade imensa de rosas, em todos os seus tons e semi-tons. Algumas estufas abrigam plantas de diferentes ecossistemas do mundo e podem ser visitadas.

O Jardin des Plantes virou passeio para mim num fim de fevereiro. Bonne idée!!!, disse um amigo francês, quando lhe contei onde pretendia ir como despedida daqueles dias na cidade. As flores amarelas já devem estar começando a florir. São as primeiras que aparecem depois do inverno, ele me avisou.

Só aí me dei conta de ter reparado em algumas flores amarelas, quase ‘fosforescentes’, que haviam me chamado a atenção por parecerem muiiiito mais brilhantes que o normal. Claro, elas eram os primeiros sinais contrastantes aos tons cinzas do inverno parisiense. O anúncio vibrante de um novo ciclo que, para a forasteira, passara despercebido. A visita era mesmo uma bonne idée! Allons-y !

SURPRESA, PRAZERES! Logo na chegada, vimos o que nos pareceu uma cotia. Reparamos então no zoológico que havia lá dentro . Está lá só desde 1795, e nunca tínhamos olhado para ele!!! Deixando o ‘politicamente correto’ de fora, entramos. Foi uma das descobertas mais agradáveis dessa viagem.

O zôo do Jardin des Plantes reúne animais ‘exóticos’ de todo o planeta, muitos deles em perigo de extinção. E váááários totalmente desconhecidos para nós! Juntos aos ‘habitats’ há uma pequena explicação de origem e hábitos, como em todos os zôos, e mais as razões de estarem em perigo.

O veado almiscarado está em perigo. Nas geleiras do Himalaia, onde vive, os machos da espécie são caçados porque têm um glândula no órgão sexual que os perfumistas cobiçam como fixador para suas criações. Outro ameaçado é o cavalo da Mongólia, parecido com um pônei. E, claro, o mico-leão-dourado, nossa ‘bandeira’ de animal em vias de extinção.

Leopardo-no-Jardin-des-Plantes_Tanya Volpe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Encontramos pássaros enormes e desconhecidos, estranhos ancestrais de perus. Num tanque grande, vimos tartarugas gigantes de Galápagos que pareciam bichos pré-históricos com seus cascos craquelentos. Entre muitas aves, estão lá algumas araras e papagaios brasileiros, das cores e espécimes mais maravilhosos.

Lagarto-no-Jardin-des-Plantes, de Tanya Volpe

 

 

 

 

 

 

 

 
Tinha também pavão branco, flamingos, avestruzes. Alguns felinos, como a pantera da China, e leopardos. Todos vivendo em espaços que tentam reproduzir o seu habitat.

Pavão-branco-no-Jardin-des-Plantes, de Tanya Volpe

 

 

 

 

 

 

 

 


O passeio se tornou inusitado, principalmente por não estarmos com nenhuma criança, mas foi uma delícia porque por nos fez, por uns momentos, olhar o mundo com os olhos delas.

E as flores amarelas? De fato pipocavam aqui e ali pelos jardins, mas já tínhamos sido tomados pela outra surpresa!

Uma visita inesquecível! Se você for, não deixe de visitar ali também o Museu de História Natural. Tem vários departamentos, paleontologia, mineralogia, mas eu adoro é a Grande Galeria da Evolução, que é maravilhosa! Ela restitui a história da evolução das espécies de uma maneira quase teatral. É impressionante!

Tanya Volpe

Tanya Volpe

 

 Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

 

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A foto do passeio pelo zoológico sem crianças e mergulhados em saudades dos trópicos é da própria Tanya Volpe. E os flamingos deslumbrantes são chilenos (P. chilensis)…ah, era primavera em Paris!

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , ,
16/09/2009 - 14:44

Exercício de tradução: Marché d’Aligre

Marché d\'Aligre_Tanya-Volpe

De todas as inúmeras feiras e mercados de Paris, para mim o d’Aligre é especial.

Construído em 1779 para prover alimentos para o grande número de trabalhadores, marceneiros e artesões que se concentravam nessa região (ainda há muitos por lá), o mercado se divide em duas partes: uma feira ao ar livre que se espalha pela rua, como as nossas, e que funciona na parte da manhã. E um mercado coberto, também como os nossos, aberto durante todo o dia. Até aqui, fora a data em que o marché foi construído, 1779 (dez anos ANTES da Revolução Francesa!!??) nenhuma surpresa, tudo igual. Mas olhando mais de perto, as diferenças intrigam e encantam!

Adoro passear pelas bancas e descobrir ‘ao vivo’ o que conheço dos livros. No açougue, por exemplo: a que parte da vaca, do carneiro, do vitelo pertencem aqueles cortes cujos nomes não dão sequer uma pista, onglet , aiguillette, gite? E o que eles têm a ver com os nossos cortes de carne?
.Marche d\
Na barraca dos peixes as dificuldades de “tradução-adaptação” são ainda maiores. ‘Quem’ são aquelas conchas e mariscos todos, deitados nas algas e gelo picado, dos plateau de fruits de mer? Violet, bulots, pétoncle, bigorneaux, palourde, e o ‘mar’ de conchinhas,  peixes  e afins que ajudam a perfumar as bouillabaisses ?

Rascasse, merlan, limande, rouget, étrilles, tourteaux…..prazer em conhecê-los, hein?

MarchedAligre

Com os legumes e frutas, a relação é um pouco mais simples. Aqui dá para fazer a versão. Quiabos são okras! Couve é chou vert. Melancia, pastèque, e o maracujá, coisa mais linda, fruit de la passion!

Passo pelas barracas das aves, uma beleza vê-las todas arrumadas na vitrine, com seus colarzinhos de penas — muito chiques — identificação comprovada, de procedência e qualidade.

É no Aligre que compro os queijos que trago na volta para dividir com os amigos. Em duas barracas que existem ali, incluindo a de Cyril et Nathalie, nunca paro de aprender e conhecer mais. São mais de 1000 tipos de queijo que existem na França: queijo de leite de cabra, ovelha, ou vaca, fresco, curado, redondinho, quadradinho, em pirâmide, com cinzas… Adoro um tal de Banon, feito com leite de cabra, fresquíssimo e extremamente delicado. Um galhinho de pinheiro ao lado indica sutilmente o perfume do terroir de onde veio o queijo. E o Époisse afinado no marc de Bourgogne (uma aguardente destilada de resíduos de uvas) que tem cheiro forte, mas uma consistência cremosa e um gosto ‘amendoado’ delicioso. E mais outros tantos e tantos, cada um com suas especificidades. Ali tem também as manteigas, vendidas a peso. Montadas em grandes formas arredondadas, sedosas e branquinhas. Dá vontade de pedir uma colher e começar a comer assim mesmo, pura.
.
As charcuteries  são outra viagem: salsichões, salames, salsichas, presuntos  rosados, crus e curados, comprados em tranches — sim, em fatias, não em gramas ou quilos — pelos freqüentadores, na sua imensa maioria, moradores da região e habituées. Assim como eles, não resisto e peço minhas 2 ou 3 tranches  de presunto de Bayonne, label rouge, certificado que garante um produto de qualidade especial . Para comer, vou logo ali ao lado, comprar uma das melhores baguetes de Paris, a da Boulangerie Moisan, Le Pain au Naturel,  uma das primeiras a resgatar, há uns 10 anos mais ou menos, quando a qualidade dos famosos pães franceses começou a ser questionada, a maneira tradicional de fazer pães a partir de fermentação natural. Seus pães são produzidos com farinhas especiais  e assados corretamente, o que se percebe na ‘crocância’ perfeita da casca . A boulangerie fica quase em frente a uma das entradas do mercado na Place d’Aligre. E a produção diária e contínua de pães, assegura que você vai sempre encontrar um quentinho. Quer coisa melhor na vida?

Marche d\

O mercado abre pela manhã até 12 horas e depois a partir das 4 da tarde. Fecha às segundas. Também vende flores e algumas comidas semi prontas.  Jornada cultural imperdível !!!!

Tanya VolpeTanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

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Marche d’Aligre
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Rue d’Aligre
12 eme

Moisan – Le Pain au Naturel
5, place d’Aligre        12 eme
Tél: 01 43 45 46 60

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , ,
02/09/2009 - 13:42

G.Detou: programa para chocólatras

gdetou_meg-zimbeck

Por conta de meu trabalho como estilista de culinária (faço a comida que está em embalagens, rótulos, anúncios, cardápios… ) estava atrás de corantes alimentares, vermelho, no caso e, especialmente, um marrom, para simular chocolate.

Foi isso que me levou uma tarde à G. Detou.

É uma pequena loja na Rue Tiquetonne, no 2eme, perto do Fórum Les Halles, onde antes existia o antigo mercado de Paris, hoje substituído por um grande e horrendo shopping.

Pois o lugar, com jeito de mercearia antiga, é fantástico. É de fato especializado em produtos para profissionais de confeitaria,  mas prometo que você vai se deliciar com a visita, basta ser um apaixonado por guloseimas: lá encontrei chocolates das melhores marcas francesas como Valrhona, Michel Cluizel, (cotados entre os melhores do mundo) e Weiss, Calebaut ..., tanto em embalagens grandes, próprias para consumo profissional, quanto em tabletes, latas e caixinhas de bombons na medida certa para os chocólatras como eu. São todos chocolates com denominação de origem e porcentagens diferenciadas de cacau, a preços bem razoáveis, nada que sequer se compare aos preços das casas ‘famosas’, como Fauchon, Épicerie do Bon Marche etc. Êbaaa!!! Você vai poder experimentar um montão, sem medo de não poder continuar a viagem e ter que voltar mais cedo para o Brasil!!!!

 Na Detou eles também vendem frutos secos vindos do Marrocos, da Turquia, de Israel. São pistaches, (nunca vi tão verdes)  amêndoas, figos, tâmaras (daquelas bem ‘gordonas’), tudo ainda carregado dos perfumes exótico dos países do “oriente”.

Você também vai achar por lá conservas, geléias e azeites especiais. E chás tradicionais da marca Kusmi Tea. Essa empresa de chá nasceu em St Petersbourg em 1867 e durante a revolução russa mudou-se para Paris. Seus chás são feitos de misturas especiais dos melhores produtores do mundo, (Príncipe Vladimir é o meu preferido, uma mistura de chás pretos da China, aromatizado com essências cítricas, de baunilha e especiarias), Dá para provar todos. Só a embalagem já faz uma festa! (volte e veja a foto no início deste post)

kusmi-tea_paris_tanya-volpe kusmi tea_paris_tanya-volpe

E tem ainda uma vantagem de ser um endereço conhecido e freqüentado por profissionais: você pode comprar favas de baunilha, por exemplo, embaladas à vácuo, com 50 (???!!!) em cada pacote, a preços que fariam a feira perto ficar com vergonha. Ou as famosas favas tonka, que conheci lá, a especiaria da moda.

As favas tonka substituem a baunilha nas mesmas preparações, com um perfume mais suave, mais ‘achocolatado’. Pesquisando depois, descobri que essas favas são sementes encontradas na América do Sul, aqui no Brasil mesmo. Tem bastante na nossa Amazônia. São chamadas de vários nomes, conforme a região, amburana-de-cheiro ou cumaru por exemplo. Servem para fazer remédios que a sabedoria popular adotou desde sempre na região. Já aromatizaram fumos e charutos e hoje, elevadas à categoria ‘sabores exóticos’, freqüentam as cozinhas dos chefs mais importantes pelo mundo. Pois é, fui até Paris,  descobrir o Brasil por ali….

Pode se preparar para passar umas boas horas na G.Detou porque ainda nem chegamos nas prateleiras de confeitos para decoração de bolos, nem na dos corantes alimentares (caríssimos!) de todas as cores imagináveis (incluindo aquele marrom-chocolate que eu tinha ido buscar por lá) e muito, muito mais: achei uma informação, não totalmente confirmada, que o nome da loja G. Detou, é uma corruptela de ‘j’ai de tout,’ em francês, que quer dizer, ‘tenho tudo’. Bom, se não for verdade, bem poderia ser.

G.Detou
Veja o mapa
58, rue Tiquetonne (2eme)  M Etienne Marcel
lundi-samedi   8h30 – 18h30

Tanya VolpeTanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

 

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gdetou_meg-zimbeck

As fotos dos chás são da própria Tanya Volpe, as da loja são de Meg Zimbeck, cujo perfil de fotógrafa gulosa você conhece clicando aqui

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22/08/2009 - 20:02

Prazeres: o Louvre e seus visitantes

alecio-de-andrade2_o-louvre e seus visitantes

Você já teve o prazer de visitar o museu do Louvre, em Paris? Eu tive, mas um prazer muito, muito especial. Por intermédio de amigos, fiz parte de um grupo privilegiado convidado para uma visita ao museu no dia em que ele fica fechado ao público, às terças-feiras. Coloco a experiência entre as coisas mais emocionantes da minha vida!

Nosso guia, com grande conhecimento do acervo, escolhia algumas peças que considerava marcos fundamentais da arte para conduzir a visita — que não foi longa, mas de uma beleza e densidade infinitas.

Passávamos de uma pequena máscara grega, que talvez sozinha eu jamais tivesse prestado atenção, para uma escultura romana e depois uma pintura do século 16. As pontuações se sucediam, enquanto caminhávamos pelos prédios e alas, acompanhando a história das obras e também do museu. Claro que pedimos para ver a Mona Lisa, e a sensação de estar na frente daquele ícone, no silêncio das galerias vazias foi uma emoção inesquecível, que beira o sublime.

A lembrança dessa visita veio à tona recentemente em outra visita, desta vez à exposição O Louvre e seus Visitantes, que se encontra no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e exibe coleção de fotos de Alécio de Andrade (1938-2003), carioca, poeta, músico e fotógrafo profissional, que viveu em Paris.

Na capital francesa, Alécio trabalhou para diversos veículos nacionais e internacionais, foi correspondente da revista Manchete e também associado por um tempo à agência Magnum-Photos, fundada em 1947 por um grupo integrado por Henri Cartier-Bresson. A agência abrigou, e abriga, grandes fotógrafos do mundo.

A exposição O Louvre e seus Visitantes, e o livro que a acompanha, foram idealizados pela viúva de Alécio, Patrícia Newcomer, com base em mais de 12 000 fotos feitas, apaixonadamente, ao longo de quase 40 anos de visitas do fotógrafo ao museu.

“O traço comum das fotografias que apresento talvez seja devolver a esse lugar tão visitado a presença e a intimidade do olhar daquele ou daqueles que, tendo vindo admirar quadros ou esculturas, muitas vezes só enxergam pouca coisa mas, de um momento para o outro, podem viver o encontro com uma obra ou mesmo um detalhe que irá comovê-los mais que qualquer coisa”, escreve Alécio de Andrade na apresentação do livro.

 alecio-de-andrade_o-louvre e seus visitantes

 

 alecio-de-andrade_o-louvre e seus visitantes

O acervo de 88 fotografias pertence ao Instituto Moreira Salles, doado por Patricia Newcomer, Florencio e Balthazar de Andrade, com a curadoria de Hélène Lassalle e Jean Marchetti.
Alécio foi amigo de vários intelectuais, como o poeta Drummond, que lhe dedicou este poema:

O que Alécio vê

A voz lhe disse (uma secreta voz):
- Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por seu olhar o sentimento das formas
que é o sentimento primeiro – e último – da vida.

(Carlos Drummond de Andrade inAmar se Aprende Amando”)

Exposição: O Louvre e seus Visitantes
Museu Nacional de Belas Artes, Av. Rio Branco, 199
Tel: (21) 2240-0068
de 10 de julho a 13 de setembro de 2009
de terça a sexta-feira, das 10h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 17h

Para saber mais sobre a exposição, navegue pelo site da Confoto

E para comprar o livro O Louvre e seus Visitantes, de Alécio de Andrade, Edgar Morin e Adrian Harding

No blog da fotógrafa Luciaadverse’s você passeia por algumas da fotos da exposição 

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , , , , , , , ,
10/08/2009 - 14:26

Prazeres: Pain de Sucre

pain-de-sucre_biscuit-au-curry_Tanya Volpe 

Quando leio alguma coisa que me interessa sobre Paris, anoto no meu caderninho de ‘descobertas a descobrir’…

Anotei o Pain de Sucre.

É uma pâtisserie aberta por um casal de doceiros, Didier Mathray e Nathalie Robert, que antes haviam trabalhado com Pierre Gagnaire, meu cozinheiro ídolo.

Gagnaire é um chef ‘ 3 estrelas’ , bastante inovador. Além de tocar seu maravilhoso restaurante, ele desenvolve, há muito tempo, pesquisas com Hervé This, o cientista, pai da ‘cozinha molecular’. Foi esse Hervé, inclusive, que levou a cozinha para a universidade como objeto de estudo e foi inspirado nesses estudos que Ferran Adrià deu início à grande revolução no mundo das panelas.

Imediatamente me interessei em conhecer a doceira… Fui lá algumas vezes antes de conseguir entrar. Estava sempre fechada. (férias, dia de folga…) Não me arrependi da espera. A loja fica para o lado contrário do Centre Pompidou, o Beauboug, muito perto da estação Rambuteau do metro. É bem pequena mais realmente especial.
Quando entrei, a dona ficou me olhando, esperando para ver o que eu desejava. Disse que estava querendo conhecer a loja e há bastante tempo. “Por favor, deixe-me olhar”.  E ela, gentil (e um pouco constrangida) ‘prenez votre temps’ .  Comecei a investigar.


As diferenças, em relação às outras pâtisseries aparecem em pequenas sutilezas. Folhas de coentro cristalizadas no açúcar ao lado das tradicionais de hortelã, por exemplo.  Escolhi uma caixinha, já imaginando as possibilidades de combinação.  Com abacaxi ou manga ?  Ou com chocolate bem amargo em uma mousse?  Me lembra sabores ’tailandeses’, doces com coco? 

Encontro uma variação de calisson, típico biscoito de amêndoas da Provence, normalmente  em forma triangular, aqui, quadrado, e feito com pistaches e casca de laranja. Lindos e deliciosos.

Eles tem algumas poucas opções de chocolates e guimauves, os ‘marshmallows’ franceses, levíssimos.  Cubos coloridos de framboesa ou chocolate com banana ou flor de laranja e outros, que variam conforme a estação. Também lindos!

Bombas com sabores e formatos diferentes, incluindo uma com creme de avelãs e amêndoas torradas que é de chorar de boa!

Um sortimento de macarons de sabores especialíssimos., como tudo por lá. 

Ah! E vendem sobremesas em verrines, aqueles minicopinhos com misturas tentadoras.
pain-de-sucre_verrines_tanya-volpe

A montagem das tortas de frutas é bem diferente.  Não parece torta de pâtisserie.  Como o casal veio da restauração, seus doces tem categoria e jeitão de sobremesa de restaurante 3 estrelas.
Atenção, eles fecham na terça e na quarta, por isso, cuidado para não perder a viagem como eu nas primeiras vezes.

Tanya VolpeTanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

 

 
Pain d Sucre
14, rue Rambuteau  3ème
Metro Rambuteau
http://www.patisseriepaindesucre.com/

 

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , , , ,
31/07/2009 - 15:37

Prazeres: azeites da Provence

azeites-da-provence2_tanya_volpe

Você tem de conhecer. No 12eme, pertinho da Place de la Bastille, há uma pequena rua, de um quarteirão, a Antoine Vollon. Ela margeia a Square Trousseau, uma praça cheia de crianças brincando. A atração especial ali fica no número 3: uma loja que vende azeites da Provence, com amostras de diversos produtores da região, todos devidamente especificados, e com descrição bem precisa de aromas. São mais de 20 opções divididas em frutados, feito com azeitonas verdes, com azeitonas pretas e com azeitonas maduras. Os preços variam entre 7 e 8 euros.

Alguns dos azeites tem AOC, ou seja, definição de origem controlada. A vendedora é uma mulher muito linda e simpática, sempre disposta a dar boas explicações. Mas as opções são tantas e tão tentadoras que o aconselhável é pegar um folheto e refletir sobre as escolhas. Nada melhor para isso que ir ao Le Bar à Thé, ali ao lado. Sentar nas mesinhas da calçada, escolher entre as diversas opções de chás, quentes ou frios, que podem ser degustados com uma salada, um sanduíche ou pequenas gulodices, como brioches ou pain au chocolat.

azeites-da-provence_tanya_volpe

Bom, vamos aos azeites! Sempre acabo por escolher pelo menos um de cada tipo de azeitona (verde, madura e preta). As descrições são deliciosas! Um AOC Vallée des Baux, por exemplo, tem um sabor que remete a amêndoas, avelãs e manteiga fresca! Quero um. De um outro produtor, o azeite tem aromas de alcachofra, baunilha e avelãs. Ai, que viagem! Não consigo parar de me imaginar no coração da Provence, andando por campos de lavanda sob aquela luminosidade solar de uma tela do Van Gogh. Sem dispersão, vai!

 

 
 
Os azeites estão acondicionados em embalagens de 250ml, que os conservam bem protegidos da umidade e da luz. É o que permite arriscar a provar e comprar vários, pois adoro esses azeites também para presentear os amigos. E um detalhe genial é um bico de plástico para ser acoplado à latinha do azeite depois de aberto. Essa pecinha, muito simples, é ótima porque não deixa pingar e faz com que o azeite escorra em um fio levinho (além de servir, depois, em outras latas daqui).

 

azeites da Provence_Tanya Volpe

Para conhecer melhor os azeites escolhidos, quando chego em casa cozinho batatas e, com elas ainda quentes, rego com o azeite, tempero com flor de sal e pronto. É comer, relembrar a viagem e começar a imaginar com o que mais aquelas maravilhas podem combinar.

Tanya Volpe

Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar… 

Première Pression – Huilles d’Olive Provence
3 rue Antoine Vollon – 12 eme
Tel : 01 53 33 03 59
Metro : Ledru-Rollin 
Ouvert :Mardi / Vendredi : 11h-14h30 / 15h30-19h00 Samedi : 10h30-19h00

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , ,
24/07/2009 - 14:57

Prazeres…

parque-monceau_tanya-volpe

Quando eu era menina adorava brincar de pular corda. E eu era boa nisso. Quando pulava sozinha. Quando brincava com os outros, era mais complicado. Sabe quando duas pessoas batem a corda e você tem de entrar no momento certo para pular? Pois é, me lembro ainda do frio na barriga que eu sentia frente a esse ‘grande ‘ desafio. A cabeça planejando, contando tempos, avaliando, escolhendo. Daí vinha a coragem e jáááááá! Eu começava a pular e instantaneamente esquecia o medo, era só prazer, um dos meus pequenos prazeres.

Pois é, resolvi entrar aqui. Para falar de tantos outros pequenos prazeres. Como Paris, cidade de infinitas viagens. Quer coisa mais deliciosa do que passear por lá? Conto os meus passeios.
Nesta temporada de verão parisiense, fui ao Parc Monceau , no 8eme. A história do parque é legal. Inicialmente, a área foi comprada pelo Duque d’Orléans, no dia seguinte ao seu casamento com a princesa de Penthièvre. Era 1769. Sua intenção era criar ali um lugar de prazer, para encontros e festas, um ‘país de ilusões’ como ele dizia . E assim foi feito. Muito tempo depois, em 1860, o parque foi comprado pela prefeitura de Paris e se tornou público.

O Barão Haussmann, que é o responsável pelo desenho de Paris que conhecemos hoje, resolveu dividir o parque Monceau em duas partes. Vendeu a metade para uma família de banqueiros (os Pereires), para que ali fizessem um loteamento de alto padrão. Haussmann queria valorizar a região. Na outra metade da área, foi mantido o jardim. As lindas casas que foram construídas no loteamento são as que existem no fundo do parque. Seus moradores têm o privilégio de usá-lo nos horários em que o parque se encontra fechado. Nada mal como quintal, hein?

Adoro o jardim do Monceau, que tem características de um jardim inglês, meio bagunçado e cheio de árvores do mundo todo. Há um Cedro do Líbano que deve ter uns 900 anos (na verdade, acho que são 200). É de uma majestade, com seus galhos enormes e pensos, emocionante. Outra árvore sensacional é um plátano, também com energias de milênios. Tem uma outra, japonesa…. E descobri lá uma Amoreira negra, que tem exatamente a minha idade. Foi plantada no dia em que eu nasci!

Outra coisa legal do parque é ser pouco visitado por turistas. É a turma do bairro, suas crianças, velhos e bichos que o freqüentam, o que o torna mais especial. 

 

Tanya Volpe Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

A foto é minha, dos matinhos coloridos do parque Monceau: Parc Monceau, Bd Corcelles,  8ème, Paris (aberto das 7 h às 22 h no verão) Métro Monceau

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , ,
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