Li ontem um alerta da Associated Press sobre o risco das cirurgias de “rejuvenescimento vaginal”. Leio hoje na BBC que cientistas japoneses criaram técnica para ‘rejuvenescer’ óvulos de mulheres mais velhas, ou seja, eles usam materiais de óvulos de mulheres, misturam com os das mulheres mais velhas e o resultado são bebês com duas mães e um pai biológicos!
Aparentemente, a comunidade científica está preocupada porque o número de cirurgias vaginais (labioplastias) cosméticas, apenas para diminuir o tamanho dos grandes lábios, está aumentando na Europa e nos EUA e não existem evidências de que essa busca pela vagina perfeita seja realmente segura, ao contrário, trata-se de uma mutilação cujos efeitos ainda não são completamente conhecidos.
Já a técnica dos cientistas japoneses deve servir para estender por tempo ainda maior a possibilidade das mulheres engravidarem, assim, a rigor, poderíamos ter filhos já quando estivéssemos nos sentindo mais para “avós”….
Fiquei imaginando…mas desisti! Vou para o telhado pensar no violinista e tentar apagar a imagem de um mundo feito de vaginas perfeitas e de mães-avós da minha cabeça…
Todo blog que se preza tem sua lista de top10 e seus favoritos de todos os tipos. E não é isso mesmo a web? Todas as informações estão aqui, a gente navega pelas escolhas e filtros das nossas almas gêmeas virtuais…
De todo modo, este blog não foge à regra…
Só não queríamos que a lista fosse coisa pronta e acabada. Aos 50, um pouco antes, um pouco depois, as verdades provisórias, aquelas que a gente vai colocando pelo caminho apenas para firmar o pé, antes do próximo passo, essas parecem tão mais friendly…
Por isso, aqui vai uma primeira lista dos nossos espaços favoritos na web.
Kátia Lessa é repórter da Revista TRIP, colabora com o site da TPM e neste blog , Kakaos, salva notícias condenadas a morte.
A nutricionista Marcia Daskal adora comer e garante que “nunca concordou em ter que cortar coisas gostosas da alimentação e classificar os alimentos como bons ou ruins”. No seu blog, dentro do site Panelinha ela compartilha dicas, informações e conselhos
E por falar em adorar comer, navegar no Comidinhas, da Ale Blanco, é o melhor aperitivo do mundo! Recomendação: use imediatamente antes de escolher onde almoçar ou jantar porque as dicas da Ale costumam abrir o apetite…
Queríamos achar blogs de cinquentonas, mas que difícil! Assumido, descobrimos o Ponto de Vista da jornalista Lígia Leal, que comenta a partir de sua Maringá, as coisas do mundão lá fora!
OK, o Gabeira não é um cinquentão, mas já combinamos desde o início deste blog que seriam “50, um pouco antes um pouco depois”, então o blog do Gabeira, com seus quase 70 anos, cabe na categoria “Blogs de Cinquentões”, certo? Além disso, você não pode deixar de ler os comentários dele sobre as Olimpíadas no Rio de Janeiro, seu último post…
Mirian Goldenberg é antropóloga, especializada em questões de gênero, que ela explora daquele jeito gostoso, sem ”falas difíceis” e que faz a gente ler e achar que “entendeu tudo”. No site, dá para acessar os artigos dela publicados em jornais e revistas e trabalhos mais acadêmicos para download, enfim, um mundão de idéias para explorar na área de relacionamentos entre homens e mulheres.
Mais uma “fiftie”, lembram dela? A Claire, fotógrafa, apaixonada por polvos e corpos humanos! Seu blog visual está no Deviantart, chama-se Poivre.
E Rosália Lerner, de 57 anos, ilustradora e aquarelista, que faz um blog onde os dias são cores e imagens de sonho! Ah, e embora não a conheça, temos uma paixão comum…os óculos!
O Fio do Bigode, com suas “opiniões livres, honestas mas não isentas”, é o melhor do mau-humor na web!
O mais fofo: Nina e Laura, mãe e filha…mas a Laura foi viver sua adolescência e ficou a Nina falando daquelas coisas “entre mãe e filha”, ou seja, de quase tudo!
Adoro quando acho blogueiros que tem vocação para postar as miudezas da vida! São blogs que mantem seu jeito original, de diário, mistura de exibição e intimidade, fresta…Esse, é da Bebel, Feito à mão.
E quando os blogs crescem tanto que nem cabem mais na categoria! Arianna Huffington, uma fiftie de origem grega, é co-fundadora do Huffington Post, um jornal online feito por blogueiros do naipe de Obama e Hillary Clinton. Foi de direita, migrou para a “esquerda”, combateu a candidatura de Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia, e, evidente, mantem um blog sobre política e atualidades no Huffington Post.
Ou quando eles deixam de ser só blogs e viram uma rede? E escapam para o mundo real? E viram outra coisa, juntam gente em volta, fazem e acontecem…é assim o LadybugBrasil da jornalista Joana Freitas.
E tem outros, tantos outros! Como dissemos no começo, essa é uma lista provisória e deve ficar assim, sempre…blogs são viajantes, à mercê dos ventos que empurram seus autores!
Conhecer o próprio corpo é um desafio para as mulheres. Estamos sempre tentando entender, explicar ou dar algum sentido para nossas metamorfoses: esse corpo cheio de altos e baixos, inundado de hormônios, desejos, aflições, “ando chorona, doutor”, “é a progesterona”, “hummmm, quem diria, progesterona?” Aprendemos a reconhecer ciclos, a antecipar e a driblar os padrões. E dá-lhe prímula contra a TPM, shiatsu para dor de cabeça no meio do ciclo, ponstan para cólica…
Mais do que tudo, no entanto, esse conhecer o próprio corpo é um conhecer-se, feito de explorar nuances e de mergulhar em mistérios, de conhecimento e de informação.
No dia 14 de novembro, o Femme, Laboratório da Mulher, clínica de diagnósticos em São Paulo, especializada no atendimento do público feminino, vai reunir professores, médicos e especialistas de várias áreas para falar exatamente de Saúde da Mulher. O encontro vai ser no MAM, dentro do Parque do Ibirapuera, é grátis e dura o dia inteiro. São palestras e debates sobre todos aqueles temas que nos tiram o sono, como TPM, gravidez, libido, prevenção do câncer e, pensando mais nas Fifties, saúde e sexualidade na 3a. idade.
Aliás, o Fifties aproveitou a chance do evento e foi perguntar para o dr. Rogério Ramires, diretor do Femme e especialista em Patologia do Trato Genital Inferior pela Sociedade Brasileira de Medicina, se existiria algum coquetel de “bem-estar”, aquela receitinha mágica que deveríamos incluir logo no café da manhã e que nos ajudaria a viver uma menopausa feliz.
Para o doutor Ramires, “é a possibilidade de repor os hormônios que vamos perdendo com a menopausa que representa uma verdadeira revolução”. Ou seja, viva a reposição hormonal. Achou fácil? Pois é, mas nem só de equilíbrios químicos se faz a tal longevidade feliz. ”Os principais alicerces da qualidade de vida são a boa alimentação, a prática de exercícios físicos regularmente, o lazer, o sono e o gerenciamento do stress. Esses bons hábitos é que vão levar a pessoa a ter saúde, muito mais que qualquer medicação”, ensina o doutor Ramires. Notou a palavra “hábito”? Deu para sentir o peso disso que ele chamou de “gerenciamento do stress”?
Por essas e por outras tantas, organize-se para no dia 14, se estiver em São Paulo, ir até o MAM assistir às palestras e participar dos debates. Ah, e aquele meu amigo, dr. Roberto Cardoso, professor da Faculdade de Obstetrícia da UNIFESP, que desenvolveu um projeto incrível de meditação com gestantes, vai estar lá para dar uma aula sobre o assunto.
Veja a programação no quadro aí embaixo e cadastre-se para participar clicando neste link
Anda triste, de baixo-astral? Então arrume as gavetas, lave um cesto de roupas, passe um pano no chão, vá dar uma poda nas plantas…
Ao captarem um espírito entediado, preguiçoso, nossas mães e avós viviam tendo idéias para nos ocupar sem saber o santo remédio que estavam prescrevendo contra tristezas e até a depressão.
O jeito antigo e espontâneo de espantar minhocas da cabeça, sem enfiar nela substâncias químicas, foi agora atualizado pela neurociência, noticiou a Folha de S. Paulo. Pesquisas sobre o tema defendem trabalhos ou atividades simples do cotidiano como forma de resistência a desânimos em geral.
O principal dessa história está no nosso sistema de recompensa, um grupo de estruturas cerebrais responsáveis por recompensar atitudes úteis, creio que especialmente aquelas importantes para nossa sobrevivência.
Então temos de “agradar” esse sistema quando ele está meio para baixo. Talvez um elogio, um beijo, abraço, cafuné resolvam. Mas se a ansiedade estiver em alta, é melhor optar por estímulos mais intensos. Por isso é que esfregar roupas no tanque poderá fazer você se sentir muito bem.
A pesquisadora e neurocientista entrevistada no artigo, a americana Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia de uma faculdade na Virgínia e autora de livro sobre o assunto, define a questão como um “circuito de recompensa adquirida pelo esforço”, envolvendo prazer, movimento e solução de um problema.
A explicação: “A sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto, é acompanhada de substâncias que deixam a pessoa mais persistente. Ou menos depressiva…”
Foi outro estudo americano que motivou a atenção da cientista. Apontava que pessoas nascidas até 1940 eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Na ausência de uma mutação biológica importante no funcionamento cerebral, Kelly Lambert credita a mudança de estilo de vida dos dias de hoje ao fenômeno.
As pessoas ficaram menos ativas, com trabalhos mais sedentários, usando muito mais a mente do que o corpo. A mente cansada fica vazia e, como diz a sabedoria popular, cabeça vazia é oficina do Diabo!
Cheia de caraminholas na mente, seu espírito só pode azedar. Siga a recomendação da ciência: adoçá-lo com movimento, prazer e esforço que levem a uma doce e recompensável solução.
É bom lembrar, no entanto, que o cérebro tem também um setor, bem atrás da testa, responsável pela nossa capacidade de prever as consequências de um ato. Em outras palavras, ter juízo. Então você precisa conciliar a avidez por recompensas fortes com seus limites.
Se uma parte do seu cérebro requer aventura para apaziguar o espírito e a outra é incapaz de lhe avisar dos perigos, você pode dançar: corre o risco de se machucar e não concluir a tarefa. Talvez com um pé quebrado porque subiu no banquinho para fazer faxina, vai ficar mais sedentária e acabar deprimida… Daí o Diabo, em vez de você, venceu a parada!
Eliane Robert me ensinou a olhar sem angústia para Nabokov e a me apaixonar pelas cores falantes de suas memórias…Deve ser porque Nabokov sofria de cinestesia, uma condição raríssima que embaralha os sentidos, o que, no caso, fazia com que ele “ouvisse colorido” os sons das letras. Ele fala sobre isso na sua biografia, Speak Memory, que em português foi traduzida como “A Pessoa em Questão”. De todo modo, Eliane Robert vem explorando esses autores de “escrita obscena” e deve ser uma delícia ouvir suas notas sobre o “porco no corpo”…
As mulheres andam mais tristes. E não é de hoje. Desde 1972, segundo o General Social Survey, uma pesquisa que todos os anos consulta algo como 1500 homens e mulheres de todas as idade, níveis de educação, renda e estado civil para descobrir o nível de felicidade da “América”. “Numa escala de 1 a 3″, os pesquisadores explicam, “sendo 3 ‘muito feliz’ e 1 ‘nada feliz’, que nota vc daria para seu grau de felicidade?”
Marcus Buckingham, novo blogueiro do Huffington Post, alinhava não somente esse, mas outros estudos que fortalecem a tese: as mulheres estão se percebendo menos felizes, enquanto o nível de felicidade dos homens parece subir.
Buckingham, que trabalhou no instituto de pesquisa Gallup durante anos, desenvolvendo testes e estudos sobre comportamento, coloa os dados de seis pesquisas realizadas por diferentes entidades, somando 1.300.000 pessoas, num total de em 15 países.
O post do especialista levanta a questão, e deixa para o leitor as reflexões. E Maureen Dowd, colunista do New York Times, avança: são papéis demais, obrigações demais, escolhas demais…e hormônios demais! Filhos, correria, ônibus lotados, casa, trabalho, trabalho, trabalho…
Tudo isso mais uma pressão nova, “ter rosto e corpo de uma Barbie aos 60 anos”…
E nossas conquistas? Trabalho (?), liberdade, horizontes amplos…Por que elas não nos ajudam a ser mais felizes?
Minha amiga Re duvida. Essas questões de gênero tem que ser conduzidas com cuidado, para não perdermos de vista as questões comuns, humanas, que nos aproximam uns dos outros.
Mas há que se pensar…o que é que nos torna realmente felizes? De 1 a 3, sendo 3 “muito feliz” e 1 “pouco feliz”, a quantas anda a sua felicidade?
Reparou na foto? É de Claire Jean, aquela fiftie fotógrafa, apaixonada por polvos, lembra? Reveja os nus de Claire no post Claire e os polvos. Os trabalhos dela também aparecem no DeviantArt
Não sei bem quando exatamente minha relação com a moda mudou…
Mas aos 50, um pouco antes, um pouco depois, me vestir virou uma espécie de brincadeira, jogo de fantasia e de humor…
E nem é que não me importe mais, ao contrário, aos 50, um pouco antes, um pouco depois, descobri em mim até uma certa… faceirice!
Bom, se você está muito longe dos fifties vai estranhar, mas muitas mulheres da minha geração cresceram desconfiando dos batons e rosnando para essas coisas de “mulherzinha”. Éramos até corretas, eventualmente chiques, elegantes, mas não nos divertíamos…
Algumas de nós nunca perderam o tom “nós que amávamos tanto a revolução” e passaram a vida experimentando versões do estilo “túnica + sandália franciscana”. Outras jamais se permitiram concessão alguma e caminharam até aqui eretas, expressão severa, jeans, camisa abotoada, sapatos de bicos gordos, nada de enfeites. Outras ainda buscaram refúgio nos beges e tentam até hoje encher de graça os básicos de todas as cores.
Mas existem mulheres que se soltam aos 50, um pouco antes, um pouco depois, soltam o riso, soltam os cós e vestem as roupas como quem dança contra o vento!
Fiz uma faxina no meu armário. Dei tudo que me apertava (menos os jeans, vai saber a que outras fantasias eles respondem!) tudo que era áspero, tudo que era duro. Aos 50, um pouco antes, um pouco depois, quero panos que me envolvam, sem moldar, macios, molengas, que viajem do trabalho ao sofá sem sofrimento, que causem até certa estranheza, mas que ousem outros olhares sobre mim. Quero cores e quero levezas, estampados, por que não? Mas com um quê das odaliscas de Matisse…Salto alto, de vez em quando, só para exercitar o porte aprumado das palmeiras…e batom, sempre!
Jane Birkin é meu benchmark! Lembram daquela quase-voz dela entrando sussurrada logo depois dos acordes proibidos de “Je t’aime, moi non plus”? Caso de amor eterno com Serge Gainsbourg, dono do nariz mais espetacularmente grande e da voz mais doce, uma combinação, aliás, perigosa num homem…Pois então, Jane Birkin esteve aqui no Brasil na semana passada para um show em homenagem a Serge Gainsbourg, por ocasião da celebração do Ano da França no Brasil. Envelheceu. Sua quase-voz continua sussurrada e ela ainda é linda, até porque, liberta da necessidade de posar de mulher sexy, ela pode rir mais, e é assim que ela aparece hoje, rindo!
Não espanta que seja a designer convidada da marca, Lutz and Patmos, cujo mote é “moda não efêmera, simples, mas especial, moderna, mas confortável, familiar, mas única, para durar anos a fio, não estações, para o dia e para a noite, para a semana e para os finais de semana, para todos os climas, para o ano inteiro”.
E tem mais gente brincando com essa “não-moda-arte-de-vestir-para-brincar”.
Sonia Pinto, por exemplo, de Belo Horizonte, que acabou de abrir um atelier em São Paulo e que define as mulheres, suas clientes, como: “mulheres cosmopolitas, cientes do seu tempo, protagonistas da sua história (…)mulheres que só se revelam para quem merece fruir da sua gentileza – e da sua beleza atemporal”.
“Faço roupa para mulheres que não estão preocupadas com um carimbo e que têm coragem de inventar seu próprio estilo”.
Para elas, a estilista cria vestidos-capas, calças-saias, blusas-mantos, híbridos à espera das cores, cada prega revelando possibilidades e movimentos novos…
Dela tenho algumas peças, as minhas favoritas no armário recém-esvaziado, incluindo uma espécie de blusa-estola, de uma lãzinha que nunca nem sonhou ficar pinicando a pela da gente, forrada de gaze, toda desconjuntada, mas que se transforma no minuto em que você se deixa abraçar pelas dobras macias. Sem querer, seu queixo parece mais altivo, seu olhar, mais sereno, seu jeito, mais feminino, você inteira, uma mulher sem idade, na roupa atemporal…
Relembrando: Je t’aime, mois non plus, com Jane Birkin eSerge Gainsbourg
As fotos
Jane Birkin (as pernas dela, no caso) chega ao cemitério de Saint Germain des Prés para o enterro de do cantor e compositor Alain Bashung, no dia 20 de março de 2009, em Paris, na França/Photo by Francois Durand/Getty Images
Jane Birkin no site da Luzt and Patmos, como designer convidada
Parece que os cinquentões estão com tudo, sem nenhuma inveja da juventude.
Rola na internet que a Globo está produzindo um novo seriado para o início de outubro. Qual? Uma versão fifties: Cinquentinhas, série com nove capítulos, que Aguinaldo Silva está produzindo e Wolf Maya vai dirigir.
Cinquentinhas contará a história de quatro fifties: lemas, dramas familiares e emocionais interpretados por belas senhoras.
Susana Vieira viverá uma mulher infeliz no casamento e terá um caso com o motorista.
Marília Gabriela terá um romance com um garotão de 20 anos e será assediada por uma bissexual.
Marília Pêra estará no papel de uma hippie voltada à vida alternativa.
E sobre a quarta cinquentona, interrogações mil! Dessa fifty não se sabe nada. A emissora ainda não definiu. Um temperinho especial rondará a história das fifties: aquele “horroroso” Reynaldo Gianecchini no papel de um gay malvadão. Filho de uma das protagonistas, vai fazer artes e manhas com Marília Gabriela.
Ainda não deu certo, mas uma amiga está para me levar à Casa dos Cariris, na capital paulista, onde diz que é feita a verdadeira comida mexicana. Não se trata de restaurante comum, mas a própria casa dos fifties Lourdes Hernández e seu marido Felipe, que recebem em dias previamente agendados. Lourdes envia e-mails especiais avisando sobre as datas. Especiais porque o cardápio oferecido vem com o tempero de histórias da anfitriã. Enquanto não degusto seus pratos, saboreio seus ótimos relatos. Num dos últimos, ela conta sobre tremores (temblores), a vida e seus amores.
Os tremores são terremotos que mandam para o espaço a vida segura e cheia de regras. Como diz Lourdes, que viveu a experiência no México em 1985, “…mudam o rosto da cidade e o espírito de seus cidadãos. Para mim, desvelaram a urgência da fome e da vida irreprimível”.
Poucas horas antes dos tremores, ela disse adeus a um namorado que já não “balançava” sua vida. Um apetite surgiu. “Não chorei, só comi, comi e comi.” Após os estragos feitos pelos abalos, deu-se conta também da fome dos sobreviventes, do apetite que os faz descobrir que ainda estão com vida, apesar do coração quebrado e vazio. Ao mesmo tempo, em outro canto da cidade, Felipe também desfazia um amor. Mais tarde acabaram se encontrando: “… mortos de fome. Vivos”.
É uma bela história. Se não fosse cozinheira das boas, Lourdes poderia estar na vida como escritora de romances ou roteirista de cinema. Aliás são eles, também os livros e filmes, que nos lembram do apetite pela vida nos momentos de coração quebrado. Ou perna quebrada, como aconteceu comigo.
No limbo que o acidente me colocou por longo período, fui mantendo a “fome” com A Louca da Casa, de Rosa Montero, conheci Mia Couto em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, passei pelas fragilidades de espírito do beat generation John Fante com seu Espere aprimavera, Bandini, viajei pela Beleza e Tristeza de Yasunari Kawabata, acompanhei o tenso jantar de gala num castelo húngaro nas Brasas de Sándor Márai, maravilhei-me com o jovem Jonathan, autor de Extremamente alto, incrivelmente perto.
Quanto aos filmes, tomo a liberdade de reproduzir o e-mail que enviei a uma amiga envolvida em tristezas: Ok, então fique quietinha, com um chocolate quente, uma mantinha no sofá e pegue um filme para secar lágrimas: não é comédia, ao contrário, daqueles de soluçar mesmo.Tem um que não resisto por causa de uma cena. Chama-se Regras da Vida, com aquele Michael Caine que eu adoro. Ele cuida de um orfanato e, na hora que põe as crianças para dormir, diz, solene, algo como: Goodnight, you princes of Maine. You kings of New England. E aquelas criaturinhas “abandonadas” viram reis e rainhas de respeito. É lindo de chorar… E pode fazer você virar “rainha” … E despertar o apetite.
Por fim fica aqui mais uma dica, esta dada por cientistas que também entendem de terremotos e sabem que eles são provocados pela Terra e não pela fúria de deuses gregos como Poseidon, que com seu tridente espalhava tempestades e turbulências.
Os cientistas da Terra conhecem como o planeta funcionou no passado e como poderá funcionar no futuro. Por isso afirmam, num informe recente, que convém a todos nós, que vivemos sobre placas que flutuam e que causam terremotos quando se mexem demais, ter alguns conhecimentos básicos para tomarmos decisões bem informadas — sobre qualquer coisa, como ir ou não à Casa dos Cariris encher a vida de apetites mexicanos…
E se pisamos na Lua há 40 anos, não é mesmo o caso de ficar um pouco por dentro do que rola na Terra?
Extremamente alto & incrivelmente perto. Jonathan Safran Foer, Rocco Regras da Vida (The Cider House Rules), EUA, 1999, direção de Lasse Hallstrom, com Michael Caine, Tobey Maguire, Charlize Theron, entre outros.
A foto é de um árabe, Hamed Saber, Happy Eid ul-Adha , e aparentemente, não poderia ser mais distante do post da Lélia e dos tremores da Cocinera Atrevida, Lourdes. Mas estava eu à caça da foto para ilustrar o post quando dei com esta e era perfeita porque fala desta “fome”…e, querem saber, Eid ul-ulAdha é uma celebração islâmica meio que aparentada com nosso Natal. Acontece depois do longo mês de jejum, o Ramadã. E é uma celebração da vida, com direito a trocas de presentes, muita comida e muitos doces distribuídos para as crianças. Ou seja, no final, aqui ou ali, tem tudo a ver…
Adoro o Twitter! Nem sei bem por que, mas desde que a Marcela, a Capitu do mundo web, me falou pela primeira vez dos “microbloggings, Adília, tem que prestar atenção nisto“, virei fã.
É a idéia que fascina! “Twitter” é uma onomatopéia para o piado do passarinho, por extensão, qualquer som trêmulo e curtinho. Também fala de palavras bobas, de provocações e diz de um estado de ligeira excitação sobre qualquer coisa. O símbolo do Twitter, você até já adivinhou, é um passarinho.
Não um pássaro qualquer, inocente. Esse convoca: onde você está agora, fazendo o quê, caminhando, rindo, pensando na vida, vagando por aí…E convida: falas, idéias, sonhos, informações, palavras, siglas, cifras, bobagens, besteiras, e o que mais a gente conseguir imaginar de birutices humanas…
O que você está fazendo agora? A pergunta expressa o ritmo maluco e desconexo da vida. What are you doing right now? Quem quer que você seja, bem-nascido ou joão ninguém, pé-rapado, maria vai com as outras, pedro bó, zé mané, zé ruela, celebridade A, B, C…X, intelectualóide, analfabeto funcional, a rede convida todos, sem distinção, a olhar para dentro e twittar seu instante. Não é coisa de ontem, nem é projeto para amanhã, é o agora cuspido, às pressas, compartilhado, ufa, quem se importa se jamais for lido?
Meio engano. Como todos os fenômenos da internet, o twitter é cheio de meios tons. Quantas pessoas estão seguindo você é uma forma de introduzir a mais humana das variáveis no universo dos microbloggings: a vaidade. E decidir quem seguir, de fato, é a primeira atitude a tomar, depois de se logar no site, evidente! As opções, como já vimos são infindáveis. Um amigo me conta que, por não saber por quem começar, decidiu seguir o próprio inventor do Twitter! Os três fundadores, Jack Dorsey, Evan Williams e Biz Stone, obviamente, estão twitando…
Uma vez lá dentro, e dependendo sabe-se lá do que, você vai observar que tem gente te seguindo. No início, isso me fazia sentir desconfortávelmente responsável. Foi aí que resolvi oferecer a essas gentis e incompreensíveis criaturas doses diárias de carinhosos absurdos, em geral extraídos dos clássicos da imaginação humana, Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, por exemplo, meus favoritos. Nunca cumpri minha meta aliciana de twittar cinco coisas impossíveis antes do café da manhã…mas chego lá…
Algum cuidado, no entanto, é necessário, porque o que surge na tela como o mais democrático e livre de todos os espaços humanos, numa guinada do mouse, revela-se o mais poderoso mecanismo de controle jamais imaginado…ou você duvida que sempre existe alguém que espia tudo e todos, todo tempo? Brrrr…..
OK, devo estar viajando, não é bem assim, ao menos, não ainda.
Mas se você quiser experimentar, venha twittar também. É melhor do que tomar chá com o Chapeleiro Louco de Alice, garanto!
Para entrar no site do Twitter, pode clicar bem aqui. Faça o login e seja-benvindo à twittagem planetária. E já que falamos de Alice no País das Maravilhas, Jonny Depp de Chapeleiro Louco no filme de Tim Burton. Irresistível! O trailer está bem aqui.