Na série “Joga-Pedra-Na-Geni”, sempre tem episódio novo. Quando eu tinha 20 anos, Doca Street assassinou a amante Ângela Diniz, a “Pantera de Minas”, e foi inocentado no primeiro julgamento sob o argumento da defesa da honra, pois teria sido traído. A população reagiu e em novo julgamento ele foi preso, condenado por homicídio. Agora passei dos 50 e vem à tona mais um capítulo da série na saia curta que fez a estudante de turismo Geisy Arruda ser hostilizada e agredida pelos colegas na Uniban, em São Paulo, há algumas semanas.
A saia curta anda provocando saia justa nas rodas de conversas. Não há quem não condene o comportamento dos jovens que a insultaram, assim como a insanidade da Uniban, a instituição educacional que demonstrou não entender nada de educação. O problema é que a condenação vem acompanhada do mesmo machismo moralista que provocou a situação. Muitos, homens e mulheres, não resistem ao comentário: “Mas a moça também não tinha noção, aquela roupa… também tá na cara, é só ver o tipo… não que isso justifique a coisa, mas era evidente…”
Os dois lados erraram, entendem esses “ponderados” interlocutores. E simplesmente não entra na cabeça deles que os tais dois lados não se equivalem na história. O look moça insinuante, ar erótico, roupa provocante simplesmente não pode ser sinônimo de possibilidade de agressão, desrespeito, preconceito. A mesma “ponderação” deve ter motivado, tempos atrás, aqueles garotos de classe média carioca a bater em uma mulher, empregada doméstica, que esperava à noite seu ônibus depois de deixar o trabalho. E a garota que assassinou os pais em São Paulo com a ajuda do namorado e seu irmão? Teve gente que “pressentiu” que ela estava envolvida no crime ao vê-la com “aquela roupinha, barriga de fora, calça baixa” no enterro da família.
O ponto que amarra essas manifestações não é mesmo a figura da Geni? E a Geni, como canta o Chico Buarque, é boa de cuspir! Ela “pede” pra ser maltratada, chama a si a maldade, perversidade, o preconceito. Assim como o gay, o negro, o pobre, os excluídos e minorias em geral.
E é ainda mais surpreendente ouvir comentários do gênero em ambientes educados. Falta educação?
Talvez um mérito de acontecimentos como esses seja o de tirar do armário o machismo que só espera oportunidade para se manifestar. Fala-se, discute-se, e isso é bom. Igualmente positivo é que certos dados vêm à tona:
A proporção de mulheres que frequentam a escola no Brasil é maior que a dos homens em todos os níveis de ensino, superior inclusive. As mulheres apresentam melhor desempenho e frequência (UNIFEM – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher no Brasil)
Mas…
Apenas 11, 5% das 500 maiores empresas brasileiras são dirigidas por mulheres e menos de 1% por executiva negra (Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil 2009)
O que acontece com a educação?
A Suécia, país com cerca de 9 milhões de habitantes, supera EUA, França, Japão e Itália no investimento em educação. A taxa de analfabetismo lá é menor que 5% (dado de 2002). Mas veja o que jornalista sueco Stieg Larsson, um militante dos direitos humanos, registra sobre as suecas em “Os homens que não amavam as mulheres”, primeiro volume de sua trilogia Millennium:
18% das mulheres foram ameaçadas por um homem pelo menos 1 vez na vida
40% das mulheres sofreram violência de um homem
13% das mulheres foram vítimas de violências sexuais cometidas fora de uma relação sexual
92% das mulheres que sofreram violências sexuais após uma agressão não apresentaram queixa à polícia
Ao comentar o fato com um amigo, ouvi: “Ah, não dá para confiar em estatística na Suécia. Os caras perguntam se a mulher já tomou um empurrão, levou um tapinha e aí aparece na estatística como mulher que apanha do marido”.
Ah, então tá… Será que vale para todas as estatísticas num dos países mais desenvolvidos do mundo?
Os adolescentes andam em várias cenas no cinema. Um jovem cineasta paulistano trata dos sentimentos intensos dessa fase da vida no filme Os Famosos, parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema na capital paulistana. Os mesmos sentimentos estão na base de A Onda, filme alemão de 2008 em exibição agora, apoiado em livro do mesmo nome.
Consta que o livro, sucesso há 20 anos, tem fonte em uma história real ocorrida em 1967, na Califórnia,quando um professor de história tentava explicar o nazismo a alunos de ensino médio. Na vida real e no filme, uma experiência pedagógica criativa ganhou dimensões de arrepiar por conta de vaidades, carências e buscas de sentido para a vida — o que ronda a existência de todos não apenas na fase em que se é jovem.
A atualidade de A Onda é que incomoda, ao partir de um sentimento que parece natural e global. Um certo tédio que leva as pessoas a topar qualquer coisa para escapar das mesmices da vida. Bons exemplos estão em vídeos que circulam pela rede mostrando, em uma estação de trem e em uma praça, gente dançando e cantando em resposta a um estímulo bem armado. É realmente animador. No meio do rush, uma música começa a tocar, um grupo começa a dançar e, em minutos, as pessoas largam suas bolsas, casacos, sacolas e se entregam ao momento de união e diversão.
O mundo só precisa mesmo de uma boa desculpa para se encontrar – para o bem que acaba mal ou para o mal que pode acabar bem.
A questão está na facilidade de se entrar em uma onda, principalmente quando se é um estudante ávido por compreender o mundo, como no filme. Nessa fase, ideologias de todas as direções podem entrar na cabeça sem ponderações ou nuances. O que atrai é a possibilidade de se engajar, pertencer a algo, ganhar uma identidade. E bastam desculpas ou propósitos bem fundamentados, como contribuir para um mundo melhor, eliminar as injustiças e desigualdades, para a maioria dos jovens em cena caírem feito patos na história.
Inocentes, coitadinhos? Nada disso. Tudo é devidamente dito, combinado, proposto, aceito. Responsabilidades compartilhadas. Ninguém conta, no entanto, com as motivações subjetivas, às vezes inconscientes, das pessoas. É nesse ponto que as causas podem desandar. No filme, a Onda desanda por conta, principalmente, de um jovenzinho que tem grande necessidade de agradar para ser aceito. À medida que os agrados compensam, ele experimenta a sensação de poder, e não quer mais nada da vida. É o boi cego e doente de uma manada míope, sem crítica.
Há outros aspectos no filme e na vida a considerar, mas a questão do poder é fatal. Sobre o tema, lembro de um vídeo que mostra uma aula sobre religiões. Um aluno pergunta ao professor se existe algum povo que não acredita em Deus. “É impossível”, diz o mestre. Como assim? Qualquer criança, em qualquer cultura, brinca com essa idéia sem que ninguém precise lhe ensinar. A idéia de Deus se expressa desde cedo no garotinho ou garotinha que usa seu brinquedo para criar um todo-poderoso-salvador-da-pátria. Está dentro de nós. Dependendo da onda, é só voltar a brincar…
Anda triste, de baixo-astral? Então arrume as gavetas, lave um cesto de roupas, passe um pano no chão, vá dar uma poda nas plantas…
Ao captarem um espírito entediado, preguiçoso, nossas mães e avós viviam tendo idéias para nos ocupar sem saber o santo remédio que estavam prescrevendo contra tristezas e até a depressão.
O jeito antigo e espontâneo de espantar minhocas da cabeça, sem enfiar nela substâncias químicas, foi agora atualizado pela neurociência, noticiou a Folha de S. Paulo. Pesquisas sobre o tema defendem trabalhos ou atividades simples do cotidiano como forma de resistência a desânimos em geral.
O principal dessa história está no nosso sistema de recompensa, um grupo de estruturas cerebrais responsáveis por recompensar atitudes úteis, creio que especialmente aquelas importantes para nossa sobrevivência.
Então temos de “agradar” esse sistema quando ele está meio para baixo. Talvez um elogio, um beijo, abraço, cafuné resolvam. Mas se a ansiedade estiver em alta, é melhor optar por estímulos mais intensos. Por isso é que esfregar roupas no tanque poderá fazer você se sentir muito bem.
A pesquisadora e neurocientista entrevistada no artigo, a americana Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia de uma faculdade na Virgínia e autora de livro sobre o assunto, define a questão como um “circuito de recompensa adquirida pelo esforço”, envolvendo prazer, movimento e solução de um problema.
A explicação: “A sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto, é acompanhada de substâncias que deixam a pessoa mais persistente. Ou menos depressiva…”
Foi outro estudo americano que motivou a atenção da cientista. Apontava que pessoas nascidas até 1940 eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Na ausência de uma mutação biológica importante no funcionamento cerebral, Kelly Lambert credita a mudança de estilo de vida dos dias de hoje ao fenômeno.
As pessoas ficaram menos ativas, com trabalhos mais sedentários, usando muito mais a mente do que o corpo. A mente cansada fica vazia e, como diz a sabedoria popular, cabeça vazia é oficina do Diabo!
Cheia de caraminholas na mente, seu espírito só pode azedar. Siga a recomendação da ciência: adoçá-lo com movimento, prazer e esforço que levem a uma doce e recompensável solução.
É bom lembrar, no entanto, que o cérebro tem também um setor, bem atrás da testa, responsável pela nossa capacidade de prever as consequências de um ato. Em outras palavras, ter juízo. Então você precisa conciliar a avidez por recompensas fortes com seus limites.
Se uma parte do seu cérebro requer aventura para apaziguar o espírito e a outra é incapaz de lhe avisar dos perigos, você pode dançar: corre o risco de se machucar e não concluir a tarefa. Talvez com um pé quebrado porque subiu no banquinho para fazer faxina, vai ficar mais sedentária e acabar deprimida… Daí o Diabo, em vez de você, venceu a parada!
Se o movimento estiver em cima, que atire a primeira pedra a fifty que ainda não se queixou de uma dorzinha nos braços, nas costas, ombros ou coluna. A fase do “condor” — aos 50, pouco antes, pouco depois – pode tardar aqui ou ali, mas não falha.
Com a idade, o bicho pega principalmente nos joelhos, coluna lombar, cervical, ombros e mãos, diz a fisioterapeuta Roberta Fontana, de São Paulo, que anda me ensinando a colocar pingos nos is nos pés recém-saídos de uma cirurgia para a retirada de joanetes. A indicação para o procedimento é dor, e no meu caso ela andava insuportável. O andar começa a voltar ao normal, mas custou outras dores nos joelhos, na coluna, nos ombros, como parte da auto-adaptação para me equilibrar em sandálias apropriadas à situação.
“O corpo humano é a máquina mais perfeita que existe, mas também necessita de cuidados preventivos, manutenção, reparos. O envelhecimento é inevitável, fisiológico, um processo natural e esperado. O importante é saber tirar o melhor proveito da máquina nas diversas etapas da vida”, resume Roberta, especialista formada pela USP com mais de 20 anos de prática fisioterapêutica.
A pele, os ossos, os músculos, os nervos envelhecem cada um a seu tempo. Há fatores que retardam e outros que aceleram o envelhecimento do corpo. Dito de outra forma, a prática constante de exercícios versus uma vida sedentária, por exemplo.
Na fase do “condor”, Roberta explica que o sistema músculo-esquelético costuma ser afetado pela diminuição da densidade dos ossos (osteoporose), desgaste das articulações (artrose), diminuição da força muscular (hipotrofia) e das reações de equilíbrio e fragilidade dos ligamentos, entre outros. Os pontos críticos são joelhos, coluna lombar, cervical, ombros e mãos.
“O que mais sobrecarrega o sistema músculo-esquelético é a forma do movimento e não sua repetição. Isto é, o jeito de pegar um objeto no chão, por exemplo, e não o número de vezes que se faz isso”, destaca a fisioterapeuta.
Para Roberta, se nada ainda pega aos 50, é preciso se movimentar para o corpinho viver decentemente mais adiante. “Mas respeitando os limites. Aos 50, não dá para fazer ginástica no ritmo dos 20 sem sentir dor. E há atividades que proporcionam prazer e bem-estar para uns e são uma tortura para outros. Se a pessoa não se sente bem, a prática não vira rotina.”
Caminhar, nadar, fazer alongamento, tai-chi-chuan, dança de salão… Não parecem opções de bom tamanho para fifties?
E, no dia-a-dia, seja cuidadosa em certas tarefas. Seria melhor não inventar, mas se decidir por uma faxina pesada no armário, “faça sem pressa, utilizando uma escadinha para pegar coisas no alto e sentando no chão para vasculhar miudezas mais próximas do solo”, diz Roberta.
Se vai atacar de jardineira no fim de semana, nada de ficar ajoelhada, “porque sobrecarrega os joelhos e a coluna lombar”. Sente em um banquinho baixo.
Vai lavar a louça? Apóie um dos pés no armário embaixo da pia ou numa lista telefônica, alternando pé direito e esquerdo. Assim se evita sobrecarga na região lombar. Mas não fique também muito tempo em pé. Ande, sente-se um pouco e depois volte à labuta.
E pode surgir uma oportunidade para dançar muito. Se é coisa que você não costuma fazer com freqüência, então muito cuidado com o salto do sapato. “Nada muito alto e fino”, aconselha Roberta. Se a dança tiver desdobramentos, como sexo, por exemplo, respeite também seus limites de performance, mas faça!
Quando o programa é ficar no computador, situação que mereceria um capítulo de livro, as dicas mais básicas da fisioterapeuta são: prefira computador de mesa a um notebook para tempo de trabalho prolongado; sente bem de frente para a tela e não com o corpo torcido; a cada 50 minutos, levante, caminhe e relaxe por 10 minutos.
No site da Roberta www.physiolife.com.br, você também encontra ótimas dicas para dormir bem no colchão e no travesseiro corretos. Dê uma espiadinha!
Vana Gwen é brasileira e está bem longe das dores das Fifties. Mas a foto que ela chamou “Dorso” é bonita, tanto quanto a legenda: O que está sempre falando silenciosamente é o corpo, de Norman Brown.
Pela terceira vez em pouco tempo, ouço uma mulher madura pronunciando de maneira errada a palavra clitóris, de propriedade tão feminina. Era um papo sobre o horror de certas práticas culturais. Ela se referia à extirpação do “CLÍTORES” – dito assim, com acento no “í” e “e” no fim –, que é um costume muçulmano praticado em alguns lugares da África e do Oriente Médio, destinado a impedir a mulher de experimentar o prazer sexual.
Por solidariedade de gênero, fiquei constrangida com o erro e preferi não corrigir a moça no meio da conversa para também não a constranger. Se tivesse oportunidade, daria um toque mais tarde. Mas outro integrante do grupo, um homem, tomou a iniciativa, fingindo delicadamente uma certa insegurança: “Acho que se fala clitóris, não é gente?” E todos concordaram rapidinho, querendo passar adiante a conversa. A moça só olhou, não sei o que pensava.
Eu fiquei imaginando como era possível uma mulher madura, informada a ponto de conhecer costumes muçulmanos, ter passado uma vida sexual distraidamente falando clítores em vez de clitóris. Já que claramente ela repudiava a barbárie contra ele, o clitóris, por que o mutilava na mente?
Por que pronunciar o Ó, aberto, daquele “coisiquinha” seria complicado, um desafio?
Talvez não tenha nada a ver — continuei comigo mesma. Já ouvi tanta gente sabida falando em “boxer” do banheiro, em “domara” que dê certo, no “pombo” da discórdia…
Lembrei-me de que eu mesma descobri, depois de bem crescida, que tinha ralas sobrancelhas e não sombrancelhas! E foi aí que, numa associação repentina, o “clítores” da moça me pegou novamente.
Alguém que nomeia errado algo também pode se confundir com a funcionalidade desse algo. Talvez a moça tenha feito isso por décadas e, chegada a maturidade, o “coisiquinha” dela ficou tão “ralo” quanto minhas sobrancelhas.
Aí ela se decepcionou, deixou de dar atenção, mutilou, e agora agarra-se à força proparoxítona e impetuosa de um Í, fechado, trancado, para se defender da sensação de queda de um Ó no meio do caminho…E o ES? Talvez uma aposta no plural, quantidade, continuidade?
Sem botar fé nas minhas especulações esdrúxulas, resolvi pesquisar o assunto. Quase dei razão à moça com seu CLÍTORES, impetuoso e plural. Por que ele não tem nada de “coisiquinha”. Vejam que incrível:
- o clitóris parece uma estrutura pequena porque o que se vê dele é só, como dizem, a “ponta do iceberg”, com uns 2 centímetros de comprimento em média e de 3 a 8 milímetros de diâmetro;
- o “iceberg” inteiro, parte externa e interna, pode atingir até 9 centímetros. É grande, cheio de vasos sangüíneos e fibras nervosas;
- São cerca de 6.000 ou 8.000 ramificações nervosas, mais concentradas na parte externa. Encontrei os dois números, mas o que ultrapassa mil, seja em dólar, euro ou nervo, não é mais do que suficiente como noção de grandeza?
Diante desse “polvo pélvico”, tão poderoso e complexo quanto a internet em termos de ramificações, só podia mesmo me “dar nos nervos” ouvir um CLÍTORES!
Gente, é CLITÓRIS! Mesmo que seja difícil largar o vício, o de linguagem, vale o esforço ao menos para evitar o vexame de ser corrigida por um homem.
E homem por homem, pensei em finalizar, fiquem com o Aurélio. Mas vejam o que ele me apronta, bem agora no fim do texto:
Clítoris. Do latim clitoris, derivado do grego kleitorís.
Clitóris. Variação de clítoris, ver clitóride.
Clitóride. Do grego kleitorís. Pequeno órgão alongado, erétil, situado na parte superior da vulva; sinônimo popular no Amazonas: tamatiá.
Então existe o clítoris e o clitóris… E a gente sai no lucro, porque se um é bom, imagine dois!!!
Em todo caso, como o risco de correções indevidas eventualmente permanece, proponho o seguinte:
ESQUEÇAMOS DOS Ó, Í, ES…
CHEGA DE NHÁ, NHÁ, NHÁ…
VAMOS DE TAMATIÁ!!!
A foto, cujo título é mesmo “Clitóris”, é de um brasileiro, Antonio Carlos Castejón, de uma série de imagens criadas com efeitos e que ampliam as possibilidades do olhar, chamada “Dimensões e Abstrações“.
O papo é filme, outra vez. Já viram P.S. Eu te amo? Uma delícia de história e, o melhor, com sugestão de final feliz. A protagonista é interpretada por Hilary Swank, lindíssima no papel de Holly. Outra maravilhosa, Kathy Bates, faz a mãe Patrícia. Entre as paisagens, campos da Irlanda.
“Eu te amo” é o final de cada carta recebida por Holly após a morte do marido. Ele sabia que iria sair de cena antes dela e prepara um plano para ajudá-la a tocar e recriar a vida sem ele. Arrogante? Não, um homem apaixonado. A última carta é entregue a Holly pela mãe e é ela que mostra à filha o essencial para que ela possa suportar o sofrimento e seguir em frente: “Ele não te abandonou por opção”.
A vida fica mesmo difícil quando os amores se interrompem, seja por morte ou escolha própria. Nenhuma das situações bate com a minha no momento, mas acho atraente a idéia do filme de deixar um “manual de sobrevivência” para quem fica de lado. É o que segue para a hipótese de eu sair de cena antes dele:
1-Mesmo que você esteja aliviado de alguma forma, deixe transparecer muita tristeza no meu enterro. Nada de piadinhas com os amigos nessa hora. Para o bem da minha imagem, a sua tem de transmitir esta mensagem: “Ele gostava mesmo muito dela”.
2-Será inevitável minha ausência fazer presença. Não vale a pena ficar com raiva, já que não estarei presente para pagar esse mico.
3-Use outro ou construa um banheiro novo para você. Pode ser um bom jeito de driblar muitas das marcas da vida a dois, como aquelas não-conversas com a boca cheia de pasta de dente.
4-Porque se amam, casais se ferem. Danem-se as culpas. Pense no melhor, por exemplo, o sofá só para você na hora do filme ou do futebol; ou o café da manhã tranqüilo, atenção concentrada apenas no jornal. Claro que vai fazer falta a xícara de café com leite que transborda e derrama na toalha todos os dias, mas aí você vai se divertir inventando outra coisa para implicar.
5-Para variar, aceite fazer todos os programas. Caia no agito e aproveite tudo com moderação, inclusive a moderação.
6-Cultive a assertividade, a independência, o humor no mau-humor. Serão sempre sedutores, mas sedução também escorrega do cavalo. Então jamais esqueça de ser romântico, atencioso, cordato, interessado – a eterna estratégia capaz de proporcionar prazeres. Se é que estará ainda interessado…he, he, he… ai, ai, ai…
7-Simplesmente pare de guardar coisas. Descartar também é bom, e não vale apenas mudar de lugar.
8-Não tenho dúvida de que você cuidará bem dos meninos, mas cuide bem, também, das futuras noras. Seja cordial, delicado, amoroso e encorajador com elas. Desde que sinta que elas são assim com eles, os meninos.
9-Para um dos meninos, você sabe quem, compre cuecas de montão para evitar aquele uso criativo do avesso. Para o outro, quando ele arrumar a malinha, dê um jeito de tirar todas as cuecas e deixá-lo na mão. Sei que os dois vão responder de forma original ao desafio.
10-Haverá muitas saudades um do outro, uns dos outros. Que bom! Só isso é muito, muito bom!
11-Se o saldo da vida comigo foi ruim, “semmigo” será pior. Não é sempre tempo de valorizar?
P.S. Não te abandonei por opção, sempre te vi, sempre te amei.
Para saber mais
Título no Brasil: P.S. Eu Te Amo
Título Original: P.S., I Love You
País de Origem: EUA, 2007
Gênero: Comédia / Drama
Estúdio/Distrib.: Paris Filmes
Direção: Richard LaGravenese
Elenco: Hilary Swank (Holly), Gerard Butller (Gerry), Kathy Bates (Patricia)
Cientistas ingleses andam pedindo bilhões ao seu governo para desenvolver técnicas que possam salvar o planeta do aquecimento global. Cogitam, por exemplo, burrifar a estratosfera terrestre de aerossol ou pintar de branco todos os telhados e ruas do mundo para evitar que a Terra absorva muita radiação solar.
As idéias são bem criativas, mas delirantes, como já apontaram especialistas. Em todo caso, qualquer sugestão é válida para chegar a algo que tire o planeta do “parapeito do falecimento”, como diria o escritor moçambicano Mia Couto.
E delírio por delírio, tenho o meu: investir os tais bilhões do dinheiro inglês em “mulheres suficientemente sustentáveis”, expressão que adapto de outro inglês, um psicanalista que forjou a teoria da “mãe suficientemente boa”.
Suficientemente boa é a mãe “na medida”, aquela que não dá muito nem pouco ao seu bebê, apenas possibilita a ele alcançar as satisfações, ansiedades e conflitos necessários ao seu desenvolvimento. Criaturas criadas por essas mães teriam menos chance de descontar suas faltas ou falhas na sociedade de modo destrutivo.
A mãe suficientemente boa não aprende a ser assim, ela é por conta de suas experiências. Digamos que está no seu DNA. É exatamente o ponto que proponho alcançar com a “mulher suficientemente sustentável”.
O DNA da mulher sustentável carregaria a marca central da responsabilidade individual pelo bem-estar coletivo, a única capaz de combater de verdade a insustentabilidade contemporânea.
Em números, essa insustentabilidade está em “O mal-estar na globalização” (Ed. Girafa, 2005), livro de Luciano Martins Costa, jornalista que batalha pelo desenvolvimento sustentável: diariamente, o mercado mundial negocia quase 2 trilhões de dólares, riqueza da qual não sobra nem cheiro para mais de 2 bilhões de pessoas no mundo. Nada lhes chega em forma dos benefícios mais básicos, como habitação, nutrição e saneamento. A um sinal inequívoco de dinamismo econômico, como ressalta o jornalista, corresponde o outro, gritante, da insustentabilidade.
Bem, há tanta unanimidade a favor do desenvolvimento sustentável quanto em relação à cura da Aids ou do câncer. Ninguém é contra, mas até agora algo parece impedir que as ações práticas dos gestores públicos e privados do planeta se traduzam em desenvolvimento sustentável. Por quê?
Creio que falta a esses gestores, que estão entre a parcela mais bem-educada e preparada do planeta, o DNA da responsabilidade individual pelo bem-estar coletivo, que só poderia ser transmitido por mães suficientemente sustentáveis.
As mulheres são as principais transmissoras da cultura de uma sociedade, porque passam valores aos filhos sem palavras, pelas “entranhas”. Por isso vivem produzindo filhos machistas, egoístas, racistas, ainda que cercadas de discursos em prol de uma educação solidária, democrática, com respeito pela diversidade.
Formalizada na roda mundial desde o início dos anos 70, a idéia da sustentabilidade está quase nos fifties. Com o conhecimento e a tecnologia acumulados até aqui, mais as libras dos ingleses, os cientistas não teriam meios de transformar meu delírio em realidade?
Está colocado o desafio: mulheres suficientemente sustentáveis para garantir a durabilidade do planeta com vida decente para as pessoas, os negócios e o meio ambiente.
Aos 50, vejo mais filmes e leio mais livros do que antes. Mais tempo, mais organização ou mais interesse? Um pouco de tudo, talvez. Os focos também são outros, o que me faz aproveitar os filmes e livros de maneira diferente.
Como em Vitus, filme de 2006, que passou por mim somente agora. Classificado de comédia dramática, foi diagnosticado como filme-família perfeito. Acho que é mesmo. Simples, engraçado, inspirado, dramático, meloso como qualquer família. Gostei e recomendo porque “pegou”. A mim, porque é uma ótima história sobre dar um vôo pelo avesso, terreno das minhas preferências.
Começo a história pelo fim, mas sem entregar o ouro. Antes de morrer, um avô que todos gostaríamos de ter deixa uma carta à família. Depois de contar um segredo a respeito do neto, afirma: “O que fazer para fugir do mundo, senão usar a inteligência”.
Quem se vale da inteligência para não ser “engolido” pelo mundo é Vitus, o neto, um pequeno Mozart. Garoto superdotado, ele recusa ser vitrine das vaidades alheias. O menino gênio quer ser tratado como normal, com direitos, deveres e vontades próprios da infância. E é aí que o filme vai pelo avesso das histórias tradicionais de heróis que superam suas limitações para vencer.
Vitus não renega o talento especial, mas quer estar no comando desse talento, decidindo como usá-lo na medida das suas necessidades e interesses e não na hora em que os outros querem. O garoto mostra a força que tem para tomar essa decisão e é por isso bem-sucedido na sua estratégia para driblar a situação.
Esse ponto, de conseguir fazer valer um querer, é sério. Freud e seus discípulos devem explicar com mais propriedade por que muitos de nós escolhem, ao longo da vida, continuar atendendo “o que mamãe/papai mandou”. Por que pode ser difícil seguir por um caminho próprio e apenas tomar os pais e as referências que os vão substituindo como modelos a recriar, desafiar ou mesmo afastar?
Antes de tudo, é bom ressaltar que de certa maneira não se escolhe atuar no mundo desse jeito. A questão vem do berço como uma espécie de marca forjada por uma articulação complexa de elementos que dão partida à formação de nossa estrutura psíquica. Estrutura que é instalada pelo modo de o mundo nos apreender e nós apreendermos o mundo.
Numa tradução e entendimento leigos do assunto, a coisa tem início naquela fase em que mãe e bebê se misturam tanto, que ninguém sabe quem (de)manda quem. Aí o pai entra no jogo e clareia o meio de campo colocando também suas demandas. Elas obrigam a “escolhas” e por isso geram conflitos. É a hora em que o indivíduo topa entrar na “briga” ou, de antemão, dá a batalha por perdida.
As ações, é importante frisar, não se dão no plano consciente e, evidentemente, carregam complicadas nuances. Mas na essência é o que está presente para dar formatos mais para um lado ou mais para o outro aos jeitos de cada um de nós. Nessa hora não há regras a indicar certo ou errado, por aqui ou por ali. Aliás, entendo que o processo está mais para aquele “se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega”.
A melhor decisão? Aposto que é “correr”. Quer dizer, peitar o conflito. Pelo menos parece óbvio que assim se tem mais chance de continuar fazendo escolhas. Se, no entanto, nos deixamos comer pelo bicho, engolidos estaremos. A vontade dos outros, em vez da sua, estará no comando. Para sempre? Dizem que não, mas deve dar um trabalho danado mudar esse script. Menos complicado será fazer ajustes no outro.
Trata-se de uma “saia-justa” e, simbolicamente, os primeiros a passar por ela foram Adão e Eva. Decidiram desobedecer, desafiar a lei do “Pai”. Caíram no mundo. Talvez tenham tido a intuição de que mais dia menos dia aquele paraíso já estava mesmo perdido, eram favas contadas. Mas não se acovardaram. Apostaram no prazer de conhecer, arriscar, errar, acertar, gostar, não gostar e principalmente escolher o que estava por vir.
Mas tudo isso não livra ninguém de ter suas escolhas sempre submetidas a algo: às demandas públicas e/ou privadas da família, da sociedade, da cultura, das crenças. É por isso que Vitus, o garoto do filme, acaba fazendo o que “papai-e-mamãe” esperavam e queriam. Mas faz diferença atender a uma demanda no seu tempo e do seu jeito, e não nos moldes do outro. Acho que significa deixar o “paraíso” numa boa!
E os últimos detalhes: Vitus é interpretado por dois atores mirins. Frabrizio Borsani, que o faz aos seis anos, dono de lindos e curiosos olhos. E Teo Gheorghiu, aos 12, que é uma criança prodígio de verdade, talentoso pianista. O avô é o ator Bruno Ganz, veterano das telas que já viveu Hitler no filme “A Queda”.
Parece que os cinquentões estão com tudo, sem nenhuma inveja da juventude.
Rola na internet que a Globo está produzindo um novo seriado para o início de outubro. Qual? Uma versão fifties: Cinquentinhas, série com nove capítulos, que Aguinaldo Silva está produzindo e Wolf Maya vai dirigir.
Cinquentinhas contará a história de quatro fifties: lemas, dramas familiares e emocionais interpretados por belas senhoras.
Susana Vieira viverá uma mulher infeliz no casamento e terá um caso com o motorista.
Marília Gabriela terá um romance com um garotão de 20 anos e será assediada por uma bissexual.
Marília Pêra estará no papel de uma hippie voltada à vida alternativa.
E sobre a quarta cinquentona, interrogações mil! Dessa fifty não se sabe nada. A emissora ainda não definiu. Um temperinho especial rondará a história das fifties: aquele “horroroso” Reynaldo Gianecchini no papel de um gay malvadão. Filho de uma das protagonistas, vai fazer artes e manhas com Marília Gabriela.
Maggie, uma viúva nos fifties, precisa encontrar uma saída para ajudar o neto a se recuperar de uma doença. Esse é o resumo do resumo de Irina Palm, filme do diretor alemão Sam Garsbarski (Inglaterra, 2007). Mais não conto para não estragar o prazer da descoberta de quem ainda não viu ou nada ouviu sobre a trama. A história oferece conteúdo para comentários variados, mas um aspecto cai muito bem a cinquentões: a busca de alternativas na profissão ou na vida – aquele conhecido plano B.
Com planos A já bem vividos, não há fifty que já não tenha sonhado “n” vezes com planos B. Eles ficam ali na manga, em stand by, e um dia podem mesmo nos fazer “largar o osso” para abraçar outras possibilidades.
Leio que um estudo, da H2R Pesquisas Avançadas, de São Paulo, ouviu 140 profissionais de todo o Brasil sobre o tema, homens e mulheres ocupando cargos de gerentes para cima, e 60% declararam pensar em rotas alternativas para suas carreiras.
Mas a carreira não precisa ser o foco da procura por rotas alternativas, muito menos crises vocacionais, especialmente aos 50. Nessa fase da vida, mesmo que não se tenha descoberto o gosto para determinada atuação profissional, já se revelaram ao menos incompatibilidades para muitas outras.
E aos 50, a gente percebe, ser inteligente, talentoso, descolado, esperto, bem apessoado e bem relacionado pode até garantir sucesso profissional, mas esse será outro plano A destinado a deixar na gaveta o plano B, aquele que pode ser a chave para o sucesso que interessa, o pessoal.
Tenha você exercido bem ou mal seu plano A como poeta, escritor, médico, músico, dentista, bailarina, advogado, engenheiro, cozinheiro, psicólogo, economista ou cientista, o que “pega” agora na fase fifties da vida e dá impulso aos planos B é a busca de prazer, de algo que “toca”, como descobriu literalmente a Irina Palm do filme. É a idéia ou o projeto que mobiliza por estar em sintonia com o desejo, com o coração, com a sua vitalidade, e por isso interessa e faz sentido.
Um plano B, às vezes, pode ser apenas a descoberta de um viés mais criativo e menos automático de continuar realizando o plano A. Porque rotinas e mesmices continuadas minam a energia vital e tiram o sentido de qualquer projeto, na vida pessoal ou profissional.
Eu sinto que o ponto chave de um verdadeiro plano B é demitir o patrão. Real ou imaginário, é aquele ou aquilo que tem o poder de nos manter em uma rota, enquanto vamos arquivando, sem dar muita atenção, desenhos e desenhos de planos B. Demitir o patrão seria se colocar num estado de prontidão para a vida, aberto e atento ao que vier, às sementes de possibilidades. Claro, num primeiro momento pode dar até um certo pânico viver sem essa chefia, mas é a chance de descobrir outra em novos termos ou de se ver como chefe-revelação do seu próprio nariz, seguindo seus poderes, ritmos e intuições.
IIrina Palm perambulou pelas ruas dos desesperados, suportou humilhações ao bater nas portas das seleções, e onde menos esperava (mas secretamente onde mais queria) encontrou a chefia capaz de revelar suas habilidades e seu capital pessoal para atuar com novo contrato na vida. Tudo por um pequeno buraco na parede…