Arquivo de outubro, 2009
31/10/2009 - 19:16

Os adolescentes andam em várias cenas no cinema. Um jovem cineasta paulistano trata dos sentimentos intensos dessa fase da vida no filme Os Famosos, parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema na capital paulistana. Os mesmos sentimentos estão na base de A Onda, filme alemão de 2008 em exibição agora, apoiado em livro do mesmo nome.
Consta que o livro, sucesso há 20 anos, tem fonte em uma história real ocorrida em 1967, na Califórnia, quando um professor de história tentava explicar o nazismo a alunos de ensino médio. Na vida real e no filme, uma experiência pedagógica criativa ganhou dimensões de arrepiar por conta de vaidades, carências e buscas de sentido para a vida — o que ronda a existência de todos não apenas na fase em que se é jovem.
A atualidade de A Onda é que incomoda, ao partir de um sentimento que parece natural e global. Um certo tédio que leva as pessoas a topar qualquer coisa para escapar das mesmices da vida. Bons exemplos estão em vídeos que circulam pela rede mostrando, em uma estação de trem e em uma praça, gente dançando e cantando em resposta a um estímulo bem armado. É realmente animador. No meio do rush, uma música começa a tocar, um grupo começa a dançar e, em minutos, as pessoas largam suas bolsas, casacos, sacolas e se entregam ao momento de união e diversão.
O mundo só precisa mesmo de uma boa desculpa para se encontrar – para o bem que acaba mal ou para o mal que pode acabar bem.
A questão está na facilidade de se entrar em uma onda, principalmente quando se é um estudante ávido por compreender o mundo, como no filme. Nessa fase, ideologias de todas as direções podem entrar na cabeça sem ponderações ou nuances. O que atrai é a possibilidade de se engajar, pertencer a algo, ganhar uma identidade. E bastam desculpas ou propósitos bem fundamentados, como contribuir para um mundo melhor, eliminar as injustiças e desigualdades, para a maioria dos jovens em cena caírem feito patos na história.
Inocentes, coitadinhos? Nada disso. Tudo é devidamente dito, combinado, proposto, aceito. Responsabilidades compartilhadas. Ninguém conta, no entanto, com as motivações subjetivas, às vezes inconscientes, das pessoas. É nesse ponto que as causas podem desandar. No filme, a Onda desanda por conta, principalmente, de um jovenzinho que tem grande necessidade de agradar para ser aceito. À medida que os agrados compensam, ele experimenta a sensação de poder, e não quer mais nada da vida. É o boi cego e doente de uma manada míope, sem crítica.
Há outros aspectos no filme e na vida a considerar, mas a questão do poder é fatal. Sobre o tema, lembro de um vídeo que mostra uma aula sobre religiões. Um aluno pergunta ao professor se existe algum povo que não acredita em Deus. “É impossível”, diz o mestre. Como assim? Qualquer criança, em qualquer cultura, brinca com essa idéia sem que ninguém precise lhe ensinar. A idéia de Deus se expressa desde cedo no garotinho ou garotinha que usa seu brinquedo para criar um todo-poderoso-salvador-da-pátria. Está dentro de nós. Dependendo da onda, é só voltar a brincar…
Autor: Lélia.A - Categoria(s): Programas
Tags: 33ª Mostra Internacional de Cinema, A Onda, adolescência, comportamento adolescentes, Os Famosos
27/10/2009 - 09:59

A bistronomie, se você nunca ouviu falar, é uma tendência, a marca da “nova cozinha francesa” : comida de bistrot com requintes de gastronomia, praticada por chefs/donos que vieram de restaurantes estrelados e inventaram fórmulas boas e baratas.
Quem começou a história, há aproximadamente 15 anos, foram Yves Camdeborde e Christian Constant, que então trabalhavam juntos no Les Ambassadeurs, no hotel Crillon. Saíram e abriram suas próprias casas.
O Régalade, de Camdeborde, foi instalado em um bairro não-badalado da cidade, o 14 éme, detalhe importante na concepção da tendência. Constant começou com o Violon d’Ingres, e hoje tem mais 3 casas numa mesma rua , a Saint-Dominique, no 7éme.
Outros seguiram a idéia, muitos formados nas cozinhas desses dois generosos chefs, que criaram ‘escola’. Muitas das indicações que darei por aqui, serão desse tipo de restaurante, porque nesses últimos anos, são as minhas escolhas preferidas. Comida ótima, serviço na medida, vinho perfeito , lugar agradável e preço justo. Quer coisa melhor?
Como tudo começou com ele, também vou começar as dicas desses prazeres pelos restaurantes de Camdeborde: o Régalade e o Le Comptoir du Relais, sua casa atual.
O Régalade foi aberto em 1992, considerado por muitos o melhor custo/benefício de Paris. Desde 2004 ele foi comprado pelo chef Bruno Doucet, mas as sugestões do cardápio seguem sendo receitas tradicionais realizadas de maneira moderna, com ingredientes fresquíssimos. As terrines, marca da casa, continuam a ser levadas à mesa nas suas assadeiras, para que o cliente se sirva à vontade, acompanhadas dos cornichons (pepinos em conserva) e mostarda. Tudo delicioso. A visita continua valendo !
Camdeborde abriu o Le Relais Saint Germain em 2005 no Carrefour de l’Odeon. É um hotel com poucos quartos, montado com uma preocupação de passar um clima agradável e familiar. O Comptoir é o restaurante do hotel, aberto para a rua. Funciona desde às 11h da manhã. Para o almoço , que pode ser espichado até às 16,30h (raridade na cidade), não aceita reservas. . Para o jantar, sim, hora em que o chef serve um menu degustação a preço fixo e razoável (40E). Aí, as filas de espera na reserva podem ser para meses.
No almoço, você chega e espera salivando, vendo passar todos aqueles pratos maravilhosos. Vendo da calçada, enfrentando uma pequena fila no aguardo da sua mesa. É bom porque você já vai planejando quais serão as suas escolhas. E isso não é um jeito de ser otimista, é que escolher, já aviso, que não será fácil!
Numa das últimas vezes em que estive no Comptoir, esperei 20 minutos, meia hora, talvez. A pessoa à minha frente na fila fazia uma monitorização por celular. Quando ganhou sua mesa (ao lado da nossa), deu o ok pelo ‘portable’ e seu companheiro chegou. Infelizmente não o reconheci para colocar aqui seu nome, mas percebi pela conversa que era uma entrevista e o ‘ilustre’ era um roteirista de cinema. Se você não tem ‘secretário’ ou guardador de lugar na fila, não desanime em hipótese alguma! Você vai me agradecer, tenho certeza.
Finda a espera, eu escolhi na ciranda dos pratos um clássico do Comptoir: a brandade de morue gratinée, uma preparação tradicional da cozinha do sul da França, que vem a ser uma mistura de bacalhau bem amassadinha, trabalhada com azeite.
Muitas vezes a brandade leva purê de batata e pode ser servida quente ou fria, geralmente fria. A minha era suavemente gratinada ao forno com uma farinha fininha de pão para fazer uma casquinha deliciosa. Chegou megaquente à mesa, acompanhada da salada de minialface romana crocante com um molho gostoso, também marca da casa. Saboreá-la com uma das taças de vinho sugeridas pela maître e organizadora das filas, asseguro, levou-me ao paraíso! Como sobremesa pedi o creme brulée de café.
Na mesma ocasião, passando pelo Comptoir na hora do almoço, tive a sorte de encontrar um lugarzinho vago. Esperava por mim, e pensei: Por que não? Olhei o cardápio e resolvi pedir o Croque Monsieur de salmão. Tradicional sanduíche de todos os cafés de Paris, aqui era vestido de festa, com salmão defumado, gratinado de queijo comté, enfeitado com uma colherinha de caviar e acompanhado da saladinha de novo. Estava muito gostoso, mas comecei a ficar com raiva de não ter tido coragem de repetir a morue, que eu tinha amado! Pela segunda vez, por que não? Pedi a brandade de morue novamente. Sobremesa não deu, dispensei. Mas saí de lá feliz, muito feliz! E, o melhor, sem esvaziar a carteira!!
Os restaurantes de Camdeborde
La Regalade
49, avenue Jean-Moulin 14eme
01 45 45 68 58
fecha sab no almoço, domingo e segunda
Métro: Alessia
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Le Comptoir de Relais
9, Carrefour de L’Odeon 6 eme
Tel : 01 43 29 12 05
Aberto todos os dias das 11h às 18h na brasserie.
Jantar com reservas das19h30h às 23h.
Métro : Odéon
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No 7eme, os de Christian Constant
Café Constant
139, rue Saint-Dominique
01 47 53 73 34
fecha segunda
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Les Cocottes
135, rue Saint-Dominique
01 45 50 10 31
fecha domingo
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Les Fables de la Fontaine
131, rue Saint-Dominique
01 44 18 37 55
aberto todos os dias
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Le Violon d’Ingres
135, rue Saint-Dominique
01 45 50 10 31
fecha domingo
Métro : Ecole Militaire
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Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…
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A foto do Le Comptoir du Relais é de Meg Zimbeck, que também escreve sobre viagens e gastronomia no blog Paris and other adventures (em inglês)
Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres
Tags: bistronomie, christian constant, le comptoir, régalade, yves camdeborde
19/10/2009 - 10:21

Anda triste, de baixo-astral? Então arrume as gavetas, lave um cesto de roupas, passe um pano no chão, vá dar uma poda nas plantas…
Ao captarem um espírito entediado, preguiçoso, nossas mães e avós viviam tendo idéias para nos ocupar sem saber o santo remédio que estavam prescrevendo contra tristezas e até a depressão.
O jeito antigo e espontâneo de espantar minhocas da cabeça, sem enfiar nela substâncias químicas, foi agora atualizado pela neurociência, noticiou a Folha de S. Paulo. Pesquisas sobre o tema defendem trabalhos ou atividades simples do cotidiano como forma de resistência a desânimos em geral.
O principal dessa história está no nosso sistema de recompensa, um grupo de estruturas cerebrais responsáveis por recompensar atitudes úteis, creio que especialmente aquelas importantes para nossa sobrevivência.
Então temos de “agradar” esse sistema quando ele está meio para baixo. Talvez um elogio, um beijo, abraço, cafuné resolvam. Mas se a ansiedade estiver em alta, é melhor optar por estímulos mais intensos. Por isso é que esfregar roupas no tanque poderá fazer você se sentir muito bem.
A pesquisadora e neurocientista entrevistada no artigo, a americana Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia de uma faculdade na Virgínia e autora de livro sobre o assunto, define a questão como um “circuito de recompensa adquirida pelo esforço”, envolvendo prazer, movimento e solução de um problema.
A explicação: “A sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto, é acompanhada de substâncias que deixam a pessoa mais persistente. Ou menos depressiva…”
Foi outro estudo americano que motivou a atenção da cientista. Apontava que pessoas nascidas até 1940 eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Na ausência de uma mutação biológica importante no funcionamento cerebral, Kelly Lambert credita a mudança de estilo de vida dos dias de hoje ao fenômeno.
As pessoas ficaram menos ativas, com trabalhos mais sedentários, usando muito mais a mente do que o corpo. A mente cansada fica vazia e, como diz a sabedoria popular, cabeça vazia é oficina do Diabo!
Cheia de caraminholas na mente, seu espírito só pode azedar. Siga a recomendação da ciência: adoçá-lo com movimento, prazer e esforço que levem a uma doce e recompensável solução.
É bom lembrar, no entanto, que o cérebro tem também um setor, bem atrás da testa, responsável pela nossa capacidade de prever as consequências de um ato. Em outras palavras, ter juízo. Então você precisa conciliar a avidez por recompensas fortes com seus limites.
Se uma parte do seu cérebro requer aventura para apaziguar o espírito e a outra é incapaz de lhe avisar dos perigos, você pode dançar: corre o risco de se machucar e não concluir a tarefa. Talvez com um pé quebrado porque subiu no banquinho para fazer faxina, vai ficar mais sedentária e acabar deprimida… Daí o Diabo, em vez de você, venceu a parada!
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Você pode saber mais sobre esse assunto
A entrevista da neurocientista Kelly Lambert saiu na edição de domingo da FSP, 11 de outubro, no caderno Mais!
O livro da cientista: “Lifting Depression” (Suspendendo a Depressão, Basic Books, 288 pgs)
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A foto chama-se I’m Starting to Crack que seria algo como “estou começando a ter uma crise”, é de uma australiana, Nina, a 1Happysnapper do Flickr.
Autor: Lélia.A - Categoria(s): Boas idéias
Tags: avós, depressão, diabo, faxina, Kelly Lambert, mães, neurociência, neurociências, preguiça, solução, tédio, tristeza
13/10/2009 - 19:01

Jorge Ben já lembrava décadas atrás do país tropical abençoado em que moramos. Estamos tão acostumados às flores, às paisagens floridas mesmo urbanas, que elas quase não nos surpreendem. Parecem que estão sempre lá onde sempre estiveram.
Como fifties, passamos a reparar mais e melhor nelas. Contamos os ipês amarelos floridos que encontramos em nosso caminho. Nos alegramos com as flores roxas dos jacarandás-mimosos que, feito nuvens diáfanas de cor, embaralham a vista projetadas no céu azul profundo do início da primavera.
Os blocos multicores de azaléia e as maria-sem-vergonha espalhadas em qualquer cantinho são de tamanha ‘corriqueirice’ que às vezes nem os olhamos. Mas não nos escapam as flores cor de rosa das paineiras que resolveram colorir a cena da cidade mais cedo este ano. E quando encontramos um ipê branco? É puro deslumbramento! Minha amiga paisagista Thea diz que as flores desse ipê duram só uns 2 ou 3 dias e é uma sorte imensa se deparar com um florido. Se vir, você deve parar e sentar para admirá-lo. Vai valer a pena!
Santo território tropical que nunca nos deixa, como os europeus, naqueles momentos ‘sem flor’, só de cinzas e cinzentos. Época de flores por aquelas bandas vira passeio de prazeres. Como o Jardin des Plantes, no 5éme, em Paris.
Já fui lá muitas vezes. O local foi criado como Jardin de Roy em 1626, como herbário de plantas medicinais pelo médico do Luiz XIII. Aberto ao público em 1640, foi reestruturado e renovado após a revolução francesa. Passou a se chamar Jardin de Plantes e a abrigar o Museu de História Natural.
Lindos canteiros, plantados ‘certinhos’ à maneira francesa, florescem na primavera e no verão decorando o espaço. Em parte dele está o Rosarium, com variedade imensa de rosas, em todos os seus tons e semi-tons. Algumas estufas abrigam plantas de diferentes ecossistemas do mundo e podem ser visitadas.
O Jardin des Plantes virou passeio para mim num fim de fevereiro. Bonne idée!!!, disse um amigo francês, quando lhe contei onde pretendia ir como despedida daqueles dias na cidade. As flores amarelas já devem estar começando a florir. São as primeiras que aparecem depois do inverno, ele me avisou.
Só aí me dei conta de ter reparado em algumas flores amarelas, quase ‘fosforescentes’, que haviam me chamado a atenção por parecerem muiiiito mais brilhantes que o normal. Claro, elas eram os primeiros sinais contrastantes aos tons cinzas do inverno parisiense. O anúncio vibrante de um novo ciclo que, para a forasteira, passara despercebido. A visita era mesmo uma bonne idée! Allons-y !
SURPRESA, PRAZERES! Logo na chegada, vimos o que nos pareceu uma cotia. Reparamos então no zoológico que havia lá dentro . Está lá só desde 1795, e nunca tínhamos olhado para ele!!! Deixando o ‘politicamente correto’ de fora, entramos. Foi uma das descobertas mais agradáveis dessa viagem.
O zôo do Jardin des Plantes reúne animais ‘exóticos’ de todo o planeta, muitos deles em perigo de extinção. E váááários totalmente desconhecidos para nós! Juntos aos ‘habitats’ há uma pequena explicação de origem e hábitos, como em todos os zôos, e mais as razões de estarem em perigo.
O veado almiscarado está em perigo. Nas geleiras do Himalaia, onde vive, os machos da espécie são caçados porque têm um glândula no órgão sexual que os perfumistas cobiçam como fixador para suas criações. Outro ameaçado é o cavalo da Mongólia, parecido com um pônei. E, claro, o mico-leão-dourado, nossa ‘bandeira’ de animal em vias de extinção.

Encontramos pássaros enormes e desconhecidos, estranhos ancestrais de perus. Num tanque grande, vimos tartarugas gigantes de Galápagos que pareciam bichos pré-históricos com seus cascos craquelentos. Entre muitas aves, estão lá algumas araras e papagaios brasileiros, das cores e espécimes mais maravilhosos.

Tinha também pavão branco, flamingos, avestruzes. Alguns felinos, como a pantera da China, e leopardos. Todos vivendo em espaços que tentam reproduzir o seu habitat.

O passeio se tornou inusitado, principalmente por não estarmos com nenhuma criança, mas foi uma delícia porque por nos fez, por uns momentos, olhar o mundo com os olhos delas.
E as flores amarelas? De fato pipocavam aqui e ali pelos jardins, mas já tínhamos sido tomados pela outra surpresa!
Uma visita inesquecível! Se você for, não deixe de visitar ali também o Museu de História Natural. Tem vários departamentos, paleontologia, mineralogia, mas eu adoro é a Grande Galeria da Evolução, que é maravilhosa! Ela restitui a história da evolução das espécies de uma maneira quase teatral. É impressionante!

Tanya Volpe
Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…
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A foto do passeio pelo zoológico sem crianças e mergulhados em saudades dos trópicos é da própria Tanya Volpe. E os flamingos deslumbrantes são chilenos (P. chilensis)…ah, era primavera em Paris!
Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres
Tags: Jardin des Plantes, Museu de História Natural de Paris, Paris, Zoo, Zoológico
05/10/2009 - 08:06

Uma amiga me conta que uma moça que trabalha com ela tinha grande admiração pela Madona em sua adolescência, mas que hoje a via como uma paródia de si mesma.
Adorei a expressão. Fala com exatidão sobre o estado atual da grande maioria de pseudos enxutos e enxutas dos dias de hoje.
É claro que há aqueles que são beneficiados por uma genética extremamente generosa. Demoram bem mais que os simples mortais para mostrarem no corpo e no rosto a passagem do tempo. Mas a grande maioria não escapa das rugas, gorduras localizadas, cabelos brancos.
E há as “Madonas” da vida que puxam aqui e ali, usam e abusam do botox, dos preenchimentos, dos apliques, e quando são entrevistadas dizem que são totalmente contra plásticas e que nunca fizeram uso dessas manobras rejuvenescedoras, a não ser “pequenas intervenções”.
Convido vocês a imaginarem uma mulher de meia idade, no sábado de manhã, deitada na cama, na grama de algum parque público ou sentada em algum café do bairro. Folheando revistas, ela passa a ter na frente de seus olhos a imagem de alguma dessas mulheres “naturalmente” jovens. É assim que se abre a porta do Inferno! Sim, porque é inevitável que essa mulher não sobreponha à imagem daquelas “beldades eternas” seu próprio corpo e rosto de mulher marcada pela vida. Comparação feita, resultado previsível: perde de goleada.
Nessas horas fico pensando que os adultos também precisam de lendas, de histórias fantásticas em que os heróis nunca adoecem, envelhecem ou morrem.
Só pode ser por esse motivo que paralisam sua capacidade reflexiva e embarcam na magia das fotos e das faces retocadas.
Só pode ser por esse motivo que não se lembram de que mesmo aquelas “menos retocadas” têm em sua “eterna juventude” o seu ganha pão e que por isso despendem horas e horas em academias, clínicas estéticas, cabeleireiros, não tendo que conciliar agendas lotadas de trabalho onde outros atributos são os exigidos. Mas que, mesmo essas, um dia envelhecerão e seguirão o mesmo destino de todos nós mortais.
Se tem algo que alguém de 50, um pouco mais, um pouco menos, já pode ter certeza é sobre a sua própria mortalidade. Nada há a fazer a respeito, a não ser aceitar esta condição, sobre a qual certamente não nos consultaram.
Só assim o repudio às marcas do tempo em nossos corpos deixarão de nos assustar, obrigando-nos a querer apagá-los.
O preço que se paga para a manutenção dessa fantasia de eterna juventude é muito alto.
Quem ganha é todo aquele que vende a ilusão de que ela é possível.
Quem perde é aquele ou aquela que gasta o tempo que ainda resta correndo atrás dessa quimera.
Perde também aquele ou aquela que se despe do direito de se sentir bem com o rosto e o corpo esculpido pelo tempo e desce do “bonde chamado desejo” muito antes do ponto final.
Um corpo, um rosto, serão sempre a roupagem de uma alma que ama, que quer ser amada, que guarda histórias e quer passá-las adiante, que ainda vibra quando tocada, que ainda brilha quando bem acompanhada.
Nós de 50, um pouco mais, um pouco menos, precisamos estar atentos para não permitir que nos roubem esse direito de ainda estarmos na vida, participando dela do começo ao fim, nos lambuzando de tudo o que ela nos oferece. Precisamos estar atentos para nos orgulharmos pelo fato de que por termos vivido mais, aprendemos a duras penas a amar de maneira mais generosa, mais livre, mais plena.
Faço uma aposta de que as mulheres que realmente se apropriarem de suas histórias, de seus sonhos, de seus desejos e levarem a vida de maneira apaixonada não se mostrarão mulheres tristes. Muito pelo contrário, ofuscarão com sua alegria desavergonhada qualquer rosto liso e impedido de rir.
Honremos a beleza de vivermos nosso presente.
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A foto, com o nome estranho, Eye of the tiger, o olho do tigre, é de Benoît Mars
Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Inspiração
Tags: cirurgia plástica, Madona, rejuvenescimento, rugas
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