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Arquivo de setembro, 2009

29/09/2009 - 10:24

Fase do “condor”

Dorso_Vana_Gwen

Se o movimento estiver em cima, que atire a primeira pedra a fifty que ainda não se queixou de uma dorzinha nos braços, nas costas, ombros ou coluna. A fase do “condor” — aos 50, pouco antes, pouco depois – pode tardar aqui ou ali, mas não falha.

Com a idade, o bicho pega principalmente nos joelhos, coluna lombar, cervical, ombros e mãos, diz a fisioterapeuta Roberta Fontana, de São Paulo, que anda me ensinando a colocar pingos nos is nos pés recém-saídos de uma cirurgia para a retirada de joanetes. A indicação para o procedimento é dor, e no meu caso ela andava insuportável. O andar começa a voltar ao normal, mas custou outras dores nos joelhos, na coluna, nos ombros, como parte da auto-adaptação para me equilibrar em sandálias apropriadas à situação.

“O corpo humano é a máquina mais perfeita que existe, mas também necessita de cuidados preventivos, manutenção, reparos. O envelhecimento é inevitável, fisiológico, um processo natural e esperado. O importante é saber tirar o melhor proveito da máquina nas diversas etapas da vida”, resume Roberta, especialista formada pela USP com mais de 20 anos de prática fisioterapêutica.

A pele, os ossos, os músculos, os nervos envelhecem cada um a seu tempo. Há fatores que retardam e outros que aceleram o envelhecimento do corpo. Dito de outra forma, a prática constante de exercícios versus uma vida sedentária, por exemplo.

Na fase do “condor”, Roberta explica que o sistema músculo-esquelético costuma ser afetado pela diminuição da densidade dos ossos (osteoporose), desgaste das articulações (artrose), diminuição da força muscular (hipotrofia) e das reações de equilíbrio e fragilidade dos ligamentos, entre outros. Os pontos críticos são joelhos, coluna lombar, cervical, ombros e mãos.

“O que mais sobrecarrega o sistema músculo-esquelético é a forma do movimento e não sua repetição. Isto é, o jeito de pegar um objeto no chão, por exemplo, e não o número de vezes que se faz isso”, destaca a fisioterapeuta.

Para Roberta, se nada ainda pega aos 50, é preciso se movimentar para o corpinho viver decentemente mais adiante. “Mas respeitando os limites. Aos 50, não dá para fazer ginástica no ritmo dos 20 sem sentir dor. E há atividades que proporcionam prazer e bem-estar para uns e são uma tortura para outros. Se a pessoa não se sente bem, a prática não vira rotina.”

Caminhar, nadar, fazer alongamento, tai-chi-chuan, dança de salão… Não parecem opções de bom tamanho para fifties?

E, no dia-a-dia, seja cuidadosa em certas tarefas. Seria melhor não inventar, mas se decidir por uma faxina pesada no armário, “faça sem pressa, utilizando uma escadinha para pegar coisas no alto e sentando no chão para vasculhar miudezas mais próximas do solo”, diz Roberta.

Se vai atacar de jardineira no fim de semana, nada de ficar ajoelhada, “porque sobrecarrega os joelhos e a coluna lombar”. Sente em um banquinho baixo.

Vai lavar a louça? Apóie um dos pés no armário embaixo da pia ou numa lista telefônica, alternando pé direito e esquerdo. Assim se evita sobrecarga na região lombar. Mas não fique também muito tempo em pé. Ande, sente-se um pouco e depois volte à labuta.

E pode surgir uma oportunidade para dançar muito. Se é coisa que você não costuma fazer com freqüência, então muito cuidado com o salto do sapato. “Nada muito alto e fino”, aconselha Roberta. Se a dança tiver desdobramentos, como sexo, por exemplo, respeite também seus limites de performance, mas faça!

Quando o programa é ficar no computador, situação que mereceria um capítulo de livro, as dicas mais básicas da fisioterapeuta são: prefira computador de mesa a um notebook para tempo de trabalho prolongado; sente bem de frente para a tela e não com o corpo torcido; a cada 50 minutos, levante, caminhe e relaxe por 10 minutos.

No site da Roberta www.physiolife.com.br, você também encontra ótimas dicas para dormir bem no colchão e no travesseiro corretos. Dê uma espiadinha!

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Vana Gwen é brasileira e está bem longe das dores das Fifties. Mas a foto que ela chamou “Dorso” é bonita, tanto quanto a legenda: O que está sempre falando silenciosamente é o corpo, de Norman Brown. 

Autor: Lélia.A - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , , , , , , ,
28/09/2009 - 09:51

O porco no corpo: notas sobre a escrita obscena

A Escrita Obscena_Eliane Robert Moraes

Eliane Robert me ensinou a olhar sem angústia para Nabokov e a me apaixonar pelas cores falantes de suas memórias…Deve ser porque Nabokov sofria de cinestesia, uma condição raríssima que embaralha os sentidos, o que, no caso, fazia com que ele “ouvisse colorido” os sons das letras.  Ele fala sobre isso na sua biografia, Speak Memory, que em português foi traduzida como “A Pessoa em Questão”.  De todo modo, Eliane Robert vem explorando esses autores de “escrita obscena” e deve ser uma delícia ouvir suas notas sobre o “porco no corpo”…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , ,
27/09/2009 - 17:14

As mulheres andam tristes

Shadow/Sombra_Claire Jean

As mulheres andam mais tristes. E não é de hoje. Desde 1972, segundo o General Social Survey, uma pesquisa que todos os anos consulta algo como 1500 homens e mulheres de todas as idade, níveis de educação, renda e estado civil para descobrir o nível de felicidade da “América”. “Numa escala de 1 a 3″, os pesquisadores explicam, “sendo 3 ‘muito feliz’ e 1 ‘nada feliz’, que nota vc daria para seu grau de felicidade?”

Marcus Buckingham, novo blogueiro do Huffington Post, alinhava não somente esse, mas outros estudos que fortalecem a tese: as mulheres estão se percebendo  menos felizes, enquanto o nível de felicidade dos homens parece subir.

Buckingham, que trabalhou no instituto de pesquisa Gallup durante anos, desenvolvendo testes e estudos sobre comportamento, coloa os dados de seis pesquisas realizadas por diferentes entidades, somando 1.300.000 pessoas, num total de em 15 países.

O post do especialista levanta a questão, e deixa para o leitor as reflexões. E Maureen Dowd, colunista do New York Times, avança: são papéis demais, obrigações demais, escolhas demais…e hormônios demais! Filhos, correria, ônibus lotados, casa, trabalho, trabalho, trabalho…

Tudo isso mais uma pressão nova, “ter rosto e corpo de uma Barbie aos 60 anos”…

E nossas conquistas? Trabalho (?), liberdade, horizontes amplos…Por que elas não nos ajudam a ser mais felizes?

Minha amiga Re duvida. Essas questões de gênero tem que ser conduzidas com cuidado, para não perdermos de vista as questões comuns, humanas, que nos aproximam uns dos outros.

Mas há que se pensar…o que é que nos torna realmente felizes? De 1 a 3, sendo 3 “muito feliz” e 1 “pouco feliz”, a quantas anda a sua felicidade?

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Reparou na foto? É de Claire Jean, aquela fiftie fotógrafa, apaixonada por polvos, lembra? Reveja os nus de Claire no post Claire e os polvos. Os trabalhos dela também aparecem no DeviantArt

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , , ,
24/09/2009 - 19:06

Sexo: vamos de tamatiá!

Clitoris_Antonio Carlos Castejón, da série Dimensões e Abstrações

Pela terceira vez em pouco tempo, ouço uma mulher madura pronunciando de maneira errada a palavra clitóris, de propriedade tão feminina. Era um papo sobre o horror de certas práticas culturais. Ela se referia à extirpação do “CLÍTORES” – dito assim, com acento no “í” e “e” no fim –, que é um costume muçulmano praticado em alguns lugares da África e do Oriente Médio, destinado a impedir a mulher de experimentar o prazer sexual.

Por solidariedade de gênero, fiquei constrangida com o erro e preferi não corrigir a moça no meio da conversa para também não a constranger. Se tivesse oportunidade, daria um toque mais tarde. Mas outro integrante do grupo, um homem, tomou a iniciativa, fingindo delicadamente uma certa insegurança: “Acho que se fala clitóris, não é gente?” E todos concordaram rapidinho, querendo passar adiante a conversa. A moça só olhou, não sei o que pensava.

Eu fiquei imaginando como era possível uma mulher madura, informada a ponto de conhecer costumes muçulmanos, ter passado uma vida sexual distraidamente falando clítores em vez de clitóris. Já que claramente ela repudiava a barbárie contra ele, o clitóris, por  que o mutilava na mente?

Por que pronunciar o Ó, aberto, daquele “coisiquinha” seria complicado, um desafio?

Talvez não tenha nada a ver — continuei comigo mesma. Já ouvi tanta gente sabida falando em “boxer” do banheiro, em “domara” que dê certo, no “pombo” da discórdia…

Lembrei-me de que eu mesma descobri, depois de bem crescida, que tinha ralas sobrancelhas e não sombrancelhas! E foi aí que, numa associação repentina, o “clítores” da moça me pegou novamente.

Alguém que nomeia errado algo também pode se confundir com a funcionalidade desse algo. Talvez a moça tenha feito isso por décadas e, chegada a maturidade, o “coisiquinha” dela ficou tão “ralo” quanto minhas sobrancelhas.

Aí ela se decepcionou, deixou de dar atenção, mutilou, e agora agarra-se à força proparoxítona e impetuosa de um Í, fechado, trancado,  para se defender da sensação de queda de um Ó no meio do caminho…E o ES? Talvez uma aposta no plural, quantidade, continuidade?

Sem botar fé nas minhas especulações esdrúxulas, resolvi pesquisar o assunto. Quase dei razão à moça com seu CLÍTORES, impetuoso e plural. Por que ele não tem nada de “coisiquinha”. Vejam que incrível:

- o clitóris parece uma estrutura pequena porque o que se vê dele é só, como dizem, a “ponta do iceberg”, com uns 2 centímetros de comprimento em média e de 3 a 8 milímetros de diâmetro;

- o “iceberg” inteiro, parte externa e interna, pode atingir até 9 centímetros. É grande, cheio de vasos sangüíneos e fibras nervosas;

- São cerca de 6.000 ou 8.000 ramificações nervosas, mais concentradas na parte externa. Encontrei os dois números, mas o que ultrapassa mil, seja em dólar, euro ou nervo, não é mais do que suficiente como noção de grandeza?

Diante desse “polvo pélvico”, tão poderoso e complexo quanto a internet em termos de ramificações, só podia mesmo me “dar nos nervos” ouvir um CLÍTORES!

Gente, é CLITÓRIS! Mesmo que seja difícil largar o vício, o de linguagem, vale o esforço ao menos para evitar o vexame de ser corrigida por um homem.

E homem por homem, pensei em finalizar, fiquem com o Aurélio. Mas vejam o que ele me apronta, bem agora no fim do texto:

Clítoris. Do latim clitoris, derivado do grego kleitorís.
Clitóris. Variação de clítoris, ver clitóride.
Clitóride. Do grego kleitorís. Pequeno órgão alongado, erétil, situado na parte superior da vulva; sinônimo popular no Amazonas: tamatiá.

Então existe o clítoris e o clitóris… E a gente sai no lucro, porque se um é bom, imagine dois!!!

Em todo caso, como o risco de correções indevidas eventualmente permanece, proponho o seguinte:

ESQUEÇAMOS DOS Ó, Í,  ES…
CHEGA DE NHÁ, NHÁ, NHÁ…
VAMOS DE TAMATIÁ!!!

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A foto, cujo título é mesmo “Clitóris”, é de um brasileiro, Antonio Carlos Castejón, de uma série de imagens criadas com efeitos e que ampliam as possibilidades do olhar, chamada “Dimensões e Abstrações“.

Autor: Lélia.A - Categoria(s): Crônicas Tags: , , , ,
22/09/2009 - 09:52

Uma estrela dançarina

Menina-em-Honduras_Jonathan Assink

Final de tarde e eu ali, no meio de um trânsito maluco.

Nada a fazer a não ser espichar os olhos e fazê-los espiar os carros alheios. Afinal, a gente cansa de conversar com o próprio umbigo. Parece que ele fala sempre da mesma coisa, sustenta sempre o mesmo ponto de vista.

Suspendi o olhar para ver as pessoas dentro de um ônibus lotado. Em meio a rostos cinzas, uma carinha linda de menina exibia dois olhinhos brilhantes e curiosos. Muito do que via, via pela primeira vez. Descobria o mundo.

Atos inaugurais são carregados de emoção. Boas e ruins, de susto, de surpresas, de esforços de compreensão. Nos obriga a estar plenamente na situação vivida, impedindo que possamos recorrer ao velho truque do  “piloto automático”.

A vida não se repete. Nunca. A gente é que, numa tentativa de controle, ou por pura preguiça a toma por conhecida e vai enfiando as novidades em gavetas emboloradas, marcadas por etiquetas rígidas e já desbotadas.

Não nos damos conta de que, de gavetas passaram a lápides, onde enterramos a todo instante tudo aquilo que, se por um lado, causa desordem, por outro, é o que faz laço com a vida.

Com certeza, nós de cinqüenta, um pouco mais, um pouco menos, somos assim. Preguiçosos e medrosos, acomodados em nossas rotinas. E ironicamente nos assustamos quando vemos nossos olhos sem brilho no espelho.

Dispensamos muito esforço para que a vida se mantenha sempre a mesma. Vida que expressa uma dança pobre, monótona. Uma dança que reflete um corpo girando sobre si mesmo, sem deslocamento pelo espaço, onde os pés plantados no chão nele fincam seus dedos, como raízes, retirando do corpo ao qual sustenta, toda e qualquer mobilidade.

Lembrei-me de uma passagem de um livro de Rilke onde descreve Rodin em seus momentos de criação. Diz ele que “Rodin suspeitava que os movimentos discretos feitos pelo modelo, quando este acredita não estar sendo observado, poderiam rapidamente concentrar uma força expressiva que nós não pressentíamos existir, pois não estamos acostumados a acompanhar tais movimentos com uma atenção ativa e interessada.”

Olharmos a tudo com olhos atentos e interessados torna inaugural o instante vivido. Nos devolve o brilho dos olhos. Nos devolve ao momento da vida ainda sem nome.

Acho que agora entendo melhor porque sempre sou assaltada por forte emoção quando me vejo na frente da escultura feita por Rodin, cujo titulo é “A mão de Deus”. É uma das melhores expressões feitas pelo humano deste ato inaugural onde a vida é embrião, onde é pura promessa. Não de felicidade suprema, não de ordem eterna. E sim, de sangue correndo nas veias, de coração batendo acelerado porque ouve que algo se anuncia, mas ainda em língua estrangeira. E para decifrá-la precisamos ter a coragem de entrarmos em contato com aquilo que nos é estranho e que nós disfarçamos de familiar. Fazemos isto com a intenção de domarmos a exuberância da vida.

Compartilho com vocês uma frase de Nietzsche que diz:

“Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançarina.”

Nós de cinqüenta, um pouco mais ou pouco menos, podemos ainda ver na vida um convite para dançar.  Só precisamos um pouco de coragem e muito menos preguiça.

Que tal abrir as gavetas e deixá-las um pouco ao sabor dos ventos?

Deixo vocês cantarolando baixinho aquele verso lindo da musica de Miguel Serrat que diz:  De vez em quando a vida toma comigo café…

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A foto da garotinha descobrindo o mundo através da janela de um ônibus, em Honduras,  é do fotógrafo americano, Jonathan Assink, o Flying Dutch, do Flickr.

 A-mão-de-Deus_Auguste-Rodin

A aqui você conhece a obra de Rodin, A Mão de Deus, conforme o site do Musée Rodin, da França.

Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Inspiração Tags:
20/09/2009 - 07:52

Moral moderna: qual é a sua?

 Moral_Smoorenburg_Angie Garett

Estava relendo alguns trechos do livro Pergunte a Platão, de Lou Marinoff, cujo subtítulo no melhor estilo auto-ajuda  – Terapia para quem não precisa de terapia ou como a filosofia pode mudar sua vida – não deve fazer você torcer o nariz, achando que é uma bobagem, porque não é. Então, estava eu lá justamente relendo o capítulo no qual o autor,

professor de filosofia em Nova York, fala de “ética”. E explica que as questões éticas dificilmente – ou quase nunca – podem ser expressas de uma forma simples, em termos, por exemplo, de 2 + 2 = 4. Os dilemas humanos se parecem mais com equações daquelas “cabeludas”: x + y = 30. Lembra delas?

Não existe um valor correto de x independente do valor de y, certo? Pois são assim as dúvidas éticas: sem contexto, é impossível fazer julgamentos. E essa definição de contexto começa bem no nosso umbigo. Qual é o filtro que a gente usa quando o assunto é ética?

Lou Marinoff enumera dez maneiras que os grandes filósofos encontraram de refletir sobre essas questões. E eu resolvi “inventar” um teste com elas. Quer experimentar?

Digamos que você esteja tomando seu café da manhã com calma – sim, eu sei que você não toma um café da manhã calmo desde sabe Deus quando, mas use sua imaginação. Você lê que alguém do alto escalão do governo está envolvido num caso de corrupção. Viu que fácil? O Deputado Fulano usou dinheiro público para subornar o deputado Beltrano de modo a facilitar a votação da seguinte lei de autoria do ilustre deputado Fulano de Tal: para cada prédio construído na cidade, o construtor deveria comprar um terreno do mesmo tamanho e bem ao lado para construir e manter uma praça. Vamos fingir que ainda não sabemos que o Deputado Fulano é sócio de uma empresa que produz equipamentos para praças, só para facilitar…

Nesse momento você:

1. Engasga com o café e, indignada, decide mandar já um e-mail para o jornal pedindo a cassação tanto de um quanto do outro, afinal, oferecer suborno é tão inaceitável quanto se submeter a esse tipo de acordo;
2. Pede para seu marido passar a manteiga enquanto comenta que “afinal ao menos as crianças vão ter praças para brincar”; 

3. Reflete que “é uma pena que às vezes sejam necessários recursos tão pouco corretos para que se conseguir algumas coisas tão fundamentais” e engata numa discussão acalorada com sua filha sobre a importância da educação para criar cidadãos virtuosos;

4. Dá de ombros e comenta entre um pedaço de pão com geléia e um gole de café algo meio incompreensível, mas que soa como “deixa estar que Deus não vai deixar esse bando de corruptos impunes”;

5. “Se ele fosse mesmo minimamente decente, tinha tido a coragem de vir a público pedir votos para seu projeto em vez de ficar fazendo tudo por baixo do pano”, você proclama, já de pé, prontinha para fazer um discurso;

6. “Aposto que esse Fulano é sócio de alguma empresa de instalação de trepa-trepas”, você resmunga, condescendente, mal sabendo o quanto está certa…mas não seria melhor se, em vez de praças, eles construíssem, sei lá, ciclovias?

 

7. Que delícia de geléia essa diet, hein? Ah, sim, é absurdo, mas não há nada a fazer, tem gente que nasce mesmo para ganhar em cima do direito dos outros e o que é pior, não adianta nem colocar na cadeia porque não vai se emendar…
8. Entre um bocejo e outro, você viaja: “Bom, ao menos ele pensou nas crianças, nos velhinhos, tanta gente pode usar uma praça...e ainda não seria uma coisa ótima para a cidade esse tanto de verde? Imagina, nem teríamos que nos preocupar com as enchentes no verão, o Fulano no fundo no fundo rouba, mas faz”;
9. “Mesmo as ações mais nobres podem causar grandes males” você reflete com um suspiro, pensando se um dia vai conseguir viajar para a Índia…

10. Depois de ouvir pacientemente seu filho fazer o discurso de “os fins justificam os meios, né mãe?”, você encerra a discussão com um “é contra a lei, certo? Então está errado, não tem o que pensar…”

Bom, agora vamos aos resultados…

1. Pessoas 1 seguem, ainda que sem se dar conta, a linha deontológica da ética. Na prática, quer dizer que você submete toda a realidade ao crivo de um conjunto de regras imutáveis. Isso vale tanto para os Dez Mandamentos quanto para o famosos “imperativo categórico” do filósofo  Immanuel Kant, que dizia mais ou menos assim: “faça apenas aquilo que você desejaria que todo mundo fizesse o tempo todo”. Para você, as regras do jogo estão sempre ali, à mão, é prático, não é? Mas a vida é tão cheia de exceções…

2. Pessoas 2 adotam uma ética teleológica para viver.Telos” é palavra grega que significa “fim”, “propósito”. Já adivinhou? Sim, é isso mesmo: “os fins justificam os meios” e ponto final. Uma ação para você é legítima se beneficiar um número grande de pessoas, e quanto mais gente, melhor. Você deve ser uma pessoa bem prática, que valoriza os resultados e a eficiência das coisas. O problema? Bom, quem disse que a gente sempre sabe o que é bom para os outros?

3. Pessoas 3 seguem o que Lou Marinoff chama de “ética da virtude”.  Segundo o professor, Aristóteles, Buda, Confúcio formam o “abc” desse tipo de pensamento, que é muito, muito antigo. Ninguém nasce “bom” ou “mal”. O mal é feito um vírus que a gente pega no ar. E o bem é algo que a gente aprende, coisa que nasce da prática e do exercício diário de preferir a “virtude” ao vício. Questão de educação. Para você, gente bem-educada deveria naturalmente “preferir” viver deste modo e quanto mais pessoas compartilhassem destas boas práticas, mais fácil seria pautar os valores segundo esses ideais e mais perto estaríamos de um mundo justo e harmonioso. Lindo, não é? Mas será que a gente consegue mesmo ser “virtuoso” o tempo todo?

4. Pessoas 4 são pautadas por Deus. Se você for boa e fizer tudo certo, então numa outra vida será recompensada. E também será castigada, se optar pelo mal.  De um jeito ou de outro, a justiça divina intervém na vida dos humanos para preservar o equilíbrio e a harmonia, ainda que numa “outra vida”. Você segue tranqüila pela vida com a certeza de que Deus sempre cuida de nós, ainda que a gente às vezes desconfie das Suas razões. Não importa, aqui o que vale é a esperança…mas tome cuidado, há milênios os seres humanos matam e morrem só para provar que o “seu” deus é muito mais poderoso e forte e protetor do que o deus do vizinho…

5. Pessoas 5 são existencialistas, ensina o professor Marinoff. Toda essa história de Bem e de Mal é bobagem, diria um existencialista de primeira hora, daqueles que freqüentavam o apartamento de Sartre, um dos pais do Existencialismo. Nós somos aquilo que fazemos. Para piorar, Deus não existe, e, portanto, somos todos órfãos, entregues à nossa própria sorte ou sina. Nem por isso a gente vai desanimar, ao contrário, nossa missão é viver orgulhosamente nosso destino de órfãos de Deus e assumir de cabeça erguida a responsabilidade por todas as nossas ações. A palavra-chave aqui é autenticidade. O desafio? Tentar não transferir a autoridade de Deus para nós mesmos ou para o líder mais forte da matilha…

6. Pessoas 6 seguem uma ética objetivista. Segundo nosso professor, a mentora desse pensamento muito difundido entre nós, do Ocidente, é Ayn Rand, cujo site você visita clicando aqui http://www.aynrand.org/site/. Segundo essa filósofa moderna, o bem individual é mais importante do que o bem coletivo. Sempre que isso se inverte, os seres humanos viram animais de sacrifício ns mãos do grupo. Mesmo quando a gente ajuda alguém estamos fazendo isso por nós. Porque fazer o bem é bom para nós. E para evitar que a gente volte a viver pendurados nas árvores de alguma floresta da África, ela sugere um modelo de sociedade onde seja incentivada a competição saudável entre todos. Porque se cada um de nós buscar a excelência, então todos juntos naturalmente melhoram…ou nem sempre? Ah, outra coisa, você já pensou quem vai ser o líder dessa turma?

7. Pessoas 7 seguem uma ética apoiada na biologia. A sociobiologia foi fundada na década de 1970, por E.O.Wilson e Richard Dawkins. Para tudo há uma explicação e essa explicação está registrada em alguma seção do nosso DNA. Entre os humanos e as abelhas…bom, ponto para as abelhas! Nossas escolhas morais são feitas em função dos ritmos do nosso corpo, das oscilações do nosso metabolismo, da nossa eficiência adaptativa. Levando ao extremo, não somos responsáveis por nada, nem podemos nunca mudar nada em nós: nosso destino está impresso nas células da nossa pele. Brrrrr….que medo, hein?

8. Pessoas 8 pautam sua vida em uma idéia expressa por Emmanuel Levinas, um filósofo francês também da nossa época (ele morreu em 1995) de que tudo que a gente consegue pensar em termos de ética e moral nasce do nosso relacionamento com os outros. Pensar nos outros, essa é a chave da moralidade. Somos responsáveis pelo vizinho tanto quanto somos responsáveis por nós mesmos. A ação correta nasce desse olhar para o outro como alguém que merece sempre e em qualquer circunstância o nosso respeito. Para ele, minha felicidade só é possível se eu equacioná-la em relação à felicidade de todos. Difícil é convencer todo o resto do mundo de que é possível viver a partir dessa idéia…

9. Pessoas 9, mesmo quando não são budistas, seguem a ética proposta por Sidarta Gautama, o Buddha, por volta do século 6. Tudo que causa sofrimento é mau. Tudo que alivia o sofrimento é bom. Todos os homens, ricos ou pobres, brancos, pretos, amarelos ou verdes sofrem. E ninguém gosta de sofrer. “Coluna ereta, mente e coração tranqüilos”, ensinam os mestres.  E cada um que alcança esse estado permanente, à prova de sofrimentos, feito de serenidade e de compaixão, volta para ajudar os outros. Como grandíssima parte da população do planeta está longe desse ideal, a pergunta é: será que dá para viver assim em algum lugar a mais de um passo de distância dos templos frescos e silenciosos?

10. Pessoas 10 são talvez as mais simples. Sua ética baseia-se no lema: “É legal? Então está certo!”. Eu conheci muitas assim. Vivem os padrões morais da sua época como se fossem verdades absolutas, eternas e imutáveis. Ou melhor, transformam as leis em padrões morais absolutos e imutáveis. Essas são aquelas criaturas que costumam dizer “eu só obedecia ordens”…

E então? Gostou do “teste”? Moral moderna para você é o quê?

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Não deixe de comprar o livro Pergunte a Platão, de Lou Marinoff, é uma leitura gostosa e muito oportuna para quem quer conhecer melhor a si mesmo e aos outros. O livro é da editora Record.

A foto do muro pichado com a palavra “Moral” é de Angie Garrett, do Creative Commons do Flickr

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Inspiração Tags: , , , , , ,
17/09/2009 - 14:02

Se eu for antes de você…

PS I Love You

O papo é filme, outra vez. Já viram P.S. Eu te amo? Uma delícia de história e, o melhor, com sugestão de final feliz. A protagonista é interpretada por Hilary Swank, lindíssima no papel de Holly. Outra maravilhosa, Kathy Bates, faz a mãe Patrícia. Entre as paisagens, campos da Irlanda. 

Eu te amo” é o final de cada carta recebida por Holly após a morte do marido. Ele sabia que iria sair de cena antes dela e prepara um plano para ajudá-la a tocar e recriar a vida sem ele. Arrogante? Não, um homem apaixonado. A última carta é entregue a Holly pela mãe e é ela que mostra à filha o essencial para que ela possa suportar o sofrimento e seguir em frente: “Ele não te abandonou por opção”.  

A vida fica mesmo difícil quando os amores se interrompem, seja por morte ou escolha própria. Nenhuma das situações bate com a minha no momento, mas acho atraente a idéia do filme de deixar um “manual de sobrevivência” para quem fica de lado. É o que segue para a hipótese de eu sair de cena antes dele: 

1-Mesmo que você esteja aliviado de alguma forma, deixe transparecer muita tristeza no meu enterro. Nada de piadinhas com os amigos nessa hora. Para o bem da minha imagem, a sua tem de transmitir esta mensagem: “Ele gostava mesmo muito dela”. 

2-Será inevitável minha ausência fazer presença. Não vale a pena ficar com raiva, já que não estarei presente para pagar esse mico. 

3-Use outro ou construa um banheiro novo para você. Pode ser um bom jeito de driblar muitas das marcas da vida a dois, como aquelas não-conversas com a boca cheia de pasta de dente. 

4-Porque se amam, casais se ferem. Danem-se as culpas. Pense no melhor, por exemplo, o sofá só para você na hora do filme ou do futebol; ou o café da manhã tranqüilo, atenção concentrada apenas no jornal. Claro que vai fazer falta a xícara de café com leite que transborda e derrama na toalha todos os dias, mas aí você vai se divertir inventando outra coisa para implicar. 

5-Para variar, aceite fazer todos os programas. Caia no agito e aproveite tudo com moderação, inclusive a moderação. 

6-Cultive a assertividade, a independência, o humor no mau-humor. Serão sempre sedutores, mas sedução também escorrega do cavalo. Então jamais esqueça de ser romântico, atencioso, cordato, interessado – a eterna estratégia capaz de proporcionar prazeres. Se é que estará ainda interessado…he, he, he… ai, ai, ai… 

7-Simplesmente pare de guardar coisas. Descartar também é bom, e não vale apenas mudar de lugar. 

8-Não tenho dúvida de que você cuidará bem dos meninos, mas cuide bem, também, das futuras noras. Seja cordial, delicado, amoroso e encorajador com elas. Desde que sinta que elas são assim com eles, os meninos. 

9-Para um dos meninos, você sabe quem, compre cuecas de montão para evitar aquele uso criativo do avesso. Para o outro, quando ele arrumar a malinha, dê um jeito de tirar todas as cuecas e deixá-lo na mão. Sei que os dois vão responder de forma original ao desafio.  

10-Haverá muitas saudades um do outro, uns dos outros. Que bom! Só isso é muito, muito bom! 

11-Se o saldo da vida comigo foi ruim, “semmigo” será pior. Não é sempre tempo de valorizar? 

P.S. Não te abandonei por opção, sempre te vi, sempre te amei.

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Para saber mais
Título no Brasil:  P.S. Eu Te Amo
Título Original:  P.S., I Love You
País de Origem:  EUA, 2007
Gênero:  Comédia / Drama
Estúdio/Distrib.: Paris Filmes
Direção: Richard LaGravenese
Elenco: Hilary Swank (Holly), Gerard Butller (Gerry), Kathy Bates (Patricia)

Autor: Lélia.A - Categoria(s): Inspiração Tags: , , , , , ,
16/09/2009 - 14:44

Exercício de tradução: Marché d’Aligre

Marché d\'Aligre_Tanya-Volpe

De todas as inúmeras feiras e mercados de Paris, para mim o d’Aligre é especial.

Construído em 1779 para prover alimentos para o grande número de trabalhadores, marceneiros e artesões que se concentravam nessa região (ainda há muitos por lá), o mercado se divide em duas partes: uma feira ao ar livre que se espalha pela rua, como as nossas, e que funciona na parte da manhã. E um mercado coberto, também como os nossos, aberto durante todo o dia. Até aqui, fora a data em que o marché foi construído, 1779 (dez anos ANTES da Revolução Francesa!!??) nenhuma surpresa, tudo igual. Mas olhando mais de perto, as diferenças intrigam e encantam!

Adoro passear pelas bancas e descobrir ‘ao vivo’ o que conheço dos livros. No açougue, por exemplo: a que parte da vaca, do carneiro, do vitelo pertencem aqueles cortes cujos nomes não dão sequer uma pista, onglet , aiguillette, gite? E o que eles têm a ver com os nossos cortes de carne?
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Na barraca dos peixes as dificuldades de “tradução-adaptação” são ainda maiores. ‘Quem’ são aquelas conchas e mariscos todos, deitados nas algas e gelo picado, dos plateau de fruits de mer? Violet, bulots, pétoncle, bigorneaux, palourde, e o ‘mar’ de conchinhas,  peixes  e afins que ajudam a perfumar as bouillabaisses ?

Rascasse, merlan, limande, rouget, étrilles, tourteaux…..prazer em conhecê-los, hein?

MarchedAligre

Com os legumes e frutas, a relação é um pouco mais simples. Aqui dá para fazer a versão. Quiabos são okras! Couve é chou vert. Melancia, pastèque, e o maracujá, coisa mais linda, fruit de la passion!

Passo pelas barracas das aves, uma beleza vê-las todas arrumadas na vitrine, com seus colarzinhos de penas — muito chiques — identificação comprovada, de procedência e qualidade.

É no Aligre que compro os queijos que trago na volta para dividir com os amigos. Em duas barracas que existem ali, incluindo a de Cyril et Nathalie, nunca paro de aprender e conhecer mais. São mais de 1000 tipos de queijo que existem na França: queijo de leite de cabra, ovelha, ou vaca, fresco, curado, redondinho, quadradinho, em pirâmide, com cinzas… Adoro um tal de Banon, feito com leite de cabra, fresquíssimo e extremamente delicado. Um galhinho de pinheiro ao lado indica sutilmente o perfume do terroir de onde veio o queijo. E o Époisse afinado no marc de Bourgogne (uma aguardente destilada de resíduos de uvas) que tem cheiro forte, mas uma consistência cremosa e um gosto ‘amendoado’ delicioso. E mais outros tantos e tantos, cada um com suas especificidades. Ali tem também as manteigas, vendidas a peso. Montadas em grandes formas arredondadas, sedosas e branquinhas. Dá vontade de pedir uma colher e começar a comer assim mesmo, pura.
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As charcuteries  são outra viagem: salsichões, salames, salsichas, presuntos  rosados, crus e curados, comprados em tranches — sim, em fatias, não em gramas ou quilos — pelos freqüentadores, na sua imensa maioria, moradores da região e habituées. Assim como eles, não resisto e peço minhas 2 ou 3 tranches  de presunto de Bayonne, label rouge, certificado que garante um produto de qualidade especial . Para comer, vou logo ali ao lado, comprar uma das melhores baguetes de Paris, a da Boulangerie Moisan, Le Pain au Naturel,  uma das primeiras a resgatar, há uns 10 anos mais ou menos, quando a qualidade dos famosos pães franceses começou a ser questionada, a maneira tradicional de fazer pães a partir de fermentação natural. Seus pães são produzidos com farinhas especiais  e assados corretamente, o que se percebe na ‘crocância’ perfeita da casca . A boulangerie fica quase em frente a uma das entradas do mercado na Place d’Aligre. E a produção diária e contínua de pães, assegura que você vai sempre encontrar um quentinho. Quer coisa melhor na vida?

Marche d\

O mercado abre pela manhã até 12 horas e depois a partir das 4 da tarde. Fecha às segundas. Também vende flores e algumas comidas semi prontas.  Jornada cultural imperdível !!!!

Tanya VolpeTanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…

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Marche d’Aligre
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Rue d’Aligre
12 eme

Moisan – Le Pain au Naturel
5, place d’Aligre        12 eme
Tél: 01 43 45 46 60

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , ,
13/09/2009 - 10:49

Parados no meio do rio

boat_thomas-dianne-jones

Começo este post com uma pergunta:

O que fazer quando se perde o próprio rumo?

De um modo geral temos um script. Pode ser rascunhado, escrito a mão ou teclado. Grandes ou pequenas diretrizes. Rotas detalhadas ou apenas indícios de trajetos a seguir.

De um jeito ou de outro, sempre há margens em nosso caminho. Sempre há setas indicando direções possíveis.

Mas há alguns momentos em que os mapas voam com o vento, os marcos se apagam em meio a fortes chuvas, o horizonte se achata pelo peso da bruma e a gente se flagra à deriva.

Nestas horas só nos ocorre sentar, ali mesmo onde se está e…

Talvez alguns rezem.

Outros praguejem a própria sorte enquanto golpeiam o ar.

Outros chamem em voz alta o nome dos amigos. Aqueles sempre presentes e sempre a postos.

Outros ainda cantem ou assobiem garantindo a si mesmos que tudo voltará ao normal.

E há aqueles que se colocam em silêncio e esperam.

Não por algo, mas pelo retorno de si próprios.

Sim, porque é disto que se trata.

O que se perdeu foi aquele ser conhecido, familiar.

O eu que apresentávamos ao mundo e a nós mesmos.

Estes momentos são providencialmente raros.

Talvez ocorram uma ou duas vezes na vida.

Raras e intensas são as causas que os deflagram.

É a hora em que o ninho feito em uma das margens do rio se revela vazio.

Não só de filhos e de cachorros.

Mas do sentido que sustentou aquela vida ali.

É a hora em que se resolve entrar na canoa e remar até o meio do rio.

Largar os remos e esperar.

Com calma e em silêncio.

A única aposta se apóia no tempo.

Pode ser curto. Longo.

Extremamente longo.

A vida se mantém com muito pouco.

Até o dia em que a canoa vai rumar para a margem da direita.

Ou para a margem da esquerda.

Ou permanecerá para sempre no meio do rio.

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A foto veio do portfolio no Flickr de um casal, Thomas e Diane Jones, de Oklahoma, apaixonados por botes e caiaques.

Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Inspiração Tags: , , ,
10/09/2009 - 13:38

Estilo Jane Birkin

jane-birkin_lutz-patmos

Não sei bem quando exatamente minha relação com a moda mudou…


Mas aos 50, um pouco antes, um pouco depois, me vestir virou uma espécie de brincadeira, jogo de fantasia e de humor…


E nem é que não me importe mais, ao contrário, aos 50, um pouco antes, um pouco depois, descobri  em mim até uma certa… faceirice!

Bom, se você está muito longe dos fifties vai estranhar, mas muitas mulheres da minha geração cresceram desconfiando dos batons e rosnando para essas coisas de “mulherzinha”. Éramos até corretas, eventualmente chiques, elegantes, mas não nos divertíamos…

Algumas de nós nunca perderam o tom “nós que amávamos tanto a revolução” e passaram a vida experimentando versões do estilo “túnica + sandália franciscana”. Outras jamais se permitiram concessão alguma e caminharam até aqui eretas, expressão severa, jeans, camisa abotoada, sapatos de bicos gordos, nada de enfeites. Outras ainda buscaram refúgio nos beges e tentam até hoje encher de graça os básicos de todas as cores.

Mas existem mulheres que se soltam aos 50, um pouco antes, um pouco depois, soltam o riso, soltam os cós e vestem as roupas como quem dança contra o vento!

Fiz uma faxina no meu armário. Dei tudo que me apertava (menos os jeans, vai saber a que outras fantasias eles respondem!)  tudo que era áspero, tudo que era duro. Aos 50, um pouco antes, um pouco depois, quero panos que me envolvam, sem moldar, macios, molengas, que viajem do trabalho ao sofá sem sofrimento, que causem até certa estranheza, mas que ousem outros olhares sobre mim. Quero cores e quero levezas, estampados, por que não? Mas com um quê das odaliscas de Matisse…Salto alto, de vez em quando, só para exercitar o porte aprumado das palmeiras…e batom, sempre!


Jane Birkin é meu benchmark! Lembram daquela quase-voz dela entrando sussurrada logo depois dos acordes proibidos de “Je t’aime, moi non plus”? Caso de amor eterno com Serge Gainsbourg, dono do nariz mais espetacularmente grande e da voz mais doce, uma combinação, aliás, perigosa num homem…Pois então, Jane Birkin esteve aqui no Brasil na semana passada para um show em homenagem a Serge Gainsbourg, por ocasião da celebração do Ano da França no Brasil. Envelheceu. Sua quase-voz continua sussurrada e ela ainda é linda, até porque, liberta da necessidade de posar de mulher sexy, ela pode rir mais, e é assim que ela aparece hoje, rindo! 

 

Jane Birkin_Francois Durand/Getty Images

Não espanta que seja a designer convidada da marca, Lutz and Patmos, cujo mote é “moda não efêmera,  simples, mas especial, moderna, mas confortável, familiar, mas única, para durar anos a fio, não estações, para o dia e para a noite, para a semana e para os finais de semana, para todos os climas, para o ano inteiro”.

E tem mais gente brincando com essa “não-moda-arte-de-vestir-para-brincar”.

Sonia Pinto, por exemplo, de Belo Horizonte, que acabou de abrir um atelier em São Paulo e que define as mulheres, suas clientes, como: “mulheres cosmopolitas, cientes do seu tempo, protagonistas da sua história (…)mulheres que só se revelam para quem merece fruir da sua gentileza – e da sua beleza atemporal”.

Atelier Sonia Pinto em SP 

“Faço roupa para mulheres que não estão preocupadas com um carimbo e que têm coragem de inventar seu próprio estilo”.

Para elas, a estilista cria vestidos-capas, calças-saias, blusas-mantos, híbridos à espera das cores, cada prega revelando possibilidades e movimentos novos…

Dela tenho algumas peças, as minhas favoritas no armário recém-esvaziado, incluindo uma espécie de blusa-estola, de uma lãzinha que nunca nem sonhou ficar pinicando a pela da gente, forrada de gaze, toda desconjuntada, mas que se transforma no minuto em que você se deixa abraçar pelas dobras macias. Sem querer, seu queixo parece mais altivo, seu olhar, mais sereno, seu jeito, mais feminino, você inteira, uma mulher sem idade, na roupa atemporal… 

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Relembrando: Je t’aime, mois non plus, com Jane Birkin e Serge Gainsbourg

 

As fotos

Jane Birkin (as pernas dela, no caso) chega ao cemitério de Saint Germain des Prés para o enterro de do cantor e compositor Alain Bashung, no dia 20 de março de 2009, em Paris, na França/Photo by Francois Durand/Getty Images

Jane Birkin no site da Luzt and Patmos, como designer convidada

Atelier de Sonia Pinto em São Paulo

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , ,
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