Arquivo de junho, 2009
30/06/2009 - 20:25
Aos cinquenta, um pouco mais, um pouco menos, temos com certeza rugas nos olhos. Mas em alguns afortunados, há mais. Muito mais que isto. Há um brilho intenso que não se apaga. São portadores de olhos que riem. E já que dizem que os olhos são o espelho da alma, podemos imaginar que alegres almas habitam estes seres.
O que sabem eles, o que garante a eles esta porção diária de alegria?
Acredito que a magia venha do fato de não darem guarida a ressentimentos. Isto mesmo. Não requentam sentimentos já vividos, impressos em papel amarelo e já sem bordas. Não choram por dores de anos atrás. Não pranteiam amores há muito esgotados. Não enterram os mesmos mortos todos os dias.
Ao acordarem lavam o rosto e o coração. Ao invés de ressentir (sentir novamente) o já vivido, preferem sentir, atualizando-o.
São aquelas pessoas que a gente encontra na rua e que estão sempre de braços abertos. Que nos abraçam forte, mas nos deixam ir quando chega nossa hora.
Braços abertos que se abrem na direção do que vem. Braços abertos para não reter o que vai.
Não antecipam, não recusam. Não recuam. Ao invés de ressentimento, aceitação.
Aprendizado que leva uma vida. Conquista. Aceitam que a vida corre por caminhos nem sempre escolhidos por nós. Aceitam que amores acabam. Que os filhos crescem e não gravitam mais em torno de nós. Que temos que andar para fazer baixar nosso colesterol. Que algumas dores no corpo vêm para ficar. Que os cabelos brancos crescem muito mais depressa que nossos cabelos antigos. Que amizades especiais e únicas se desfazem, deixando em nós o furo da saudade. Aceitam que já andamos mais da metade do caminho.
E por aceitarem a vida como ela é e por não se ressentirem pelo fato dela não ser como queriam que ela fosse é que seus olhos estão sempre rindo, escancarando a alegria dessa alma de ainda estar na vida.
A ela, dizem sempre: Que venha!

Quando vi esta foto pensei que nada podia expressar melhor a qualidade encantada do olhar. Minha amiga Re, autora do post, queria uma imagem de “olhos risonhos com rugas”. Não achei, mas achei Melissa Goodman, uma fiftie, professora aposentada e The Gifted Photographer, com um imenso portfolio no Flickr. O olhar risonho, multicolorido, afinal, é dela!
Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Crônicas
Tags: autoconhecimento, mulher de 50, olhar, rugas
28/06/2009 - 20:54

Após escrever “Aos 50, um pouco antes, um pouco depois”, recebi um comentário indignado. Li e reli e me solidarizei com Claudia, a autora. Afinal, eu também como ela, me sinto no desamparo ao me ver a céu aberto, sem nada que nos proteja. Mas infelizmente não há conforto a ser oferecido a quem procura posições simples e parciais.
Não é fácil entendermos que a vida é feita, de um lado por nossos impulsos e, de outro, por nosso lado racional, moral, que clama por segurança. Não podemos negar nem um nem outro, não podemos optar.
Para dar conta do que nos chega como impasse, criamos a ilusão de que este lado dionisíaco pode ser amordaçado e trancafiado em porões, onde reina a escuridão. Mas as noites chegam e libertam este ser sombrio que mostrará sua cara em nossos sonhos, em nossos gestos carregados de distração, em pensamentos aos quais renegamos a autoria. Negamos a eles cidadania e exatamente por isto eles se impõem a nós como invasores. Terra de vencido e de vencedor.
Outras vezes, buscando ainda solução, imaginamos reconciliações possíveis entre o sombio e o luminoso. E numa certa medida alcançamos o desejado. Um certo equilíbrio é conquistado. Viver nos parece menos arriscado. A tragicidade da vida parece se dissipar com as manhãs. Mas ao longe, no horizonte que demarca mundos, a tempestade se prepara.
Acho que aos 50, um pouco antes, um pouco depois, já naufragramos inúmeras vezes. Aproveitando a imagem trazida por Claudia, caímos do cavalo inúmeras vezes. Sim, porque não se iluda, não há cavalo que se submeta. Por um tempo sim, mas nunca o tempo todo. Não há peão que não conte sobre o dia em que, “traído” por seu cavalo, foi por ele derrubado de sua posição de senhor e se esburrachou no chão. Mas também não há peão que não tenha montado novamente em seu cavalo, só que agora sabendo que a rédea é frágil para conter a força deste animal.
É aos 50, um pouco antes, um pouco depois, que entendemos que a vida se faz nos desequilíbrios destas duas porções. Não há final feliz. Mas também não há desespero diante disto.
É aos 50 que podemos rir nas manhãs em que o espelho nos mostra nossa cara coberta de poeira e lama, trazidas pelos tombos que levamos. É daí que vem um olhar muito mais compassivo diante de erros, desacertos, falhas. É daí que vem a capacidade de perdão, a aposta nas reparações.
É aos 50, um pouco antes, um pouco depois, que o homem forte, despido de suas ilusões onipotentes se reconcilia com sua humanidade e vê seu peito aquecido pela gratidão. É muito bom estar na vida!
Mas não é fácil.
Rê
Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Crônicas
Tags: amazonas, cavalos, controle, empowerment
27/06/2009 - 22:00

Sei que ele existe. Santiago Gamboa, escritor colombiano, autor de vários livros, incluindo A Síndrome de Ulisses, traduzido para o português e de Perder es cuestión de método, que virou filme de Sergio Cabrera. Li artigos dele no Babelia, suplemento literário do jornal espanhol El Pais e sei que publicou um último livro Hotel Pekin, em 2008. Vi sua foto no site da editora e compartilhei de inúmeros elogios à sua narrativa, ágil, cinematográfica…
Mas não sei se é dele o texto que me chega no outlook, As mulheres de minha geração, de tanto que já foi copiado e colado nas telas da web. Impossível chegar naquela primeira página, aquela que nos permitiria dizer com absoluta certeza das intenções do autor. Uma pena!
Essa questão complicada de falta de créditos, no entanto, não invalida o fato de que das coisas tantas que caem nos nossos outlooks, esse artigo, feito num Dia Internacional das Mulheres, é um dos meus favoritos! E todo vez que leio, é como se me vestisse dessa mulher recontada, de contextos um pouquinho hispânicos demais, mas na qual, ainda assim, me reconheço…e me sinto, de novo, bela!
Por isso, lá vão as boas razões porque o escritor (algum, ao menos) nos acha tão belas!
É o único tema em que sou radical e intolerante, no qual não escuto argumentações: as mulheres da minha geração são as melhores e ponto.
Hoje têm quarenta e picos, inclusive cinqüenta, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afetuosa celulite que capitoneam suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais. Formosamente reais.
Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciados e recasadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarta intento. Que importa?
Outras, ainda que poucas, mantém um pertinaz celibatarismo e o protegem como a uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre suas portas a algum visitante.
Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!N ascidas sob a era de Aquário, com a influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kulbrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais. Herdeiras da revolução sexual da década de 60 e das correntes feministas, que entretanto receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução.
Jamais viram no homem um inimigo, apesar de que lhe cantaram umas quantas verdades, pois compreenderam que se emancipar era algo mais que colocar o homem para esfregar o banheiro ou trocar o rolo de papel higiênico, quando este tragicamente se acaba, e decidiram pactuar para viver em dupla, essa forma de convivência que tanto se critica, porém, que com o tempo, resulta ser a única possível, ou a melhor, ao menos neste mundo e nesta vida.
São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam.
Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam sua parecença com Maria, a Virgem, em uma noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El raton, de Cheo Feliciano, na Teja Corrida ou em Quebracanto, com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdjieff e do cinema de Bergman.
No fundo de suas mochilas havia pacotes de Pielroja, livros de Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara, e ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, e que se chama Teu amor é um jornal de ontem.
Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor canções de Silvio Rodriguez e Pablo Milanez, conheceram os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos pernilongos, porque adoravam a liberdade e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam fazendo na sua formosa e sedutora madureza.
Souberam ser, apesar da sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano.
O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu acompanhante por dentro.
A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda quando nos façam sofrer, quando nos enganam ou nos deixam, pois seu sangue não é tão gelado o suficiente para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia do Santana.
Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você.
Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!
A tradução é atribuída ao jornalista Luiz Augusto Michelazzo. Quem consegue comprovar?
Existe um arquivo em pdf com o que parece ser o texto original de Las mujeres de mi generación, arquivado pelo Ceme, um centro de documentação chileno, sob a rubrica “movimentos femininos”. Vai saber…
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Inspiração
Tags: Santiago Gamboa As mulheres de minha geração
26/06/2009 - 20:08

O nome da foto do álbum do nalilo, no flickr, acreditem é “blá,blá,blá”. E não parece mesmo?
Na cena final de um ótimo filme (Revolution Road, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), um casal pra lá dos cinqüenta vê TV. Ele nota que ela está falando, então tira um protetor de ouvido para ouvi-la. Depois de observá-la por alguns poucos segundos, recoloca o protetor e volta o olhar para a TV. Ela segue falando…
A cena tem humor, mas é também tristinha. Lembrei-me de cenas reais de casais na meia idade em que presenciei o mesmo fenômeno: elas falando, eles meio que fingindo ouvi-las, por vezes até com carinho. Outro dia aconteceu comigo. Acordei com um sonho cheio de penduricalhos interessantes. No café da manhã, comecei a comentar animada. O retorno: “Ah, é?…hã…ah, é?”. Não dei bola, ele não é muito chegado mesmo a esse terreno dos sonhos. Na hora do jantar, no mesmo dia, estava lá eu entabulando outra conversa. O retorno: “Sei… Já acabou ou vai comer salada?… Jan, por favor, pode encerrar aqui…” E lá veio a empregada rapidinho tirar a mesa, sorriso maroto de cumplicidade na cara – ela também já entrou nos cinqüenta.
Antes que eu perceba algum protetor nos ouvidos dele, resolvi pesquisar informalmente o assunto. E achei coisas incríveis!
- Um estudo feito em 2005 na universidade britânica de Sheffield diz que o homem é incapaz de ficar escutando uma mulher falar por muito tempo. Ele fica esgotado por razões fisiológicas, desliga e não escuta mais. As mulheres teriam uma voz com sons mais complexos, em função de diferenças no tamanho e forma de suas cordas vocais e laringe, “e um esforço em atender durante muito tempo a conversa feminina poderia afetar a zona cerebral masculina”. Que me perdoe o pesquisador, mas isso não seria indício mais evidente de alguma deficiência, talvez falta de exercício, no cérebro masculino?
- Outra pesquisa de 2005, esta nacional, da USP, analisa a voz da mulher na menopausa, apontando especificidades sob a influência de hormônios na laringe. Cita estudos clássicos que já constataram “rouquidão, compressão de registro, menor flexibilidade das pregas vocais, estabilidade vocal reduzida, perda de certas freqüências, rebaixamento da vibração intraglótica …”. O estudo não faz afirmações sobre o que me interessava mais: a voz da mulher dos cinqüentas fica pior ou melhor? Bom, cara fifty, faça uso de sua já comprovada maior habilidade verbal e aplique a informação da forma que lhe for mais conveniente.
- Notícia divulgada pela BBC : Na Universidade McMaster, do Canadá, foram realizadas gravações de falas de mulheres em períodos diferentes do mês. Ouvidas por homens e mulheres, as vozes avaliadas como mais atraentes eram de mulheres no pico do período fértil. Duas lições a tirar a respeito: as vozes masculinas nem foram consideradas atraentes; se você, fifty, ainda tem esses picos férteis, não desperdice conversando com o companheiro…
Anotem aí: aos 50, silêncio pode ser mais do que nunca a alma do negócio!
Autor: Lélia.A - Categoria(s): Boas idéias
Tags: cérebro feminino, menopausa, mulher de 50, voz
24/06/2009 - 13:19
“Felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente”. Não sei de quem é a frase. Chegou assim, entre aspas, pelo e-mail. E já não houve paciência para ver a que ela servia de introdução na mensagem enviada. Parece boa a frase, não é? Solene e simples ao mesmo tempo, com um certo ar poético. Assim, soltinha, ela manda recado seguro e firme dos úteis aos inúteis — pelo visto, “novas” categorias humanas na maré existencialista que invade de lorotas o cotidiano dos cidadãos.
Em todo caso, inútil que estava enquanto a vida passava, fiquei pensando sobre as delícias da inutilidade, aqueles raros, raríssimos momentos em que alguém consegue não servir para absolutamente nada: sua sugestão não foi aceita no trabalho, e você não precisa correr atrás de providências imediatas; seus filhos marmanjos não têm de ser levados às pressas a algum lugar; o maridão não quer ajuda de qualquer natureza, sente-se plenamente útil; a empregada ponta firme nada pergunta; ninguém da família lhe pediu socorro para pagar uma conta, levar ao médico, comprar uma coisinha que faltou, trocar uma opinião; aos amigos, cuidando que estão de dar utilidade à própria vida, não sobrou tempo para partilhar algo com você; o cachorro, alimentado e estirado num canto, não demonstra carência alguma; o carteiro não pede sua assinatura para entregar a encomenda; os projetos de entidades sociais não precisam da sua colaboração; o sinal da TV está em ordem, a internet não caiu, o computador não deu pau, o telefone toca e não é pra você. O nada lhe solicita. O mundo passa bem sem você.
Oh, o que fazer? Oh…, bate aquela angústia de se ver largada às traças, totalmente inútil. Bate com certeza, oh…, a incerteza sobre ser ou não ser feliz. Você se sente uma minhoca indefinida. Por onde deslizar? Vai caminhar na rua, vai se estirar no sofá com o livro que está ótimo, vai tornar o ócio produtivo buscando novas idéias, ou apenas beliscar na geladeira, curtir um filme, tomar um belo banho, jogar conversa fora, saborear uma taça de vinho e escutar os silêncios? São tantas as alternativas, as possibilidades, a diversidade de opções em meio, oh…, ao problema crucial, que permanece: a vida está passando, rara e deliciosamente inútil!
Autor: Lélia.A - Categoria(s): Crônicas
Tags: Adicionar nova tag, cotidiano, felicidade, mulher de 50, mulheres de 50, ninho vazio, vida
22/06/2009 - 13:14

As mulheres mais velhas andam mais barulhentas…menos encolhidas, menos invisíveis… Ou será só coincidência que na mesma semana a capa da revista Caras mostra as curvas de uma Ana Maria Braga em seus ensolarados 60 e o São Paulo Fashion Week, refúgio nacional das mais belas, ainda que esquálidas criaturas do planeta, elege como homenageada ilustre a ex-manequim dos anos 70, Beth Lagardère, um mulherão sabe-se lá de que idade?
Há alguma coisa nova e fresca no ar, não dá para sentir? Beth Lagardère é mineira, ex-manequim de tempos pioneiros da “haute couture”, desfilava para estilistas assim meio lendários, como Emanuel Ungaro e Jean Paul Gaultier. Casou-se com um bilionário francês, viveu na França em clima de jetset internacional, reuniu um guarda-roupa que é considerado um acervo digno de qualquer museu de moda, ficou viúva, mudou para Marraquesh, trouxe para o SPFW alguns destes belíssimos vestidos que usou na vida, além do sorriso e da mecha branca no cabelão…
E semana passada, aquela Gael Greene, autora de uma das mais famosas colunas sobre gastronomia, cujo título, Insatiable Critic, virou livro, esteve no Brasil no início de junho como convidada do evento Paladar, Comida do Brasil. Ms. Gael, que aparece sempre por trás de grandes chapéus para não ser reconhecida nos restaurantes onde vai, escreveu suas críticas na New York Magazine por 30 anos. Ficou conhecida pelos excessos: de (boas) comidas e de sexo… Foi para cama com alguns daqueles homens que povoam nossos sonhos, Clint Eastwood, por exemplo, e Burt Reynolds (antes da plástica!). Tem 76 anos. Numa entrevista para Ale Blanco, do blog Comidinhas, declarou: “A sensualidade é um grande prazer. Às vezes, você não pode dar mais nenhuma mordida, mas você simplesmente tem que experimentar”. Uma delícia! E, se você lê inglês bem, pode se deliciar ainda mais mergulhando sua colherinha de curiosidade fiftie no livro: Insatiable, tales from a life of delicious excess.
Barulhentas sim, e famintas. Gael Greene, no livro, começa o capítulo dois colocando muitos pontos nos is: “Nasci faminta. Nunca me saciei de atenção, de amor e de manteiga de amendoim”.
30 anos atrás. Eu, estudante, morando na França e de férias com amigos numa prainha bem família na Côte d’Azur. Primeiro dia de sol, chegamos na praia e descobrimos que usar a parte de cima do biquíni nos transformava imediatamente em ETs constrangidos e que a única chance que tínhamos de sumir na multidão era aderir ao topless generalizado do verão francês. E lá estava eu, me afogando em dúvidas existenciais sobre se deveria ou não tirar o sutiã, quando chegou ao alcance da minha aflição uma mulher com um pouco mais do que a minha idade de hoje talvez. Uma senhora, pensei. A “senhora” deslizou até perto da água, pousou a sacola, olhou para longe, como se farejasse o vento e num gesto assim solto, tirou a camisa branca, exibindo os seios. Nunca vi nem antes nem depois seios assim tão sensacionais! Não que fossem de fato perfeitos, nem siliconados eram na época. Mas tinham essa arrogância arrebitada que os seios das mulheres tem quando elas se sentem belas. E se ofereciam ao sol, redondos, tão destemidamente…nus. Passei o resto das férias tentando reproduzir nos meus 20 anos essa tranquila intimidade…
Guardei essa “senhora” durante anos na gaveta das mulheres mais lindas do mundo! Pensando bem, 30 anos depois, deve estar lá ainda…
Veja a foto de Beth Lagardere no Estadão
Visite o site de Gael Greene
Entrevista de Gael Greene no Comidinhas
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Inspiração
Tags: Ana Maria Braga, Beth Lagardere, Bethy Lagardere, Gael Greene, Insatiable, SPFW
21/06/2009 - 19:17

Preparando o almoço é o título que Mishelle Lane, a Secret Agent Mama, deu a esta foto. Mishele não deve nem estar perto dos 50, mas tem essa delicadeza tão feminina quando olha através de suas lentes para o mundo e tira fotos cheias, intensas, das miudezas da vida. É macedonio-americana, tem 4 filhos.
Fiquei imaginando, porque afinal hoje é domingo, que momento tão cheio de possibilidades de risos e intimidades é estar numa cozinha com um homem, o nosso, de preferência, “lidando”, como diria minha avó…Não deve ser à toa que Isabel Allende, no seu livro Afrodite, diz que poucas coisas são tão sexies quanto um homem de avental…
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Fifties em fotos
Tags: almoço de domingo, Mishelle Lane, Secret Agent Mama
18/06/2009 - 14:56
Quando nos encontramos em nossa rotina, nos afazeres habituais, somos levados a acreditar que a vida é sempre a mesma e que nós somos também sempre os mesmos. O calendário a cada mês ganha novas paisagens, os dias ganham novos números e nós olhamos a tudo isto como se as mudanças ficassem restritas ao papel.
Como é difícil alterarmos as imagens com as quais compomos o mundo e a nós mesmos. Do lado de fora, muitas e muitas vezes elas vão se tornando borrões, mas para nossos olhos cansados e medrosos, traços antigos e bem esmaecidos vão sendo conservados, mantendo a ilusão de que tudo está como sempre foi.
Feliz ou infelizmente esta cadeia do mesmo em alguns momentos se rompe e nos põe diante de mudanças impossíveis de serem barradas, contornadas ou evitadas.
Ao completarmos cinqüenta, um pouco antes, um pouco depois, nos encontramos em um destes marcos onde começamos a fazer conta do tempo que já passou, do tempo que está por vir.
Tempo de refazer trajetos, abraçar e abandonar projetos, traçar novos rumos.
A imagem que vemos refletida no espelho não deixa que nos acomodemos na ilusão de permanência, mesmo quando, numa última tentativa, fazemos diante dele expressões familiares a fim de evocarmos nosso eu de sempre. Mas ele não vem. Não pode vir porque não existe mais.
E querem saber de uma coisa? Se conseguirmos passar os primeiros momentos de horror – sim, porque nos perdermos de nós mesmos é daquelas experiências aterrorizantes –, a sensação é de libertação!
É verdade, sim. Livramos-nos da roupa apertada que usamos ao longo de nossas vidas e passamos a poder usar uma outra, muito mais folgada e confortável.
E isto acontece assim, aos poucos.
A cada vez que traímos aqueles que amamos. A cada vez que os ferimos fundo, acertando em cheio o coração.
A cada vez que fazemos algo que na inocência de nossa juventude juramos nunca fazer.
A cada vez que não somos leais aos nossos sagrados princípios.
A cada vez que mentimos e não pudemos sustentar nossas verdades.
A cada vez que nos descobrimos em primeiro lugar, sem nos preocuparmos com quem vinha atrás.
A cada vez que odiamos, desdenhamos, invejamos, sacaneamos, desejamos acima de qualquer restrição.
A cada vez que nos flagramos assim, a voz que dizia em alto e bom som, cheia de orgulho, “Eu sou assim”, vai preferindo calar. E o silêncio passa a abrigar nosso espanto de nos vermos outro — aquele que se gestava nas sombras de nosso ser, que acreditávamos tão transparente.
É assim que a trama da vida ganha densidade. Mas paradoxalmente é assim que a trama da vida, com seus complexos desenhos, ganha a leveza que a liberdade traz. Ganhamos jogo de cintura, abandonamos o refúgio dos preconceitos. Corremos a céu aberto, temendo agora muito pouco.
Sabemos do que somos capazes, sabemos que temos limite.
Confiamos agora muito mais em nós. E somos também muito mais confiáveis para aqueles que convivem conosco. Afinal é a partir deste momento que podemos ser leais a nós e aos outros, porque sabemos que somos humanos e que, portanto, em algum momento podemos ser surpreendidos por situações que tripudiem nosso desejo de lealdade.
Sabemos que a verdade é inatingível, não porque não somos sinceros, mas porque sempre há o que dela escapa e não se revela. Até para nós mesmos.
Reter a vida, permitindo que ela se expressasse apenas parcialmente nos custava muito trabalho, demandava muita energia. Aos cinqüenta podemos acolher a vida por inteiro. Aos cinqüenta, os scripts foram com o vento e o que fica são rumos despretensiosos. Aos cinqüenta, nos tornamos humanos, mortais e livres para viver.
Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Inspiração
Tags: 50 anos, autoconhecimento, maturidade, mudança
18/06/2009 - 14:55
É assim, franca, inevitável e livremente, que a gente entra nos cinqüenta. Um pouco antes, não esperava nem me identificava com as mudanças anunciadas para essa fase da vida. Era tudo coisa da mídia… Mas elas chegam, sim. Mais que as mudanças físicas, a atenção, as idéias, os interesses parecem pousar em terrenos antes nunca visitados.
A idéia de morte, por exemplo, começa a caber no seu universo, impõe-se. E dela se aproximam questões antes insignificantes, como se considerar ou não uma pessoa feliz, ter ou não ter uma crença a respeito das coisas, do homem, do universo.
Eu nasci em uma família católica, mas Deus só esteve presente na minha mente como forma de justificar a escolha do vestido tubinho com o qual eu iria à missa – para encontrar os amigos, nada a ver com experiências menos concretas. E de repente me interessam as lendas e mitos, a história das religiões, as psicologias, as reflexões filosóficas, a história da história – o velho com novo olhar.
Então me deparo com discursos sobre o mundo que se dessacralizou, adoeceu e por isso precisa se sacralizar novamente. Sobre um ser humano que teria sido íntegro na sua relação com a natureza e o cosmos, e que depois, moderno, teve essa identidade desfacelada – para a felicidade das várias correntes de terapeutas que desde então tentam ajudar as pessoas a entender essa história dentro de si.
Diante de tal cenário, apenas consigo pressentir coisas, porque não sou “doutora” , dona de nenhum tema, nem de mim mesma. Primeiro pressinto que se esses assuntos me interessam mais é porque posso estar ficando mesmo velha. Segundo, minha antena biopsicossocial me diz que quando um tema começa a aparecer muito é porque posso estar caindo em mais alguma tolice destes tempos saturados de (des) informações. Por último, combato as inquietações anteriores com a sensação real de que tudo no mundo passa, inclusive eu, e nada se pode fazer a respeito, felizmente.
Creio que por isso o mundo é ótimo como é, nos seus altos e baixos. Não dá para reviver o passado, sermos hoje os homens de ontem, idealizando vivências. Podemos apenas ser diferentes, talvez melhores, quem sabe piores. Em outras e mais cotidianas palavras, o filho herdeiro dos meus joanetes e o outro que pegou de jeito meu jeito distraído de ser terão de se haver com essas heranças de uma forma original, só deles. Coisas de e da criação…
Autor: Lélia.A - Categoria(s): Crônicas
Tags: 50 anos, cinquenta, maturidade, mulher
16/06/2009 - 07:00
Estávamos cansadas de não ter o que ler na web! Nada parecia ter muito a ver conosco: pílula e infertilidade? Medo da maternidade? Qual é o meu estilo? Como escolher a babá? O eixo das nossas perguntas vem se deslocando há alguns anos: nossos filhos ou já saíram ou estão saindo de casa. Não temos mais dúvidas vocacionais e já conciliamos, do jeito que deu, família e trabalho. E agora, Maria? Agora, meu bem, é daqui prá frente! Pode vir conosco se quiser…
Imagem do dia: na lama, ou as coisas que você só vê quando olha bem de perto!

Mishelle Lane é fotógrafa, apaixonada por aquelas coisas miúdas do cotidiano que tantas e tantas vezes a gente nem vê. Nesta foto, ela estava agachada no chão, com a lente focada na terra, tentando ver as coisas de um jeito diferente. Seu blog, Secret Agent Mama – não é um nome sensacional? — ganhou vários prêmios de melhor blog de fotos da web, incluindo o Ninth Weblog Award, em 2009. Pode se deliciar!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Crônicas
Tags: família, filhos, Mishelle Lane, mulheres de 50, Secret Agent Mama
Voltar ao topo