iG
iBest BrTurbo
05/02/2010 - 22:42

Tempos modernos

IMG_2058

Por Tanya Volpe

Voltei.

De malas prontas, listas feitas, endereços conferidos, fui para Paris. Rever alguns lugares, descobrir outros. Aqui você compartilha das minhas impressões

Há alguns anos, fui jantar no Ze Kitchen Galerie de William Ledeuil. Minhas lembranças não eram especialmente boas, mas as críticas vindas de críticos dos mais variados estilos, sempre foram elogiosas.

Ledeuil, está no mercado há anos, trabalhou com Guy Savoy, um chef 3 estrelas muito competente, antes de abrir esta sua primeira casa.

O Ze Kitchen Galerie já tem até um desdobramento, no final 2009, Ledeuil abriu o KGB, Kitchen Galerie Bis, uma versão mais ‘jovial’ e simplificada do original. Todas as críticas novamente foram super favoráveis.

E mais, a revista Gault Millau nomeou Ledeuil como ‘chef do ano 2010′ e ele também foi o ganhador de honra , em 2009, do Prêmio Fooding .

Por tudo isso desejei retornar e reavaliar a comida desse chef que não tinha me deixado “grandes recordações”. Escolhi a novidade , o KGB.

Convenci meus amigos de que devíamos ir, que tínhamos de conhecer.

IMG_2224

Nossa mesa nos esperava conforme a reserva.

As salas do restaurante tem um ar moderno, com paredes pintadas de diferentes cores, e, acho que para fazer jus ao nome (galerie), ‘obras de arte’ , de gosto duvidoso, penduradas nas paredes. Devo dizer que isso é uma constante em diversas outras casas, que, querendo fugir do clássico, “erram a mão” no moderno. No salão, sem nenhum tratamento acústico, o barulho era absurdo!

IMG_2225

O garçon solícito e simpático, nos apresentou a carta fazendo um discurso extenso e de difícil entendimento. O que deu para entender:  podíamos montar a refeição de várias maneiras. Os detalhes dos ‘pratos do dia’, esses se perdiam em meio à prolixidade do garçon e ao barulho da sala.

Olhávamos a carta meio atordoados , quando ele interrompeu o discurso e perguntou de onde éramos. Ao saber disse – Oh poixsss então podemos falar em português! Explicou-nos novamente as possibilidades da carta , agora na nossa língua materna, e, confesso que nossas dúvidas persistiram ( acho horrível esse tipo de lugar que faz você se sentir “inadequado”, burro…).

Tentamos fazer nossos pedidos. Evidentemente “errados” à principio, até chegarmos em um consenso.

IMG_2230

Então os pratos começaram a chegar. Amigos escolheram as cinco possibilidades de “zhors d’oeuvres ” e eu e uma amiga ficamos com as entradas de massas. A dela, com “foie gras” e “canard”, a minha, com camarão.

IMG_2229

Os pratos foram apresentados lindamente, em louças ainda mais lindas Bernardaud. Mas, o barulho era tanto que desanimava a conversa. Restamos quase quietos na frente das nossas “iguarias’ .

IMG_2227

Ledeuil é um chef competente, com uma formação bem consistente, o que se evidencia na alma, no cerne das receitas. Todos os produtos são fresquíssimos e cozidos no ponto perfeito. E, no primeiro momento, você consegue se surpreender com o sabor do capim-limão, do manjericão, da erva-doce, da pimenta sutil, mas, com personalidade.

IMG_2231

O encanto desses sabores “exóticos” dos primeiros pratos vai se perdendo ao longo do jantar: eles se repetem em toda a sequência. Tanto faz que eu tenha pedido, “agneau de lait”, minha amiga salmão e meu amigo o peixe do dia, um “turbot”. As cores e os legumes podiam variar, mas as indefectíveis espumas estavam em todo lugar e as ervas “thai” também.Você se lembrava da deliciosa sopinha de agrião da entrada, comendo, o foie gras, o carneiro ou o salmão…

IMG_2232

Curiosos tempos modernos esses nossos.

De fato, existe ali uma “fórmula”, um cardápio sucinto, com ênfase (esperada) nos “produtos do marché” (que existe desde sempre nas casas das nossas avós e, desde os anos 60, pós-nouvelle cuisine, nos restaurantes ).

A fórmula deve ser economicamente bem rentável.

Então me pergunto. Cozinheiro do ano é aquele que inventa, que inova, na cozinha ou no “negócio” ?

Sei lá.

P1000768

Pedimos duas sobremesa para os quatro da mesa. Uma com banana e outra com marmelo. A emoção quase já tinha ido dormir….!

P1000769

Só sei que ao pedirmos a conta, nada amigável, ainda mais levando-se em conta as situações “adversas”, nos levantamos para sair. Ao recebermos nossos casacos e manteaux , uma surpresa. Eles estavam bem quentinhos pois haviam sido conservados em um estufa, durante nossa permanência no restaurante, para, segundo o maître, nos fazer prolongar na fria noite desse inverno ultra rigoroso os prazeres que vivenciamos ali (ou… que deveríamos ter vivenciado!).

Confesso, adorei essa delicadeza, de extrema simpatia!

Paris je t’aime aussi!

* agradecimentos a Valentina Soares pelas fotos das sobremesas

KGB – Kitchen Galerie Bis
25 rue des Grands Augustins 6 eme
tel 01 46 33 00 85
metro St Michel
Exibir mapa ampliado

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags:
04/02/2010 - 19:21

As noivas de Cordeiro

Noivas de Cordeiro

Por_ Lélia A.

Peguei esta história emprestada de uma amiga jornalista, a repórter especial Fernanda Cirenza, que fez bela reportagem em Marie Claire. Quem perdeu o original saboroso pode ter aqui um gostinho resumido da curiosa saga que tem como centro um excêntrico casarão, instalado no fim do município de Belo Vale, em Minas Gerais. Cercado de poucas dezenas de casas, dali se origina Noiva de Cordeiro, uma comunidade rural formada por cerca de 300 mulheres, que brotou de falação, preconceito e difamação. No lugarejo, são elas que pegam no cabo da enxada para arar a terra, ordenham as vacas, alimentam os porcos, tecem tapetes, costuram colchas, desenham lingeries e ainda cuidam das crianças.

Elas se juntaram para não morrer de fome e solidão. Seus homens partiram para Belo Horizonte, distante 100 km, em busca de trabalho e renda. Todo final de semana, eles voltam para rever as famílias. Entre chegadas e despedidas, o casarão, que já era mal falado, acumulou a reputação de reduto de prostitutas. As “noivas” de Cordeiro dizem já ter sido desprezadas até em velório. Pura inveja, outros comentam, porque elas são bonitas e jovens. A maioria tem entre 20 e 35 anos.

Os comentários maldosos seriam herança de um passado conturbado, marcado por um adultério cometido por amor e, mais tarde, pelo rompimento definitivo com os dogmas de doutrinas religiosas. Na comunidade, a maior fé está no crescimento do povoado para, um dia, os homens não precisarem mais sair do casarão.

Sexta-feira, Noiva de Cordeiro é só euforia. A qualquer momento os homens chegam. Num quarto do casarão, as mulheres disputam secador, cremes, maquiagens. Umas se ressentem da pouca convivência com os maridos. Acham que falta aquela coisa do dia-a-dia que outras chamam de problema: homem dentro de casa.

Elas dividem tudo, se ajudam. É uma vantagem da vida em Noiva de Cordeiro. Se um não tem, alguém empresta, dá, faz alguma coisa. Mas tem desvantagens. Dormir no mesmo quarto que o filho. Esperar a criança dormir para namorar. Os 14 quartos do casarão acomodam 46 pessoas. Os dois únicos banheiros, que ficam lado a lado, são coletivos.

Não fosse uma TV adquirida coletivamente e um orelhão comunitário, Noiva do Cordeiro estaria quase totalmente isolada do mundo. No lugarejo, não tem como comprar jornais ou revistas, não existe internet e os celulares não pegam. São outras as emoções que marcam o cotidiano das mulheres: acolhimento, solidariedade, orgulho e até lágrimas compartilhadas na hora colheita.

Delina Fernandes Pereira, 65 anos, viúva e mãe de 15 filhos, é a matriarca da comunidade, rege o comportamento dos moradores com sua filosofia: todos são por um, e um é por todos. Dona do casarão, é a herdeira da história do povoado. Conta que o lugar começou a ser caluniado por causa de um romance. Sua avó largou o marido para viver com outro.

No final do século 19, o amor foi duramente reprovado. A vizinhança pressionou a igreja, que excomungou o casal e toda a família que estava por vir por quatro gerações. Mesmo diante da condenação, o casal construiu o casarão, onde criou doze filhos. Um deles, Delina, se casou décadas depois com um pastor evangélico que pregava o amor e a união entre as pessoas. Movida por esse ensinamento, ela continuou, depois da morte do marido, a reunir as pessoas em torno do casarão, mas sem dogmas e sacramentos.

A sociedade de Noiva do Cordeiro vem crescendo. Além da lavoura, as mulheres montaram uma fábrica de lingeries, colchas e tapetes, vendidos em uma loja alugada em Belo Horizonte. Quando chega o momento de colher as plantações, elas param as máquinas e vão para a roça. Querem aumentar a lavoura para vender os alimentos excedentes e fazer da pequena fábrica de tecidos uma grande oficina rentável. O casarão vai continuar lá e, se depender do sonho das noivas do Cordeiro, um dia ele vai virar um hotel cheio de histórias.

Para saber mais sobre a comunidade: www.noivadocordeiro.com.br

Para visitar o local:

Rua Maria Senhorinha de Lima, n° 5
Caixa Postal 18, Noiva do Cordeiro
Belo Vale – MG
CEP: 35473-000.
Telefone: +55 31 3734-1550
E-mail: atendimento@noivadocordeiro.com.br

Autor: Lélia.A - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , , ,
02/02/2010 - 11:10

Cabelos brancos rebeldes

Pixie Geldof no British Award 2009/Catwalk Queen

 

Tinha 45 quando decidi deixar meus cabelos brancos, isso exatamente há 11 anos! O cúmulo da ‘coisa feia’, os cabelos brancos estavam associados às  mulheres mal-amadas, velhas, bruxas e outros seres femininos medonhos. Escrevi um dos meus primeiros posts no Toques de Alma, o blog que ainda hoje tenho no iG, sobre esse súbito mergulho na transgressão capilar e os meses de perplexidades que se seguiram: minha mãe deixou de falar comigo (ela tem quase 90 anos de uma vaidade feminina feita de elegância rigorosa e cheia de compostura, o que inclui pintar religiosamente os cabelos todos os meses!), precisei mudar de cabeleireiro, queria cabelos brancos ‘maluquinhos’, eu dizia, ‘credo, vai parecer uma velha’, era o que eu ouvia, ou ‘vão achar que você é a avó do seu marido’… passei a máquina 4 no velho acaju, me olhei no espelho e, pela primeira vez na vida, me achei bonita!

Percebi que tinha entrado numa espécie de ‘fraternidade’, mulheres me paravam na rua ‘queria tanto ter coragem de fazer isso’, ‘onde você corta seu cabelo?’, ‘como você fez para deixar sem pintar?’ e, eventualmente, se cruzava com alguma ‘companheira’ de cabelos “pimenta e sal”, havia uma troca de olhares, um reconhecimento, um fundinho de sorriso, fifties de um pouco antes ou um pouco depois, irmãs na rebeldia…

Por isso, hoje estou achando graça de ver tantas meninas muito muito jovens exibindo suas cabeleiras muito muito brancas, à custo e à força.

“Cabelos brancos são o novo preto”, diz a reportagem no site Stylelist, a propósito dos desfiles de primavera de estilistas como Proenza Schouler, Giles Deacon e, pelo lado mais bem-humorado, Chanel , que trouxe para as passarelas modelos com rabos de cavalo de duas cores, impensáveis para mulheres comuns, talvez, mas divertidos.
Isso sem falar de celebridades precoces, que de repente, resolvem assumir  um estilo que de ‘avó’ talvez só tenha mesmo a cor. É o caso de Pixie Geldof , it girl britânica, filha do cantor e ativista político Bob Geldof, da cantora Pink que arrumou os cabelos num coque branco cor de neve para comparecer à entrega do Grammy e de uma gracinha de blogueira fashion de 13 anos, Tavi Gevinson, que posou para um foto com Karl Lagerfeld, ele de cabelos branco- prateado, ela de branco-azulado!!! (Aliás, vale a pena dar uma olhada no blog da menina, Style Rockie).

E, claro, Kate Moss, que foi ao lançamento de sua coleção de acessórios Longchamps, exibindo mechas acinzentadas, que fariam um estilo beeeemmmm ‘bruxa desgrenhada’ de histórias de fada, não fosse ela tão linda!

Kate-Moss no lançamento de sua coleção para a Longchamps

Modinha, é certo! E deve durar o tempo de uma primavera. Mas não faz um bem danado poder brincar de arco-íris na cabeça?

OK, nós fifties temos que tomar alguns cuidados:

- mulheres de pele mais azeitonada precisam tomar cuidado, se o cabelo não estiver mais para sal do que para pimenta elas podem ficar abatidas:

- o corte é fundamental, tem que aprender a jogar com a alegria e a descontração, cortes ‘caretas’ vão deixar você com cara de bisavó;

- cuidados adicionais também fazem diferença, já que os cabelos brancos, apesar de muitíssimo mais brilhantes do que os cabelos tingidos, podem ressecar, hidratação e banhos de creme só fazem bem;

- contrastes, quanto mais dramáticos melhor, se você for a dona de uma cabeleira grisalha com mechas bem brancas perto da testa num fundo mais cinzento, que sorte! Brinque com as franjas…

- por outro lado, seguindo a tendência inaugurada pelas meninas pinks e pixies, se seu cabelo for bem branquinho, dá até para pensar em deixá-lo longo e selvagem, como os da cantora country americana Emmylou Harris;

- tornar-se grisalha é adotar um jeito novo de ser: mudam os cabelos, muda a maquiagem, as roupas, vale experimentar até encontrar as cores e o estilo que vão combinar melhor com os tons de cinza do seu cabelo.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , ,
02/02/2010 - 10:02

Cabelos brancos e histórias da Velha

Não que tenha sido uma decisão fácil. Não foi não. Mas ia virando uma urgência assim, aos pouquinhos. E então, num dia 31 de dezembro tornou-se minha mais importante resolução de Ano-Novo: deixar os cabelos brancos. E deixei.

Achei que era uma coisa minha, mas aqui e ali fui encontrando companheiras de ousadia. E percebi que, no fundo, os cabelos brancos eram uma provocação. E são, até hoje. Tive certeza disso no outro dia, quando encontrei no cabeleireiro uma “colega” que, ainda mais ousada, tinha deixado crescer seus cabelos à moda de Gisele Bündchen e me dizia: “não tem um lugar aonde eu vá que as mulheres não discutam se eu devia ou não ter parado de pintar os cabelos, se eu parecia ou não envelhecida, se estava ou não mais bonita ou mais feia. É engraçado, faz as pessoas se refletirem, como se estivessem diante de um espelho, mas eu adoro”, ela ria balançando suas madeixas cor de pérola.

Como foi que uma coisa aparentemente tão simples como pintar os cabelos ficou tão complicada, tão cheia de significados mais ou menos explícitos?

A forma como vemos nosso corpo está impregnada de fantasias, de desejos, de sonhos. E o corpo das mulheres desde sempre foi vestido de tabus e de preconceitos, talvez refletindo o mistério que se encenava em seu interior. O fato é que hoje, talvez até mais do que em qualquer outro momento, mulher é igual a mulher jovem, e ponto. Estamos tão acostumados a rimar mulher com juventude que é quase impossível imaginar outras belezas, outros jeitos.

O que será que assusta tanto na imagem da mulher velha? A resposta mais óbvia seria: o medo da morte. Por trás do cabelo branco, das rugas, das marcas da vida, se esconde o pavor do final. Parece lógico. Mas, homens de cabelo branco — e se tiverem barbas brancas ainda melhor – evocam imagens de sábios. Que imagens estão por trás da figura da Anciã, da Velha? Era uma vez uma época em que as mulheres velhas eram poderosas. Quer ouvir essa história?

Então vou pegar o livro A Velha, de Bárbara G. Walker e contar para você. A Velha era parte de uma trindade feminina que incluía a Virgem, a Mãe e a Anciã. Ou, nas palavras de Bárbara Walker: a Criadora, a Preservadora e a Destruidora. Para nossos longínquos antepassados o universo era o filhote sempre renovado de uma superdivindade feminina primordial, a Grande-Mãe, ao mesmo tempo senhora da vida e da morte. Todas as intuições primitivas sobre o ser feminino estavam contidas dentro dela. Com o tempo, essas imagens foram ganhando autonomia, dividindo-se ou desdobrando-se. As deusas Hebe, Hera e Hecate, da Grécia, por exemplo, eram, provavelmente, rostos diferentes de uma só divindade, que explodiu em algum momento da história em milhares de fragmentos. Hebe seria lembrada como a personificação da juventude e Hera, permaneceria para sempre a esposa de Zeus e senhora do Olimpo. Mas Hécate continuaria a personificar o desconhecido, eternamente ligada ao mundo das sombras, tão poderosa que o próprio Zeus não mexia com ela.

Tão antiga é a figura de Hécate que em outras versões do seu mito ela aparece associada com Ártemis, a deusa-donzela que domestica as forças selvagens da natureza e com Selene, a deusa-mulher da Lua. Os homens recorriam à Hécate para pedir graças, como riquezas e vitórias. Dizia-se que era ela que tornava os peixes abundantes ou fazia o gado definhar e morrer. Hécate é a senhora das artes mágicas e aparece aos magos e feiticeiras com um archote na mão ou como animal. Ainda mais interessante: seu reino é nas encruzilhadas, os lugares onde os mundos se encontram e onde se abrem os portais que permitem aos seres humanos passar de um lado para outro. Hécate guarda em si mesma a antiga trindade feminina e surge como uma mulher com três cabeças ou três corpos.

Talvez a Velha seja uma filha natural de Hécate, incrustada na nossa memória. Lembrança de um tempo em que vivíamos em maior harmonia com os ciclos da Natureza e a morte era uma aventura, cheia de mistérios. A Anciã traz a morte dentro de si e é a rainha absoluta da escuridão e do mistério. É ela que espera, no final da linha, para acolher tudo que vive em seu útero. E nessa escuridão úmida, ela recicla sem descanso nem tristeza o Universo.

Segundo Bárbara Walker, a Velha era o mais temido aspecto da trindade feminina e o mais poderoso. Nas sociedades pré-cristãs, as mulheres velhas eram encarregadas de infindáveis rituais religiosos, eram parteiras, médicas, curandeiras e possuíam o conhecimento acumulado que as tornava mestras em assuntos tão variados como o cuidado dos bebês e a forma correta de preparar os que iam morrer. De fato, ao longo da história, se a medicina era assunto dos homens, o cuidado dos doentes, das mulheres que iam dar a luz e das crianças, tradicionalmente era uma tarefa feminina, mais ainda, tarefa das “mulheres mais velhas”, coisa de avó. E é a Avó que nos pega pela mão e nos faz ver um outro lado da Velha terrível, amiga da morte: a Velha sábia e grande contadora de histórias. Bárbara Walker conta que a palavra “saga”, que originalmente se referia às canções nórdicas que relatavam assuntos lendários, literalmente quer dizer “aquela que fala” ou “a sábia”. As sagas da Escandinávia eram histórias sagradas que foram preservadas porque as sagas ou velhas sábias sabiam escrever em runas. Os homens nórdicos, aparentemente, estavam sempre tão ocupados com as guerras que, em geral, eram analfabetos. Curiosamente, em latim, a palavra “saga”, acabou virando sinônimo de bruxa ou feiticeira.

Criadora, destruidora, sábia, bruxa, as histórias da Velha são incontáveis e, você sabe, não precisam ter acontecido “de verdade” para “ser verdade”. Como outros tantos símbolos, imagens assim moram dentro de nós. Resta descobri-las e, quem sabe, conversar com elas de vez em quando.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , , ,
05/01/2010 - 22:54

O perigo de uma única versão

 

Por Regina Amaral

Chimamanda Ngozi Adichie, escritora africana, nascida em 1977.

Ela é jovem, muito jovem.

Mas fala do lugar de alguém que viveu tudo.

Não pessoalmente. Porque, na verdade, não tem idade para ter vivido a guerra sobre a qual escreve. Mas talvez a tenha conhecido por trazê-la impressa em seu DNA, ou através das historias que ouvia da boca dos adultos que a viveram na carne e nos ossos. E profundamente em seus corações.

Meio sol amarelo livro por ela escrito conta uma história dura e sangrenta, sem que a autora tome partido de um lado ou do outro nela envolvido. Ao contrário, constrói sua narrativa buscando retratar todos os lados desta guerra tribal travada entre as etnias tutsis e hutus na região da Nigéria e  Biafra.

Acho que é um dos livros mais tristes que já li, talvez porque o relato dos acontecimentos seja feito de maneira encarnada, apoiado em vidas e experiências reais extremamente dolorosas. Mas o que mais nos toca é ver que, em meio a situações extremas de violência e animalidade, a dignidade dos personagens é mantida, bem como seus projetos e sonhos.

Talvez a mesma dignidade que se percebe nesta jovem autora ao assistirmos o vídeo acima. Ele não é especificamente sobre seu livro Meio sol amarelo. Na verdade, ela nem o cita. Entretanto, versa sobre sua maneira de fazer um giro de 360 graus sobre o que vê, suportando as diversas facetas do visto, sem buscar simplificá-lo, recortando-o e fazendo desaparecer as perspectivas dissonantes. 

Não é fácil o que ela nos propõe. Demanda de quem vê a coragem de aceitar o humano de maneira integral e por isto não tomar partido.

Demanda a sabedoria de reconhecer que todas as histórias são feitas de muitas verdades, e se uma delas se sobrepõe é porque está sendo proferida por alguém que, pelo menos momentaneamente, está num lugar de maior poder. Dizendo sobre isto ela nos convida a rir, quando nos conta que ela, escritora negra, só criava personagens loiros e de olhos azuis.

Nos alerta para o fato de que se alguma coisa for dita inúmeras vezes, ela se tornará verdade e as outras perspectivas sobre o mesmo fato se apagarão.

Reproduzo aqui suas palavras porque há nelas poesia e convicção:

“Uma historia cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentiras, mas que eles são incompletos. Eles fazem uma historia tornar-se a única historia. Como conseqüência, esta historia acabará por roubar a dignidade das pessoas e dificultar o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada, enfatizando como as pessoas são diferentes, ao invés de como são semelhantes.”

Talvez nós de cinqüenta, um pouco mais, um pouco menos, tenhamos mais possibilidade de conquistar o que nos diz esta jovem e rara mulher. Afinal vivemos mais e, por isto mesmo, sabemos da necessidade de nos desapegar das verdades simplistas e apaziguadoras.

A vida é rica, suas tramas são tecidas por inúmeros fios, seus nós não são fáceis de serem desfeitos. Sustentar esta riqueza não é tarefa pequena, mas talvez seja o destino de nós humanos.

Como diz ainda Chimamanda: “Quando rejeitamos uma única historia, quando percebemos que nunca há apenas uma historia sobre alguém ou algum lugar, nós reconquistamos uma espécie de paraíso.”

Que neste ano que agora se inicia nós possamos ter tempo suficiente para refletir sobre as inúmeras versões da vida, e que principalmente, sejamos capazes de sustentá-las como um leque aberto, resistindo à tentação de fechá-lo, cientes de que assim estaremos honrando a grandeza e a riqueza da vida que compartilhamos.

___________________________________________________________

Regina Amaral é psicanalista, trabalha com palavras e ama o silêncio. É autora do livro Aprendendo a dançar (Entre a forma e o devir), da editora Anna Blume

O vídeo faz parte do acervo do site da TED, Ideas Worth Spreading, e foi utilizado sob licença de Creative Commons

Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , ,
04/01/2010 - 12:20

Até já!

foto1

Em janeiro estarei olhando por esta janela, procurando coisas para compartilhar com vocês.

Já, já volto!

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , ,
29/12/2009 - 23:05

Ano novo à moda do Fifties

Happy-New-Year_Steve-Jurvetson

Por Re A.

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1
Feliz ano novo!
Nós de cinquenta, um pouco mais, um pouco menos, já acompanhamos esta contagem regressiva no mínimo 50 vezes.
Já brindamos nas praias, pulando sete ondas.
Já brindamos na cama, entre duas taças e muitos beijos.
Já brindamos na neve, cheias de casacos e de abraços. No meio da rua lotada de gente. Em barracas no meio da chuva, em tendas armadas em desertos distantes.
E agora, mais uma vez, nos preparamos para brindar a chegada de mais um ano.
Talvez sem tantos planos, talvez sem plano nenhum.
Sem acender velas e sem rezas aos santos.
Sem fitas vermelhas, calcinhas cor de rosa.
Sem salada de lentilhas ou grãos de romã.
Sem fazer questão de festa, de fogos, de mar, de gente.
As mãos livres e soltas, entregues ao vento.
À espera.
De bons encontros.
De sonhos fáceis, feitos de coisas miúdas.
De gente amada por perto.
De conciliações.
De dias ensolarados.
De arco-íris em fins de tarde.
De abraços que não amarrem.
De banhos longos e quentes.
De muita risada.
De vida nova garantindo eternidade.
Que o ano novo que chega nos engravide de chão, de alegria, de estrelas, de beija-flor agitando o coração.
Que ele nos beije na boca. E que seu gosto seja doce.
Amém.

______________________________________________________________

Rê  A. é psicanalista e antena para detectar singularidades e capturar os sentimentos dos humanos. Filosofia: Se a vida é uma montanha-russa,  há que se aceitar as oscilações com espírito aberto

______________________________________________________________

A foto é do portfolio de Steve Jurvetson, sob licença de Creative Commons do Flickr e o título é Happy New Year, evidente… Pesquisando para dar o crédito correto — e para conhecer melhor os autores das fotos do Commons que ilustram tão lindamente nossos posts — descubro que Steve Jurvetson é um californiano muito muito jovem, que estava, aliás, entre os 40 jovens mais influentes do mundo segundo a revista Fortune, que já foi capa da Wire, da Fast Company e que é uma espécie de gênio da nanotecnologia, da eletrônica molecular (seja lá o que isto for) e das formas ‘limpas’ de energia. Imaginem que belo ‘fiftie’, ele não será um dia? Porque essa foto, é de uma alma velha e sábia, não tenho dúvidas…

Autor: re.i@ig.com.br - Categoria(s): Inspiração Tags: , ,
23/12/2009 - 14:03

Voltando para casa

Flying de Alberto P Veiga

Se um dia, por preguiça, cansaço ou falta de brio me faltar o espírito de Natal, sei bem onde vou buscá-lo. É lá no terminal de chegadas do aeroporto que ele fica zanzando tenho certeza, ao menos agora, antes do Natal, que no resto do ano talvez um espírito assim fugidio durma sua inconveniente presença no cotidiano afobado das gentes.

Qualquer aeroporto serve, basta que saiam em ondas por aquela porta automática homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, de todas os jeitos, tamanhos e coloridos que tenham passado  as últimas horas suspensos no ar tentando voltar para casa, porque é Natal, afinal!

Basta que existam os abraços. Basta que a mala perdida, a nevasca, os atrasos, a espera, as prestações, o esforço, o cansaço, sejam só assuntos para quando a gente chegar em casa, porque é Natal e é para casa que estamos indo…

Basta que exista esse vínculo, ‘deixa eu ver se você está com a carinha boa’, ‘pára, mãe!’, ´humm, não anda comendo direito, né?’, esse chamamento imperioso para além do desejo, da vontade ou da sensatez, que nos faz pegar a mala e partir, porque é Natal, e Natal a gente passa junto de quem ama, em casa…

Num certo dia 22 de dezembro, eu voltava dos Estados Unidos com três dos meus filhos, pequeninos, impacientes, ‘agora, apertem os cintos’, ‘fiquem olhando para ver quando nossa casa aparece lá embaixo’, o resto da família no terminal, esperando…voávamos, carregados pela saudade… tentando voltar para casa. Nunca vi um vôo como aquele, avião com jeito de vagão de metrô, lotado de gente tão diferente, nada a ver com os turistas de hábito, nada de máquinas fotográficas que é para casa que a gente volta e a gente conhece nossa casa de cor. Conhecer de cor é, etimologicamente falando, conhecer com o coração, as palavras surpreendem, parece que adivinham…

Que vôo estranho! Lá pelas tantas, estavam todos os passageiros uns já de pé, conversando, animados, contando das lonjuras, do exílio, da família, do Natal, das esperas, da vida, velhos amigos de todas as cores, compartilhando dessa intimidade abusada que nasce naquelas situações de fronteira, quando a vida abre um parênteses, quando a gente de fato comunga da nossa humanidade…amanhã ninguém sabe, nem Deus, que às vezes se distrai, a gente entende e perdoa, mas hoje o coração transborda de saudade, inunda tudo, lambuza o outro de um amor ampliado, amor à flor da pele, de novo as palavras adivinhas, flor, pele;  ‘mãe é a nossa casa lá embaixo agora?’, ‘todas as casas hoje parecem nossas, filho’; hoje, que estamos todos voltando para casa!

E quem se importa se o bacalhau ficou salgado, se o tio bebeu demais, se as primas sempre brigam; nem faz mal que tudo pareça excessivo, teatral, careta. Chegar em casa é afirmar nosso pertencimento, é expressar nossa fé numa felicidade que passa bem longe dos pacotes de presentes e dos shoppings lotados, feita de laços, de vínculos, de afetos…

A casa é o colo da nossa alma. É para lá que a gente volta. É para lá que deve estar indo agora mesmo o espírito de Natal.

_____________________________________________________________________________________

A foto, com ocomentário, ‘nunca deixo de me encantar com a beleza de voar’, é de Alberto P. Veiga, do Flickr

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Inspiração Tags:
18/12/2009 - 16:52

Meu elo perdido com Julia Child

Les Recettes Secretes des Meilleurs Restaurants de France

“As Receitas Secretas dos Melhores Restaurantes da França” foi um dos meus primeiros livros de culinária. Foi publicado em 1972, e a minha edição é a oitava de 1985. A particularidade desse livro é que a autora pesquisou nos restaurantes estrelados do Michelin, nos anos 1969,70 e 71, período glamuroso e muito importante para a cozinha francesa. Foi nessa época, por exemplo, que apareceu a “nouvelle cuisine”.

Usei o livro como um guia “turístico”. Eu percorria a França toda por meio de receitas de grandes chefs e artesãos, recheadas de preparações clássicas e de “terroir. Alguns pratos foram escolhidos de cada casa, e efetivamente segredos e sutilezas eram revelados, de uma maneira meio confusa, mas bem detalhada. Detalhes que facilitavam a minha “ iniciação”.

Todos os nomes de pratos pomposos estavam explicados ali. Qualquer página que eu abrisse, encontrava um: “Demoiselles de Cherbourg aux Fines Herbes”, que quer dizer, lagosta com molho de manteiga e ervas; “Capilotade de Poulet Paysanne” , frango assado com ervas e alho; ou Gigot Casimir Moisson, com o que eu aprendi que o tal Casimir foi um maître-cuisiner, dos Alpes Baixos, muito importante na Belle Epoque…

Foi um curso completo de cozinha francesa que eu consegui com essa obra. As receitas me assinalavam caminhos por onde eu devia seguir nas minhas pesquisas. O Larousse Gastronomique, adquirido logo depois, completava o caminho, e, mais, me ajudava a decifrar os capítulos do primeiro,que não seguem uma lógica perceptível , são cheios de subitens, peixes de mar, peixes de água doce, mariscos, frutos do mar. A parte das carnes é uma confusão de patos, marrecos, pombos, passarinhos e por aí vai.

Larousse Gastronomique

Para compensar, a publicação traz um glossário, além de receitas de fundo, básicas, como massas, molhos e cremes, que me ajudaram muito. Até hoje confiro ali algumas quantidades (de ovos, açúcar, leite e creme de leite, por exemplo) para fazer um creme inglês ou um patissière.

Outro livro dessa época foi o Sabor da França, que tem edição em português da Editora Salamandra. Fotos  maravilhosas de Robert Freson e textos de grandes pesquisadores como Alan Davidson (autor do Oxford Companion of Food ), Anne Willan ou Richard Olney. As receitas foram pesquisadas por Jaqueline Saulnier, outra grande autora de livros culinários que tive o prazer de conhecer, bem velhinha, quando acompanhei uma matéria para a revista Marie Claire francesa.

Comecei com esses dois livros, “As Receitas Secretas…” e  “O Sabor…”,  minha viagem pelo país que aprendi a amar. Por lá pratiquei minha paixão.

Pelos títulos das receitas do primeiro, ia marcando restaurantes, cidades e lugarejos, a casa em que eu gostaria de comer aquela comida, visitar aquela paisagem. Com as descrições e fotos do outro livro,  fui construindo outra viagem, a minha, no imaginário.

Uma lembrança especial dessa época foi provar um autêntico boeuf bourguignon, em Paris, que eu conhecia “de receita”. O restaurante era o “Chez Pauline”, um bistrot clássico, aconchegante, com decoração de espelhos e assentos de couro vermelho, que nos transporta para uma Paris de outros tempos. Ele serve pratos tradicionais, em porções generosas, com ênfase na cozinha do centro da França, especialmente a da Bourgogne, com seus molhos a base de vinho, como o Boeuf que fui conhecer.

Nossa reserva para o jantar nos levou para o andar de cima da casa, com um astral mais íntimo, e foi ali que eu conheci a disposição e o prazer orgulhoso que os franceses têm pela comida.

Na mesa ao lado da nossa , sozinho, um senhor seguiu todos os passos de um jantar, pedindo entrada, prato, queijos e sobremesa, enquanto matava uma garrafa de vinho (ou foram duas?). O prazer desse ritual, que ele seguia tout seul, muito feliz e concentrado, me descortinou mil possibilidades de prazeres.

As coisas começavam a se encaixar , a fazer sentido.

Não me lembro se pedi entrada ou não. Lembro do bourguignon, que naquele tempo vinha acompanhado de massa fresca, feita ali mesmo (hoje vem com gnocchis). Até hoje não me esqueço do gosto e da densidade aveludada do molho, que eu tento obter sempre que cozinho esse prato (em vão, porque competir com a memória é muuiiito complicado). Como esse, jamais comi igual. Mesmo voltando lá outras vezes.

E vocês devem ter percebido: não citei a autora do primeiro livro. De fato, nunca me preocupei com o nome dela até escrever este texto e descobrir que é Louisette Bertholle.

Sabem quem é Louisette Bertholle? Ela é a “segunda” amiga de Julia Child! A Julia do filme que está em cartaz: “Julie e Julia”.

Louisette é aquela que não segue em frente com as amigas. Abandona o projeto porque não se empenha em pesquisar e testar as receitas, vive reclamando da vida e se esquivando. No livro autobiográfico de Child, “ My Life in France”, essa questão, claro, é explicada melhor.

My-Life-in-France, de Julia Child

Mas o que para mim foi a maior surpresa é ter constatado que comecei a “aprender” a cozinhar com a amiga “torta” de Julia. E, confesso, desejei muito, pela confusão da edição de seu livro, que ela tivesse “aprendido” mais com o rigor  da amiga! Ou ex-amiga.

Chez Pauline
5, rue Villedo 1er
0142962070
Métro: Palais Royal-Musée du Louvre ou Pyramides

Exibir mapa ampliado
_____________________________________________________________________________________
Veja o trailer do filme Julie & Julia, com Merryl Streep 

Autor: tanspin@ig.com.br - Categoria(s): Prazeres Tags: , , , , , ,
17/12/2009 - 13:54

A mulher nua, a menopausa e os golfinhos

Globicephala macrorhynchus

Depois de ler, A Mulher Nua, do zoólogo e escritor inglês, Desmond Morris, tive a certeza de que o melhor antídoto contra a arrogância e a onipotência é mergulhar na mente de alguém que consegue ver o mundo como um imensíssimo playground, onde a Natureza brinca de pega-pega, esconde-esconde e outros jogos mais ou menos divertidos de transformação. Neste espaço, longe de ser a “sublime criação do Onipotente”, como escreveria o poeta antiguinho nas páginas amareladas, os seres humanos são apenas parte da brincadeira e a bola, sinto dizer, não é de ninguém…é do campo!

Virando as páginas do livro, vou descobrindo uma humanidade feita de concretudes, nada a ver com a aquela urgência de virar um puro espírito ainda nesta encarnação. Esta humanidade biológica guarda em suas às vezes meio desajeitadas tentativas de adaptação algo de tranqüilizador: não importa o que façamos, nem importa quais são nossos sonhos, o volume da nossa conta bancária nem o quão poderosos possamos nos considerar, no final, somos uma equação quase perfeita, uma espécie bem sucedida, um experimento apenas satisfatório da Natureza, nós e as abelhas…

Uma espécie muito adaptável
Aprendo no livro que o segredo do nosso sucesso como espécie é “a capacidade de viver em agrupamentos cada vez maiores”, onde procriamos em condições que qualquer outro macaco decente julgaria insuportáveis, ou seja, do ponto de vista biológico, a gente aceita tudo, muito mais do deveria….O fator número dois do incrível desempenho dos homo sapiens é nossa curiosidade…é ela que nos empurra para frente, e é graças a ela que dizemos sim primeiro e depois é que vamos pensar no que fazer..

…e brincalhona!
Nosso zoólogo vai além e faz poesia em vez de ciência quando nos define como uma espécie brincalhona por excelência: “Outros animais brincam enquanto são jovens, mas perdem esta qualidade quando amadurecem. O homem continua brincando e se divertindo por toda vida – é um Peter Pan que nunca cresce”. Neotenia, é a palavra científica boa para caracterizar este nosso lado brincalhão. É claro que vamos mudando de paladar em relação às nossas brincadeiras favoritas à medida que crescemos. Chamamos o jogo de arte, de futebol, de música e, viva!, podemos nos divertir, explorar, correr riscos, criar, certos de que estamos fazendo o melhor possível pela nossa sobrevivência como espécie.

E fico pasma ao pensar que não adianta buscar no nosso lado racional, sério e lógico as razões do nosso brilhante desempenho. É nossa capacidade de diversão que nos torna tão bem resolvidos como as abelhas..sim porque vocês hão de concordar comigo, abelhas e formigas são imbatíveis: quando tudo o mais falhar, as abelhas vão estar lá produzindo mel e as formigas vão carregar nossos restos reduzidos a pó para dentro de seus organizadíssimos formigueiros….

Coisas que você pode saber sobre nós, mulheres, só pelos cabelos
E, embora o livro percorra todo o corpo feminino, fiquei muito impressionada com a quantidade de informações sobre nós que os cabelos oferecem aos cientistas…

Por exemplo, você tem alguma idéia de por que temos tanto cabelo? Ou, mais especificamente, por que a fêmea humana desenvolveu esta cabeleira? Então divirta-se com a idéia de que esta é uma característica que compartilhamos com os galos e com os leões. Nossa farta cabeleira nos distinguia de todos os outros macacos. Ainda mais se a gente imaginar que proporcionalmente aos outros primos símios, nosso corpo quase não tem pêlos. Éramos exóticas e inconfundíveis criaturas brancas com tufos de cabelos ondulando ao vento.

E por que somos imberbes? Bom, ser imberbe é uma característica dos fetos dos macacos. Adultos são tradicionalmente peludos. Menos nós. Está certo, alguns homens ainda preservam uma certa cobertura capilar, mas nada que proteja ninguém numa noite de inverno na Sibéria. Que bizarros seres!

Alguns estudiosos acreditam que perdemos os pêlos para poder nadar. E que os longos cabelos das fêmeas humanas eram perfeitos para os bebês humanos agarrarem, sobretudo quando ambos mergulhavam, em busca de comida.

Além disso, somos seres diurnos, por mais que muitos de nós se vejam como criaturas da noite. E caçávamos durante o dia. Portanto, a outra hipótese para esta falta de pêlos de um lado e excesso de outro é que os cabelos protegiam as cabeças humanas do sol e o corpo despelado ajudava a gente a não sofrer tanto com o calor das savanas da África. Ah, sim, nascemos na África, provavelmente todos nós, só depois fomos nos espalhando…

Excesso de bagagem
E neste caminhar meio que sem eira nem beira dos nossos ancestrais íamos adquirindo outras características inusitadas, burilando nossa incipiente humanidade. Humanos dos trópicos, humanos polares, humanos do deserto…Digamos que você fosse um homo sapiens do deserto, filho de uma longa cadeia de outros homo sapiens do deserto. Ao longo dos séculos, você teria adquirido algumas peculiaridades muito úteis, como uma pele mais resistente ao sol ou uma incrível familiaridade com os vizinhos, no caso, os camelos, por exemplo. A meta da Natureza é preservar, é empurrar para o futuro seus rebeldes filhos…era, portanto, fundamental que a gente conseguisse distinguir as criaturas bem adaptadas aos vários ambientes, certo? Quem quer casar com um humano polar que pega um resfriado toda vez que a temperatura cai a 20C?

Pois, então entra em cena a Natureza e improvisa um pequeno milagre. Sim, daqueles bobinhos e simples, truque banal, indigno mesmo dos espantosos poderes da Grande–Mãe: assinalar estas mudanças com sinais vistosos e de grande efeito: alguém pensou nos cabelos? Acertou…

Daí nasceram nossos cabelos escuros e grossos ou fininhos e loiros, ruivos para se destacar nas paisagens desérticas, escuros e lisos para deslizar pela neve. E com certeza teríamos por aí formidáveis criaturas de cabelos verdes ou azuis (naturais, é claro!) se não fosse nossa pressa…

Lá pelas tantas, começamos a viajar de um lado para o outro. Cruzávamos o planeta apenas por diversão ou por curiosidade. E uns e outros se apaixonavam do lado de lá, e acabavam ficando…Inúteis nossas distinções que agora, só vão atrapalhar, separar, dividir quando já ninguém precisa mais disso. Ar-condicionado no verão, calefação no inverno, fogueiras de São João e leques, quem precisa destas obsoletas vantagens adaptativas? Pois é, quem diria, pensou a Mãe-Natureza, esses meninos afobados!!!!!

Cabelos longos e a loira que mora em nós
Mas a gente gostou da brincadeira e resolvemos aderir. Penteados, perucas, tintas…sempre digo para meu cabeleireiro que a cabeça é um maravilhoso campo de experimentação. E quando mudar de vida é difícil, por que não mudar de cabelo?

Presos, soltos, os cabelos femininos são o máximo…os cerca de 140 mil fios que crescem uns 13cm por ano constituem o maior atributo de feminilidade da raça. E são inegavelmente atraentes para nossos parceiros! Daí que mesmo quando a gente inventa cabelos curtíssimos, isso não é senão uma outra forma de provocação. É como dizer: “viram? Não preciso de cabelos longos para ser atraente…”

Segundo o zoólogo, no entanto, a estratégia não funciona. Sex appeal é cabelo longo, esvoaçante, ondulado feito capim na paisagem ensolarada… Tanto é que em algumas comunidades religiosas, ao longo dos milênios, a prudência mandava escondê-los, como solução infalível para neutralizar o poder erótico da cabeleira selvagem da fêmea humana!

E, antes que você se canse e vá embora procurar outras diversões virtuais, mais um comentário muito elucidativo, prometo! Já entendemos a competência sedutora dos cabelos femininos, mas e as loiras. Existe alguma explicação para o fascínio das loiras?

E a resposta é sim. Uma primeira razão é que os cabelos loiros são mais finos e leves, suaves ao toque, exatamente como o dos…bebês! Vamos lá, a grande maioria dos bebês tem a pele mais clara do que a de seus pais, os olhos mais claros, a pele mais fina, não é? Então podemos imaginar que as loiras passam uma imagem mais infantil do que as morenas, certo?

Agora, vamos examinar nossos parceiros masculinos. A natureza, prevenida, achou por bem dotá-los de alguns equipamentos adicionais para garantir que eles cuidassem como deviam dos filhotes da raça. Nesta mochila de viagem biológica está uma reação entusiasmada à simples visão de um bebê macio e fofo. A loira vulnerabilidade das loiras, artificiais ou não, é simplesmente irresistível para os machos da espécie!

Mistérios da menopausa
Pois é, foi mesmo uma viagem anatômica esta leitura…e os comentários do zoólogo vão traçando novos e inusitados mapas sobre a nossa pele humana. E ainda que você não tenha nenhuma intenção de virar loira, é divertido entrar no jogo da Natureza. Também não faz mal para ninguém de vez em quando lembrar de onde viemos e para onde queremos ir…

Agora, fiquei pasma mesmo quando, entusiasmada com o autor de O Macaco Nu, comecei a procurar no Google as razões evolutivas para a MENOPAUSA! Descubro que só as fêmeas humanas e uma espécie de golfinho (os Globicephala macrorhynchus) passam por isso. As outras fêmeas mamíferas simplesmente vão envelhecendo, envelhecendo, assim ‘inteiras’ e um belo dia morrem…nosso aparelho reprodutor, ao contrário, pára de funcionar muito antes do resto do corpo estar pronto para dizer ‘cai o pano’. 

Junto, talvez, com as golfinhas imensas que nadam nas águas menos frias dos oceanos do norte do planeta, somos as únicas fêmeas preparadas biologicamente para virar ‘avós’.

E, acreditem, essa é uma das possíveis explicações científicas para fenômeno tão raro. As avós revelaram-se tão úteis no cuidado dos filhotes que viraram padrão da espécie!  Assunto, sem dúvida para uma próxima conversa nossa porque acabei de encomendar o livro Grandmotherhood: The Evolutionary Significance of the Second Half of Female Life, compilação do trabalho de vários pesquisadores sob a bandeira da Rutgers University Press…Depois conto aqui neste blog…

Essa fronteira do conhecimento onde homens e animais se encontram é ou não é fascinante?
O livro não é novo, mas é ideal para ler naqueles dias em que você acorda de dedo em riste e achando que sabe mais do que qualquer um sobre todas as coisas….A Mulher Nua, Desmond Morris, Editora Globo

___________________________________________________________________________________

A foto mostra um grupo de golfinhos e é da Pilot Whale Organization. Quem sabe se alguns deles não serão já avós?

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Boas idéias Tags: , , ,
Voltar ao topo