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Arquivo de janeiro, 2009

17/01/2009 - 15:37

Quiça será verdade

Ela sempre chegava em casa esbravejando, até que um dia ela chegou e não tinha mais ninguém. Ela procurou nos longos e silenciosos dois cômodos que a casa possuía. Ela chorou, pois estava só.

Mãe de duas filhas adolescentes. Alcoólatra. Abandonada pelo marido. Reles catadora de papelão. Mulher de alguns vagabundos que lhe pagavam uma ou outra bebida. Dia após dia afogava as mágoas na porcaria da cachaça. Era podre, era fétida, era nojenta. Era assim que sentia. Era assim que se via. Era assim que cegamente se via.

Abigail era seu nome, mas isso já não importava… tudo que lhe daria identidade tinha sido expulso! Tinha apenas 32 anos, tinha apenas dois pães no armário, tinha apenas dois reais no bolso e tinha menos duas filhas pra dormir com ela na cama de casal. Não tinha mais nada, pensava ela.

Tinha nascido em Belo Horizonte, capital mineira, mas isso já não importava… tudo que lhe dava algum rumo já estava perdido! Tinha três bancos de madeira, quatro ripas eram sua porta e um mês de aluguel atrasado. Não valia mais nada, pensava ela.

Ela já teve um marido. Diz ela que já foi amada… tanto… tão intensamente quanto foi abandonada. Então ela foi muito amada, pois sentia agora a dor da solidão que penetrava cada vez mais no seu estômago… vazio… sedento de álcool. A boca seca ansiava com por algo mais… talvez por água… talvez por vida!

A boca sedenta.
O corpo sedia.
A cama concedia seu pouco conforto.
A vida secava pra ver se a sede passava.
Mas quem passou foi a vida.

Morreu no dia 12 de outubro. Dias das crianças que nunca foi, mas isso já não importava… tudo que tinha que ser lembrado já estava esquecido num virar de página de jornal e essa história nunca mais será contada e essa história quiçá será verdade.

Mas, isso já não importa. Abigail já não pensa mais.

Tábata Mori
Janeiro de 2009

Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Conto Crônico Tags: , , ,
15/01/2009 - 18:35

Sou uma viciada!

É sério! Você me vê passar e pensa que não.
Aposto que sempre olha pra mim e acha que eu sou de boa, sou tranqüila, sou alegre. Que nada, tem horas que a coisa aperta. Não acho Deus, mesmo sabendo que ele sempre está aqui.

Você pode até falar que a religião é meu ópio, mas meu vício é bem outro. Quem me dera ser viciada em Deus! – que, fique bem claro, é diferente de religião.

Tem momentos em que a ansiedade é maior que o domínio próprio, meu refúgio e fortaleza se torna algo que me domina e me preenche e me entope, me engasga. Mas eu continuo consumindo porque eu acho que em algum momento eu vou me satisfazer. Sem parar, de várias formas, todas as opções do mercado… mas, a satisfação nunca vem!

Eu sinto que ali deveria estar minha alegria, minha paz, minha… minha satisfação mesmo! E nada! Nada! Sinto-me suja, sinto burra, me sinto… de repente… vazia! Até que não me sinto mais!

Eu não tenho orgulho em falar que sou uma viciada. Tenho vergonha. Creio que eu deveria ser livre desse mal, que eu deveria ser mais forte, que eu deveria ser mais… você pode estranhar essa palavra, mas acho que eu deveria ser mais santa.

Sou uma viciada idólatra. Meu objeto de vício tomou o lugar do meu Deus e ainda busco o prazer, o preenchimento, a alegria em coisas que perecem. Perdoa-me Senhor! Ame ainda essa viciada!

Tábata Mori
Janeiro de 2009

Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Expressão Tags: , ,
14/01/2009 - 15:24

Apostando corrida com a vida

A gente corre tanto.
Não temos tempo pra amar, pra abraçar, pra chorar…
Apostamos corrida com a vida e ansiamos por saber quem vai chegar ao fim primeiro!
Corremos tanto!!
Não temos tempo pra ouvir, pra rir, pra namorar!
Queremos tanto em tão pouco tempo que não nos damos tempo para saborear!

É de lá para e cá para lá todo dia.
Sempre sem tempo a perder e perdendo o tempo todo!
É fechar, é abrir. É Cortar, é partir e voltar.
É andar sem falar, sorrir sem conversar. Passear sem cheirar o cheiro que passa bem devagar!

É de casa pra lá, de lá para casa, sem nunca ter um lá que é um lar!
É sempre lã, hortelã, avelã, que sempre fica pra amanhã… que não tarda em chegar!
E passar e restar e gastar e tornar a perder!

Nessa corrida que apostamos com a vida, a vida sempre perde, enquanto a gente não ganha.
A vida sempre perde, enquanto a gente se perde a vida sempre perde enquanto o tempo passa perdido!

Gastamos o tempo apostando corrida com a vida! Quem ganha é que perde e quem perde nunca mais vai achar!

Tábata Mori
Janeiro de 2009

Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Expressão Tags: , ,
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