Meninas super poderosas

Recentemente eu investi uma manhã da minha vida na fila do PSF Santo Antônio. Nada muito grave, marcar uma consulta para mostrar alguns exames.
Coisas pequenas, às vezes, tomam bastante tempo de nossas vidas, por isso, faz-se necessário perceber o que vai além do necessário. A velha máxima: unir o útil ao agradével.
Eu faço questão de enxergar as coisas quando estou em locais “públicos”: postos de saúde, SUS, delegacia, INSS, prefeitura… e outros locais “públicos”.
Eu gosto de ver que eu não vivo em um mundo real. Afinal, o mundo não é feito de livros e leitores, meios de comunicação vistos criticamente ou de teatros, danças e músicas.
Nessa minha investida para marcar uma hora com a endocrinologista, eu conheci a duas irmãs gêmeas. Infelizmente o nome delas me sumiu à memória. Creio que comece com “P”. Uma delas era quieta e tímida – daquele tipo de timidez que você sabe que não dura muito – a outra era faladeira e comunicativa.
- Vocês vão marcar consulta para quem?
- Pra gente mesmo.
- Vocês estão doentes?
- Não, minha mãe pediu pra gente marcar. Acho que é de rotina.
- Por que ela não veio?
- Porque ela está em casa com o meu irmãozinho. E cada pessoa só pode marcar para uma pessoa. Meu irmão é bebê ainda.
- É legal ter um irmãozinho?
- Eu acho legal, minha irmão não.
- Mas, ficar aqui na fila é ruim né?
- É, e a gente ainda vai ter que fazer almoço e fazer o dever?
- Você gosta de estudar.
- Eu sim, minha irmã não. Mas ela é mais inteligente que eu em Geografia. Ela normalmente é mais lerda. Mas tem umas coisas que a professora fala que não entra na minha cabeça e ela consegue entender tudo.
- É legal estudar na mesma série que a sua irmã?
- É legal, mas os professores de vez em quando trocam a nossa nota. Não sei porquê, já que o nome está na prova.
Lembrei-me do nome das irmãs gêmeas: Pâmela e Poliana. A faladeira é a Poliana.
Eu perguntei a ela se ela gostava de ler e ela me disse que não passava um dia sem ler. Fiquei surpresa! Ela disse ainda que ganhava muitos livros, que na biblioteca da escola elas não podiam tirar os livros para levar para casa, mas tinham que ler o livros na própria biblioteca. Disse que ganhava muitos livros e sempre pedia livros de presente para os pais.
- Que livro você está lendo?
- Meninas Superpoderosas.
- Pôxa, que legal! Você já viu aquele livro “Pollyana”?
- É, ele é muito legal… Nós já lemos ele.
Eu, na verdade, nunca tinha lido o livro. Mas, não me lembro exatamente o que ela disse, mas sei que falou de um tal “jogo do contente”, do qual eu também já ouvi falar.
- E você, Pâmela, gosta de ler?
- Sim. Nós lemos os mesmos livros. Ganhamos cada uma um e depois emprestamos pra outra.
A conversa foi longa e eu já não me lembro muito bem dela. Mas, eu percebi que o mundo real tinha um pouco do meu mundo irreal… cheio de livros e leitores, cheio de crianças em diversas situações diferente do brincar e do se divertir. Mas também, crianças que tinham uma oportunidade preciosa… ler!
Era uma raridade, eu sei. Mas gostei de conhecer a Poliana e a Pâmela. Meninas super poderosas! Que enfrentavam com alegria a necessidade de ficar horas na fila para tentar marcar uma consulta no posto de saúde. E, mesmo sabendo que iam ter que chegar em casa, fazer almoço e o dever de casa, estavam alegrando a minha manhã – e de outros – com suas criancices.
Nem me lembro se consegui marcar minha consulta dessa vez, mas, de qualquer forma, valeu a pena.
Tábata Mori, 24/06/2008 e 26/03/2009
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Saúde Crônica Tags: Cidade, Criança, Leitura, Viçosa