Conto crônico
Um vazio na praça
Eu lembro que eu sempre o observava. Ele o olhava atentamente. Por vezes os óculos caiam e ele os levantava com o dedo indicador.
Um suspiro acompanhava cada tímida virada de página. Era ele um senhor de uns 80 e tantos anos, que lia rigorosamente o jornal todas as manhãs. Ele abria a velha, alta e estreita porta de sua casa, atravessava a rua, comprava o jornal e sentava no terceiro banco depois da Igreja Matriz, ao lado direito de quem está de costas para ela.
O silêncio era modestamente interrompido por passos trabalhadores que seguiam para as lojas e livrarias que rodeavam a praça central da cidade.
Aquele senhor não importa o nome, pois este não será lembrado até o dia de amanhã quando o jornal já habitará a casa do cachorro era parte da paisagem matutina da praça. Mas agora, parecia que faltava algo.
Certo dia um carro desatento invadiu a faixa de pedestre e atropelou o senhor que lia o jornal, este ainda estava em suas mãos. Inseparável. Muitos correram para ver o acidente, horrorizaram-se. Ouvia-se comentários “Eu conheço esse homem”, “É o senhor que mora ao lado da papelaria”, “Sim, ele sempre toma um cafezinho a esse horário…”.
E era mesmo, mas os cochichos logo cessaram e por alguns segundos fez-se silêncio! Nem um suspiro ou choro tímido quebrou os taciturnos segundos, mas foram os mesmos passos trabalhadores, que agora seguiam para o almoço, que o fizeram.
Nunca mais o senhor de cabelos alvos e óculos iria acordar cedo, nem atravessar a rua, nem comprar o jornal, nem sentar-se no terceiro banco depois da Igreja Matriz, ao lado direito de quem está de costas para ela. Muito menos iria ler o jornal, virar suas páginas ou suspirar. E, muito menos ainda, alguém iria ver tal cena novamente.
Então, a cada manhã, como se houvesse um vazio na praça. Até que todos também se esqueçam dessa paisagem e tudo fique normal, todos se acostumem e o vazio vire rotina.
Tábata Mori, 2006
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Sem categoria Tags: