- Como você é linda! Se houvessem mil estrelas aqui, você apagaria o brilho delas.
Esse comentário suscitou apenas risos muito “sem graça” de mim.
Eu não vou muito a BH, mas, com certeza, momentos dos mais interessantes sempre acontecem na rodoviária. Depois de Peripécias, minha ida seguinte a BH levantou muito minha auto-estima, pois poucas vezes fui tão… subtamente e longamente elogiada.
Sentanda sobre as malas, com duas caixas de livros da Ultimato e, pra variar, no lugar errado, eu esperava o Rodolfo me pegar para irmos para Macacos (II Conferência L’Abri Brasil).
De longe vi um vendedor muito animado e bem expressivo…
Cansada de esperar sentada comecei a caminhar pela plataforma e, acreditem, comecei a cantar – o barulho típico da rodoviária me permitia fazer isso!
Tinha acabado de cortar meu cabelo e eu e minha insegurança pensávamos se havia ficado bom – esse detalhe é importante porque só foram perceber que eu tinha cortado o cabelo muitos dias depois e, claro!, quem percebeu foram minhas melhores amigas (as mulheres sabem o que o detalhe “melhores amigas” significa).
Depois pensar bastante sobre meu cabelo e exprimir minha linda voz sufocada pelo movimento da rodoviária, o tal vendedor se aproxima.
- Como você é linda! Se houvessem mil estrelas aqui, você apagaria o brilho delas.
Como já sabem, esse comentário suscitou apenas risos muito “sem graça” de mim.
- Seu sorriso é lindo! Você é a mais linda das mulheres de que me lembro!
Nesse ponto eu já sabia que era mentira, mas o comentário não deixou de ser interessante.
- Seu cabelo é lindo! Posso pegá-lo?
Nesse momento eu tive dúvidas se ele queria a mim ou queria ser eu. Sarcasmo à parte, a conversa continuou.
- Tudo isso para vender alguma coisa? Perguntei. Você é muito bom de papo!
Ele não deu bola para a minha observação e seguiu um conversa rápida para colher informações básicas: Você tem namorado? Veio encontrar alguém? Vai acampar com o pretende em Macacos? Você vem sempre a BH? e Você sabe o poder que seus olhos têm de encantar?
Esse e outros elogios bem poéticos seguiram por algum tempo. Acompanhados apenas do meu riso…
Eu realmente fiquei muito sem graça. Quem me conhece em todas as circunstâncias sabe que eu sou muuuito tímida. Quem só me conhece nos momentos em que chamo meu amigos gatinhos de “gatinhos” talvez não consiga imaginar o quão sem graça eu fiquei.
E ria. Sim, ria aquele riso nervoso de quem sabe que por mais que não tenha futuro aquela conversa, ela era, no mínimo, muito excêntrica e interessante.
- Você é carente!
Antes que eu pudesse me assustar de verdade, ele continuou:
- Eu sou carente. Procuro um mulher para fazer feliz. Estou cheio de amor para dar e ninguém para receber.
Bom, a essa altura eu já estava com todos os meus escudos ligados e pronta para fazer uma boa análise do discurso. E, mais rápido do que pode parecer, pensei: Bom discurso. Diferente. Quem hoje não está canrente? Vivemos a era da carência e quem disser o contrário está mentindo. Eu, uma mulher mais ou menos bonita, sentada na rodoviária de BH, esperando um cara que não é meu namorado, a fim de o outro, com cerca de 30 anos, solteiríssima. Que pergunta me faria refletir mais sobre o porque de eu estar dizendo não a todas as investidas daquele simpático vendedor? Nossa… eu sou carente!
- Então? Você vai anotar o meu telefone ou vai me passar o seu?
- Caramba hein! Você é bem pra frente “poeta” (como o chamei).
- Eu sou. Oportunidades – e beleza – como essa são só de vez em quando. Então, qual o seu telefone?… Ou você vai anotar o meu?
- Não… tudo bem. Eu anoto o seu… qual o número?
Ele me disse o número. Eu anotei. Ele perguntou se eu queria comprar alguns produtos que ele vendia. Não comprei. Ele declamou mais alguns versos poéticos – talvez decorados – e foi embora pedindo que eu ligasse quando fosse a BH novamente.
Essa cidade é muito excêntrica… até mesmo para mim!
Como eu nunca neguei que era carente, não me sinto mal de ter pensado na pergunta. A questão a qual quis me ater é porque eu digo tantos “nãos”. Eu penso se ainda não consegui me livrar dAs Azeitonas ou se tenho o dom de me apaixonar pela pessoa errada ou se eu deveria ficar bem sozinha e fim. Eu sempre todas essas alternativas e acabo focando mais na última opção.
Ser predestinada a fica sozinha é melhor do que errar, ter padrões que não deveria ter ou ser de um jeito não muito padrão.
Eu já cheguei a conclusão de que não vou mudar para alguém me amar, mas estou aberta a mudanças se alguém quiser arriscar.
Bom, não cheguei a uma conclusão sobre o significado dessa conversa e dessa viagem à BH – que teve um início e um fim muito excêntricos -, mas, talvez o significado não esteja nos outros e, se ele estiver em mim, acho que vou precisar de alguém pra me ajudar.
Afinal, sou carente. Quem não for que atire a primeira pedra!
Tábata Mori, ao vivo – relembrando o dia 14/08/09