21/04/2011 - 21:01

Estar onde se quer estar é muito melhor e mais fácil do que querer estar onde se está.
Em 2010 eu tinha planos para apenas um dia do ano de 2011: estar no Morumbi, assistindo ao show do U2, no dia 9 de abril. Porém, em 9 de abril eu estava em Porto Velho, Rondônia, à beira do Rio Madeira, na base de Asas de Socorro (base da JOCUM), organizando um evento de inauguração da base.
Eu tenho convicção de que Deus me vocacionou para ser uma comunicadora social e de que ele me quer em Asas de Socorro agora. Mas, eu acabei de chorar assistindo aos vídeos do show porque eu não estava lá.
Eu pensei: “Por que eu não estava lá?”. Por causa do evento? Não, eu poderia ter me programado para o evento ser em outra data. Por causa do trabalho? Não, eu teria condições de ter dois dias de folga se fosse tão importante. Então eu não fui por causa do dinheiro? Não também, eu tenho um dinheiro guardado, poderia muito bem ter usado ele. Então por que? Porque no dia em que abriu a venda de ingressos, eu tentei comprar e não consegui. Divulgaram novas datas de show e eu não consegui comprar o ingresso. Aí sim… depois disso, eu não tinha disposição de gastar tanto dinheiro para ir ao show do U2.
Quando começou 2011 eu sabia que não estaria no Morumbi dia 9 de abril. Mas eu quase que acreditava em um milagre, mas, esse milagre não aconteceu. Eu estava há centenas de quilômetros de distância, no meio do mato, torcendo para a chuva parar, a estrada desalagar e muitas e muitas pessoas aparecerem no evento.
A inauguração da base aconteceu. Nem lembrei de U2 nos dias em que estava em Porto Velho. Meu coração estava grato, eu estava sendo fiel à minha vocação. Eu estava no lugar certo. A chuva não parou, pouco mais de 20 pessoas de fora da base compareceram. Mas eu queria estar onde eu estava, mesmo não sendo o planejado.
A gente faz planos e o aval final é de Deus. Muitos conhecem o versículo bíblico que diz isso, mas poucos de nós estamos abertos aos nãos de Deus. Pois eu queria me dispôr à vontade dele e aceitar os seus nãos. Sei que isso vai contra a minha natureza, mas eu tenho procurado alegria em servir. Se for apenas para cumprir uma ordenança, para mim nã dá, tem que ter prazer, tem que ter alegria, tem que querer. Que Deus me ajude nesse desafio.
Claro, se alguém quiser me levar ao Festival de Glastonbury 2011, que além de U2 tem B. B. King, eu aceito. Mas, querer estar onde se está é saber que o aval foi dado por aquele que tem o que é bom, perfeito e agradável para nós.
Tábata Mori, ao vivo
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Ao vivo, Expressão
Tags: Ao vivo, Com Deus, Desejo, Felicidade, U2
26/11/2010 - 08:35
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Expressão
Tags: Aparência, Fotografia, Tempo
25/11/2010 - 22:07
Inspirada pelo meu jovem amigo Cara de Cunha, decidi fazer uma lista das coisas que gosto, ou nem tanto, para descobrir um pouco mais de mim mesma.
Antes disso, gostaria de fazer uma observação sobre a adolescência. Ela é tão fascinante quanto perturbadora. Fascinante quando o adolescente percebe que precisa descobrir, e perturbadora quando o adolescente acha que não precisa aprender nada. Sempre somos, por toda a vida, fascinantemente perturbadores ou perturbadoramente fascinantes… e aprendemos isso na adolescência!

Chocolate branco 2 x Ao leite 4 x Meio amargo 9
Pizza 8 x Beterraba 3 x Beringela 9
Morenos 7 x Negros 10 x Brancos 4,5 x Loiros 3
Sorriso 7 x Abraço 8,5 x Dinheiro 3
Tartaruga 2 x Cachorro 6 x Gato 0
Tatuagem 2 x Piercing 2 x Segundo furo 1
Livros 9 x Filmes 10 x Teatro 10… ihhh… empatou
Amigos 10 x Trânsito 1 x Caminhada 5
Bicicleta 9 x CD Player 7 x Relógio 4
Bagunça 10 x Limpeza 4 x Organização 3,2
Agosto 10 x Dezembro 8 x Janeiro 3
Pode parecer entendiante, mas como já anunciou meu amigo, vou postar mesmo assim!
Tábata Mori, ao vivo
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Ao vivo, Nem sei...
Tags: Amizade, Eu?, Lista, Palavra, Significado
11/09/2010 - 12:06

Minha mente encara minhas dores como nunca antes doeram.
Minhas dores invadem minha mente como nunca antes mentiram.
Verdade!
A realidade sempre foi falsa e a comida minha fuga
Hoje, não sinto mais fome
Choro por não comer, choro porque tenho sede!
Antes de conhecê-la ela era tragável
Como um cigarro amargo
Agora que eu a vejo, preferia ser cega de novo
Não. Nem sempre a verdade liberta
Hoje, não acho um casulo que me cubra por inteira
Hoje, não há mais buracos que me escondam de mim mesma
Ontem, procurei um esconderijo
E chorei, pois onde me esconderia de Deus, a Verdade?
Ontem, pensei que o redemoinho das águas poderiam ser minha casa
Causei-me medo sem me casar com nada
Senti-me só e era lá na solidão que queria estar
Menti para mim mesma outra vez.
Caramujo.
Tartaruga.
Borboleta.
Só eu não tinha onde me esconder.
Eu era invisivelmente visível a todos
Mas queria simplesmente “não ser”.
Ela estava lá, a realidade
Ela não era dura, mas amarga
Ela me é invivível
Corrosiva
Venenosa
Mas não mata, tortura.
Não é culpa dos meus pais, talvez nem de Deus
Não é minha culpa, nem sua, nem de ninguém.
A verdade é que é o caos.
Nada, absolutamente nada, pode existir sem deixar de ser o que já foi
Só que o passado marca e mata
E o futuro se arrasta para longe de mim
E a verdade continua inata
E o casulo continua cheio
E a morte tarda.
E a vida passa.
E a dor não acaba.
E ninguém me ouve.
Choro sozinha, porque não consigo contar para ninguém quem eu sou
Hoje, não sinto mais fome, nem acho um casulo para me cobrir
Hoje não sinto mais fome e não há buracos para me esconder
Minhas dores invadiram minha mente e ela se escondeu
Para onde fugirei? De onde me virá o socorro?
Tenho esperança, mas não consigo encontrá-la
Choro, por tudo que já menti
Choro porque a verdade dói
Choro com palavras e não com lágrimas
Meu corpo dói, minha mente fugiu
Deus está calado e eu não posso contar para ninguém
Quem sou eu?
Uma brisa, frágil, porém perseverante?
Cristal quebrável, porém preciosa ?
Quando a verdade será a mesma?
Quando olharei para ela e a reconhecerei?
Quando vou conseguir voltar depois de ter ido tão longe?
Quem vai pegar minha mão ou me ajudar a levantar?
Hoje, vestirei novamente a minha máscara da felicidade
Hoje, sorrirei para quem precisar de um riso
Abraçarei quem precisar de um abraço
Falarei da Verdade a todos que tiverem ouvidos
Mas quem vai fazer o mesmo por mim?
Tábata Mori, ao vivo
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Ao vivo, Expressão
Tags: Ausência, Infância, Realidade, Solidão, Tempo
10/09/2010 - 12:18

www.movmarina.com.br
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Reflexões em grupo
Tags: Política
05/09/2010 - 17:43
Sofia morava há duas quadras do antigo Museu de Ciências Naturais. Vez ou outra a entrada principal do Museu era seu caminho. A visão possível de ser observada por alguém que passava no outro lado da rua, a deixava com medo. O temor de Sofia diante das grandes portas para imagens esqueléticas superava sua curiosidade, tão elogiada por muitos.
Até aquele dia, o Museu não passava de um mundo desconhecido de conhecimentos não-importantes.
- Filha, em que está pensando?
- Nada.
- Tem certeza que quer entrar?
- Sim, e você pai?
- Eu já vim aqui outras vezes, mas confesso que prefiro os Museus de arte.
- Você não tem medo?
- Medo de que?
- Medo de saber algo que até então não sabia?
- Não, nunca tive esse medo. Pelo menos não de forma consciente…
- Pai, pai, você não vão entrar? Acho que tem um dinossauro logo na entrada. Vamos Sofia, vamos pai!
- Ele nunca tem medo. Acho que ele não pensa… quando será que ele vai começar a pensar?
A frase profunda não provocou mais do que risos da boca do pai. Sofia entrou, com temor e tremor. Ela ouvia na escola Dominical que Deus tinha criado o mundo em seis dias, no sétimo ele descansou. Se fosse mentira que o mundo foi criado em seis dias, poderia ser mentira que Deus existia. Isso a deixava com muito medo. Talvez a mentira fosse mais aconchegante que verdade.
Sofia parou em frente a um quadro que mostrava com desenhos a evolução do homem. Realmente, éramos muito parecidos com macacos, pensou ela. Ela quis tocar a imagem, mas logo uma moça grande e loira, segurança do Museu, tocou sua mão e com uma voz grossa, porém amável disse:
- Querida, não é permitido tocar nos objetos. Veja essa faixa no chão, você não deve atravessá-la.
- Hu, hum. Foi o que ela conseguiu responder.
- Onde estão seus pais?
- Eu não sei, acho que eles já sabem a verdade e então ficam o tempo todo cuidado do meu irmão que ainda não pensa.
- Hum?
- Você não tem medo?
- Medo de que? Dos ossos?
- Não, de saber que é verdade, algo que você ainda não conhece. Você já pensou que uma verdade pode mudar todas as outras.
- Querida, você não precisa ter medo da verdade. Ela é boa e perfeita. Se uma grande verdade mudar as outras, então as outras não eram verdades!
A mulher olhou para baixo em direção aos pequenos olhos de Sofia, sorriu e conclui:
- Mas de uma coisa você pode estar certa sobre a verdade: é preciso procurá-la.
- Sofia venha!
- Eu estava vendo o quadro dos homens-macacos!
- Homens-macacos? O que é isso?
- Deixe querido. São imaginações da cabeça de Sofia. Grandes sonhos de uma cabeça tão pequena.
- Sofia, nós vimos um esqueleto humano e perto dele vários potes com bebês e órgãos. E quadros de rins e corações e…
- Pedro, pare de falar tanto!
- Então vem, quero te mostrar esse lugar.
Eles correm em direção ao fundo do corredor e entram na sala à direita.
Reina o silêncio. Uma grande sala de fundo branco, com quadros, esqueletos e vidros…
- E se ela estiver aqui? Sussurrou Sofia.
- Ela quem?
- …
- Sofia, veja esse bebê. O papai disse que as pesquisas que fazem com os fetos hoje, eram há muito tempo proibidas. Os corpos tinham um grande valor e os índios e todas as pessoas tinha que enterrar e nunca deixariam em um Museus, mas hoje quando a gente acha as pessoas que eles enterraram a gente desenterra e traz para o Museu, e junta seus ossos e… Sofia, cadê você?
- Pedro, veja esse homem!
- Sofia, eu quero ver esses corações!
- Por que tanto espanto minha pequena?
Sofia olha e vê um homem velho, magro, de terno e chapéu. Estranho… ficou pensando se ele era do Museu ou se tinha vindo apenas visitar.
- A vida é realmente uma coisa espantosa. Não é possível olhar para ela e não ficar fascinado.
- O senhor acha que ele queria ser desenterrado?
- Não, acho que se ele pudesse escolher, ficaria para sempre no pó, para onde todos vamos voltar.
- Será que Deus criou ele também?
- Certamente Deus o criou, pois nada pode existir se não vier de Deus.
- Mas, e os homens-macacos? Será que Deus não criou alguns homens depois de algum tempo que já existia alguns macacos parecidos com homens?
- há, há, há. Riu o homem. Certamente é uma pergunta grande demais para uma menina tão pequena.
- Será que outro deus criou outros homens, antes de um deus criar os homens que não são macacos?
- O que você quer saber de verdade?
- É isso que eu quero saber: a verdade.
- A primeira verdade é que um deus não poderia criar um homem e outro deus criar outro. Porque esses deuses iriam criar homens parecidos no mesmo mundo? Não, não minha pequena, Deus, com “D” maiúsculo, é único e criou um único homem à sua imagem e semelhança. Não há outro Deus, não há outro homem.
- Como o senhor sabe? O senhor estava lá?
- Há, há, há. Certamente não pequena, certamente não.
- Sofia, Sofia, o papai vai comprar algodão doce!
- Senhor eu preciso ir.
- Pai, pai, eu quero algodão doce rosa, do grande.
- Sim Sofia, um algodão rosa para a minha filha moço. Bem grande hein, porque ela só é pequena por fora!
- Pai, Deus criou os museus?
- Não filha, Deus criou o homem com capacidade de criar coisas, entre elas, os museus.
- Ele não tem medo de a gente criar outro deus?
- Acho que não Sofia, acho que Deus não tem medo, porque ele é a verdade e verdade sempre vai vencer as mentiras que podemos criar.
Sofia comia seu algodão doce com os olhos fixos na bela fonte de elefante no pátio central do Museu. Ela se lembrava das palavras de seu pai na comemoração dos seus oito anos: “Obrigado pela vida Sofia, que o Senhor guarde seu coração e sua mente na sua Palavra e a mantenha no caminho da verdade…”
- Pai… eu te amo!
- Eu também te amo Sofia!
- Você sabia que só existe um Deus que criou o homem uma vez só? Eu acho que todos os homens-macacos são o mesmo homem!
- Devem ser Sofia, devem ser.
- Pai, você sabia que existe uma verdade e que a gente tem que procurar?
- É mesmo?
- Mãe, porque a Sofia está falando essas coisas estranhas?
- Porque eu já consigo pensar. Quando você já puder pensar aí você vai entender algumas coisas.
- Mãe eu não quero pensar, quero brincar.
- Tudo bem Pedro, a Sofia já pensa por vocês dois, você pode ir brincar.
- Sofia, vamos encostar o pé na água da fonte.
- Vamos!
Tábata Mori
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Conto Crônico
Tags: Com Deus, Família, Realidade, Sofia, Verdade
05/09/2010 - 17:36
De repente era meia-noite. O bar ia fechar e Caetano precisava ir para casa. Desde os sete anos ele ficava na rua até esse horário enquanto sua mãe trabalhava em casa. Ele sabia o que ela fazia, sabia que se drogava e preferia não estar lá.
Uma vez, aos nove anos, Caetano voltou mais cedo para casa. Viu sua mãe com uma seringa no braço e um homem lambendo seu rosto. Ele conhecia esse homem, era o cara do caminhão de laranja. Vez ou outra ele os visitava.
Sua mãe o viu e começou a gritar. Pegou o copo de cerveja e jogou na direção de Caetano. Ele saiu correndo e nessa noite voltou bem tarde. Sua mãe nunca lhe pediu desculpas, apenas disse para não voltar antes da meia-noite, se não iria apanhar.
Caetano tinha poucos amigos. Um ou outro que fez no Ceasa. Ele não tinha que trabalhar ou mendigar para levar dinheiro para casa, mas precisava comer todas as tardes e para isso se virava.
Desde o pré, ele estudava em uma escola próxima a sua casa. Ele saia cedo, antes mesmo de sua mãe acordar. Voltava para a casa com o almoço da escola, deixava a mochila e saía para rua. Caetano não conhecia seu pai, nem sua mãe sabia quem ele poderia ser. Na sua cabeça, ele imagina seu pai e pensava se um dia ele viria para pegá-lo e o levaria para uma casa bonita onde ele pudesse passar a noite toda.
Depois de passear no centro, ver milhares de lojas, olhar tudo o que queria e nunca poderia ter, Caetano passava no Ceasa onde poderia carregar algumas caixas e ganhar até R$4,00 em uma tarde e noite. Às vezes, a vontade de brincar era tanta que ficava com apenas os dois reais ou menos que a tarde lhe havia rendido.
Quase sempre o cara do ônibus o deixava subir sem pagar, algumas vezes teve que fugir, outras apanhou. Mas sempre usava o dinheiro para pagar o lanche da noite, uma vez comprou um apontador bacana, vez ou outra comprava duas esfirras e dava uma para o colega com quem brincava. Ele queria mesmo era juntar para comprar um carro, mas sua professora havia dito que era muito caro, que só quem trabalha muito conseguia comprar um.
Caetano achava que trabalhava duro, mas não entendia porque o dinheiro sempre era pouco. Ele então pensou em trabalhar em outro lugar. O Zé Melancia, lá do Ceasa, uma vez disse a ele que os engenheiros é que ganhavam bem. Que uma vez um engenheiro quis cobrar um grana alta só para fazer o galpão dele, mas ele, muito esperto, não quis nem saber quando o tal engenheiro falou o preço.
“Seja um engenheiro filho, você vai ganhar muito. E vai ter um monte de gente carregando sua coisas”. Caetano riu, gargalhou. “Pode deixar, vou ser engenheiro”. Isso alimentou seu sonho.
Na escola, a professora não foi tão sonhadora: “Ninguém da Favela Esmeralda nunca se tornou um engenheiro e acho que você não vai ser o primeiro.”
- Mas o que um engenheiro faz?
- Coisas muito difíceis. Coisas muito importantes.
- Mas eu posso ser um engenheiro professora. Você sabia que andar de noite na rua Frejá e sair limpo é muito difícil? Eu ando todas as noites e ninguém nunca me pegou. Se eu ando na Frejá, posso ser engenheiro.
“Pequeno engenheiro” virou seu apelido no Ceasa. Produtores e clientes já sabiam o futuro de Caetano e festejavam com ele. Um ou outro o animava, alguns riam, mas Caetano tinha certeza que seu sonho era possível.
Sua mãe dizia que ele não sabia o que estava falando, que era melhor ele por os pés no chão. Um dia, ele disse a ela:
- Talvez meu pai seja um engenheiro. Você não sabe. Vai ver está no sangue.
Sua mãe caiu na gargalhada e disse:
- Seu pai não deve ser mais que um vagabundo que come vagabundas como eu. Se tiver sorte, ele tem um caminhão, se não, ele não passa de um cara com uma cerveja gelada e uma seringa cheia da boa para chapar legal. Se você tiver mais sorte ainda, ele nem está vivo.
Caetano marejou os olhos e saiu correndo.
- Eu te odeio! Você nunca me dá nada, nada. Eu te odeio.
As mãos trêmulas de sua mãe acederam um cigarro. Ela sentou no sofá e bebeu mais uma cerveja. Seus olhos sem esperança sabiam o quão perigoso os sonhos poderiam ser para o seu filho. Mais mortíferos que uma bala perdida.
Correndo pela Frejá, não pensava em outro lugar senão o portão do Ceasa, onde seu sonho tinha nascido. Já era por volta da uma da manhã e iria ficar por lá até o dia amanhecer.
Caetano corria o máximo que podia, como se a dor dos músculos fossem o remédio para o aperto no coração. Vindo na direção contrária, um carro com os faróis altos. Nesse momento, Caetano entendeu que a Frejá também iria vencê-lo e teve medo.
O carro parou pouco a frente de Caetano, que sem pensar em nada além de sonhos roubados, corria e corria. Dois caras, com armas grandes na mão. Um dirigia o carro, o outro desceu a poucos metros de Caetano, bem a sua frente.
Ao ver o cara, Caetano tentou correr para outro lado. Não havia ninguém, não havia vielas onde se esconder, não havia portas para bater, nem gritos que pudessem salvá-lo. Ele estava na Frejá. Não podia escapar, não podia ser engenheiro.
Na traseira do carro, com a boca amarrada, viu um cara mais velho, que disse apenas: Não tenha medo, eu gosto muito de menininhos.
O que restou de Caetano estava nos jornais de um dia seguinte qualquer: Menino de 10 é abusado e assassinado. Moradores da Esmeralda dizem não ter visto nada. Governo Estadual promete aumentar a segurança na região da Frejá. Mãe chora ao dizer que o filho queria ser engenheiro.
No Ceasa, outros meninos perambulavam. No bar, poucos meninos ficavam até meia noite. Na escola, não havia sonhos de uma vida diferente. Em casa, mais um dose, menos um filho, mais uma dose, mais uma dose…
Tábata Mori
Autor: Tábata Mori - Categoria(s): Conto Crônico
Tags: Infância, Realidade, Sociedade, Sonhos
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