29/05/2009 - 10:16
“Por trás do espelho quem está/
de olhos fixados nos meus” (Cansaço)
Não reconheço a imagem que o espelho me apresenta. Cada vez reconheço menos.
Hoje trouxe-a comigo ao sair sem pretender voltar. Ela se ri de mim , como sempre. Para ao meu lado e me diz:”- Não mais. Não desta vez.”
Não pude evitar de pensar , imaginar , criar a cena que não houve. Desejar. Lembrar que aquela que me levava a ficar não está mais aqui. Me espera agora. Desaprova ainda assim.
Hoje lancei-te o mesmo olhar do navio. Vi em teus olhos àqueles olhos. Ninguém teve culpa. Mas nos culpamos de todas as formas possíveis em muitos mundos de muitas formas. Não vou mais te lançar este olhar. Mas foi ao ver teus olhos (de olhar tão familiar!) , que cheguei bem perto. Encostei minha cabeça em teu ombro e descansei no parque. Pode nem ter sido assim. Meus músculos um dia me contaram esta história. O que sabem os músculos?
São os mesmos que tremem ao teu contato. Os mesmos que vibram ao calor de tua pele os mesmos que se saciam ao unirem-se aos teus. Todos os dias , todas as horas, em cada minuto que nossas peles se tocam. Viciei-me. Intoxiquei-me hoje.
Intoxiquei-me hoje. Vi em ti outras sombras minhas. Não aquelas para as quais já consigo olhar, e que me envergonham. Vi sombras com as quais brinco,flerto, a sombra da morte.
Saí encarando o abismo como nunca. Fixando meus olhos no fundo do abismo. Dançando ao sabor de seu balanço. Meu corpo oscilou sem que eu percebesse e eu vivi o desejo e a emoção da queda. Parei a alguns centímetros do fim , como no filme de aventura. Olhei o chão do abismo. E ela não me levou como naquele dia.
Memórias. Ninguém teve culpa. Mas doeu ainda assim.
Muita confusão , uma perseguição. Um homem e uma mulher tiveram que fugir muito rápido. Fugiram pela paredes do castelo. Correram no escuro entre o labirinto das paredes internas do castelo. Protegiam alguém mais importante. O amor dos dois era uma presença viva. Chegaram ao navio. Parecia acertada a fuga. Então o ataque, o incêndio e o bote que os separou. O olhar dele ao longe ao ver o bote partindo. Levava-a junto com a pessoa importante. Ele só queria salva-la. Ela só queria ter ficado com ele. Metros da praia, não: na praia. Surge o homem com a espada e corta-lhe a garganta. Precisamente. A história dela acaba ali. O resto é espera. Presume-se que ele a viu de longe. Do navio em batalha. Mas não a seguiu do outro lado. Do outro lado foi espera.
É o que sei. O que meus músculos contaram. A história que se passa sob meu olhar quando encontro teus olhos tão parecidos. Não ia contar. Não quero pensar nisso e fixar essa imagem que de algum modo me seduz imensamente. Entrego-me a tuas mãos fortes, porque podem ser ameaça para muitos, e muitos mesmo depois, mas é onde encontro segurança.
Pode não ter acontecido, podem não ser teus os olhos que eu via. Já os confundi tantas vezes. Pode não ser eu. Pode ser apenas uma parte.
Ainda assim esperei por toda vida. Espero por toda eternidade. Pode estar perto outro adeus. Hoje, vi a despedida muito de perto. Fiz escolhas. Faço escolhas a cada dia. Hoje, me conduzem para longe. Protegendo alguém mais importante. Mas desta vez minha cabeça vai se manter em meu pescoço. Outros tempos. Pode vir comigo. Pode vir agora. Pode vir depois. Pode não vir nunca. Mas hoje me lançou novamente na espera. E, talvez por ser meu, me parece que o meu cansaço é maior que o teu, e que não sou eu que me reconduzo e decido caminhar, até penso ser assim diante do esforço enorme que faço para mover as pernas pela manhã, mas é ela, rindo de mim, quem me cospe de volta do abismo. Também ela, me rejeita.
Autor: Coral - Categoria(s): Pessoal
Tags: abismo, amor, cansaço, castelo, desejo, drogas, espada, espelho despedida, garganta, história, morte, olhar, pescoço, rejeição, tóxicos
18/05/2009 - 21:27
Preciso de estabilidade. Preciso de um lar para mim e meus filhos. Sinto-me oprimida e caminhando muito lentamente para longe deles. Como pude deixar as coisas chegarem a este ponto? De que me adianta ter recursos e não saber usar.
Lembro-me de como foi difícil manter aquela casa por tanto tempo. A cada dia parecia que não seria mais possível. Até que realmente não foi. Pensei em descansar um pouco desta responsabilidade. Mas vejo que não vai funcionar. As coisas estão saindo de minhas mãos. Até mesmo meus desejos saem de minhas mãos e estou dividida, pela primeira vez desde que eles nasceram. Tenho medo. O Inimigo. Agora o Tempo é meu inimigo. Com o tempo eles não precisarão mais da minha casa. Preciso resolver logo. Preciso resolver minha vida também. Que ficou suspensa enquanto tentei manter a casa. Sei que aqui também sou inimiga do Tempo.
E isso também, e principalmente, é preservar meus filhos. Preciso cuidar de mim, e muito bem para que isso não pese sobre eles. Para que se sintam livres para viver as próprias vidas. E não vejo como conciliar as coisas. Preciso de ajuda. Mas não sei de quem, nem de que tipo. Talvez várias.
Minha cabeça dói e isso me paralisa. Evito pensar e sigo fazendo, trilhando os caminhos que consegui elaborar nestes momentos de dor, nas conversas com quem me ama. Pareço descansada e fútil. Mas se pensar demais, como agora, paraliso. Conheço isso e contorno esta situação. Mas agora dói, angustia e me faz sentir que estou muito, muito só neste mundo sem Deus, sem fé.
Autor: Coral - Categoria(s): Pessoal
Tags: filhos, lar, tempo
15/05/2009 - 21:24
Queria falar-te sobre isso. Sinto uma necessidade de falar e esclarecer-te a meu respeito. Estranho. Quero que me vejas a fundo. Impossível. O mais próximo que podemos ficar um do outro é o calor de nossos corpos e o túnel de nossos olhos. Tolice essa ânsia de explicações. Precisamos de silêncio. Mas ele nos oprime. Medo. O Grande Inimigo do Homem. Um dia foi útil. Não me é útil quando deveria ser. Silêncio. Já amei em silêncio. Precioso. Dá paz. Não consigo guardar o silêncio perto de ti. Ainda não. Sabes que me assustas? De muitas formas. Tenho sido corajosa em nome do que vejo em teus olhos e do que sinto em teus braços. Aquilo que parece que sei, que parece que encontro. Lembranças brumadas e frias. Tu te expões e me analisas. Julgas-me? Tenho medo de que me condenes. Me rotules, classifiques e esqueças na estante. Tu não tens estante. Temos coisas, das quais não falo, em comum. Ações sombrias. Namoras com as tuas. Quero esquecer. Neste momento em que ao olhar-te vejo o espelho refletindo minha imagem de sombras, temo a ti. Não é verdade que me assustas, portanto. Assusto-me comigo mesma. Muito. Em ti encontro acolhida. Confio. Por outro lado, é isso justamente o que mais tens a me ensinar. Tens um convívio quase orgulhoso com tuas sombras. Me apavoro com as minhas. As tuas lhe fazem bem. As minhas me ferem todo o tempo.
Queria falar-te de meus orgulhos. De minhas conquistas. Tenho dificuldade de acreditar nelas. Reforço para manter-me viva. Permanecer com os olhos vivos é a meta. Parece que os despreza. Me dói, porque é sincero. É como se nada de valor restasse para que admires. O que então fazes ao meu lado? Tola. Respiras também.
Não queria falar-te. Queria que visses. Em transparência minhas entranhas. O fundo de meu corpo e toda a vivência de meus órgãos. Sabe, vejo os teus, quase os toco. Sei de coisas que não me contaste como se tivesse seguido ao teu lado. Muitas me doem. Quase tudo são dores neste espaço. Será realmente necessário? Me falta o ar. Respiro quando te beijo a boca. Silêncio. Conhecimento. Paz. Mergulhar neste mar e me deixar levar para o fundo. Afogar-me é o que quero. Em teu mar. Sou um peixe em teu mar. Meu ar está em ti e não me falta nada.Quando retorno, falta tudo e sufoco.
Peço-te. Leva-me.
Autor: Coral - Categoria(s): Pessoal
Tags: amor, desentendimento, dor, entendimento, espelho, lembrança, medo, orgulho, paixão, palavras, paz
11/05/2009 - 18:00
Teu abraço é perfeito. Tudo o mais pode parecer diferente porque dentro do teu abraço perfeito sinto que está tudo certo. Assim, tudo pode parecer normal, que fora do teu abraço perfeito está como que errado. Tento trazer teu abraço comigo a cada pequena despedida. Tuas asas a me proteger.
Teus olhos me contam muitas passagens. Agora busco estas passagens a cada encontro de olhos para saber onde estamos. Estive doente como viste. Passou. Devia ser saudade dos teus olhos cheios de história. Tua luz a me iluminar.
Anjo meu.
Autor: Coral - Categoria(s): Pessoal
Tags: abraço, Anjo, história, luz, olhos, perfeição, vida
06/05/2009 - 23:13
Faço planos loucos. Planos livres como não em muitos anos. Volto ao chão. Aterriso. Somente para liberar o vôo com mais segurança. Estou quase adolescendo cheia de medos e possibilidades. Apenas quase. Algumas vezes a culpa é inevitável. Outras retroceder. Outras seguir apesar do mal tempo e do cansaço. Na verdade, essa tempestade de areia está me matando! Preciso de água e abrigo para me sentir melhor. Onde está o oásis? Não deveria ter um por aqui? Sinceramente, sinto falta mesmo das terras altas, do frio e da chuva. Aquela luz. Esse excesso me cega.
Autor: Coral - Categoria(s): Pessoal
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