A cruz – símbolo da fé cristã, mas também da pena de morte e do terror
Para milhões de católicos em todo o mundo, ela o símbolo de sua fé. Mas, mesmo entre os cristãos e entre muitas culturas antigas e modernas, a cruz também tem sido o símbolo da pena de morte e da intolerância marcada pela violência e pelo terror.
A “Cruz Ardente” e o capuz branco em forma de cone: símbolos da Ku Klux Klan, a mais famosa e temida organização criminosa racista dos Estados Unidos.
No vídeo , um trecho do documentário “Jesus, a História Verdadeira – A Missão”, da BBC. Este trecho se refere a lguns fatos que causaram a crucificação de Jesus. Você pode assistir ao documentário completo no site www.youtube.com/user/leonardomqueiroz.
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Sempre que se aproximam datas como o Natal ou a Semana Santa, as emissoras de televisão exibem dezenas de filmes sobre a vida de Jesus, e muitas reportagens e artigos sobre ele são publicados em jornais e revistas. No entanto, poucas são as publicações dedicadas exclusivamente a um dos principais símbolos do cristianismo: a cruz.

No desenho no cartaz do filme “Nascimento de Uma Nação”, um cavaleiro da Ku Klux Klan ergue a cruz em chamas, ou “Cruz Ardente” (detalhe: o cavalo é negro, e isto certamente não é mera coincidência). Ilustração da Wikipedia
Os “Cruzados” e o “Clã do Anel”
Se para muitos a cruz representa uma mensagem de renovação de esperanças, por outro lado ela é usada como um símbolo da arrogância, da intolerância, do preconceito racial, do preconceito religioso, etc. Durante muito anos, na Idade Média, a Igreja Católica ordenou severos ataques contra todos os povos não católicos, na tentativa de obrigá-los a serem fiéis à igreja. Por ordem do papa, cavaleiros conhecidos como “cruzados” (ver ilustração abaixo, de Larouse, de 1922) tinham autorização para matar qualquer pessoa que se opusesse às determinações da igreja. Eles realizaram várias incursões por toda a Europa, levando o símbolo da cruz, golpeando com suas espadas qualquer pessoa que tentasse detê-los. 
Atualmente, existem nos Estados Unidos grupos ligados a uma organização criminosa que se auto-denomina como “Ku Klux Klan”. Seus símbolos são a “Cruz Ardente”, o capuz barnco em forma de cone para esconder suas identidades e uma cruz iserida num círculo. Segundo pesquisadores, esse círculo representa um anel como símbolo de união entre os membros e de fidelidade às finalidades da organização. O nome “Ku Klux Klan” é interpretado da seguinte forma: “Ku Klux” é uma derivação da palavra grega “koklos”, que significa “círculo” ou “anel”, e “Klan” é a palavra “clan” (”clã” em inglês) com “K” no lugar do “C”. Portanto, “Ku Klux Klan” significaria “Clã do Anel”.
Existem informações de que essa organização, conhecida também pela sigra “KKK”, foi fundada em 1865 em Pulaski, uma cidade do Estado de Tenessee, no sul dos Estados Unidos, por um grupo de religiosos protestantes que pregavam que a raça branca era superior a todas as outras raças humanas (negros, índios, asiáticos, etc.). Sua fundação se deu, portanto, dois anos depois que o então presidente dos Estados Unidos, decretou a abolição da escravatura, tornando os negros pessoas livres e com os mesmos direitos de todos os cidadãos norte-americanos, em 1863 (mesmo ano em que o presidente foi assassinado pelo ator racista John Wilkes Booth).
O principal objetivo inicial da KKK era impedir, de todas as formas possíveis, a integração social dos negros recém libertados. Com o passar dos anos, seus membros passaram a perseguir e dizimar famílias de negros, índios, descendentes de asiáticos e brancos católicos. A organização foi combatida pelo governo dos Estados Unidos e banida em 1872, mas ressurgiu por volta de 1915. Ainda hoje, ocorrem ações bárbaras praticadas em nome da KKK, principalmente no sul do país, mas, segundo estimativas, seus adeptos são pouco mais de três mil pessoas.
A crucificação como pena de morte
Ainda hoje, entre muitas culturas diferentes e mesmo entre grupos cristãos, as cruz é vista ao mesmo tempo como símbolo de fé religiosa e da pena de morte. Devido a esta dualidade, ela é também usada por movimentos políticos e sociais contra a pena de morte. Ela está presente em peças de teatro, filmes, artigos jornalísticos, e juristas debatem sobre o tema, mas sempre com a presença da cruz como símbolo.
Apesar de Jesus ser o crucificado mais conhecido e mais reverenciado na história da humanidade, muitas foram as vítimas da crucificação antes e depois dele. Centenas de anos antes de Jesus ter nascido, a morte na cruz já era uma penalidade aplicada pelo Império Romano e em muitos países. E tanto em Roma como nos demais reinos havia acaloradas discussões entre os favoráveis e os contrários à crucificação, bem como a todas as outras formas de pena de morte.
Mesmo assim, a crucificação continuou sendo aplicada contra todos os que violassem certas leis ou que, esmo não sendo criminosos, causassem “incômodos” a governantes e pessoas ou grupos que gozassem de certos privilégios sociais. A própria Igreja Católica, que se autoafirmava como a única verdadeira representante de Cristo na Terra, condenou à morte na fogueira em praças públicas muitos cientistas, artistas, e outras pessoas que defendiam os direitos do povo à cultura e ao conhecimento da verdade científica. Assim, durante a Idade Média, a fogueira foi a “crucificação” aplicada pela própria igreja contra pessoas, longe de serem criminosas, mas defendiam os direitos do povo. Entre essas pessoas barbaramente assassinadas por ordem do Vaticano, estavam muitos maçons. A Igreja Católica foi tão hipócrita que condenou a francesa Joana D’Arc à morte na fogueira porque ela defendia a idéia de que as mulheres deveriam ter os mesmos direitos dos homens e depois a “canonizou”, tornando-a “Santa Joana D’Arc”.
A primeira crucificação
Não se sabe quem foi a primeira vítima da cruz, nem a data ou o local exatos da primeira morte na cruz, mas a primeira menção ou ameaça confirmada está na Bíblia. Nos livros de Esdras e de Ester, no Velho Testamento, está registrado que Dario I, rei da Pérsia, disse que crucificaria todos os que ousassem se opor aos seu decreto favorável ao retorno de todos os judeus a Jerusalém (os judeus eram escravos na Pérsia).
Segundo alguns historiólogos, o historiador grego Heródoto – 485(?)-420 a.C. – informou em seus livros que os medos, povo que viveu na Mesopotâmia antes dos persas, sacrificavam prisioneiros de guerras através da crucificação. Heródoto viveu um período em que os gregos eram educados para admirar a beleza acima de tudo, e por isto ele condenava a crucificação por considerá-la algo anti-estético, mas também condenava a crueldade que ela representava.
Mas a a Grécia também adotou a pena de morte na cruz. Isto ocorreu durante o reinado de Alexandre Magno – ou “Alexandre, o Grande” – na Macedônia. Quando ele e seu exército invadiram a cidade de Tiro, na Fenícia, mandou crucificar dois mil habitantes locais como vingança pelos assassinatos de seus embaixadores naquela cidade.
Depois disso, não se teve mais notícias de crucificações como ordens de governantes gregos. Infelizmente, porém, não se pode dizer o mesmo em relação a outras civilizações. Durante anos a penalidade foi praticada em Cartago, no Egito, na Líbia, em várias regiões banhadas pelo mar Mediterrâneo, e finalmente chegou em Roma. Inicialmente muitos dos próprios romanos a consideravam uma barbaridade, mas logo o Império Romano a adotou contra pessoas acusadas como desertores, escravos rebeldes, traidores e pessoas que ousassem divulgar qualquer idéia ou opinião contra a religião romana.
O crucificado mais famoso
A história das crucificações é muito longa. Para narrá-la toda, seria necessário um site ou blog só para essa finalidade. Portanto, passemos imediatamente à história da crucificação mais famosa.
Mesmo entre os judeus, muitos anos antes do nascimento de Jesus, a crucificação para punir “traidores” e “infiéis” já existia, mas isto não significava que a maioria deles a aprovava. Ela foi aplicada durante o reinado de Alexandre Janeu na Judéia, e por isto esse rei foi hostilizado por muitos judeus. Eles consideravam que a adoção da morte na cruz contradizia a Lei Mosaica (*), coisa que um judeu jamais poderia admitir.
Existem informações de que a Lei Mosaica só admitia a pena de morte por apedrejamento, decapitação ou apedrejamento, mas não por crucificação. De qualquer forma, parece-me contraditório acreditar que tal lei proveniesse de um Deus que é todo-poderoso e extremamente benevolente.
Entre os judeus que defendiam a Lei Mosaica estavam os fariseus, uma classe de elevada condição social e política – e, ao mesmo tempo, um partido político. Alexandre Janeu só não implantou o suplício na cruz por causa da forte influência dos fariseus. Somente delitos muitos graves eram punidos com a pena de morte, e ainda assim o tipo de penalidade teria que ser decidido pelo Sinédrio, um tribunal composto por 71 juízes. Mas isto não era suficiente: o réu só seria condenado se houvesse aprovação de todos os 71 membros do Sinédrio.
Porém, depois do fim do reinado de Alexandre Janeu, essa tradição tão arraigada entre os judeus não foi levada adiante por outros reis da Judéia. Herodes, o Grande, em cujo reinado Jesus nasceu, não foi obediente à Lei Moisaica, mas também não adotou a crucificação. Depois da morte de Herodes, toda a Judéia se rebelou contra seus descendentes. Nos anos 6, 5 e 4 a.C. (**), o representante do Império Romano na província da Síria, Públio Quintílio Varo, encarregado de promover a paz na região, invadiu a Judéia com quatro legiões que dominaram os focos da rebeldia e puniram os rebeldes com mortes em cruzes. A história confirma que pelo menos dois mil judeus foram crucificados.
Quando PÕncio Pilatos era procurador do Império Romano na Judéia, cargo que ele ocupou de 26 d.C. a 36 d.C., a revolta dos judeus contra Roma estava no seu auge. As ações de Pilatos para combatê-la foram tão violentas que até mesmo o então representante do Império Romano na Síria, Lúcio Vitélio, o obrigou a ir a Roma para prestar conta de seus atos perante o imperador Tibério Graco.
Por essa ocasião, Jesus tinha pouco mais de 20 anos de idade. Considerado como o “messias” prometido por Deus segundo uma antiga “profecia” existente entre os judeus desde antes de seu nascimento, e tido como o próprio “Filho de Deus”, ele liderava um movimento contra a tirania romana, mas falava de paz, não de guerra. Isto causava descontentamento entre muitos dos próprios judeus rebeldes, que defendia a realização de uma ação militar contra Roma. Por outro lado, isto causava também preocupação ao governo de Roma: o fato de Jesus pregar o amor ao próximo – mesmo que esse “próximo” fosse o pior inimigo – poderia incitar ainda mais os judeus mais revoltados.
Pelas mesmas razões, se Jesus era visto pelos romanos como uma ameaça ao Império Romano, ele também interpretado pelos próprios líderes judaicos como uma ameaça à sua condição de pessoas que gozavam de poder e privilégios que lhes eram concedidos pelo império Romano – em troca de certos “favores”, é claro. Não tardou, portanto, para que Jesus fosse “julgado” e condenado à morte na cruz. “Julgado” entre aspas porque seu destino já estava definido pelos juízes.
Até mesmo o próprio Pôncio Pilatos considerava a morte na cruz uma penalidade tão bárbara que ele mesmo tentou, por diversas vezes, salvar Jesus dessa punição. Chegou a oferecer Barrabás, um ladrão e assassino que já cumpria pena numa prisão, para ser crucificado em seu lugar, mas a maioria dos judeus, influenciada por seus próprios juízes, não concordou. O resto dessa história, a maioria de vocês já conhece.
(*) “Lei Mosaica” ou “Os Dez Mandamentos” – a lei que, segundo as tradições judaico-cristãs, foi entregue a Moisés pelo próprio Deus no monte Sinai. As palavras “mosaico” e “mosaica” provêm do nome de Moisés.
(**) “a.C.” (”antes de Cristo”). Isto aconteceu depois que Jesus já havia nascido, mas há alguns anos descobriu-se um erro de cálculo quanto ao ano de seu nascimento, que resultou numa diferença de seis anos. Para não haver maiores confusões quanto a datas históricas, decidiu-se manter os calendários historicamente dividos com o erro. Deve-se considerar também que os anos decorridos antes do ano 1 d.C. (depois de Cristo) são contados em ordem decrescente, e que “depois de Cristo” significa ” depois do nascimento de Jesus” e não depois de sua morte. Desta forma, Jesus teria nascido no ano 6 a.C. e completado dois anos de idade no ano 4 a.C., e assim por diante.
Referêrencias:
- “O livro de Esdras” e “O Livro de Ester” (Antigo Testamento) e “O Evangelho Segundo João” e “O Evangelho Segundo Mateus” (Novo Testamento) – Bíblia – Editora Sociedade Bíblica do Brasil – Rio de Janeiro, RJ
- “O Evangelho Segundo João”
- “A Cruz Antes e Depois de Cristo” – Enciclopédia Conhecer, vol. IV – Editora Abril – São Paulo, SP
- “Jesus”, de Richard France , e “Chosen People: Judaism” (”O Povo Escolhido: Judaísmo”), de David Harley – “The World’Religion” – editora: Lion Publishing plc - Hertz, Inglaterra.


