Esta é uma palavra que circula frequentemente nos meios religiosos mas, ao que parece, nem sempre as pessoas que a utilizam conhecem realmente seu significado. Mesmo entre os próprios teólogos, há muitas controvérsias. Como não sou teólogo, para escrever sobre este tema busquei diversas fontes, religiosas e não religiosas, em busca de explicações que me parecessem pelo menos as mais sensatas.
Minha pesquisa teve como ponto inicial algo que eu já sabia: a palavra “teologia” tem sua origem em duas palavras do idioma grego: “teo” provém de “theos”, que significa “deus” ( escrito assim, com letra inicial minúscula porque não se refere a Deus, mas a um “deus” ou a “deuses”, existentes ou não, de todas as religiões) e “logia” provém de “logos”, que singifica “estudo”.
Assim, já que todas as outras palavras de origem grega com o término “logia” (”biologia”, ”ecologia”, “geologia”, etc.) são denominações de ciências, supus que a teologia seja utilizada coma pretensão de ser uma delas. Como toda ciência tem um objeto a ser estudado (no caso da biologia, o “objeto” é a vida – “bio” provém de “bios”, que é “vida” em grego), concluí que a teologia tem, não apenas Deus, mas os “deuses” em geral – inclusive ele – como objetos de estudo.
Desta forma, no que que se refere à teologia,torna-se sem sentido o conceito de “ciência” que sempre ensinam nas escolas: ”A ciência é um conjunto de métodos para obter conhecimento através da experiência e da observação”. É possível observar e experimentar cientificamente Deus ou deuses que não existem?
Ao mesmo tempo não concordo com os que dizem que uma ciência como a historiologia, por exemplo, não combina com este conceito. Ao contrário, esta sim, se encaixa perfeitamente a ele. A historiologia (estudo da história) não é apenas um estudo de eventos passados, mas principalmente de fatos atuais como consequências de eventos passados. Os eventos ocorridos nos passado já são, por si mesmos, experiências, e como tal, podem ser (e de fato são) observados através de um conjunto de métodos específicos.
O que é um “teólogo”?
Voltemos a nos referir à teologia. Podemos dizer que um teólogo é um cientista?
Busquei a resposta durante anos em revistas, enciclopédias, livros (muitos dos quais percebi que eram meramente sensacionalistas). A explicação que mais me atraiu a atenção foi dada por Douglas Davies, professor do Departamento de Teologia da Universidade de Nothingan, na Inglaterra. Em seu artigo “The Study of Religion” (”O Estudo da Religião”), ele não explica qual é o significado exato da palavra “Theology” (”teologia” em inglês), mas diz que se trata de “um termo usualmente aplicado ao estudo de uma determinada religião feito por um seguidor dessa mesma religião.”
Se Douglas Davies estiver certo, podemos dizer que qualquer pessoa, desde que seja um seguidor de uma religião qualquer, e que se predisponha a fazer análises de sua própria religião, é um teólogo?
Douglas Davies explica que o conceito sobre teologia exposto em seu artigo é concernente com os significados de um conjunto de doutrinas que são desenvolvidas durante anos, e que essas doutrinas são derivadas tanto das escrituras como da interpretação das escrituras. Neste caso, pode-se dizer que as doutrinas não são exatamente corretas, já que elas dependem de interpretações, e estas podem ser resultantes de equívocos.
A teologia cristã é diferente das não cristãs?
Segundo a Wikipedia, a palavra “teologia” foi suada pela primeira vez pelo filósofo grego Platão em seu livro “A República”, um de seus mais conhecidos “Diálogos” (*). Mais tarde, a mesma palavra foi usada em diversas ocasiões por outro filósofo grego, Aristóteles, que lhe deu dois significados diferentes: num deles, a teologia seria um ramo fundamental da filosofia; no outro, a “teologia” teria sido usada como denominação da mitologia anterior à filosofia, mas de forma pejorativa.
O teólogo suíço Karl Barth definiu a teologia como “falar a partir de Deus” – o que não significa “falar de Deus”. De acordo com este conceito, o teólogo é alguém que se considera capaz de falar o que Deus falaria – o que, pessoalmente, considero como uma ousadia excessiva da pessoa que pensa que tem essa condição.
Segundo vários autores, no cristianismo, a teologia se baseia na revelação de Deus ou da palavra de Deus na Bíblia. No entanto, sabemos que ao longo dos anos os textos da Bíblia não foram apenas traduzidos para vários idiomas, mas também MODIFICADOS segundo os critérios de vários “tradutores”. E muitos livros contidos na Bíblia original – entre eles, mais de 400 evangelhos, segundo teólogos como o italiano Luigi Moraldi (**) – foram simplesmente foram RETIRADOS.
Douglas Davies explica que, considerando o que já está exposto acima, tudo leva à aplicação do conhecimento do comportamento comum – ou seja, da ética – e a atos especiais de adoração, que no cristianismo são chamados de “liturgia”. Segundo o professor inglês, embora certos nomes sejam utilizados especificamente na teologia cristã, na verdade esses mesmos atos podem ser encontrados, embora com nomes diferentes, em muitas outras religiões do mundo.
Neste caso, como o próprio Douglas Davies conclui, a teologia não é o estudo de Deus ou dos deuses, mas a análise de uma religião feita pelo seu seguidor, a partir de dentro dela mesma, considerando que sua fé é verdadeira, embora nem sempre relacionada às constantes mudanças das situações do mundo. Isto significa que a teologia está diretamente relacionada às tradições religiosas. Portanto, creio que, em vez de “teologia”, talvez o nome mais adequado fosse “religiologia” (”o estudo da religião”). O “teólogo” seria, portanto, um “religiólogo”.
(*) Leia o artigo “Platão”, no “Qualidade Devida”.
(**) Autor de “Os Evangelhos Apócrifos”.
Referências:
- Wikipedia
- “A República”, de Platão – edição em português: editora Nova Cultural - São Paulo, SP
- “The Study of Religion” (”O Estudo da Religião”), de Douglas Davies - artigo publicado no livro “The World’s Religions” (”As Religiões do Mundo”) – editora: Lion Publishing plc – Hertz, na Inglaterra; e Sutherland , na Austrália.