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10/07/2009 - 12:15

Breviário sobre a crítica literária brasileira

A história da crítica literária no Brasil, segundo o texto Papéis Colados, de Flora Süssekind, tem início nos anos 1940, quando tomaram forma as primeiras tendências críticas no Brasil: a crítica jornalística e a crítica universitária. Da tensão entre essas duas tendências surgiu, segundo a autora, a crítica moderna no País.

Nessa época, havia poucas universidades de Letras no Brasil, a maioria ligada ainda aos cursos de Filosofia. A Literatura subjugava-se ao ensino vernacular, e a crítica literária disseminava-se pelos jornais, onde os “homens de letras” compunham suas análises “sob a forma de resenhas”, facilitando a comunicação com o grande público. Essa crítica, nos explica a autora mais adiante, é marcada pela “não especialização da maior parte dos que se dedicam a ela, na sua quase totalidade bacharéis” e pela forte tendência à “oscilação entre a crônica e o noticiário puro e simples”. Também contribuem para esse quadro a exigência dos leitores, que requerem entretenimento e “leitura fácil”, e da própria produção literária, que tinha nessa crítica uma grande aliada para o escoamento da produção: a propaganda.

Exemplo da representatividade comercial da crítica jornalística nos dá a autora: “No dia seguinte à publicação do rodapé de Álvaro Lins sobre Sagarana, a obra de Guimarães Rosa passou a ser procuradíssima nas livrarias”.

A “crítica de rodapé”, como se refere a autora a essa crítica jornalística, efó representada por nomes de relevo, a exemplo de Antonio Candido (que mais tarde se tornaria um dos grandes modificadores do fazer crítico brasileiro), Humberto de Campos, Tristão de Ataíde, Sérgio Millet, Otto Maria Carpeaux, Mário de Andrade, Wilson Martins, Nelson Werneck Sodré e Álvaro Lins ― este, figura emblemática desse tipo de crítica.

A homogeneidade é apenas aparente, no entanto. Dentro desse contexto, convivendo na imprensa diária, surgem “posturas conflitantes a respeito do exercício da crítica”. A autora complementa: “E uma polêmica, ora surda, ora em alto e bom som, foi se delineando de modo cada vez mais nítido dos decênios de 1940 e 1950”. De um lado, a antiga crítica, calcada no impressionismo e no autodidatismo, com fortes tons pessoais; de outro, a crítica recém-saída das universidades, especializada e auto-proclamando-se “científica”. Estabelecendo métodos e critérios para a análise literária, a crítica científica acabou por subjugar a crítica impressionista, que não conhecia os cânones da análise literária, baseando especificamente no “comodismo estético” do crítico. A mudança nos critérios de avaliação de quem critica mostra seus primeiros sinais. Ou, como descreve a autora, a “carteira de habilitação” para exercer a atividade já não é a mesma: agora, as análises críticas tinham de ser baseadas no conhecimento acadêmico.

Essa crítica profissional, tão clamada pela classe média e depois tornada estranha por ela mesma, acabou posteriormente se afastando do grande público. A leitura fácil dos antigos jornalistas críticos foi substituída por uma linguagem difícil, marcada por referências estranhas ao leitor comum, “não especializado”, que, ao contrário de quem escrevia, não tinha a formação “ampla e complicada” das universidades.

Isso levou a uma nova polêmica entre os críticos-scholars ― assim denominados os universitários ― e os críticos jornalistas. Dessa vez, estava no centro da questão a substituição do jornal pela universidade como centro do saber crítico. Interessante notar a comparação feita pela autora em seu texto, trazendo à tona a figura do médico “amador” sendo substituído pelo médico profissional, formado pela universidade e detentor do saber. Da mesma forma, tendo como principal figura Afrânio Coutinho, os scholars exigiam a formação do crítico na universidade de Letras.

Pouco depois, surgem dissidências no seio da própria crítica universitária, dissidências essas que afloram na permanente construção do fazer crítico. Essas duas tendências a autora chama de “crítica estética”, representada mais uma vez por Afrânio Coutinho, e a “crítica dialética”, defendida por Antonio Candido. Na primeira, a crítica aproxima-se do formalismo russo, elegendo um método imanente de abordagem textual e desprivilegiando aspectos extra-textuais, como história e sociologia. Em Candido, a literatura passa a constituir um sistema formativo, que se desenvolve continuamente e relacionado a um contexto histórico-sociológico.

A crítica de rodapé retorna posteriormente nas décadas de 1960 e 1970, considerados pela autora como “anos universitários”. O enfraquecimento da crítica especializada, com sua linguagem de pouco acesso e restrita aos âmbitos intelectuais, possibilitou esse ressurgimento. Reafirmaram-se o diálogo entre a crítica e a grande imprensa, sinalizada na reedição dos suplementos literários, veiculados em jornais. Dessa nova relação, surge o que a autora chama de “crítico moderno”, ou o crítico-teórico, que tem em Costa Lima sua principal referência. Esse crítico, voltando-se para a sua linguagem, parece equacionar o impressionismo jornalístico e o distanciamento do especialismo acadêmico elegendo o ensaio, gênero que equilibra posicionamento ideológico com argumentos “científicos”, como forma textual maior.

Defrontando com o impressionismo tardio, esse crítico se estabelece como autoridade para falar em literatura, o que necessariamente o leva a um diálogo com o modus fazendi literário da atualidade. Como afirma a autora, “….na década de 80 é que o crescimento editorial, ao contrário do que se podia esperar, se desestimula uma reflexão crítica mais atenta (já que o interesse primordial é vender livros, não analisá-los), estimula, por sua vez, nova ampliação do espaço para a literatura na imprensa”. Isso aponta para a tendência ao ressurgimento da crítica jornalística, mais ainda com as instituições universidade e jornal disputando o título de produtora e divulgadora de conhecimentos.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:


8 comentários para “Breviário sobre a crítica literária brasileira”

  1. André Agui disse:

    Desculpa de paixão velho lá monstro apareceu uma galera que num tem nada a ver velho quanta bobagem lá cara dessa galera. Monstro, Caralho monstro, em busca de Deus é, isso é teu velho?!? Massa pow, Prof. Flora é bem arrumadinha nisso velho bem competente no que faz eu tenho teorias minhas aqui sobre ela, mas, bom, depois a gente troca uma idéia sobre ela lá na tua casa pow, sobre as linguagens, literaturas, críticas e filosofia, às vezes me pergunto, por que que a linguagem interessa tanto a filosofia? pq será?!? De repente acontece pq isto tudo é proveniente de uma série de palestras ministradas por professores? Que fornecem alguns exemplos de casos da história da “filosofia” em que algumas questões relativas e linguagens já vem adquirindo suas importâncias?!? Sei lá, acho que trata-se mesmo de um panorama de questões da teoria do significado relacionadas ao desenvolvimento filosófico, que nos fornecem pequenas amostras do que eu chamo de “Problemas tradicionais da filosofia da linguagem: verdade, realidade, existência, lógica, conhecimento, necessidade, sonhos, idéias, croticas, “comunicação” e por aí vai monstro………. o apogeu das idéias contam também os seus capítulos sobre as perspectivas, teoria do significado, acerca da relação linguagem-filosofia.

    Ao ler e expor monstro, o leitor já deve ter em mente essa distinção entre a história da filosofia, história das idéias, histórias da linguagem, história da crítica, história da comunicação….. e etc… e reconhecer que a história que ora esboço tanto produz como é produzida é pelo estado atual do entendimento filosófico enquanto análise, sacou?!? Bem como um capítulo conclusivo também são precedentes, e a partir dos quais essa linguagem pensada como elemento necessário é uma teoria aplicada no significado e não de uma teoria pura, a qual dependeria apenas de boas definições na mente de cada um ou do problema de tornar explicitas para outras pessoas, tais distinções concebidas agora linguagem pública.

    Porém, continuando nesse meu método monstro, não é de expor detalhadamente argumentos dos filósofos, dos críticos, da linguagem em si, da comunicação, dos entedimentos, das críticas e etc…. ou delinear as principais conclusões, mas qual “a sua” importância filosófica e os tipos de consideração que levam-me seus autores a me adotá-las?!?

    Grosso modo, para o autor e como autor, nossas sentenças devem exprimir idéias que significam apenas modos diferentes, “conforme em uso” uma vez, claro, que jamais posso admitir a hipótese da compreensão absoluta da mente, e da linguagem alheia (críticas). Gostaria de me estender, mas já tá bom velho, valeu monstro!!!Uhuuuuuuuuu!!!!!!!!!

    Sei lá, mas é só minha humilde opinião monstro, parabéns velho, tá du carrrrrrraaaaaaalhoooo esse post pourrrrra!!!!!!! Sem neuras caralhoooooooo!!!!!!!!!!!!

    Abraço irmão!!!!

  2. Lendo e deglutindo, mas logo adiantando: tá foda.

    de bom, claro.

  3. Malthus disse:

    Valeu, André. Esse texto foi pra universidade, faz tempo…

    Grande Álisson. Valeu a visita e o comentário (afinal, quem não gosta de elogio de um crítico literário, né? hehehe).

    Abraço em vcs

  4. Catarina disse:

    Pode crer…

  5. Cristovam Meira de Sousa disse:

    Olá, meu caro,bênçãos pra você!:…Gostei muito…ótimo mesmo!…Por que você não escreve um longuário sobre o mesmo tema?…esses assuntos me fascinam,não sei por que estudei tanta matemática!…Hoje nada sei!…Mas,fragmentando o texto,se para isso eu tivesse competência,faria opção pela crítica dialética,defendida por Antonio Candido,num contexto histórico-sociológico e ontológico…Parabens!…

  6. Malthus disse:

    (Resposta para Cat) Só.

    (Resposta para Cristovam) Gostei da ideia do “longuário”. hehehe Obrigado pela visita. Abraços fraternos

  7. Addré agui. disse:

    Valeu monstro! Mas, caramba, não sabia que o meu post tinha sido roubado velho, mas fico feliz mesmo assim, tendo pouco né, e agora confirmado, saber que pelo menos estou perto, voltei pq esqueci de colocar meu blog pow, é novo!

    http://blogdarua9.blogspot.com/

  8. Malthus disse:

    Grande André. Massa o teu blogue, cara. Tá linkado aí do lado (pra rimar).

    uhuuuuuu

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