31/07/2009 - 15:55
Sou
Sofrimento e paixão desordenada
Fome e saciedade
Mãos inermes e falho desejo de perfeição.
Eu sou
A dor da imperfeição
Estampada em meus sensores
― o sul, o norte.
Sou esse eu,
Morte em plena atividade.
Emblema de corpo sequioso
― pele, cabelo, osso, mineral.
E ainda sou
― grito silencioso em mim mesmo ―
O brilho do astro que perde o mal-querer
Nau desgovernada e deslizante
Achando o tempo, o espaço,
A manhã e o orvalho.
Mas também sou
O que ergue e ostenta
A vontade de vencer.
Rútilas espadas ensanguentadas dos que se foram.
O único muro a erguer-se entre os jazigos.
E mesmo que se retire a chuva
E o verbo simplifique o voo
Sou eu que sou
O poeta do extremo eu!

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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10/07/2009 - 12:15
A história da crítica literária no Brasil, segundo o texto Papéis Colados, de Flora Süssekind, tem início nos anos 1940, quando tomaram forma as primeiras tendências críticas no Brasil: a crítica jornalística e a crítica universitária. Da tensão entre essas duas tendências surgiu, segundo a autora, a crítica moderna no País.
Nessa época, havia poucas universidades de Letras no Brasil, a maioria ligada ainda aos cursos de Filosofia. A Literatura subjugava-se ao ensino vernacular, e a crítica literária disseminava-se pelos jornais, onde os “homens de letras” compunham suas análises “sob a forma de resenhas”, facilitando a comunicação com o grande público. Essa crítica, nos explica a autora mais adiante, é marcada pela “não especialização da maior parte dos que se dedicam a ela, na sua quase totalidade bacharéis” e pela forte tendência à “oscilação entre a crônica e o noticiário puro e simples”. Também contribuem para esse quadro a exigência dos leitores, que requerem entretenimento e “leitura fácil”, e da própria produção literária, que tinha nessa crítica uma grande aliada para o escoamento da produção: a propaganda.
Exemplo da representatividade comercial da crítica jornalística nos dá a autora: “No dia seguinte à publicação do rodapé de Álvaro Lins sobre Sagarana, a obra de Guimarães Rosa passou a ser procuradíssima nas livrarias”.
A “crítica de rodapé”, como se refere a autora a essa crítica jornalística, efó representada por nomes de relevo, a exemplo de Antonio Candido (que mais tarde se tornaria um dos grandes modificadores do fazer crítico brasileiro), Humberto de Campos, Tristão de Ataíde, Sérgio Millet, Otto Maria Carpeaux, Mário de Andrade, Wilson Martins, Nelson Werneck Sodré e Álvaro Lins ― este, figura emblemática desse tipo de crítica.
A homogeneidade é apenas aparente, no entanto. Dentro desse contexto, convivendo na imprensa diária, surgem “posturas conflitantes a respeito do exercício da crítica”. A autora complementa: “E uma polêmica, ora surda, ora em alto e bom som, foi se delineando de modo cada vez mais nítido dos decênios de 1940 e 1950”. De um lado, a antiga crítica, calcada no impressionismo e no autodidatismo, com fortes tons pessoais; de outro, a crítica recém-saída das universidades, especializada e auto-proclamando-se “científica”. Estabelecendo métodos e critérios para a análise literária, a crítica científica acabou por subjugar a crítica impressionista, que não conhecia os cânones da análise literária, baseando especificamente no “comodismo estético” do crítico. A mudança nos critérios de avaliação de quem critica mostra seus primeiros sinais. Ou, como descreve a autora, a “carteira de habilitação” para exercer a atividade já não é a mesma: agora, as análises críticas tinham de ser baseadas no conhecimento acadêmico.
Essa crítica profissional, tão clamada pela classe média e depois tornada estranha por ela mesma, acabou posteriormente se afastando do grande público. A leitura fácil dos antigos jornalistas críticos foi substituída por uma linguagem difícil, marcada por referências estranhas ao leitor comum, “não especializado”, que, ao contrário de quem escrevia, não tinha a formação “ampla e complicada” das universidades.
Isso levou a uma nova polêmica entre os críticos-scholars ― assim denominados os universitários ― e os críticos jornalistas. Dessa vez, estava no centro da questão a substituição do jornal pela universidade como centro do saber crítico. Interessante notar a comparação feita pela autora em seu texto, trazendo à tona a figura do médico “amador” sendo substituído pelo médico profissional, formado pela universidade e detentor do saber. Da mesma forma, tendo como principal figura Afrânio Coutinho, os scholars exigiam a formação do crítico na universidade de Letras.
Pouco depois, surgem dissidências no seio da própria crítica universitária, dissidências essas que afloram na permanente construção do fazer crítico. Essas duas tendências a autora chama de “crítica estética”, representada mais uma vez por Afrânio Coutinho, e a “crítica dialética”, defendida por Antonio Candido. Na primeira, a crítica aproxima-se do formalismo russo, elegendo um método imanente de abordagem textual e desprivilegiando aspectos extra-textuais, como história e sociologia. Em Candido, a literatura passa a constituir um sistema formativo, que se desenvolve continuamente e relacionado a um contexto histórico-sociológico.
A crítica de rodapé retorna posteriormente nas décadas de 1960 e 1970, considerados pela autora como “anos universitários”. O enfraquecimento da crítica especializada, com sua linguagem de pouco acesso e restrita aos âmbitos intelectuais, possibilitou esse ressurgimento. Reafirmaram-se o diálogo entre a crítica e a grande imprensa, sinalizada na reedição dos suplementos literários, veiculados em jornais. Dessa nova relação, surge o que a autora chama de “crítico moderno”, ou o crítico-teórico, que tem em Costa Lima sua principal referência. Esse crítico, voltando-se para a sua linguagem, parece equacionar o impressionismo jornalístico e o distanciamento do especialismo acadêmico elegendo o ensaio, gênero que equilibra posicionamento ideológico com argumentos “científicos”, como forma textual maior.
Defrontando com o impressionismo tardio, esse crítico se estabelece como autoridade para falar em literatura, o que necessariamente o leva a um diálogo com o modus fazendi literário da atualidade. Como afirma a autora, “….na década de 80 é que o crescimento editorial, ao contrário do que se podia esperar, se desestimula uma reflexão crítica mais atenta (já que o interesse primordial é vender livros, não analisá-los), estimula, por sua vez, nova ampliação do espaço para a literatura na imprensa”. Isso aponta para a tendência ao ressurgimento da crítica jornalística, mais ainda com as instituições universidade e jornal disputando o título de produtora e divulgadora de conhecimentos.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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02/07/2009 - 17:00
Esta cara fétida, atirada à beira do rio,
Talvez seja o verdadeiro Recife que apodrece
Preso às engrenagens dos engenhos e trapiches.
Sob a paisagem de janelas modernistas
Mulheres sem beleza cobram R$ 20
Enquanto ternos e tailleurs cospem,
Do terraço do Paço Alfândega,
Cappuccinos comovidos aos fracos e pequenos.
A penumbra da tarde, anunciando bares abertos e pessoas livres do trabalho,
Rememora o passado glorioso de lutas libertárias.
Aqui, porém, a luta mudou seus termos
E a glória é só uma puta que vende suas entranhas por um pedaço de pão
ou 15 minutos de fama.
Já o relógio desmemoriado da noite
Desemboca sombras indefinidas no horizonte.
O rio segue seu curso: leva consigo
A sofreguidão dos shoppings e a solidão dos esgotos para longe.
Bem longe.
Lá, onde a merda e a lama
Moldam os homens do futuro.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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