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Arquivo de novembro, 2008

27/11/2008 - 16:10

Eternidade

A cidade está cheia de setas
Me dizendo coisas que não entendo.
Às vezes me confundo,
Mas não me arrependo
De seguir certas verdades.

Sei que as coisas vêm e vão
― esse, o caminho da eternidade.

Foto: Malthus de Queiroz

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/11/2008 - 13:25

Uma manhã qualquer

Lento, lentamente, como se penetrasse a noite com a intimidade do silêncio, percorria com os olhos a silhueta dos seus seios. Ela ― distância ― imergia distraída em seus próprios passos, casas e prédios com o desdém involuntário habitual, despertando aos poucos no ritmo lento de uma manhã qualquer de meio de semana.

Outra mulher ― eram agora seis olhos tomados de pensamentos diferentes ― via a cena desconfiada, lia jornais todos os dias, percebeu certa insistência nesse olhar malicioso. Aproximou-se, discreta:

― Tem um homem olhando para os teus peitos.

A primeira retirou-se da paisagem, concentrando esforços para identificar quem a olhava tão desrespeitosamente. Com um movimento rápido, recompôs a blusa, fina, que despida do vazio de sua forma própria apossava-se ― deliciosamente para ele ― da forma do seu seio.

Ele, o artista que pincelava aqueles peitos na tela misteriosa do desejo, desconcertou-se. Virou para um lado, para o outro; achara tudo um ermo, margens separadas por rios turvos, apesar da brancura da manhã.

A outra atravessou a rua, olhando desafiadora para o homem. Mirando o chão, a primeira mulher continuou o passo, parando na frente de uma vitrine. Nela ― lago de Narciso ― via-se o reflexo de seu sorriso quase impronunciado, exibindo a discreta vaidade das imagens profanadas.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/11/2008 - 12:53

Tecnoblogagem

Uma placa hoje me chamou atenção no caminho para o trabalho. Era uma placa simples, sem muitas proezas estéticas; estava pendurada acima de uma porta metálica, dessas que abrem para cima, enrolando-se em si mesmas. Anunciava que ali, naquele estabelecimento, vendiam-se “auto tintas”.

Minha primeira reação foi de estranhamento (acho que mais reflexo do que análise): levando em consideração o universo de significações possíveis, projetei, no primeiro momento, o que seria uma “auto tinta”. Tinta para pintar a si mesmo? Faça você mesmo sua tinta? Tinta que se faz sozinha?

Depois de alguns segundos de delírio, percebi que não era nada disso. Como o paciente leitor deste blogue já deve ter deduzido, tratava-se de tinta para automóvel. “Nada mais lógico”, dirá este que perde seu tempo na frente do computador lendo estas filosofias baratas. E é por isso que digo: continue lendo, não lhe custará muito.

Essa simples placa amarela esconde informações valiosas sobre a língua portuguesa ― principalmente quando não se tem mais o que fazer a não ser esperar que o ônibus (touro mecânico?) complete o tortuoso trajeto até o seu ponto. Nela, pode-se observar um fenômeno lingüístico bem interessante: a transformação do antepositivo auto.

Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa 2.0, o termo deriva do grego autós, ê, ó e significa “(eu) mesmo, (tu) mesmo, (ele) mesmo, (si) mesmo”. Ele já aparecia em algumas (poucas) ocorrências no latim, sendo amplamente utilizado pela comunidade científica no século XIX. Só mais tarde, no século XX, o termo adquiriria também outro significado: tornou-se uma forma reduzida da palavra automóvel (que, aliás, preserva o significado primevo do antepositivo: “que se move por si mesmo”). Também são testemunhas dessa modificação autocarga, auto-escola, autódromo.

Essa transformação se deu numa clara relação da linguagem com a tecnologia, que a cada dia introduz informalmente alterações na língua sem maiores cerimônias (principalmente na área da computação). Há trinta anos, o que era um e-mail? Mouse só na boca de um gato inglês. E você não podia nem escanear uma imagem, pois nem escâner havia.

“Para uma palavra ser introduzida no vocabulário, tem de ser usada por um autor ou em alguma situação que tenha importância, ou seja, ter uso corrente na TV ou em jornais”, diz o lexicógrafo Antônio José Chediak, coordenador da equipe que elaborou um dicionário de novos verbetes da Língua Portuguesa, a mando da Academia Brasileira de Letras (as palavras citadas no parágrafo anterior foram contempladas). Só que, na placa, o vocábulo deve ser introduzido no português como uma única palavra ― autotinta ―, já que nesse caso é dispensado o uso do hífen.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/11/2008 - 14:00

Soneto de um sonho com pessoa desconhecida

Neste instante, há uma estrela luminosa
No céu de chumbo há pouco despertado.
E o meu corpo de um gozo enamorado
Sonha que esse gozo do meu corpo se enamora.

Acordo com a imagem viva na memória.
E com um sorriso escondido pela sala
Lego à madrugada hábil e sigilosa
A trama deste tempo que o tempo não guardara.

Na mão côncava do firmamento
Brota um girassol de luz — ou algo que o valha —
Sobre o jardim do meu esquecimento.

E me deixo nesse abismo entre as horas
Que é nada, e como um nada que se espalha
Perdura em sonho, e como sonho me devora.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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