29/05/2008 - 15:31
A praça é de todos
e por ela teus olhos correm sossegados.
A tua alvura me encanta, e,
junto de ti,
eu volto a brincar tranqüilo
longe
dos gritos enfermos dos que se encontram apressados.
Tu, gigante; eu, pequeno
tão maravilhado contigo que nem ouvi as horas reclamarem meus serviços.
Tu sorris.
Teu rosto se ilumina. Teus cabelos se esvoaçam.
Tu és a tarde, o crepúsculo,
o verde das árvores,
o Sol;
tu és a minha mão.
E nós sempre estaremos aqui, juntos,
sinceramente felizes,
como um poema inspirado por anjos
que podia jurar corriam do teu lado.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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16/05/2008 - 11:24
Toda escrita é reescritura, e uma narrativa sempre comporta em si uma “abertura”, lacuna que lhe possibilita dialogar com outros escritos. Essa incompletude, alardeada por Bakhtin no seu famoso Questões de Literatura e Estética e endossada por Barthes em S/Z, permite que nós releiamos ou revejamos cenas semelhantes em obras diferentes. São as referências múltiplas, que se segredam nas entrelinhas ou “entrecenas” da produção contemporânea, temas que se repetem pelo simples fato de autores serem, antes de tudo, leitores.
Lembro-me de alguns romances policiais de Agatha Christie e de Sir Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes. Neles, é lugar-comum o assassino ser alguém com pouca ou quase nenhuma participação na história, o que praticamente torna nula qualquer tentativa de adivinhação por parte do leitor (excetuando-se, obviamente, os mais experimentados nesse tipo de leitura). O enredo é habilmente conduzido por um narrador de fora, que sabe tanto quanto o leitor, possibilitando assim que os fatos sejam apresentados numa cadeia temporal organizada, uma espécie de lógica interna, como se o próprio narrador descobrisse naquele momento o que está narrando. Dessa forma, se estabelece uma ordem de acontecimentos que culmina no crime elucidado geralmente por pistas imperceptíveis deixadas pelo meliante no decorrer da trama.
Apesar dessas histórias apresentarem na maioria das vezes grau elevado de inverossimilhança, é digno de nota as similaridades com um episódio recentemente ocorrido, acompanhado de perto (de pertíssimo) pela TV: o assassinato da menina Isabella. Rendendo homenagem ao gênero suspense policial, personagens rasos metidos a complexos o pai com cara de psicopata, a madrasta ciumenta, a ex-mulher esquiva e cautelosa, o avô paterno maquiavélico, o investigador obstinado desfilam teses e argumentos dos mais romanescos, imprimindo reviravoltas fantásticas à trama e prendendo o leitor na cadeira até nos momentos mais sórdidos da noite. Na falta de um mordomo, tentou-se até inserir um personagem misterioso, à maneira de uma silhueta com sobretudo e capuz vista de relance pelo protagonista, que sumiu sem deixar pistas e seria o verdadeiro culpado. O tom folhetinesco fica por conta da mídia: pílulas de informação repentinas, inseridas no meio da programação normal, constroem o discurso fragmentado e alimentam nossa curiosidade pela próxima cena.
A publicação de romances em jornais já foi prática usual. Aliás, o advento da imprensa, concretizado no século XIX, favoreceu imensamente o desenvolvimento da Literatura, principalmente arregimentando leitores (vide Machado de Assis ou, mais próximo, Carneiro Vilela). Com a chegada da televisão, começamos a ter um contato maior com aventuras fabulosas porém reais e hoje podemos “ler” histórias de amor e ódio em qualquer jornal do meio-dia sem o brilhantismo das grandes obras, é claro. É pena que não possamos desligar a TV da mesma forma que fechamos um livro de história policial.
As narrativas de violência atuais, cada vez mais sem poesia, certamente serão inseridas às avessas na novelística policial contemporânea. No caso Isabella, a vida imitou a arte no que ela tem de mais assustador: a criação de célebres assassinos.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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08/05/2008 - 16:04
Uma flor nasceu em meu jardim. Involuntária, inconsciente. Quando acordei, cuidei que ela estava lá, desatenta, brotando no vento aroma. Ao vê-la, me inquietei e imediatamente chamei minha mulher:
Veja. Uma flor nasceu no jardim.
E agora?, respondeu.
Agora eu não sei, disse-lhe, o rosto tenso.
Mas como isso foi acontecer?
Depois de um breve silêncio, ela emendou:
Será que alguém mais viu?
Essa pergunta me fez pensar no pior; será que algum vizinho, transeunte ou ladrão, alguém mais a tinha visto? Enquanto pensava nisso, já ia imaginando os comentários: “Você viu? Tem uma flor no jardim dos Queiroz. Que absurdo!”. Decerto todos nos olhariam de soslaio nós, culpados e réus por ter permitido tamanha aberração. Não, não poderia suportar; era preciso me livrar daquilo, matá-la, arrancar suas raízes à seiva da terra antes que, mais tarde, seu pólen transformasse uma em dez. E aí, com toda certeza, eu não escaparia do apedrejamento. Entrei para pegar minha arma, que trago escondido na gaveta da parte superior do armário, livre do alcance de todos.
Cheguei de frente à flor. Ela nada fazia, apenas dançava nas mãos do vento e quase beijava os meus pés. Senti-me fraco. Como poderia matá-la assim, sem lhe dar uma explicação? Eu não poderia ser cruel a esse ponto. Em meio àquele jardim, eu olhava suas cores se dissipando pelo ar e quase me comovi, não fossem as pedras calejando meus pés, todas elas postas lá para lembrar o quanto falamos, o quanto ouvimos e agimos e o quanto erramos, porque errar, errar e mais errar é humano, mas deixar uma flor brotar no meio das pedras, é demais.
Engatilhei (como disse, quase me comovi) e apontei para ela. Minha mulher tapou os olhos, evitando ver a deplorável cena. Eu ainda procurava uma explicação, mas consegui dizer pouco:
Desculpe, flor, mas dinheiro eu não vou obter com você. Afinal, para que porra serve flor? Eu só comercializo pedras; pedras para se amar em cima delas, para jogar pelas janelas, para atirar nos que errarem, porque errar é humano. Não comercializo flores.
Dei uma última olhada ao redor, na esperança de ninguém tê-la visto. Atirei.
O eco seco da bala-pedra não chamou a atenção. O barulho de um tiro já está embutido na vida cotidiana. A flor nem aí. Atirei novamente. Novamente nada. Mais três tiros. Nem se deu ao trabalho de parar de baloiçar ao vento.
Os tiros chamaram a atenção. Um, vá lá, passa despercebido. Mas cinco era sinônimo de que alguém morrera, e logo os curiosos estariam à minha porta, como de fato chegaram logo depois, aos poucos, um por um, olhos atentos e acusadores.
Tentamos dizer algo, mas era inútil. Enfatizei-lhes nossos esforços para matá-la, mas, inexplicavelmente, ela permanecera ali. “Ela não morreu”, eu disse.
Alguém no meio da multidão gritou: “O punk não morreu!”, seguidos de brados de “Elvis não morreu!”, “Assassinos!”, “Liberem a maconha!”, “Um auxílio, pelo amor de Deus!”. O tumulto se formou; protestos variados, gritos de ordem, frases de efeito. Todos estavam insatisfeitos com algo. E logo se formou uma passeata pela paz, pela guerra, pelas pedras, pelas flores negadas à vida, pelos filhos assassinados.
A minha flor permaneceu lá, lisérgica, embaixo da janela. Nunca pude nada contra seu aroma contagiante, que sempre me traz lembranças de algo que ainda não conheço.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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01/05/2008 - 13:45
A grande essência de Deus
É feita do que não é,
E por isso a dúvida: sei que há magia
No mistério das pequenas coisas
A chuva que cai e não molha,
A flor que nasce ante os olhos ,
Mas nunca achei um símbolo
Que resumisse por completo essa palavra:
Deus.
Do alto da arrogância de suas torres,
Os que julgam possuir Sua palavra
Traçam planos contextuais,
Suficientes para decalcar, a sangue,
Em camisetas e medalhas,
O rosto dos que morreram inutilmente,
E em vão serão lembrados
quando tão simples seria
Matar a fome do seu irmão.
Não.
Prefiro o acolhimento de meus passos erradios
À essa orfandade arquitetural
De templos abandonados;
Um aperto fraternal de mãos,
Sem dízimos e promessas de eternidade.
Nego, com a liturgia profana do meu corpo,
A quintessência dessa santidade forjada.
E exijo o direito de silenciar
Quando não entender o imenso mecanismo da matéria ausente.
Pois sei que nesse silêncio insuspeito
Habita a voz de Deus essa, que não fala nunca
E que jamais se cala.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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