Circula na internet um e-mail com reportagem da revista Veja, edição 1785, de 15 de janeiro de 2003, abordando o célebre roubo do cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, feito por guerrilheiros da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), da qual, nos conta a matéria, a ministra-chefe da casa civil, Dilma Rousseff, era líder.
O texto é interessante, embora adote um discurso marcadamente direitista de que, aliás, a revista Veja e a Rede Globo são o grande estandarte. Concordo com a nomenclatura adotada pelo repórter ao referir-se à ministra (”criminosa”) afinal, sequestro e roubo são crimes não importa o contexto social em que são executados. No entanto, proponho uma abrangência maior, explicitamente relegada no texto, desse adjetivo.
A trajetória do governo militar é controversa em muitos pontos. Um deles é o cerceamento da liberdade individual em nome de uma suposta ordem moral e política. A concentração do poder balizado na Ditadura pelos insultuosos Atos Inconstitucionais foi, na verdade, falaciosa em seus princípios, pois, pregando o bem-estar da nação, instituía poderes ilimitados aos representantes do regime, que quase sempre ignoravam o direito básico a defesa e julgamento justo. Assim, surgiram as perseguições políticas e os atos “terroristas” palavra, aliás, também bastante controversa, pois poderia ser aplicada a muitas ações do próprio regime linha dura (afinal, como chamar torturas, assassinatos, estupros, prisões arbitrárias? Manutenção da ordem?).
Não é raro um governo apropriar-se de termos linguísticos para erigir uma ideologia enganosa. Temos vários exemplos, alguns bastante atuais como o caso do Oriente Médio, em que os afegãos e iraquianos, de aliados que lutavam contra o inimigo russo socialista, passaram a “terroristas”, pois não se alinhavam mais às idéias ocidentais. Claro que eles são imputáveis pelos atos no mínimo hediondos que cometem. Porém , há algo maior, uma estrutura gigantesca de relações circunscritas em um espaço-tempo outro, que nem sempre se coadunam com nossos preceitos. Comumente, a cria se rebela contra o criador, e os monstros que habitam as ruas sujas da cidade, por onde nunca os governos passam, saem às escuras procurando o fruto prometido.
O caso da Ditadura não é diferente: a pretexto de um crescimento econômico duvidoso, produziu-se a tão famosa dívida externa, que até hoje sufoca o País (sem falar na dívida social para com as famílias dos desaparecidos políticos). Isso levou o regime ao total esgotamento e à natural não-aceitação por parte de grupos que compõem a sociedade: artistas, intelectuais, empresários, dentre outros. O mar de corrupção que a burocracia alimentava foi a gota d`água para que os próprios militares sentissem necessidade de sair de cena. O Brasil cresceu e, de tão pesado, afundou. E os guardiães da moral simplesmente pularam do barco.
Não quero panfletar em favor de um socialismo ingenuamente utópico que também produziu suas monstruosidades nem muito menos questionar a idoneidade de uma classe (a dos militares) tomando por exemplo alguns de seus representantes. Uma geração não deve pagar pelos erros de outra (se não, ainda estaríamos apedrejando alemães mundo afora). Só procuro refletir um pouco sobre esse joguete de discursos que se apropriam de palavras para construir uma imagem de bons meninos, ou de “criminosos”, como é o caso em questão, sem olhar para o próprio umbigo, pois, no fim das contas, tenho a impressão de que a política, desde tempos remotos, independentemente da orientação ideológica, resume-se sempre a algo inominável.