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Arquivo de fevereiro, 2008

28/02/2008 - 13:17

Entre ti e mim

Querida amiga,

Hoje eu te encontrei no ônibus, assim, por acaso, como quem encontra um filme bom que estivesse perdido na memória, em meio a músicas e planos eclipsados pelo tempo. Eu vinha meio distraído — sabe como é, né?, sempre tive um pé na terra e outro na lua — e nem percebi que a cobradora me deu o troco errado.

Quando ia passando pelo corredor, em direção aos assentos de trás, notei teu rosto. Estava diferente, mas eu nem me prendi a isso. Uma senhora se levantou na minha frente, e eu tive de desviar a atenção para não pisar no pé dela ou ter meu pé pisado. Isso foi o bastante para que eu me perdesse novamente nesse universo de poltronas ocupadas e rostos semidescobertos. Daria pra fazer uma metalinguagem de Operários, de Tarsila do Amaral, utilizando sua retórica espiralada para te dizer as mesmas coisas que sempre disse — dessa vez, com o meio tom desse rio que corre acabrunhado ao nosso lado. Talvez coincidência, mas ele segue nossa mesma direção.

Mas aí pensei que eu poderia estar com sono. E eu sei que a letargia causa essas coisas. Arte, poesia, verossimilhança, catarse; você riria de tudo isso, como esse sinal verde da ponte que nos convida a imaginar uma vida sempre em frente, cada um em seu universo. Engraçado pensar isso, porque nesse momento tive certeza de que as velhas ruas nos levam ao mesmo lugar, onde a vida é séria, e a guerra, dura — como Raul já nos dizia.

Quando voltei a mim, percebi que tinha passado do teu assento. Estava vazio ao lado, e não sei por que não me sentei pra bater um papo leve, desses que só se conversa de manhã, do tipo “E aí, que é que tu andas fazendo?”, “E os projetos pro futuro?”. Fatalmente tentaríamos falar das nossas coisas, sem sucesso. Eu diria que prefiro sempre viver minha loucura, você pediria licença delicadamente pra ir ao banheiro, lá desbotando aquele riso que eu não vi, porque hoje é segunda, e nas segundas tudo é muito chato. E, depois das glórias e do inferno torto, voltaríamos ao ponto inicial — que, aliás (e contraditoriamente), foi o ponto final.

Mergulhado nesses pensamentos, de repente pensei nas coisas que não são ditas. Um bom-dia que é engolido bem na hora H, ou um simples “Oi, como vai?” que fica suspenso na cordinha do ônibus. Percebi que você a tinha puxado, como se pedisse educadamente para sair dali e despir dos olhos essa paisagem ridícula, cheia de urbe e caminhos desencontrados. Olhei em direção à porta e só vi uma sombra que descia e se misturava à paisagem cansada das ruas — uma floricultura junto de um bar. Queria tomar uma cerveja contigo agora, mas era cedo do dia e tarde pra essas coisas que não são ditas. De qualquer forma, fico feliz que tudo esteja bem. E que o ônibus não tenha atrasado tanto.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/02/2008 - 12:13

Entardecer na Cidade

Tu és um templo,
E eu te profano, minha doce prostituta,
Com minha língua maldita.

Te alimentas da minha porra
Mesmo quando eu não gozo.
Bebes o suor do meu rosto, o sangue das minhas mãos
E me deixas na tarde sem sentido,
Olhando o Sol esquivar-se languidamente atrás dos prédios.

Teu horizonte é isso:
Um olhar a esmo, passeando entre punks, bichas, playboys,
Belas e gordas mulheres,
Até chegar ao outro lado de minha mesa
Onde se comporta, como imagem santa,
Uma cadeira vazia.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/02/2008 - 11:30

Haicais do ócio e do trabalho

Contemplar, na poesia,
É mais que artifício:
São ócios do ofício.

Quem trabalha
E nunca esmorece
A vida esquece.

O trabalho dá grana,
Mas quem sustenta
É o fim de semana.

Atrasado, tento:
“Foi o ônibus”.
Fosse baterista, seria um contratempo.

Pena poesia
Não ser profissão.
Mas como eu queria.

Na sala, silêncio.
Na tarde, cadência.
Profissão: paciência.

O trabalho é santo.
E, pra não ser profano,
Deixo-o quieto, no seu canto.

Na reunião, olhos atentos
Escondem a verdade:
Voam os pensamentos.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/02/2008 - 14:02

linhasdoteucorpo.mp3

Música dos Picassus
Duração: 03:32
linhasdoteucorpo.mp3

Autor: Malthus - Categoria(s): Podcast Tags:
07/02/2008 - 15:14

Frases para a posteridade

(Lembrando que a posteridade dura mais ou menos uma semana.)

“Vai, vai, vai…”
Vivi Fernandes, atriz pornô.

“Bactérias, num meio, é cultura.”
Arnaldo Antunes, em sua música Cultura.

“When things go wrong, go wrong with you, it hurts too.”
Eric Clapton.

“Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.”
Mia Couto, em Terra Sonâmbula.

“Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.”
Oscar Wilde, citado em O Caderno Rosa de Lori Lamby.

“E quem olha se fode!”
Hilda Hilst, na mesma obra, em resposta à citação acima.

“Tu estás cheirando mal há três dias. Levanta-te e anda, Lázaro.”
Folião bêbado fantasiado de Cristo, voltando de Olinda, falando a outro que estava largado na calçada.

“Tudo flui.”
Heráclito, filósofo grego pré-socrático.

“…o quarto é um mundo, quarto catedral, onde nas intermitências da angústia descobre-se o rosto para colher de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero…”
Raduan Nassar, em Lavoura Arcaica.

“Ele está batendo uma.”
Colega de turma da faculdade, interpretando o trecho acima.

“Amar é saber quem realmente você é e ainda assim gostar de você.”
Minha esposa, revivendo as figurinhas da série Amar é, dos anos 1980.

“Críticos literários são poetas que não fazem sexo.”
Minha ex-professora de Teoria da Literatura.

“A esperança é a última que morre. Mas morre!”
Isa, minha amiga nos tempos da escola técnica.

“A coisa mais importante a aprender é amar e ser amado em troca.”
Christian, personagem do filme Moulin Rouge.

“Quando uma menina vira mulher, os homens viram meninos.”
Slogan de uma marca de lingerie.

“Papai, copa piito e quiati?*”
Minha filha de dois anos, segurando uma nota de R$ 50 que acabara de tirar da minha carteira.

*Papai, vamos comprar pirulito e chocolate?

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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