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Arquivo de dezembro, 2007

19/12/2007 - 15:33

Editorial de Natal

Caros leitores,

Chegou o momento deste que vos escreve se retirar para alguns dias de descanso. O ano de 2007 foi muito produtivo: dentre os muitos textos publicados, crônicas, poemas, piadas, haicais, cordéis e outros gêneros, sempre buscando trazer para vocês informações inúteis, porém de forma prazerosa.

Por isso, espero reencontrá-los na segunda metade de janeiro, quando voltarei a publicar. Grande abraço a todos e, como não poderia deixar de ser, um Feliz Natal e Ótimo Ano Novo.

Haicais Natalinos
(Afinal, não poderia me despedir sem o último post do ano.)

O bom velhinho, sem rodeios,
Chega ao fim do ano
De saco cheio!

Passa o ano à míngua,
E, quando aparece,
Vêm as más línguas:

“Olha a sua barba branca!
Não fora a barriga,
Tocaria as ancas.”

E, no azul do infinito,
Segue o bom velhinho
Fazendo o seu bico.

“Que presente mequetrefe!”,
Diz o Lula. “Em 2008,
Quero um CPMF!”

“Então, meu filho, cuidado com a verba.
Governe direito
Ou a direita governa!”

E cada um que peça
O que acha direito.
Mas Noel tá sem pressa.

E lá vai ele, o bom velhinho,
Com o saco vermelho
Tocando o sininho.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/12/2007 - 11:34

A coisa e sua imagem

O que esconde esta casa
Abandonada no meio da estrada?
Esta calçada seminua,
Preste a ser desintegrada?

Estes rostos indecifráveis
Esculpidos pelo vento,
Como lâminas marcadas
No mais íntimo movimento?

O que sugere essa mudez
Em meio ao barulho da cidade?
Essa tão pouca vida
Semeada na tão pouca vontade?

As coisas não são mais que elas mesmas.
E em cada esquina, ao relento,
Banham-se as imagens,
Lacunas onde adentra o pensamento.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/12/2007 - 13:32

A arte dadaísta e seus dadás

E lá íamos pela tarde afora, conversando distraidamente à entrada do Centro de Artes e Comunicação (CAC), na UFPE, quando, ao entrar, nos deparamos com algo estranho, bem em frente à porta: vários extintores de incêndio, dispostos um ao lado do outro, formavam uma figura geométrica escalena, disforme. Acostumados aos eventos ultraconceituais do Centro, julgamos ser a exposição de uma obra de arte, a mais intrigante e desafiadora de todas as nossas vidas.

Aquilo nos chamou a atenção. Paramos e ficamos observando; logo me veio a conclusão: a arte contemporânea, com toda a certeza, paria mais um enigma. Duchamp brotara ali, ante meus olhos, com seus conceitos dadaístas que tanto fascinaram o espírito inquieto e contestador da minha juventude. Certamente o artista, dispondo de objetos de uso cotidiano, erroneamente entendidos como antiartísticos, construía seu discurso ready made, questionando, na desconexão signo-matéria da obra, a conceituação de arte. Até que ponto o material da arte não seria a sua própria essência? O uso de extintores na construção de uma comunicação poética — na acepção da poíesis aristotélica — evocava o sentido daquela obra, que se tornava arte por ser antiartística, disforme, estetizando o feio e negando o belo.

Pensei em Umberto Eco, em seu livro Sobre os Espelhos e Outros Ensaios, que começa com a genial afirmação “Arte é tudo aquilo que o homem convencionou chamar arte“. E Bachelard me zumbia aos ouvidos com o seu A Poética do Fogo, falando de quando o homem desbravou o mito da noite ao clareá-la com o fogo primitivo. E éramos isso: ao redor da fogueira paleolítica, do totem indecifrável, compúnhamos nossa interpretação, nos apropriando dos conceitos que mais nos convinham. Já formávamos um pequeno grupo de observadores, todos com rostos emblemáticos, decifrando o enigma, a criação, o elemento poético.

Foi quando apareceu o artista. Cigarro no canto da boca, bigode à Rui Barbosa, trajava uma camisa de serviços gerais, a mesma que os funcionários do CAC usavam. Com um olhar meio desconfiado, foi pegando os extintores, um a um, e levando para um carro, estacionado a poucos metros da entrada do prédio. Seria um complemento teatral da peça? Na lataria do veículo, os dizeres:

— Ponto Fire: venda e manutenção de extintores.

Afinal, o segredo desvendado: não era uma obra dadaísta. Mas nossas teses começaram a soar de forma estranha, monossilábica: dadá, dadá, dadá.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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