28/11/2007 - 14:43
V
Madrugada insólita. Corpos abraçados, o barulho do mundo silenciara parcialmente. Cada gesto se revestia de uma mímica impudica traduzida pela morna epiderme sussurrante. Pela sombra, tons eróticos. O último gole, arremessada a garrafa após.
Gostou?
Gostei.
Eu te falei, Júlia. Você é brilho.
“Trilha de flores em teus pés.”
Você também.
Pararam de frente.
“Que se cumpra a oferenda a Eros.”
Eu te vi continuou Júlia enquanto todos dançavam infelizes, em luz clara envolvida.
Se eu puder explicar essa luz como felicidade, é ela paz inexprimível em voz humana.
“A luz do teu corpo envolto de volúpias.”
Se fosses astro disse Júlia te chamaria cometa, pois mesmo errando na imensidão ainda belo fica.
Se fosses anjo, querida, teriam tuas asas o poder de me acompanhar e destornar-me astro solitário.
O hálito de perfume excitante exalava o completo abstraimento do mundo que lhes cercava. Na certa, pensavam em certeza alguma.
Serei teu anjo disse Júlia.
Serei teu astro.
“E enquanto vos for permito amar, amem com toda a intensidade do espírito, pois não há pecado nas paixões da vida, desde que sejam plenas.”
Depois da festa restava o leito; antes do beijo, o desejo. Entraram no quarto. Luz apaziguada e, segundos depois, inexistente. No meio escuro, ainda enxergavam-se.
O toque. Perceberam que era apenas o começo.
VI
Serpente do deserto. Júlia despia-se lentamente, seu corpo em acordes de sensualidade, com leves movimentos para os lados, dança insone. “Teus olhos se fecharão (deitou-se) num caos desordenado de princípios emotivos (beijou-a) quando vieres me visitar no paraíso (corpos em corpos) serei cálice mel para satisfazer-te o paladar (vozes imersas na universal imensidão azul).”
Serpente do deserto. Dedilhavam-se as carnes, acariciavam-se os espíritos longe do corpo; mantra de delícias; bocas efervescidas, úmidas; lábios em lábios; adrenalina travessa disfarçada em voz suave; começou a dança dos pares em ímpar arena mística; o estigma livre de verbo.
Agora, em pé na cama, num desejo tresloucado de tocar o céu, sem leis, sem mais, sem menos, sem reis.
Aroma ameno de amora. Falavam língua desconexa de sexo sem palavras fúteis com mãos cegas a apertar-lhes as nádegas, os seios, desbravando a existência. Toda a essência do ser furtivo em fuga.
Faz-me gozo…
Colossal desestruturação de infelicidade…
Faz-me tua amazona…
Estranha guerreira do meu âmago…
Faz-me magia…
Inolvidável dúvida em mim…
Faz-me…
Eterna…
Faz-me…
Poesia…
Faz-me…
Lírica…
Faz-me…
Luz…
…
…
Primeiro em sussurros, depois aos berros. Uniam-se, contorcionando explosão e calmaria, rosa em orvalho e anti-rosa sem romance, menina, mulher, grito.
“Depois do corpo, ninguém suporta o pouco.”
Juntavam-se sorrisos espalhados pelo quarto. Sem amargura de fim, e sim espera de recomeço. Nuas, nuanças de áureas pérolas, parcialmente desvanecidas. Abraçada às suas costas, Júlia sublimava o dorso delicado há pouco em si.
Júlia?
Não obteve resposta. Lia levantou, dirigiu-se ao banheiro, “a igreja de todos os bêbados”. O espelho, o rosto, olhos brilhantes e inebriados. Júlia, qual reflexo de lua em mármore, dormia.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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21/11/2007 - 18:46
Estava lendo distraidamente uma revista qualquer, na sala de espera de uma clínica de pediatria, enquanto minha era atendida no consultório. Lá pelas tantas, deparei-me com uma lista de livros recomendados pela revista. Obviamente, nenhum se aproveitava.
Juntando o inútil ao agradável se eu tivesse algo para fazer, com certeza não faria um blogue , resolvi preparar minha própria lista, que passo a vocês.
Cerebelo Manga (Hortifruticéfalo Editora) Adaptação da obra do cinema. Jovem que vive no subúrbio de uma grande cidade e sofre com a depreciação da vida social toma uma difícil decisão: pede demissão de seu emprego para protestar contra o desemprego.
Tudo começou com um peido-de-véa (Editora Molotov) Autobiografia emocionada de um terrorista nordestino, narrando desde sua infância no interior de Pernambuco até momentos antes de seu desaparecimento inexplicável, no deserto cearense. O livro explode na página 1.109.
Os boleros de Bob Marley (THC Editora) Bob Marley ficou conhecido no mundo todo pelo reggae, mas todo mundo sabe que ele gostava mesmo era de dar um bolero. Se você gosta de dar dois pra cá, dois pra lá, esse livro é a pedida certa.
O craque e a heroína (Editora Vicius) Romance que narra a linda história de amor entre um jogador de futebol argentino, Diego Armando Maraconha, e uma atriz brasileira, Era Virger, passada em um spa de reabilitação de dependentes químicos.
O baculeijo (Roccan Editora) Livro que conta a história do grupo de teatro experimental Policiais da Rocam, formado por quatro artistas que se reúnem em uma viatura e saem pelas ruas interpretando o espetáculo circense intitulado O baculeijo. O livro conta também como os artistas conseguem sobreviver de doações feitas pelo público.
CPMF 22: Backstage (Larápios Editora) Livro que reúne entrevistas da maior banda de políticos emos do Brasil, quando ainda não tinham lançado o Imposto sobre Cheque, seu petardo mais famoso, que arredou milhões de reais.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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07/11/2007 - 15:09
A cena se passa em um salão de beleza. Na parede azul-clara do lado esquerdo, um grande espelho horizontal reflete os móveis do salão: duas cadeiras de frente para o espelho, destinadas ao corte de cabelo; um sofá preto no canto oposto ao espelho, para clientes esperarem; revistas espalhadas pelo sofá; um ventilador de teto; um pequeno filtro num parapeito no lado oposto à entrada do salão, com um garrafão de água mineral deitado de cabeça para baixo nele; uma mesa com produtos para unha, ao lado das cadeiras para o corte de cabelo; uma cadeira defronte a ela; uma porta de vidro que dá para o interior da casa; quadros pendurados nas paredes; um balcão repleto de objetos, como talco, tesouras, flores, etc.
Personagens
Cabeleireira 1; um jovem branco, estatura mediana, cabelos grandes; uma jovem branca, estatura mediana; uma manicura; cliente 1, fazendo as unhas; cabeleireira 2, que alisa cabelo de cliente; cliente 2, alisando o cabelo.
Cabeleireira 1, simpática, se dirigindo ao jovem que entrou no salão acompanhado da jovem.
É a sua vez.
Ah, sim.
Sente aqui, por favor.
Jovem levanta, anda até a cadeira e senta. A cabeleireira 1 alisa seu cabelo e pergunta:
E então, como vai ser o corte?
Olha, não sei ainda. Queria um corte curto, mas que não ficasse careta, com cara de militar, sabe?
Sei. Um corte curto, mas fashion.
Fashion? Como assim?
É. Assim, sabe, tchan! (Nessa hora, faz um gesto com as mãos para tentar explicar o tchan!)
Ah, bem… Nem careta nem muito fashion.
Sei, sei.
Cabeleireira 1 anda até o balcão, de onde pega um borrifador de água. Em seguida, vai borrifando água no cabelo do jovem, enquanto fala com um sorriso no rosto.
A maioria dos homens que vêm aqui pede esse tipo de corte. Nem grande, nem curto, nem careta, nem fashion. É um corte muito usado. É por causa do trabalho?
O quê?
O corte, é por causa do trabalho?
Não, não. É que eu enjoei de cabelo grande.
Ah, mas é tão bonito homem de cabelão. Sei lá, dá um charme…
Cliente 1, fazendo as unhas, fala.
Eu também acho bonito homem do cabelão.
Cabeleireira 1 pára de borrifar água, se dirige novamente ao balcão e pega tesoura e pente, enquanto fala para a cliente 1.
Não é? É tão bonito… (Vira-se para o jovem que está sentado na cadeira de frente para o espelho.) Você tem um fio de cabelo lindo.
Cliente 1.
É porque é homem. Todo homem tem o fio de cabelo bonito. E aposto que nem cuida. (Todos esperam uma resposta do jovem.)
Jovem.
Bem, na verdade, eu nem “pentio” o cabelo.
Cabeleireira 2, alisando o cabelo da cliente 2.
Eu sabia. Já a gente tem que viver colocando produto no cabelo. E ainda assim não adianta nada.
Cabeleireira 1, cortando o cabelo do jovem.
Pois é, minha filha. Tem cabelo bom quem pode. Mas se eu fosse ele, eu não cortava o cabelo, não. Cabelão é tão bonito. (Falando para o jovem.) E combina com a tua cabeça.
Com a minha cabeça? Não entendi.
Vê só: tá vendo essa parte de trás da tua cabeça? (Nessa hora, pega um espelhinho redondo e o posiciona de modo a que o jovem veja, pelo espelho da frente, sua nuca.)
Sim. O que tem de errado?
Nada. É só que ela é um pouco quadrada, sei lá.
Quadrada?!…
É. É meio reta, sabe. Num sei se é o cabelo grande que deixa ela assim…
Manicura, fazendo a unha da cliente 1, sentada à mesa,, fala.
Eu tinha reparado nisso quando ele entrou, mas não ia dizer nada porque, afinal…
Cliente 1, que está fazendo a unha, olhando para a cabeça do jovem.
É mesmo.
Cabeleireira 1, guardando o espelho.
Mas não se preocupe: o corte que eu vou dar vai disfarçar essa parte.
Jovem, com cara irônica.
Ah, obrigado. Não quero que ninguém saiba que eu tenho a cabeça quadrada.
Ninguém precisa saber disso, né? Deixa comigo, baby. (O jovem faz cara de quem pensa “Baby? Onde é que eu vim parar!?”.)
Cabeleireira 2, que estava alisando o cabelo da cliente ao lado, se reportando ao jovem.
Quer um pouco de água? Tá um calor, né?
Quero, sim. Hoje tá muito quente mesmo.
Vou pegar. (Volta com um copo d`água.) Aqui.
Obrigado.
Cabeleireira 1, que está cortando o cabelo do jovem, em tom de descoberta.
Olha que interessante. (Todos olham para ela.) Descobri porque sua cabeça é quadrada.
A outra cabeleireira pára o alisamento, desliga o aparelho e chega perto do jovem.
O que foi?
Olha só pra isso.
A jovem se levanta do sofá e se aproxima do jovem que está cortando o cabelo, ficando atrás dele.
Cadê? Deixa eu ver.
A manicura e a mulher que está fazendo a unha se levantam e se juntam às cabeleireiras e à jovem. A cabeleireira que está cortando o cabelo do jovem fala.
Vejam só. Tem um redemoinho bem aqui, no meio da cabeça.
Manicura.
É mesmo. É daqueles que arrepiam o cabelo.
Jovem, envergonhado, gagueja.
Esse redemoinho é de família. Todos os homens lá de casa têm. (Tenta dar um sorriso amarelo, mas logo pára de sorrir ao ver, pelo espelho, o rosto de reprovação da cliente que alisa o cabelo na cadeira ao lado.)
Jovem de pé, atrás dele.
Malthus, já sei por que sua cabeça é quadrada. Não é por causa da sua cabeça mesmo, não. É o teu cabelo. Esse redemoinho aqui faz com que esses fios de cabelo fiquem achatados aqui, dando a impressão de que tua cabeça é que é chata.
Jovem, com ar irônico novamente.
Puxa, obrigado. Dormirei mais tranqüilo hoje.
Mulher que fazia a unha, em pé atrás do jovem.
Não há nada que se possa fazer? Um corte aqui, um creme, gel?
Cabeleireira.
É. Acho que pra esse caso não tem solução, não. (Todos se olham desolados. Minuto de silêncio.)
Manicura quebra o silêncio, dando de ombros e voltando para a sua cadeira.
É. Cada qual com o seu cada qual, né verdade? (Todos concordam, fazendo um burburinho ininteligível.)
A jovem se coloca na frente do jovem, passa a mão em sua face e diz, em tom de pena:
E agora, o que você vai fazer?
O jovem se levanta, tira a bata que o cobria e fala, em tom enérgico:
Olha, senhoras. Peço desculpas por ter a cabeça quadrada. Eu realmente não queria isso. Antes de nascer, eu falei pros meus pais: “Pai, mãe, eu não quero ter a cabeça quadrada”, mas eles não me ouviram. Eu queria ser coxo, maneta, ter um tique-nervoso nos olhos, mas não deu. E agora eu vou morrer com essa cabeça quadrada. Então, por favor, parem de falar da minha cabeça. Que saco!
(Todos se olham assustados, sem saber o que fazer. De repente, a cliente que fazia alisamento no cabelo começa a rir, tentando disfarçar a gargalhada, sendo observada por todos através do espelho. O jovem começa a rir também, e logo todos estão sorrindo.)
Cabeleireira 1.
Vem cá, baby. Senta aí, deixa eu dar o retoque final. Vai ficar um gato.
(Todos voltam para os seus lugares: a jovem para o sofá, a mulher para as unhas, a cabeleireira 2 para o alisamento de cabelo da cliente. Dois minutos depois, a cabeleireira termina de cortar o cabelo. O jovem paga e sai, acompanhado da jovem que estava no sofá. Andam em silêncio pela calçada.
A jovem fala.
Olha, ficou muito bom o corte. Você ficou mais novo, mais bonito. E disfarçou a cabeça quadr… cof, cof… Quer dizer…
Vá, pode dizer. A cabeça quadrada.
Quer dizer, num é que sua cabeça seja quadrada, é que… sei lá, ficou mais assim, sabe? Tchan!
Agora eu fiquei com a impressão de que minha cabeça é quadrada.
Ah, que besteira… (Alguns segundos sem se falarem.) Já sei, vamos tomar uma cerveja?
Tá bom. Mas exijo uma coisa.
O quê?
Tem que ser Skol.
(Os dois vão rindo até o bar, perto do salão.)
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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