24/10/2007 - 14:16
Para quem já ouviu, algum dia, Pink Floyd
Primeiro eu procurava. Ruas, becos, calçadas, esquinas superpostas nos espinhos e muros silenciosos. Eu procurava, desesperadamente, talvez uma palavra, um vício proibido, uma nuvem para pôr meus pés.
Alguém aqui já ouviu um solo do Gilmour?, eu perguntava, mas a areia que se escapulia da minha boca não deixava rastros. Um solo do Gilmour, senhores!, eu procurava.
Nos espelhos dos prédios, no fim das noites, no sorriso das mulheres sem cuspe, no alto das torres absurdamente vazias. Os heróis e os fantasmas se confundiam às frases dos jornais, e eu apenas procurava.
Até que um dia eu parei, de frente para o mar, os pés descalços, a perna da calça erguida até o joelho e uma vontade de pescar, correr, comer, não fazer a barba, desritualizar-me e falar outra língua. Aprendi um pouco de francês:
Mademoiselle, seulement un solo du monsieur Gilmour?
Mas a voz já estava cansada e os hábitos enraizados. Respirei um pouco da fumaça do ônibus antes de ir pra casa. Conselheiro Aguiar, Barão de Souza Leão, Mascarenhas de Morais; eram nomes e ruas que se fundiam, na minha lembrança, ao desenho que deixei na areia molhada da praia, e a água ainda beijava os teus pés.
Eu disse: “Ontem, eu procurava”. E tu falaste do pôr-do-sol, da solidão de todas as manhãs, dos cabelos cortados pela polidez dos cargos públicos e privados, e ainda mais: disseste que querias ir à Inglaterra. A água ainda beijava os teus pés e o pôr-do-sol era imenso, uma enorme bola de fogo que pulava dos teus olhos, para depois se esconder no infinito de nossos corpos.
O corpo, tu dizias. E eu procurava.
Achei que tinha encontrado, falei.
Não é nada. É apenas o Sol, o barulho da vida, o pulsar das coisas, tudo isso nos confunde um pouco.
É, pode ser. Fica assim, então.
Não respondeste. Nem esperei. Estiquei a mão, parei o ônibus. A passagem aumentou, e as ruas eram as mesmas, as vidraçarias, os muros, o herói que se jogou do décimo terceiro andar para cair num mundo onde se ama, se beija, se morre, se ergue e se ama. E eu vi o seu fantasma sorrindo, um sorriso assim como o nosso, tímido, esquivo.
Não sei o que dizer…
Não tem problema. Eu só queria que ficasses aqui, pela derradeira hora da noite. Ou então ouvir aquele solo do Gilmour, um sussurro da tua boca, qualquer coisa.
E eu acho que foi o vento, ou a tarde, ou o canto das árvores, antes do ônibus, que levou tua palavra e tua mão para o outro lado da rua.
“Adeus.”
Caralho, como eu queria escutar aquele solo do Gilmour!
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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17/10/2007 - 14:29
Hoje é um dia esquisito: já foi ontem e será ontem novamente quando chegar amanhã. Detalhe: o amanhã será invariavelmente hoje. Por isso, nada de tentar entender. Viver é a melhor forma de conhecê-lo.
O hoje 17 de outubro é marcado por vários hojes que se perderam no tempo ontens. Quer ver só? Em um hoje qualquer, no ano de 1849, morria o polonês Frédéric Chopin, um dos mais conhecidos compositores para piano do mundo e famoso por seus noturnos. Dois anos antes, em 1847, nascia, no Rio de Janeiro, Chiquinha Gonzaga, também compositora para piano e primeira mulher a ingressar em uma orquestra no Brasil.
No hoje de 1969, eram incorporados à Constituição brasileira, pela Emenda Constitucional n° 1, dispositivos do AI-5, dando continuidade ao Golpe Militar de 1964 e estabelecendo a Constituição de 1969. E aqui revela-se mais uma faceta desse ontem que nunca deixou de ser hoje: a onicronia, explicitada por um hoje demorado, que durou muitos hojes e será lembrado nos amanhãs como “o hoje que não acaba”. Mais ou menos na época desse hoje-ontem atemporal, Madre Teresa de Calcutá ganhava, em 1979, o Prêmio Nobel da Paz. Quem disse que hoje é coerente?
Mas isso é coisa de outros hojes. Os nossos, mais contemporâneos, são também menos fulgentes: nesse espaço de tempo tão banal e infindável que é um hoje, comemoramos sete mortos em uma favela do Rio, resultado de operação da polícia; fazemos amor no horário marcado; assistimos a um jogo do Brasil na TV; registramos, unidos, a alta da Bovespa; ouvimos atentamente a missa das sete; lemos com falso interesse sobre a viagem do presidente à África, sempre repetindo veementemente: “É só por hoje. Amanhã tudo vai ser diferente”.
Às vezes, esse fado pessoano parece difícil de carregar. Nessas horas, o melhor é ir dormir. Afinal, o hoje acaba à meia-noite, renascendo, novinho em folha, à meia-noite e um, completamente diferente e igual aos tantos hojes que adormeceram para sempre, com seus planos de ônibus mais vazios, menos horas de trabalho, passeios na orla ao entardecer…
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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10/10/2007 - 12:22
Penso. Logo insisto.
Lento. Logo desisto.
Censo. Logo existo.
Sei que nada sei
Porque me pergunto, a esmo,
E não faço acordo comigo mesmo.
Kant e sua teoria:
O crime, para o criminoso,
É poesia?
Marx se precipitou:
Falou do capital
E se esqueceu do interior.
Pobre Sócrates!
Com sicuta, morreu, de forma lenta,
E nem viu o Brasil ser penta.
No tribunal: “Quem
Castrou o Alves?”. “Eu o fiz!”
Era o Machado de Assis.
Acertou, o Manoel Bandeira,
Sobre o Recife: não a Veneza,
Mas a venérea brasileira.
Drummond e sua pedra.
Arrodeie, meu caro,
Que a vida é um atalho.
García Márquez,
Tuas putas tristes
Alegram nossas tardes.
O leitor deste blogue:
“Boa piada. Humor atroz”.
E eu digo: “Eça é de Queiroz”.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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04/10/2007 - 16:54
A sala está acesa,
com seus quadros pendurados no tempo.
Do meu lado direito, uma planta dorme reclinada,
porque era o meio da noite.
O guarda-chuva está fechado,
pendurado na grade do terraço.
E as paredes, de tom amarelo-claríssimo,
permitem uma janela a 1 m
e 30 cm do chão.
Celulares sobre a mesa, DVDs,
discos,
a tomada que quebrou ontem.
Tudo dentro da ordem,
como um organismo alimentado pela lógica.
Inadvertidamente, num canto esquecido, de frente para
a porta em arco,
descansam os meus olhos, calçados em sandálias azuis,
procurando um poema aboletado no sofá.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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