Arquivo de setembro, 2007
26/09/2007 - 13:20
A língua falada produz fenômenos interessantes o gerundismo é o mais famoso deles. Mas, observando o modus falandi com que nos deparamos por aí afora, percebemos que existem outros vícios de linguagem muito interessantes.
O uso da expressão “essa questão de” é um deles. Há muito, tenho constatado a utilização desse algoritmo lingüístico em palestras, encontros, simpósios, debates, quase se constituindo um jargão intelectualista na hora de se perguntar ou explicar alguma coisa.
Ontem eu me deparei com a criatura mais uma vez. Estava assistindo a um programa de debate na TV, aboletado no sofá com a minha digníssima esposa, quando um dos entrevistados interpelou uma jornalista: “Sobre essa questão de Graciliano, eu gostaria de afirmar que…”.
Fiquei pensando por que raios ele não disse apenas “Sobre Graciliano, gostaria de afirmar que…”, indo diretamente ao assunto. Por que essa “hipercorreção perifrástica” foi o termo que me veio para dizer algo tão simples?
Na hora, formulei algumas teorias. E uma particularmente me ficou na cabeça, parecendo a explicação mais plausível: o cara não queria ser direto.
Talvez seja isso. Em uma discussão filosófica, um assunto nunca é dado como concluído. Sempre haverá um contraponto, e não se deve de forma alguma ser conclusivo aprendi isso nas aulas de lingüística, quando realmente jamais chegávamos a uma conclusão. A expressão “essa questão de” atenua um pouco o caráter incisivo da declaração que se vai fazer, deixando sugerida uma abrangência discursiva: não se vai falar só de Graciliano, mas “de toda uma questão” (e de tudo o que se possa deduzir disso) de Graciliano.
Tal qual o seu comparsa o gerundismo , essa expressão pode perfeitamente constar do dicionário de sinônimos, dentro do verbete circunlóquio.
Dicas para você fugir da expressão “Essa questão de”
Detectar o problema e não propor uma solução não me parece uma atitude adequada. Pensando nisso, deixo registradas algumas dicas para fugir do uso da expressão “Essa questão de”.
1- Substitua a palavra “questão” por algum sinônimo. Por exemplo: “Sobre essa peitica de Graciliano, eu gostaria de afirmar…”.
2- Em vez de dizer alguma coisa, fique calado. Levante a mão e, quando todos olharem pra você, esperando a pergunta ou a opinião, permaneça em silêncio, fazendo cara de superioridade. Assim, a discussão ganhará ares filosóficos sem precedentes.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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19/09/2007 - 14:06
Quando era adolescente, eu queria ser um astro do rock como a maioria dos adolescentes. Me fascinava aquele mundo de solos de guitarra estridentes e virtuosos, tocados a alturas ensurdecedoras; garotas gritando enlouquecidamente o seu nome, segurando faixas com declarações de amor eterno, beijando sua foto; viagens; muita grana.
Eu poderia ser contraditório, alegre ou triste quando bem entendesse, gritar palavrões às senhoras de boa estirpe, falar coisas sem sentido, mandar a Globo àquele lugar, e tudo isso contaria a meu favor. Minha imagem de rebelde sem causa seria fortalecida a cada transgressão da moral e dos bons costumes. Os meus problemas seriam meus aliados (afinal, onde já se viu astro de rock não ter problemas?). E a noite seria minha companheira, não esconderia os crimes que tanto banalizam a nossa felicidade. Pelo contrário: eu teria uma namorada por noite, amaria e desamaria a meu bel prazer e faria poemas, bêbado, com a tinta das estrelas, poemas que se transformariam em músicas do próximo disco.
Cheguei a tocar em várias bandas e a lançar dois CDs, que alcançaram a incrível marca de cinqüenta unidades vendidas (juntando os dois, obviamente). No começo, eu me animei: as namoradas vieram, os bares nos deixavam tocar em troca da bebida (nunca recebemos nenhum cachê em espécie) e a noite era sempre animada, com muita gente dançando tínhamos muitos amigos, sem contar os familiares e a promessa de, no futuro, dividir o palco com os ídolos. Já começávamos a ter um público cativo, e era preciso administrar a carreira desde cedo. Então, resolvemos que era hora de aprender a tocar.
A vida, porém, tinha outros planos, e eu não me tornei nada disso. Em vez de um beatle, tornei-me, no máximo, um beat, iluminado pelos holofotes discretos dos postes das ruas, leitor de Bukowski, Augusto dos Anjos, Kerouac e poetas malditos. As apresentações memoráveis se resumiram a um violãozinho discreto no terraço, na calada da noite, depois que a minha fiel platéia filhos e esposa se acomoda para dormir. Acabei me formando em Letras. E a madrugada, essa aquarela que transforma os sonhos coloridos em fotografias cinzas, guarda a essência dos meus planos: o silêncio com que escreverei a poesia de uma vida inteira.
Pois é. A Literatura agora é a minha praia. E eu já vejo tudo: os futuros livros, as noites de autógrafo, coquetéis de lançamento, lista de mais vendidos, conversa com editores, garotas enlouquecidas, viagens…
http://www.youtube.com/watch?v=5CDlOpULz…)
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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12/09/2007 - 14:28
Eternidade:
Deus do porvir
Ou terno pra vestir deitado.
Liberdade:
Poder de ir e vir
Ou desejo de ficar parado.
Identidade:
Diferir
Da coletividade.
Desejo:
Espalhar-se pelo quarto
Sem sair de si mesmo.
Perfeição:
Descuido banal
Da natural imperfeição.
Vida:
Peça teatral
Com sinopse interrompida.
Malandragem
É ser feliz
Com tanta bobagem.
Felicidade:
A arte do louco,
Que é completo, embora pouco.
Filhos:
Depois de mim,
Antes do fim.
Beleza:
Não põe mesa,
Mas ajuda a digestão.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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05/09/2007 - 12:31
(Um dos contos vencedores do Prêmio Maximiano Campos de Literatura Ano II)
Maria eu sussurrava teu nome quando desliguei o aparelho de TV que roubava minha madrugada. Já é tarde, Maria, e eu vou me deitar neste silêncio de tantas portas, a maioria fechada ou despercebida; eu vou tentar ouvir todas as músicas do mundo nessa quietude, eu vou terminar aquele poema que nunca comecei, só para fugir do medo do silêncio.
Eu sussurrava Maria, onde estão nossos pecados? No desejo, na inércia da noite, nos escritórios ou nas fábulas que encenamos pela vida afora, sem platéias?
O rubi que tu me roubaste, Maria, era do tamanho de meu coração, de uma taça de vinho, e o meu coração era do tamanho do teu sexo; o meu pensamento, e eu sei que já era tarde, cabia na tua boca, enrolado na tua língua que dizia: Desculpa, meu amor.
Desculpa um caralho!
No precisa ficar nervoso. Olha, tudo vai ficar bem. Esse amarelo no crepúsculo é só a hidra do tempo.
É tarde, Maria. Não há mais tempo.
Talvez tu não soubesses que era tarde para o perdão e cedo para o pecado; que meus olhos estavam cegos pela navalha flamejante de teus dedos quando me acariciavam o cabelo; que aquele telefonema não era nada! Eu só te via renascer dos meus pulsos que pingavam a água infinita de Deus; tu, enraizada na minha carne, cravada na pedra dos meus poros, da minha pele, como uma tatuagem depravada
“Porra! Pára com isso! Nada vai ficar bem!”
- Assim não dá pra conversar!
- Me devolva
Me devolva os cacos do idiota que eu fui, acreditando no sorriso pálido das tuas mentiras, hahaha
Das nossas mentiras.
- Não precisa gritar
- Eu grito! Eu grito porque sei que mais tarde eu vou sussurrar o teu nome.
Mas eu não vou te dizer isso agora, não. Eu vou apenas abrir essa porta para saber o que há do outro lado da cama. E na ebriedade de meus pulsos lambuzados de vinho amargo, vou deixar teu nome sussurrado nos rastros dos azulejos, profanados pela ausência de teus orgasmos, dizendo:
Maria, é tarde, Maria.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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