29/08/2007 - 10:53
Quando a atendente veio com aquele sorriso no rosto, eu logo desconfiei.
Boa-tarde, senhor. O senhor já conhece nossa promoção Ligue Muito e Fale de Graça?
Não, eu não conhecia. Mas, na tentativa de me livrar do palavrório inútil, disse que sim. E já fui emendando:
Na verdade, eu só queria comprar um chip pro meu celular.
Certamente, senhor. O senhor por gentileza poderia estar pegando uma ficha no balcão de atendimento?
Aquiesci e fui direto pra lá. Quando chegou a minha vez depois de ser enganado por uma fila de três pessoas que demorou mais de uma hora , a outra atendente disparou:
Boa-tarde, senhor. O senhor já conhece a nossa promoção Ligue Muito e Fale de Graça?
Já, sim, tua colega me falou. Olha só, eu queria comprar um chip pro meu celular.
Certamente, senhor. O senhor poderia estar aguardando naquela sala? O número da ficha vai estar aparecendo na tela de chamada.
Dirigi-me à sala de espera. Não estava muito cheia, e faltavam apenas dez números para a minha vez. Sentei-me e fiquei assistindo à televisão.
O tempo passava. E nada de ser chamado. Quando finalmente consegui chegar à mesa de atendimento, a vendedora foi logo na jugular:
Boa-tarde, senhor. O senhor já conhece a nossa promoção Ligue Muito e Fale de Graça?
Aí era demais. Resisti uma, duas vezes. Mas três? Não, eu não poderia. Pedi que me explicasse essa promoção.
É assim: o senhor estaria pagando uma conta fixa de R$ 100 reais por mês, e nós não estaríamos cobrando nada pelas chamadas para números da nossa operadora. Suas ligações estariam saindo de graça.
Fiquei um tempo olhando aquele sorriso, atônito. Era a primeira vez que um serviço gratuito me custaria tão caro.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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23/08/2007 - 11:46
E lá estava o delegado da cidadezinha do interior interrogando o acusado:
E então, o que você fez?
Eu puxei a arma e atirei nele.
O delegado virou-se pro escrivão:
Anote aí: o acusado confessa ter atirado na vítima com uma pistola.
O escrivão pergunta:
Pistola é com um ele ou dois eles?
Depende, responde o delegado.
E se vira pro acusado:
A pistola era de um cano ou de dois canos?
Pequena homenagem ao meu pai, pelas suas sessenta e tantas primaveras completadas ontem (ele diz que só contou até os sessenta e cinco), e à minha mãe, que comemora hoje mais um ano de vida. Beijos aos dois.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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15/08/2007 - 15:45
Política:
seres atípicos
num mar de titica.
Renan Calheiros
provou o mel da jornalista
e o fel dos jornaleiros.
E, para não haver picuinha,
o senado aprovará
o auxílio-camisinha.
A perfeita idiotia
é mera utopia.
Nada é perfeito.
Não há semelhança
entre político e canalha.
Há redundância.
Bíblicos, os direitistas,
após anos cíclicos,
acusam a esquerda de impudicícia.
E a esquerda, esquecida,
aprendeu o que fazia
a sua mão direita.
Nem tudo está ruim, porém.
O povo vai mal,
mas futebol passa bem.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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07/08/2007 - 10:40
Tá bom, tá bom. Eu assumo: uma semana sem escrever para o Diário das Marés. Minha primeira semana, desde que o lancei nesse mar de anonimato digital e olhe que já se vai mais de um ano. Mas preciso dizer a verdade: a culpa foi do dia.
É, do dia. Ou melhor, dos dias. Foram eles que passaram rapidamente, distraídos, escondidos na penumbra do entardecer. Cada vez que eu ia escrever algo, anoitecia. E eu tinha de ir pra casa, cuidar das crianças, jantar, DVD com a família, dar uma passada na academia antes. Por isso, digo: a culpa é do dia, que não acompanha as novidades tecnológicas nem a vida moderna. Fica lá, escanchado nos braços do Sol, todo todo, bem dizer uma donzela no alpendre da casa-grande, enquanto nós, escravos, colhemos momentos de sua horta.
Insiste em ter vinte e quatro horas, ora veja só (e não bastante a mísera ração de tempo, ainda exige que todo o pouco de nós se realize nesse período ridículo). Rá rá rá. (Acabei de colher mais uma hora: estava enterrada na minha gaveta. Tinha um gosto de algo ligeiro: mal provei, ela já tinha acabado.)
Mas hoje eu me vinguei. Sim, hoje eu me vinguei bonitinho. Peguei ele no vacilo. Arranjei um tempo pra escrever uma crônica. Tá, tudo bem, foi tarde, as crianças dormiam, minha esposa também, a TV estava ligada, eu não via nada do filme. Acho que foi isso: ludibriei o dia ligando a TV. Ele deve ter pensado: “Esse aí não escreve mais é nada hoje”.
“Te peguei, calhorda.” Rá rá rá. Eis-me aqui, digitando, pensando, criando. Rá rá rá. É certo que, daqui a alguns dias, essas palavras já não existirão, e ele sorrirá por último. Mas o sabor dessa vitória efêmera é meu legado para as semanas que virão.
Continuarei lutando. Continuarei lutando. E que ele não me venha com esta de que a luta é vã.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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