Arquivo de julho, 2007
25/07/2007 - 09:32
Por alguns instantes, tu voltaste a ser criança
e choraste desamparado
nos braços deste grande pai que é o acaso.
Um choro incontido, de quem não aprendeu ainda
que a vida é incorrigivelmente falha, e nós,
gotas de vento na eterna jornada do oceano.
Choraste pela falta do signo.
Vocábulo, cruz, o gesto das mãos; nada além dessa infância sem palavras
que transborda da tua idade vã.
E te sentiste fraco, insuficiente,
perante o giro das coisas.
Esperavas a mão materna, que não veio.
Veio a madrasta
e disse:
Os teus já não sofrerão mais.
E tu, tão pequeno quanto a semente envelhecida,
te debruçaste sobre a lama,
desenhando o teu rosto na água turva das mãos.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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18/07/2007 - 10:02
Domingo passado, o Brasil se consagrou, com honras, campeão da Copa América Venezuela 2007 derrotando a tão temida seleção argentina, favorita ao título. Seria o retorno triunfal da “Era Dunga”, tão duramente criticada em meados dos 1990?
Não. O que se viu nesse domingo foi a “Era Afonso”. Para explicar melhor, retornemos ao começo de tudo, o dia 27 de junho, quando o Brasil estreava na competição com derrota para o México. Ainda me lembro da substituição: 1 minuto do segundo tempo, sai Diego, entra Afonso. “Entra quem?”, foi a pergunta escutada em uníssono no bar.
Entrava em jogo Afonso, um jogador desconhecido da maioria da torcida brasileira acostumada aos nomes famosos , para se juntar a outros nomes incógnitos e aos quase esquecidos, formando uma seleção de anônimos, que, naturalmente, não causaria tanta empolgação ao torcedor. Pelo menos, não no começo.
À medida que os jogos iam acontecendo, alguns atletas foram ganhando a confiança do torcedor. E na última partida, contra a Argentina, quando Robinho, a grande estrela, sumia no jogo, os Afonsos entravam em ação. Se não foram geniais, foram, no mínimo, imbatíveis na ocasião. Os desconhecidos, que não pediram férias, superaram as expectativas mais otimistas.
Fruto de uma tentativa de renovação, esse time brasileiro ainda não tem cacife para grandes feitos, embora a conquista da Copa América tenha sido um. E Afonso realmente não jogou nada até perdeu um pênalti em hora crucial, contra o Uruguai, quase deixando o Brasil de fora , parecendo, por isso, injusto nomeá-lo ícone de uma era.
Mas, do mesmo jeito que estrelas caem, outras surgem. E quem sabe a “Era Afonso”, de futebol aguerrido e comprometido com a seleção, não traga de volta os tempos gloriosos que nós, tão saudosamente, sempre lembramos na mesa do bar.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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13/07/2007 - 16:28
Esta é mais uma do meu pai, contada na última reunião familiar, que aconteceu em sua casa no mês passado, sede dos Queiroz no Recife. Ele estava visitando meu avô quando ouviu a tal conversa.
Diz que o seu irmão (meu tio) tinha viajado pela primeira vez aos Estados Unidos, lá pelos idos dos anos 1970, retornando ao Brasil seis meses depois. Quando chegou aqui, foi rever os parentes no Quixadá na época, ainda uma cidadezinha do interior do Ceará.
Na entrada, já foi disparando:
Que saudade do senhor, father.
O velho Inácio olhou desconfiado:
Father?!
É como se diz “pai” em inglês.
Ah, bom.
Cadê os brothers, estão na house?
É o quê, meu filho?
Tô perguntando se meus irmãos estão em casa, pai.
Ah!
E o dog?
Quem?
O cachorro, pai, o cachorro.
Ah, sim. O cachorro está bem, seus irmãos estão lá por dentro. Mas você não vai perguntar pela Kitty, não?
A Kitty? Quem é a Kitty?
A que te pariu, safado! Tua mãe.
E emburacou pela casa, deixando o quase estrangeiro às lágrimas de tanto rir.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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05/07/2007 - 09:47
A festa tinha corrido bem, não se podia dizer que houvera qualquer incidente. Nem os copos arremessados pela janela, a umas horas da noite, depois de umas doses de vodca, chegaram a acordar os vizinhos.
Todos comeram e beberam à vontade. Alguns um pouco mais. E o violão, coitado, passou de mão em mão, tendo que aceitar o gosto imensamente variado dos que aventuravam tocar. Louvores à noite; à noite simples, sem sonhos ou desespero, que cercava os sorrisos letárgicos, impróprios para as seis da noite. Aqueles eram sorrisos que só podiam ser sorridos depois das dez, onze horas, meia-noite.
Os cigarros se multiplicaram. E, por alguns instantes, éramos todos um, felizes com tão pouco, repartindo um sentimento que ainda não sabíamos existente em nós, uma simples alegria que a maturidade não roubou.
No outro dia, recebi este e-mail:
Monstro, achei até escroto: eu e Marina estávamos sentados no terraço. Na sala, tu e Catarina. De repente, fechei meus olhos, acho que por uns cinco segundos no máximo, e, quando abri, não tinha mais ninguém, velho. As cadeiras estavam vazias, a sala estava escura, silêncio total. Uma carteira de cigarro amassada no centro. Onde estão todos? Dois cigarros molhados ainda por fumar dentro de um copo d”água. Putz!, alguém viu a Marina por aí? Procurei-a pela casa. Nada!!! Foi quando deitei num colchão que estava perdido pela sala, olhei o relógio do meu celular, e, veja só, tudo isso já era de manhã, velho. Pensei então em ir pra casa. E fui, numa boa, saca? Mas ainda pensado na história de Marina: onde foi que ela se meteu? Pois tudo sumira de repente, velho. No domingo, nove da manhã, eu já tava em casa, assistindo a uns vídeos.
É assim mesmo. As coisas acontecem longe de nosso cartesianismo ponderador. E, antes que os sorrisos fossem tragados pelo tempo, ergui a taça com o último gole de vinho: um brinde à Catarina de Queiroz, à Marina Maria, ao André Águi, ao Théo Costa, ao Fábio Gatt, à Rosana Meira, ao Antônio Aureliano, ao Tony Blue, à Tatiana quebra-copos, ao Marcello, ao Cláudio, à Isabel, à pequena Rafaela, ao Wilson, ao Wlad Queiroz e a todos que não puderam estar presentes. Que a vida exista à medida que ela se faça.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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