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Arquivo de junho, 2007

28/06/2007 - 13:56

O Frevo

“Ah, o frevo!”, comentava o senhor na parada de ônibus. Bermuda, camisa de botão axadrezada e um sapato mocassim agasalhando uma meia de tecido fino, à altura da canela. “Ah, o frevo!”

Eu nem dava ouvidos. Estava atrasado, o coletivo não vinha, e os ponteiros do relógio corriam soltos pelo livre caminho do tempo. “Ah, o frevo!” Certamente, o senhor tentava puxar conversa comigo, e eu fingia que não estava vendo. Olhava pros lados, franzia a testa pra sugerir que tentava enxergar algo longe, olhava o relógio, verificava algo no celular. Disfarce inútil: o senhor percebeu que não havia nada ali a me chamar a atenção, a não ser o ônibus que não vinha. Tocou nos meus ombros:

— Você se lembra daquela música do Capiba: “Ai se eu tivesse quem me fizesse carinho, não levava a vida que eu levo sozinho”?

Com um sorriso amarelo, respondi que não. Ele se calou. Baixou a cabeça, fixando os olhos na calçada. O cheiro da cachaça digerida confundia os meus sentidos. O ônibus chegou. Pedi desculpas e me enfiei dentro daquele espaço mínimo, pés e corpos ocupando todos os lugares. Ainda pude ver sua sombra sumindo no meio dos prédios.

“A vida que eu levo sozinho”… Nunca vi essa música, não. “Ah, o frevo”, pensei enquanto ouvia o silêncio daquela coletividade momentânea.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/06/2007 - 12:11

O Poeta e sua Crise

(Inspirado em discurso efusivo do vereador Carro Velho, do Quixeramobim.)

Quando criança, começando na poesia,
Eram ainda os tempos de escola,
Ouvi minha professora, que dizia:
“Deixa disso, rapaz. Vá jogar bola!”.

Eu tomava isso por graçola.
Futebol tinha graça, mas o que eu queria
Era devolver ao mundo esse pachola,
Que a própria vida concebeu com ironia.

O tempo chegou. Minha voz se fez cansada.
As rotas aportaram em parte alguma.
E já anoitecia na estrada.

E, a contar moedas pelo bolso, em suma:
Eu, que comecei do nada,
Hoje não tenho porra nenhuma!

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/06/2007 - 16:54

A Pedra de Ariano

Estreou ontem a minissérie A Pedra do Reino, baseada em romance homônino de Ariano Suassuna — fundador do Movimento Armorial — que é parte de uma trilogia composta de O Rei Degolado e Sinésio, O Alumioso, estes não finalizados.

Nas primeiras cenas, já dá para reconhecer o universo armorial de Suassuna: a mitologia nordestina, na qual personagens mágicos fazem referência à tradição ibérica que se cristalizou no sertão do Brasil. Sebastianismo, reis imaginários com suas cortes míticas, seguindo por paisagens que lembram velhas aldeias da Idade Média, roupas que lembram às dos cruzados e um messianismo ingênuo, tudo recheado da inconfundível metaforização da linguagem sertaneja, compõem a obra acima de tudo teatral: a minissérie é como se fosse um teatro filmado, dada a interpretação dos atores, lembrando as representações ao ar livre, tão comum nas festas populares do Nordeste.

Mas, apesar dessa exaltação da heráldica nordestina, Ariano não é unanimidade. E nem poderia ser. A figuração de uma cultura fixa — o que se chama de identidade fechada —, que exclui o universo da pluralidade urbana e suas manifestações, é um dos pontos de maior polêmica. É como se o autor, dizem seus críticos mais fervorosos, quisesse restaurar um Nordeste irreal ou estabelecer a metáfora de uma cultura como sendo a própria cultura, reduzindo todo o imaginário folclórico da região ao universo armorial: o que não é sertanejo, não é tradição.

O fato é que, longe dos debates, eu, que não entendo nada dessas coisas, aproveito para usufruir um pouco desse universo ariano, que desvela um espaço-tempo jamais existido, mas que muitos viveram.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/06/2007 - 15:43

Aniversário de Amigo

Acusam-me de distraído. Protesto. Sou um cara concentrado, talvez até um pouco absorto.

E aproveito esse post para me desculpar com o grande amigo André, poeta e um dos maiores bateristas com quem já toquei. Companheiro de farras monumentais, artista por excelência e comparsa de longas datas, André completou seus quase trinta anos ontem.

É que eu esqueci de lhe dar os parabéns.

Desculpas amarelas na hora de dizer Feliz Aniversário atrasado ao seu grande amigo

Ahá, pensou que eu esqueci? Deixei pra ligar duas semanas depois só pra ver se você percebia.

Alô? Tudo bem, compadre. Cara, eu queria te desejar feliz aniversário adiantado: pro próximo ano.

E aí, brother. É teu aniversário amanhã, né? Ah, foi na semana passada. Pô, cara, tu me passou a data errada!

Mermão, preciso te dizer uma coisa: amigo verdadeiro não é aquele que enxuga as tuas lágrimas, mas é aquele que esquece do teu aniversário e ainda manda você se foder.

Cara, eu não te dei os parabéns porque não tenho agenda pra anotar essas datas, tá ligado? Isso é coisa de viado.

E aí, meu velho. Tudo na tranquila? Não te dei os parabéns porque, depois dos trinta, a gente não comemora mais aniversário. Eu sei que você ainda não tem trinta, mas é bom ir se acostumando…

E a mais clássica de todas: E aí, grande. Pô, cara, eu não te dei os parabéns porque eu… eu… (não vem nenhuma desculpa) …Porque eu sô safado, mesmo!

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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