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Arquivo de maio, 2007

30/05/2007 - 10:27

Iza

A Iza, minha amiga dos tempos de Escola Técnica, era uma pessoa do contra. Nas reuniões de classe, quando discutíamos quais os rumos a serem tomados pela turma — Bar do Bigode, Bar da Tripa, Bar do Abacaxi ou alguma outra sugestão —, ela sempre tinha uma opinião contrária: quando todos decidiam ir a um lugar, preferia aquele outro.

Na mesa, era a única que não bebia. E quando perguntada qual a razão de estar ali, retrucava com um argumento no mínimo curioso: gostava das conversas, que jamais seriam conversadas em outro lugar a não ser ali, numa mesa de bar. E, se o cigarro acabasse, lá vinha a Iza — que não fumava, diga-se de passagem — com uma carteira de cigarros novinha tirada da mochila. Não é mister dizer que ela também tinha isqueiro.

Pois é. Um dia, eu tive uma conversa com ela:

— Iza, minha cara, você é muito gente boa, mas é totalmente do contra. Tudo que a gente fala, você discorda.

Ela pensou um pouco e disse:

— É. Nisso eu concordo.

Engraçada a Iza. Até concordando, ela discordou.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/05/2007 - 16:02

Haicais Distraídos

Haikai é uma forma de poesia surgida no século XVI, no Japão, composto de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas respectivamente. Geralmente tinha a natureza e as estações do ano como tema.

No Brasil contemporâneo, esse estilo se transformou, adquirindo características próprias. A forma fixa de dezessete sílabas e dos três versos permaneceu, mas sem a rigidez silábica de cada verso, e a temática tornou-se livre. Nele, pode-se narrar “um acontecimento particular, uma impressão, um drama, uma paisagem, referindo-se ao “agora” na vida do haijin (cultivador do haicai)”*.

Fonte: HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

universodohaicai.vilabol.uol.com.br, acessado em 23 de maio.

I

O homem diamante
Consome o dia
Antes de ter fome.

II

Luz ante a mesa
Sonho galopante
Ou luz que esqueci acesa?

III

Tanto hei de estar aqui
Que ficarei lá
Observando-me transgredir.

IV

O pé de uva
Pede chuva
Para continuar de pé.

V

O corpo farto
Como um parto às avessas
Repousava em ti.

VI

O homem distraído
Previu o crime
E ainda saiu ferido.

VII

Dias de frio
Preencho-me do nada
À medida que me esvazio.

VIII

Bebo um teu pedaço
A cada dia. Assim
Refaço meu eu.

IX

Durmo cansado
E a porta do sono
Me leva ao outro lado.

X

Van Gogh não tinha parelha:
Para se ouvir melhor
Cortou a orelha.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/05/2007 - 12:48

Aos mortos

Era pra ser apenas mais um corpo, não fosse a presença dos fotógrafos e das câmeras de TV. Um assalto, reação, dois tiros, alguns metros dirigindo até colidir com um muro. Chegou ao hospital morta.

Menos de duas horas depois, eram presos, numa favela próxima, dois bandidos, ambos adolescentes. Na casa, armas, dinheiro e celulares. E, no caminho, um rastro desconexo de peças abstratas: pobreza, marginalidade, inexperiência, impunidade, desejos, portas fechadas, ação impulsiva…

A violência, tão banalizada na vida contemporânea, ainda machuca. E a montagem desse quebra-cabeça está longe de ser finalizada. Às lágrimas — produto da revolta — se juntará o medo natural do amanhã, que virá com protestos, frases de efeito e carnavais mais tristes. E eu peço licença para não citar nomes: somos apenas personagens paradigmáticos dessa história urbana que se repete ininterruptamente, fora de controle e distante dos planos mais simples de felicidade.

Aos que vão, aplausos, estouro de bexigas e os votos de que este algo além da vida, que tanto alimenta nossas esperanças, seja realmente melhor. Aos demais, este ambiente claustrofóbico de saudade, incoerência e luta, que nos torna a cada dia mais secos, azedos, medrosos, desamparados, fenecidos. Mortos são os que ficam.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/05/2007 - 12:45

História do interior III

Quem conta um conto aumenta um ponto. E, para ilustrar o ditado, conto (aumentando o meu ponto) esta história que me foi narrada por meu pai, numa das muitas e inesquecíveis reuniões da família.
Diz que a comadre chega pra outra no interior e conta um segredo:
— Comadre, não diga nada a ninguém, mas tu sabia que o Zé comeu um urubu ontem, porque estava sem nada pra comer?
— Menina, que coisa terrível! Comer um urubu? Meu Deus…!
Foi o suficiente. No começo da noite do dia posterior à revelação, do outro lado da cidade, uma comadre dizia a outra:
— Mulher, tu sabia que o Zé comeu quinze urubus?
E não parou por aí. No outro dia, a conversa, que já ia nos trinta urubus, chegou às oiças do padre, que, munido de sua autoridade clerical, mandou chamar imediatamente o Zé.
— Zé, meu filho. Você sabe que eu não sou chegado a fofocas, mas, como autoridade religiosa, devo lhe perguntar uma coisa muito séria e quero a resposta na bucha: é verdade que você comeu trinta e um urubus?
Até tu, pater?

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/05/2007 - 13:07

Crônica Paranóica (ou Paranóia Crônica)

Lembro-me de tempos atrás, quando algumas áreas da cidade eram perigosas e outras nem tanto. No bairro de minha infância, por exemplo, que não distava muito do centro, não era muito violento. Assalto, só de vez em quando. Roubo de carro era uma notícia comentada nas calçadas, com alarme, pelas senhoras em suas cadeiras de balanço, olhando até tarde a rua; as histórias de furtos e outros crimes, nós ouvíamos dos adultos, que andavam por lugares inóspitos; e os malandros do bairro nós conhecíamos pela convivência do futebol, no campinho de barro da esquina. Crime organizado, então, nem se fala: era coisa pra Al Capone. E nem faz tanto tempo assim: tudo isso era nos idos dos 1980.

Muita mudança em pouco tempo. Hoje não há mais distinção: apesar de ainda haver lugares mais propensos a assaltos, todo lugar é um perigo em potencial. E todos são suspeitos.

Ontem eu me deparei com dois. Dentro de um carro, circulando vagarosamente pelas ruas do bairro onde moro atualmente, olhando desconfiados para o lado. Iam até o final da rua, voltavam, depois faziam a volta, e iam novamente, para depois voltar de novo. E eu só ligado.

O curioso é que, num desses vaivéns, um carro funerário entrou na rua logo atrás do carro suspeito, seguindo-o de perto e na mesma velocidade. E lá passaram os dois, defronte a minha calçada, vinte quilômetros por hora, olhando desconfiados para os lados.

Coincidência? Pode ser, mas, depois de observar movimento tão contundente, tirei minhas próprias conclusões: o crime anda tão organizado que matador já tem até contrato com a funerária.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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