iG
iBest BrTurbo

Arquivo de fevereiro, 2007

28/02/2007 - 09:41

Apuração das escolas de samba

Para quem não viu a apuração dos desfiles das escolas de samba, aqui vai um resumo:

Quesito: Ninguém agüenta ver escolas de samba a noite toda.
Nota: 10

Quesito: Não se vê nenhuma diferença de uma escola para outra.
Nota: 10

Quesito: A apelação sexual é cada vez mais evidente nos desfiles.
Nota: 10

Quesito: Os sambas-enredo estão cada vez mais parecidos. E monocórdios.
Nota: 10

Quesito: A TV insiste nas suas eternas reprises, que só não são mais entediantes porque substituem outro programa pior ainda.
Nota: 10

Quesito: A mídia tenta nos convencer, a todo custo, de que esse carnaval (com letra minúscula mesmo) para turista e uns poucos que podem pagar é cultura.
Nota: 10

Quesito: O esforço dos locutores e repórteres para dar alguma emoção (significado?) aos desfiles faz com que nos informemos de coisas absolutamente inúteis.
Nota: 10

Quesito: Não obstante um, a mídia resolveu cobrir o carnaval da outra cidade, que, como toda imitação, é pior do que o original.
Nota: 10

Último quesito (desempate): Todos os outros canais saíram do ar, exceto um que está cobrindo… o Carnaval.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/02/2007 - 21:55

História do interior

Uma das maiores riquezas da cultura nordestina são as estórias (sic) do interior. Contadas por pessoas comuns, elas retratam um mundo mí­tico e burlesco, entrelaçando malí­cia e inocência e conferindo aos causos expressão única do espí­rito interiorano.
Neste post, rendo homenagem a um dos maiores contadores de estórias que conheci: meu pai. Nascido no interior do Ceará¡, mais precisamente no Quixadá¡, ele, com sua retórica simples, mas ao mesmo tempo rica, sempre tinha uma narrativa farsesca para animar as reuniões de famí­lia.
Diz que o sujeito chegou a uma fazenda, no interior, pra pedir ajuda, pois seu carro tinha enguiçado a meia légua dali, e ele, o motorista, estava sem as ferramentas adequadas para consertá-lo.
O dono da casa, muito prestativo, mandou chamar um rapaz muito bom nessas coisas de mecânica: o Dirran. O nome chamou a atenção do forasteiro. Logo apareceu um jovem magrela, com dois dentes da frente faltando, cor amarelo-terra, só osso e pele. O homem se espantou: um nome daquele numa caricatura daquela.
Depois do serviço pronto, o carro rosnando que nem parecia tinha dado problema, o homem voltou à fazenda para retribuir a gentileza. Agradeceu ao dono e, enquanto o magrela se retirava contando as cédulas, sua curiosidade o denunciou:
— O rapaz é bom com motor. E tem um nome interessante: Dirran. Ele é descendente de francês?
— Não, moço. Ele é daqui mesmo. É que o apelido dele é cu de rã. E a gente, pra não chamar o nome todo, chama só Dirran, entendeu?
E ainda tem quem jure que parece mesmo.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/02/2007 - 14:36

Dia-a-dia

Chegaram à frente do restaurante:
— Aqui tá bom pra você?
— Tá bom.
— Eu vou ficar na mesa enquanto você se serve. Depois eu vou e coloco o meu prato.

Ela volta com pouca comida no prato.
— Tão pouco?
— É. Estou sem muita fome.

Ele sai e volta minutos depois com o prato cheio.
— Nossa!
— É. To morrendo de fome.
— Eu acho que não vou mais comer.
— Por que? Está ruim a comida?
— Não. Eu só não tava afim de comer isso.
— Mas foi você quem me chamou pra almoçar.
— E foi você quem escolheu o restaurante.
— E você aceitou numa boa.
— Mas mudei de idéia.
— Pó, Marta. Eu tô no meio do meu almoço. Você vai sair e me deixar só na mesa?
— Não, eu espero você acabar. Perdi a fome.

Instantes de silêncio.
— Como você é egoísta.
— O que foi?
— Tá demorando de propósito.
— Não. Estou comendo no meu ritmo.
— No seu ritmo? Desde quando você virou uma lesma?
— Olha, você disse que estava sem fome.
— E estou. Só queria que você acabasse logo.

Silêncio.
— Vamos?
— Não vai pedir a sobremesa?
— Não. Você não está com pressa?
— E por causa disso você não vai comer a sobremesa?

No caminho de volta.
— Você está com raiva.
— Não estou, não.
— Está, sim.
— Não tô, não. Mas vou ficar se você insistir.
— Tá vendo. Tá com raiva.

Trinta metros e nenhuma palavra.
— Eu só mudei de idéia. Não posso mudar de idéia?
— Pode.
— E você vai ficar com raiva porque eu mudei de idéia e não quis mais comer?
— Eu não estou com raiva.
— Está, sim. Já está com a voz engasgada. Eu bem não conheço. Dez anos de casamento e eu não iria saber quando você está com raiva?
— Nós estamos separados há dois anos.
— Engraçado. Você nunca lembrava de quanto tempo a gente estava junto. Agora, você sabe exatamente há quanto tempo estamos separados.

Dois minutos sem palavras.
— Que sol absurdo!
— Vai reclamar do sol agora?
— Deixa de ser chato. Só comentei.

À porta da empresa.
— Bom, vou subir, porque já está no meu horário.
— Tá bom.
— Tá.
— Então, tá.
— Tá bom.
— Tá certo.
— Olha, você está em casa mais tarde?
— Estou.
— Eu tava pensando…
— Eu também.
— Então, eu passo na tua casa.
— Passa mesmo. Eu vou estar lá.
— Até mais tarde.
— Tchau.

16:30. O telefone toca.
— É pra você.
— Alô?
— Oi, sou eu. Você vai trazer alguma coisa pra beber?
— Tô pensando em levar um vinho.
— Ótimo. Mas vê se não traz aquele, que eu achei ruim. Traz um tinto mesmo, tá? Beijo.

Quando saiu do escritório, a tarde se despedia e reverenciava a noite que chegava de mansinho, sem barulho. E a vida cumpria o seu destino.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Voltar ao topo