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Arquivo de dezembro, 2006

13/12/2006 - 12:32

Depois de Pinochet

Esta semana, no dia 10 de dezembro, o povo chileno comemorou a morte de Auguste Pinochet, ditador que governou o Chile com mão de ferro por 17 anos.

Formado pela academia militar em 1937, Pinochet assumiu o poder em 1973 — após comandar a Revolução Chilena, que depôs o então presidente esquerdista Salvador Allende — em meio a uma crise econômica por que passava o Chile. Proporcionou a abertura do país ao capital estrangeiro, e, dado o sucesso da política econômica implantada, esta foi nomeada “o milagre chileno”.

Orientado pelos preceitos da Universidade de Chicago, que tinha como grande guru o economista Milton Friedman, Pinochet enxugou as contas do Estado, privatizou empresas e demitiu porcentagem significativa (30%) de funcionários públicos, tornando as contas do Governo menos pesadas.

Em finais dos anos 1970, a economia entra em crise, e o que parecia forte se mostrou extremamente delicado. Os Estados Unidos, de apoiadores do regime, tornaram-se os seus maiores contestadores, exigindo mais liberdade política e de imprensa. A parceria — e os interesses americanos no absolutismo chileno — chegava ao fim.

Qualquer semelhança com a história da ditadura de um país próximo chamado Brasil não é mera coincidência. Como aqui, no Chile houve perseguições, pessoas exiladas e muitas mortes. Também houve aqui o “milagre econômico” seguido de sua decadência. E, do mesmo modo, os Estados Unidos, através da CIA, foram o grande pai.

O choro de raiva e alegria dos que vêem pela última vez a imagem do ditador se mistura ao silêncio dos que se foram para sempre. Mas talvez doa mais saber que o prêmio pelo estupro da pátria mãe é uma democracia monitorada, uma ditadura travestida de liberalismo, na qual a liberdade de comércio de uma nação emergente esbarra nas exigências contratuais dos imperadores neorromanos.

Pinochet e as ditaduras sul-americanas deram lugar à democracia e à liberdade política. Agora, podemos reivindicar direitos e falar o que quiser, embora façamos o que nos mandam.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/12/2006 - 11:28

Pedagogia do eufemismo

Para quem é pai, o final do ano traz consigo, além das novidades das vitrines, uma preocupação: o boletim escolar.

Em muitos casos, assinar esse documento é uma árdua tarefa. E as escolas, sempre atentas a esse delicado momento, tentam amenizar a difícil hora com palavras no mínimo circunloquiais.

Exemplo disso foi o boletim que recebi nesta semana. Dizia o seguinte:

“Informamos aos senhores pais que o período de 04 a 18 de dezembro é destinado à construção das competências necessárias que não puderam ou não conseguiram ser construídas durante o ano letivo“.

Fiquei apreensivo: o que será que este menino aprontou que não pode nem ser chamado de recuperação?

Reflexo da orientação pedagógica atual, esse eufemismo que agora impera no discurso da educação brasileira pinta exatamente o quadro como ele é: muitas palavras belas, nenhuma ação concreta. Em vez de atenuar os vocábulos, não seria interessante também melhorar a qualidade do ensino, a estrutura física das escolas, a qualificação dos professores das universidades públicas, permitindo que elas continuem públicas? A quem tentam poupar com essa retórica barroca, os alunos ou os responsáveis, potenciais clientes da rede particular?

O fato é que, logo abaixo dessa mensagem, havia uma outra, convidando para uma reunião de pais e mestres para debater “o processo de construção das competências necessárias para o próximo ano letivo”.

Acostumado a reuniões que não resolvem nada, não pude me conter:

“Agradeço aos ajudantes da construção das competências necessárias de nossas crianças a atenção dispensada para comigo e informo-lhes que me esquivo de reuniões de tal caráter, pois estas me causam obtusa sensação de enfado e profunda intumescência da bolsa escrotal”.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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