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Arquivo de setembro, 2006

25/09/2006 - 10:34

Revisão não é (só) correção

Leitores mais atentos percebem, no expediente de uma revista ou em um livro qualquer, uma palavrinha ainda pouco entendida até mesmo na área de comunicação: a revisão textual. Mas o que vem a ser isso?
Diferentemente do que a maioria acredita, a revisão de um texto não é (só) correção gramatical; essa às vezes árdua tarefa — imprescindível em qualquer publicação — envolve aspectos os mais variados que compõem uma mensagem escrita. Na hora de redigir, é natural que o raciocínio se desvincule da norma oficial e, em alguns casos, devido à rapidez da criação, frases fiquem incompletas ou sem significação, palavras sejam digitadas erroneamente, etc. É aí que entra o trabalho do revisor: observar deslizes de digitação, de sentido, termos repetidos, clareza, padronização e, claro, a estética textual. Esses vacilos não significam de forma alguma incompetência.
É comum também se pensar que o revisor automático resolve o caso. Ajuda, mas não resolve. O ideal é pedir que outra pessoa leia seu texto ou, dependendo do caso, contratar um profissional da área de revisão.
Ainda buscando seu lugar ao sol, o revisor, mesmo nos bastidores, é uma peça-chave deste grande mundo que é a linguagem escrita.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/09/2006 - 15:27

A verdade eleitoral

Em um desses programas eleitorais, assisti a uma cena, no mínimo, insólita: um candidato acusava o outro de participação em atividades ilícitas. O acusado, obviamente, negava. Até aí, nada demais. O problema é que ambos tinham documentos comprobatórios de que estavam falando a verdade.
Nesse ponto, instalou-se um problema de lógica em minha parca capacidade de raciocínio: documentos provando situações contrárias: é possível isso? Na ocasião, lembrei-me da história de um vendedor de remédio que, segundo ele, curava prisão de ventre e intestino frouxo ao mesmo tempo.
Sabedoria popular à parte, essa cena torna evidente a localização do cidadão comum perante os instrumentos de comunicação em massa: a passividade incondicional. Sem caminho seguro para chegar à realidade dos fatos, esse cidadão acaba elegendo o melhor discurso, aquele que o convence. Tecnicamente, os dois candidatos estão falando a verdade — afinal, têm como provar. Mas qual dos dois estaria mentindo?
Impossível saber. Em todo caso resta, para nós, eleitores, o discurso político, que, se não é verdadeiro, pelo menos nos conforta com promessas inverídicas.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/09/2006 - 13:46

Setembro

Em algum ponto, a vida se dividiu. Ana pensava que fora em setembro. Tantas flores, tantos sóis para todas elas, as abelhas com mel e palavrões adocicados, transportando cada despedida como se fossem as próprias asas do tempo. As guerras mudavam mapas e limites citadinos, ruínas humanas deitadas na grama da primavera, e Ana pensava:
— Fora em setembro. As coisas estavam tão certas que só poderia haver algo de errado.
O caminho da cama era o mesmo, as mesmas camas, “o trabalho tá um saco, preciso fazer algo”, talvez um gole a mais para depravar essa barreira de pudor que entorpecia os seus nervos, uma saciedade momentânea, “o filme que via nas tuas mãos”, tudo fora em setembro.
— O pior de tudo é esse algo setembrino que não passa, a guerra prolongada nas calçadas, a escada interminável para o céu. E a estrada vazia do tempo. “Tudo é tão pouco”, poeta, e eu tentei me circundar de rosas, não imaginava que o teu lábio era essa grande fonte de palavras levadas pelo vento, tu, inscrito nas minhas pernas como “O grande fantasma do faz-me agora”, o depois era conseqüência. Foi em setembro que tudo isso começou, não foi?
Ele não sabia.
— Ah, os homens! Nunca sabem dessas coisas. E pra falar a verdade, eu não ligo. Afinal, sempre andamos em círculo, o começo do depois é sempre o declínio do agora, e todos os setembros são iguais. Flores, abelhas, aquelas coisas chatas e melosas. Estou farta de tanta poesia.
Levantaram-se, “duas horas, duas e meia?”.
— Não importa. Vou para a tua cama vazia, guardada no meu quarto. Dormirei um sono de primavera, sonharei se tiver tempo. Apague a luz quando sair, feche a porta. A chave, você pode jogar pela janela. Me deixa um cigarro. E só me acorde quando setembro passar.
A rua estava deserta. Setembro se escondia no horizonte, na indecifrável cor da claridade desbravando a noite, no quase murmúreo dos pássaros e das abelhas, na angústia do último trago. Paulo jogou o cigarro fora, olhou para a janela, colocou a chave do lado de dentro, fechou o basculante. Sorriu. Setembro era eterno.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/09/2006 - 08:59

Trecho de trabalho acadêmico

Los nombres de los muertos
Wadih Saadeh

Abrió la mano y contó con los dedos
Los nombres de los muertos,
Luego usó los dedos de la otra mano.
Añadió a la lista los colores que le rodeaban,
Las ramas del árbol que estaba frente a su casa,
Las plantas del camino y las hojas del bosque.
Y antes de dormirse,
Añadió su propio nombre.

(….)
A palavra. Penso que lutar com ela não é uma luta vã: a palavra nasce no homem e faz nascê-lo dela. A palavra traz em si a memória de um povo, lembranças atávicas que fingimos não viver no cotidiano. Lutar com palavras não é vão, é involuntário.
Tão involuntário que, sem perceber, a língua dos povos dominantes sacia-se nos termos da dos povos dominados. Essa inversão dominador-dominado desafia a lógica dos fatos: o homem vencido resiste, com a palavra, ao invasor e, em contrapartida, invade seu universo, estabelece raízes tão profundas que os filhos de seus filhos serão irmãos na língua. E a levarão aonde forem. A memória, em um determinado momento, se torna uma só. No Brasil, não somos negros, nem índios, nem europeus. Somos todos tantos, inclassificáveis. No Magreb, árabes falam francês. E guerreiam como um árabe (americano, sul-americano, norte-europeu) que vê sua terra comum — a memória — invadida. Lutam com a plena consciência de que numa guerra todos são irmãos. E estão todos mortos.
O poema de Sadeeh poderia ter sido feito em qualquer língua e ainda assim estaria sempre no mesmo lugar: a pátria árabe.

Trabalho realizado na disciplina Cultura dos Povos de Língua Francesa, ministrada pelo Prof. Lourival Holanda.

Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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