31/07/2006 - 11:16
Engenho do Meio
(Fragmento de um conto de Malthus de Queiroz)
(….) Descobri que a vida é uma ópera cômica, apesar do sangue e das lágrimas, que são as únicas coisas que restam no palco. O sorriso das estrelas nós levamos conosco quando é findo o espetáculo. As rosas que nos atiram, estas despetalam-se e se perdem no vento. E até que tudo isso se torne apenas uma sensação de algo já ocorrido, continuamos nossos papéis, que são nada mais que construir lembranças.
Eu havia de construir muitas lembranças ainda, que se confundiriam com as que já tenho. A estrela também tinha as suas, e no sôfrego desejo de caminhar no céu, nos deixamos pétalas ao vento. Esperávamos a noite, quando o brilho dos olhos é mais intenso, para nos olharmos, sussurrando segredos que não sabíamos existentes até então. Talvez não existissem realmente, e nós os houvemos criado para fechar um pacto de cumplicidade, quando nos perdêssemos no labirinto do jardim, pudéssemos dizer “eu sei algo sobre estrelas e estátuas e sobre a alma humana”, apesar desta nunca saber de si.
E assim passavam as noites, às vezes ao som dos Rolling Stones, outras no escuro da sala, esperando o dia trazer as perguntas e iluminar a rua vazia, na qual sempre a inércia dos muros punha em descrédito as mais soberbas crenças no infinito. Porque o infinito era, para nós, aquilo em que acreditávamos.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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25/07/2006 - 10:34
Fair play
Notícia do futebol chinês que eu escutei no ônibus, indo para o trabalho, há algum tempo.
Decisão de campeonato, a partida está acirrada, os jogadores disputam cada jogada como se fosse a última, e cada minuto parece ser o minuto final.
De repente, uma jogada mais ríspida, outra mais exagerada, e o jogo descamba para a violência. O zagueiro de um dos times é expulso.
Inconformado, ele vai tirar satisfação com o juiz, que está irredutível. Esbraveja, vocifera, e o juiz nada. Até que o beque perde a cabeça, puxa um canivete (!) do calção e parte pra cima do juiz.
A tragédia só não aconteceu porque o árbitro puxou um revólver de dentro das calças o obrigou o jogador a sair de campo.
Ufa! Viva o fair play.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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20/07/2006 - 13:03
Currículo: advogado e pai-de-santo
Hoje eu vi, na internet, um resumo dos episódios do caso Richthofen. Em um deles, o namorado da moça dizia que matou os pais dela porque ouvia a voz do “espírito do nêgo”, uma voz do outro mundo que ordenava a ele fazer aquilo.
Interessante observar que esse não é o primeiro caso de assassinato envolvendo vozes do além: “Matei, mas não fui totalmente eu”. Divisão de culpa?
Envolver esse lado místico a que o povo brasileiro é tão propenso talvez por inocência ou estratégia da defesa (ou, não duvidando, por pura veracidade) parece, sem rodeios, pura charlatanice, algo como tentativa de comoção da opinião pública, apelo à justiça divina e tantas outras coisas.
Não ponho em dúvida a existência de nada. Mas já pensou se a moda permanece: os pais-de-santo terão de aprimorar conhecimentos em advocacia para defender seus clientes. Ou vice-versa.
É a globalização, meu amigo…
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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18/07/2006 - 12:36
Borôca
Seu nome não tinha nenhuma nacionalidade, não vinha de lugar nenhum: Jospel Isoldy Firestein. O que aquele nome queria dizer?
Na escola era um inferno. Nem a professora conseguia falar direito, pensando estar pronunciando errado. “De onde diabos vem esse nome, menino?”
Seus amigos logo lhe arrumaram um apelido: Borôca. Era comum alguém dar notícias do Borôca correndo pela rua, nadando no canal, ouvindo Chico Science no meio da fumaça.
Quando foi preso pela primeira vez, ficou registrado: pai desconhecido. A mãe chorava levando bolo para o filho na cadeia. Na terceira vez, ela já tinha se acostumado: cumprimentava os outros da cela.
Certo dia, sua mãe lhe perguntou:
Jospel, o que você vai fazer quando sair daqui?
Vou cair no mundo, mãe. deixar de ser índio, comprar uma mercearia em Manaus, rezar em latim, negociar em inglês, comer em francês. Mas na hora do amor, eu quero escutar um “benzinho”, “amorzinho”, “fazer chamêgo”, que amor é uma língua estranha né, mãe, precisa dessas coisas bem pronunciadas.
Seu filho poderá se chamar Pedro Pirama, mas o apelido, desse ninguém sabe. Caberá à língua do povo escolher.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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13/07/2006 - 11:45
Possível presidenciável
Os ataques a policiais em São Paulo escancaram uma fragilidade até certo ponto inesperada da polícia brasileira, amarelando o sorriso dos presidenciáveis.
Nunca foi tão apropriada a expressão “crime oganizado”: sem propaganda oficial, o poder às margens chama a atenção pela pragmática dos ataques, demonstrando organização, eficiência e preparo, ao contrário da polícia.
Para Durkhein, o crime é inato às sociedades. Para os seguidores da Escola de Chicago, o crime é produto da grande cidade. E, para a polícia brasileira, perdida nas nomenclaturas da sociologia criminal, o crime é um bando de cabras-de-peia que deve mais é levar porrada na delegacia.
Por isso, não se assustem se algum dia Marcola aparecer no horário eleitoral representando uma organização preparada e inteligente pedindo o seu voto. E não se assute também se ele lhes convencer.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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