27/06/2006 - 11:08
O silêncio dos trinta
Acordei com a impressão de que toda a eternidade tinha apenas trinta anos. O dia estava normal, chuvoso como um dia de inverno. E o espelho tinha a mesma face, talvez uma ruga imaginária a mais.
Vi que minha esposa deixou um café-da-manhã ao lado da mesa. Flores. Uma vela apagada, esperando o fogo que a realimentaria. Os passos são os mesmos, medida precisa entre o quarto e o banheiro, a cozinha e a porta de saída.
Você já vai trabalhar, falou ela, voz lânguida, sonolenta.
Vou, respondo sem surpresa.
Feliz aniversário, abraçou-me.
Obrigado.
Saí. E o silêncio, nudez das palavras desnecessárias, quase graciliano, me acompanha até o trabalho, sublimando a direção dos ventos.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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25/06/2006 - 18:31
Futebol e gramática em campo
Em tempos de Copa do Mundo, ouso fazer um paralelo entre duas coisas aparentemente dissímeis: futebol e gramática.
Começo por um ponto comum. No futebol, há os titulares – supostamente mais importantes – e os reservas – meros figurantes. Na gramática, há os termos essenciais – titulares – e os termos acessórios – reservas.
Pois bem. No último jogo do Brasil, os termos essenciais derem lugar aos acessórios. E não é que o time jogou melhor? Mais solto, mais criativo, mais empolgante. Na língua, acontece fenômeno semelhante: gostar do jogo é diferente de gostar “muito” do jogo. Esse “muito”, advérbio de intensidade, pretensamente reserva, deu outra significação à frase. Pode-se dizer, então, que ele é titular na reserva, acessório indispensável, ou o quê?
Proponho, para o bem da nação futebolística e gramatical, uma revisão dessa história de essencial e acessório, titular e reserva. Assim, teremos mais chances de falar – bem – da seleção.
Autor: Malthus - Categoria(s): Sem categoria
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